Se sim, com certeza se referia aos gases causadores do aquecimento global e quis aludir a balanços entre conjuntos de emissões e o inverso: absorções por remoção ou captura, geralmente somadas como “emissões negativas”.
A ambição é que os saldos tendam a zero. São estes balanços que permitem os engajamentos nacionais de “neutralidade carbono” ou “net zero” em meados deste século, baseados em estimativas sobre términos de “emissões líquidas” positivas.
Tais engajamentos dependerão muito do desempenho de suas empresas na venda e compra – em emergentes mercados de carbono -, de “créditos” gerados pelas prevenções ou “emissões negativas”.
Pois bem, é provável que você não saiba, mas – em termos científicos, – tudo é muito mais complicado do que parece. Uma introdução ao imbróglio – intitulada “Não existe net zero” – foi proposta, neste mesmo espaço do Valor, em 30 de julho de 2021.
A novidade é que tão peremptória afirmação acaba de ser corroborada e aprofundada por alerta que até parece sugerir arrependimento, ou autocrítica, de 25 autores da meia dúzia de estudos que, em 2015, alicerçaram o Acordo de Paris, hoje célebres como “The 2009 Net Zero Papers”.
Tudo sob a liderança do professor Myles Allen, da Universidade de Oxford, famoso como “the physicist behind net zero” e principal autor de artigo publicado pela Nature no último 18 de novembro, frisando, já no título, a necessidade de “desagregar” a contabilidade das ditas “emissões negativas”.
A mensagem é que parte do aquecimento global está sendo ajudado por usos ambíguos do slogan “net zero”, que criam falsa impressão de progresso na redução dos gases de efeito estufa na atmosfera. Principalmente por indevida inclusão de três vetores.
Primeiro, reflorestamento e florestação. Embora absorvam CO2, tais procedimentos não deveriam ser contabilizados como “emissões negativas” porque são ações naturais, que ocorreriam independentemente das atividades humanas.
Segundo, a proteção de florestas existentes. Embora seja primordial para manter muitos refúgios de carbono, também não deve ser considerada “emissão negativa”, por não resultar em remoção adicional de CO2.
Terceiro, a dinâmica das águas oceânicas. Sim, os oceanos absorvem CO2 naturalmente, mas tal absorção não deve ser contabilizada como “emissão negativa”, pois é um processo natural que ocorre independentemente das ações humanas.
Em suma, a principal diferença entre o que agora dizem estes cientistas e o entendimento que se tornou tácito desde o Acordo de Paris reside na diferenciação entre remoções que seriam “ativas” e “passivas”. O aquecimento global continuará a ser impulsionado se uma parte das “passivas” continuar a ser aferida como “ativas”.
É claro que os cientistas sabem que tais conclusões causarão sérios problemas para as negociações no âmbito da Convenção do Clima (UNFCCC). Além da dificuldade intrínseca a qualquer revisão de regras, todas as entidades que contam com muitas absorções em suas metas tenderão a repudiar o banimento das “passivas”. Mais: será preciso ter cuidado para não prejudicar outros benefícios da regeneração natural por reflorestamento e florestação, como para a biodiversidade.
Visando a atenuar o transtorno, o artigo da Nature sugere três conjuntos de medidas:
1. O reconhecimento mais amplo nas comunidades científica e política de que o problema existe. Seguido de esforço global para relatar separadamente as absorções “passivas” em inventários de gases de efeito estufa. Similar à especificação separada de poluentes climáticos de curta duração. As discussões já começaram, mas os países deveriam ser encorajados a documentar como absorções “passivas” estão sendo incluídas nas maneiras de definir e monitorar suas NDC (Contribuições Nacionalmente Determinadas).
2. Mercados voluntários podem ir além dos requisitos atuais da Convenção do Clima, excluindo absorções “passivas” dos créditos de remoção para previsões de “net zero”. Se um ecossistema é reivindicado como neutro em carbono, então a terra ocupada deve absorver CO2 na mesma taxa média que o absorveria um ecossistema maduro não gerenciado.
3. O mais importante é reconhecer a impossibilidade, a longo prazo, de se equilibrar “emissões líquidas” positivas de CO2 de origem geológica com absorção de carbono que precisa ser adicional à absorção “passiva”. Por isto, as entidades comprometidas com a meta de temperatura do Acordo de Paris precisariam de um plano para atingirem conjuntamente um “Zero Líquido Geológico global”.
Em suma: para que exista “net zero”, precisa ser “geológico”. Um equilíbrio entre as emissões provenientes de fontes geológicas e a remoção permanente e segura desses gases na crosta terrestre. Para cada tonelada ainda gerada, uma tonelada precisa ser permanentemente armazenada em formações como aquíferos salinos ou reservatórios de petróleo e gás esgotados.
Se os citados cientistas tiverem razão, o Brasil não poderá zerar suas “emissões líquidas” até 2040. Daí a necessidade de que logo venha à luz a argumentação contrária.
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