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19 de julho de 2024
[341] – Você disse ‘entropia’?
Há físicos que excluem qualquer possibilidade de que desordem possa ser um bom sinônimo para entropia.

Se sim, é muito provável que quisesse se referir a ‘desordem’, não é? Pois saiba que esta velha associação tem sido cada vez menos aceita. Há físicos que excluem qualquer possibilidade de que desordem possa ser um bom sinônimo para entropia.

Forçosa surpresa, pois os resultados de qualquer busca na rede darão muita ênfase à ideia de que a entropia seria o grau de desordem das partículas de qualquer fenômeno físico e – por extensão -, também, do grau de desorganização de qualquer arranjo.

Mais: dizem que o termo entropia seria equivalente a aleatoriedade, casualidade, imprevisibilidade, incerteza, indeterminação e variação. Aprofundando um equívoco com longa história, como mostra – em notável exceção – o vídeo “Entropia não é desordem”, do professor Eudes Fileti, no canal ‘Verve Científica’, do YouTube.

Por sorte, a própria Wikipédia, igualmente, não perdoa, registrando, em nota de rodapé, que, no senso comum, a mais frequente associação entre entropia e desordem – a de bagunça – costuma ser “muito pouco cautelosa” e “bem delicada!” (sic).

Em definição menos tosca, entropia é a grandeza que mede o grau de liberdade molecular, exprimindo uma quantidade de configurações (ou microestados). A rigor, trata-se do número de maneiras em que as partículas (átomos, íons ou moléculas) se distribuem “em níveis energéticos quantizados, incluindo translacionais, vibracionais, rotacionais e eletrônicos”.

Entretanto, por mais rigorosa que seja tal definição, em nada ajuda a entender o que estaria em jogo quando se usa o termo entropia: sua inexorável tendência a aumentar. Está constantemente diminuindo a quantidade de trabalho útil que pode ser obtida da energia do Universo.

Plagiando Isaac Asimov, pode-se obter trabalho se houver alta temperatura aqui e baixa temperatura lá. Quanto menor a diferença entre tais temperaturas, menos trabalho será exequível. A propensão é que áreas quentes esfriem e áreas frias aqueçam, sempre reduzindo a presumível quantidade de trabalho. “Até que, finalmente, quando tudo estiver na mesma temperatura, você não poderá mais obter nenhum trabalho disso, mesmo que toda a energia continue lá. E isto é verdade para TUDO em geral, em todo o Universo”.

A visão dessa ‘morte térmica’ não é das mais animadoras, claro. Mas há quem a considere, ao contrário, nem deprimente, nem tediosa. Bem mais do que assustadora, ela seria até libertadora. Afinal, as estimativas mais aceitas para a idade do Universo são bem superiores a 13 bilhões de anos …

Desta forma, a grande novidade – ainda bem distante da Wikipédia, infelizmente – é sobre pesquisas de fronteira que proclamam a ideia de “entropia criativa”, com base em minuciosas análises de dificílimo entendimento fora da redoma dos próprios físicos.

Mesmo sendo impossível que tais conclusões sejam aqui trocadas em miúdos, pode ser útil sintetizar pílulas instigantes em ordem cronológica. Apenas uma ideia geral que crie curiosidade sobre o que parece existir de mais avançado em pesquisas sobre o enigmático segundo princípio da termodinâmica, definidor da entropia.

As mais básicas são antigas e bastante conhecidas: a evidência científica de que “o vivo é energético” e que também “é entrópico”, por envolver energias mecânica (movimento) e térmica (calor). As duas seguintes, já nada óbvias, só foram bem aceitas há oitenta anos: “o vivo é quântico” e “negativamente entrópico”, ou melhor, “neguentrópico”. Foi na escala das partículas subatômicas que a sobrevivência se revelou dependente de contínua extração de baixa entropia do ambiente.

A terceira dupla foi uma poderosa e complicadora extensão: além de energia, o mundo atômico também é informação. E, sendo quântico, “o vivo é informação”. Então, “o vivo é entrópico, mas no sentido informacional”. No pós-Segunda Guerra Mundial, foram estes os pontos de partida das teorias que deram origem à informática e à sua indústria.

A partir do decênio seguinte, a grande inovação foi a geometria fractal, logo seguida de interpretações pluri ou multiescalares. Movimento que permitiu aos físicos o uso de imagens em seus exercícios sobre entropia. Não demorou para afirmarem que “o vivo é fractal”, que “o vivo é multiescalas”, que “o vivo também é transescalas” e que “o vivo é entrópico de escala”, na acepção de através das escalas.

No fim dos anos 1990, surgiu uma teoria dita ‘construtiva’ – baseada em princípios de minimização na geração de entropia – levando seus pioneiros a concluir que “o vivo é neguentrópico e construtivo”. Finalmente, as pesquisas de fronteira sobre dinâmicas sísmicas e de turbulências sugeriram uma dimensão ainda mais intangível, derivada da descrição de catástrofes e tentativas de prevê-las: “o vivo é log-periódico”.

Se energia e entropia permanecem conceitos difíceis de serem bem dominados, o que dizer dos demais, acima elencados? Razão para efusiva recomendação do livro “L’Entropie Créatrice”, de dois físicos e um paleontólogo-biólogo, com prefácio do pioneiro Didier Sornette (ed. Ellipses, 2023).

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