A trigésima foi mesmo ‘a COP da verdade’ e ‘a melhor COP’. Na qual o descumprido Acordo de Paris deu lugar à evidência de que a maioria dos governos nacionais se recusa a levar a sério os alertas do IPCC. Os outros, cansados de ‘dourar a pílula’, escancararam a desgovernança climática mundial fundada em rodadas anuais de autoengano coletivo.
Foi preciso aguentar mais de três decênios para o reconhecimento de que quatro quintos das emissões de CO2 não começarão a diminuir até que o carvão, o gás e o petróleo deixem de ser tão rentáveis. Sendo que é só para o primeiro que isto poderá acontecer em meados deste século.
Então, para 2100, o acréscimo da temperatura média será de, ao menos, +2,9 graus centígrados, como mostra o World Energy Outlook 2025. Praticamente o dobro da almejada estabilização em torno do atual patamar de +1,5 ºC.
Além de eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos – em meio a exorbitante erosão da biodiversidade, expansão das áreas inabitáveis e subida oceânica –, ainda faltam certezas sobre outras calamidades decorrentes de tão forte puxada do aquecimento global. Mas é preciso torcer para que elas venham a ter muita influência, ao menos sobre a meia dúzia de governos detentores dos antiprêmios concedidos pelo Climate Action Network (CAN).
Enquanto isto não acontece, nada melhor do que tirar lições das experiências bemsucedidas em descarbonizar, até agora restritas à eletricidade.
As inovações tecnológicas que impulsionaram painéis solares, torres eólicas e veículos elétricos resultaram de ações estatais que casaram precificações do carbono a bons incentivos a arriscados novos investimentos. Especialmente no Reino Unido e na Noruega, bem antes da espetacular proeza da China.
Não reduziram a demanda por combustíveis fósseis, contribuindo, mesmo, para aumentá-la um pouco. O que continuará a acontecer até que modos de descarbonizar também alcancem o âmbito da indústria pesada, a começar pelas do aço, cimento e ferro. Isto é: juntar a precificação do carbono ao estímulo a inovações que possam diminuir a demanda industrial por insumos fósseis.
Será algo muito mais difícil e moroso do que parece à primeira vista. E não há melhor evidência do que a longa história da precificação do carbono. Malgrado secular veemência dos economistas de que esta seria a ‘bala de prata’ para descarbonizar, até a primeira década deste século as taxações e alguns incipientes arranjos mercantis corresponderam a 5% das emissões globais. Mas, com os saltos dos últimos quinze anos, chegaram a 28%.
Ainda é irrisória a contribuição dos emergentes mercados de créditos de carbono. O que certamente mudará quando forem superadas as seríssimas deficiências das metodologias de cálculo dos volumes de emissões realmente ‘evitadas’. Por enquanto, é muito difícil que os compradores desses créditos consigam distinguir as lebres dos gatos. Até aqui, apenas 5% dos tais ‘offsets’ foram confiáveis. Quando tal obstáculo for superado, com certeza haverá mais um avanço da precificação do carbono.
Foi para adiar ao máximo esta perspectiva que tão agressivamente agiram os países que se opuseram, na COP30, à adoção do tal ‘mapa do caminho’ para um distanciamento dos combustíveis fósseis. Tanto ou mais que o ausente governo federal dos Estados Unidos.
Mais uma confirmação de que não são em COPs que devem ser depositadas as esperanças por algum tipo de freio à inexorável dinâmica de aquecimento global deste século. E é por isto que talvez possa vir a ser decisivo o gesto da Colômbia, de convocar um grande evento anti-fósseis para o fim de abril em Santa Marta, com imediato auxílio da Holanda e posterior apoio da Austrália.
O plano parece ser a criação de uma ‘plataforma complementar’ à Convenção do Clima (UNFCCC), composta por governos e setores da sociedade civil que analisarão caminhos legais, econômicos e sociais para a eliminação dos combustíveis fósseis. Segundo os proponentes: “discutir mecanismos financeiros, de comércio, desafios macroeconômicos, fim de subsídios aos fósseis, aceleração das energias renováveis, diversificação econômica, entre outros temas”.
Porém, não está claro se o principal objetivo dessa reunião será em favor da ‘Iniciativa de Tratado de Não Proliferação dos Combustíveis Fósseis’. Oficialmente lançada na Semana do Clima de Nova York de 2020, conta com o apoio da Organização Mundial da Saúde, do Parlamento Europeu, de laureados do Prêmio Nobel, acadêmicos, pesquisadores, ativistas e de muitos governos subnacionais e parlamentares. Mas, até aqui, só de ínfimos 17 governos nacionais.
Ironicamente, se for verdade que ‘mais de oitenta’ países apoiaram a proposta de um ‘mapa do caminho’ – e se muitos participarem da reunião de Santa Marta -, este terá sido o melhor resultado das trinta COPs e não apenas da trigésima. O evento poderá começar a abrir caminho à superação da congênita inépcia da Convenção do Clima.
PS: esta coluna tem tudo a ver com meu livro A Desgovernança Mundial da Sustentabilidade, publicado, em 2013, pela Editora 34.
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