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24 de fevereiro de 2024
[334] – Um panorama da economia evolucionária
Livro com 35 artigos é um manual da heterodoxia.

Muitos não duvidam que o pensamento econômico seja científico. Porém, é impossível encontrar alguma outra disciplina com comparáveis incertezas em seu próprio âmago, ou núcleo duro. Desde 1980, surgiram tantas – e tão profundas -, que não permitem, por enquanto, que se vislumbre decisiva e coerente alternativa à incurável ortodoxia, dita ‘neoclássica’.

Todavia, é preciso lembrar que os muitos engodos gerados por tudo o que tem sido taxado de ‘neoclássico’ foram frutos de fortes convergências entre uma dúzia de prodigiosos pensadores, ao longo dos noventa anos que separaram as décadas de 1860 e de 1950. Então, também parece possível se ter esperança de que uma real superação possa sair do forno ainda neste século. O que dependerá bastante da qualidade das sínteses propostas pelos principais projetos heterodoxos.

Neste sentido, devem ser dos mais efusivos os aplausos ao lançamento de um manual que se propõe a apresentar o estado da arte da ‘Economia Evolucionária’. Na primeira parte, 22 artigos abordam o que seriam suas inovações teóricas. Seguidos, na segunda, de outros 13 mais voltados às suas aplicações em políticas econômicas.

Pode parecer, então, que chegariam a 35 as mais relevantes dificuldades envolvidas no choque proposto pela concepção evolucionária contra o vetusto pensamento fissurado no equilíbrio. Felizmente, não é assim. Os quatro exímios organizadores do manual deixam claro que o excessivo número de capítulos não fazer pensar que exista mais do que meia dúzia de questões-chave. O que resulta numa escadinha de seis degraus.

No primeiro, estão os tópicos fundamentais da própria construção da teoria, segundo as propostas dos que seriam os grandes pioneiros. Não apenas Thorstein B. Veblen (1857-1929), Joseph A. Schumpeter (1883-1950), F.A. Hayek (1899- 1992) e Kenneth Boulding (1910-1993), mas, também, a dupla formada por Richard R. Nelson (1930- ) e Sidney G. Winter (1935- ).

No segundo, surgem as bases ontológicas e metodológicas comuns para uma teorização evolucionária da economia, assim como diversas disciplinas consideradas “irmãs”.

O terceiro concentra tudo o que teria a ver com comportamento, estratégias, capacitações e rotinas dos indivíduos e de unidades socialmente organizadas, como as empresas colocadas em ambiente co-evolucionário.

O quarto é dominando pelos temas de macroeconomia evolucionária, que toma a economia como um sistema de conhecimento multinível. Com base nas descobertas da microeconomia e em trabalhos sobre trajetórias evolucionárias, dependência de trajetória e setores industriais, a macroeconomia evolucionária pretenderia construir um edifício teórico que dê base às políticas econômicas.

E é, justamente, o que seria a concepção evolucionária da política econômica que ocupa o penúltimo degrau. Visa integrar diversas áreas e avançar propostas capazes de lidar com problemas atuais, como, por exemplo, os relacionados com a revolução digital ou com a crise ecológica.

Só lá no topo aparecem as questões propriamente pertinentes à Economia Política Evolucionária (EPE), como veículo para lidar com futuros desafios globais e de longo prazo. Ao expandir o âmbito espaço-temporal, a EPE analisaria o elo sistêmico entre o econômico e o político e investigaria a economia global como o locus de geopolítica marcada por conhecimento e espaços globais em mudança.

O principal defeito desta singela escadinha está em quase esconder o que há de mais desafiador: a ponte que precisa ligar a economia evolucionária aos mais recentes avanços das pesquisas sobre a complexidade.

É verdade que tal vínculo não deixa de se insinuar em alguns capítulos. Especialmente nos que enfrentam novos desafios metodológicos por destacarem a assimetria do tempo, em vez do tempo newtoniano convencional. E nos que lidam, tanto com a historicidade de um passado irrevogável, quanto com a de um futuro incerto.

Assim, estão propostas nos capítulos 11 a 13 algumas soluções conceituais e metodológicas de modelagens computacionais evolucionárias. Baseiam-se em agentes e regras, combinando técnicas eletrônicas com reconstrução teórica, assim como formalização de contingência e causalidade.

Há bom realce para a promissora ferramenta que mais vem ajudando em análises de políticas públicas: os chamados ‘Modelos Baseados em Agentes’ (ABM na sigla em inglês). Neles, um agente é um indivíduo ou objeto computacional autônomo com propriedades e ações específicas.

Nestas simulações, emergem padrões como resultados entre agentes com características diversificadas. Ao contrário das modelagens tradicionais em que um equilíbrio final resulta de agentes iguais, com as mesmas características e regras de funcionamento. Além disto, os ABM são mais fáceis de serem entendidos, pois partem de objetos individuais e regras simples de comportamento, em oposição aos modelos equacionais construídos a partir de símbolos matemáticos.

Mesmo assim, este ótimo lançamento da Routledge é bem insuficiente sob o prisma epistêmico, justamente o que deveria ter sido sua principal vocação. Afinal, neste século, a fronteira do conhecimento passou a se situar nos nexos a serem estabelecidos entre evolução e complexidade. Em muitos sentidos, mas especialmente no tocante ao que cientistas e filósofos vêm chamando de “heterogeneidade causal”. Isto é, a variabilidade dos fatores causais no espaço ou no tempo.

Cabe perguntar se tão séria omissão poderá ter resultado de uma daquelas quase inevitáveis barbeiragens editoriais em operações tão complicadas quanto juntar – da melhor forma possível -, três dezenas de irrecusáveis artigos. Única hipótese cabível, pois, com certeza, o quarteto organizador não teria como ignorar contribuições sobre “a ontologia da complexidade”, como as publicadas na revista que, há mais de trinta anos, concentra o pensamento desta corrente, o Journal of Evolutionary Economics.

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.