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20 de abril de 2026
[366] – Quarta asa no estudo da IA
O que esperar da imensa capacidade já adquirida pelas máquinas na simulação de pensamento, autoria e imaginação?

Os efeitos da inteligência artificial (IA) no processo civilizador têm sido discutidos em muitos ensaios de pesquisadores brasileiros. A ponto de ser arriscado tentar identificar as vertentes desse imenso conjunto analítico. Mesmo assim, três não poderiam deixar de merecer destaque em qualquer tipologia.

Em primeiro lugar, é quase certeza que imediatamente apareceriam as repercussões da IA sobre o triângulo ‘linguagem, percepção e criatividade’. A incógnita é o que poderá resultar da crescente capacidade algorítmica para escrever, compor, responder e gerar toda sorte de signos com aparência de sentido humano.

Em vez de jurídica ou econômica, a preocupação básica, neste caso, é essencialmente cultural: o que esperar da imensa capacidade já adquirida pelas máquinas na simulação de pensamento, autoria e imaginação? O que acontecerá com os critérios que ainda resistem para que se distinga criação de repetição ou raciocínio de cálculo estatístico?

As respostas a este primeiro gênero de indagações valorizam principalmente a educação crítica baseada em reflexão ética, assim como inovações que ajudem nas árduas adaptações a um mundo saturado de arbitragens algorítmicas.

Tão próxima quanto uma irmã gêmea, emerge uma perspectiva ainda mais concentrada na ética. Com muito mais ênfase nos limites das decisões automatizadas, discriminações, perdas de autonomia e demais fragilidades do controle humano. Neste segundo padrão, tendem a ser mais frequentes as apostas em princípios, diretrizes e responsabilizações capazes de mitigar danos.

Bem distinta da dupla sugerida acima é a que se mostra mais preocupada com a dependência do desenvolvimento ao crescimento econômico e, portanto, às inovações, principalmente tecnológicas. Sob este prisma, a IA é central para a competitividade e inserção internacional em novo ciclo produtivo que mal parece ter começado.

Ao lado de temores com eventual colapso cultural ou falhas éticas, esta terceira vertente privilegia as políticas públicas, os sistemas nacionais de inovação, a capacitação produtiva e as estratégias institucionais de longo prazo. Aqui, a tecnologia é muito menos ameaça do que condição de sobrevivência em circunstâncias geopolíticas cada vez mais duvidosas.

A pergunta que só pode decorrer deste arriscadíssimo esboço tipológico é se as tensões intrínsecas à tríade apresentada acima impediriam a pretensão de alguma síntese. Ou se, ao contrário, haveria espaço para uma aposta de que as diferenças poderiam ser superadas com a ajuda do que inicialmente se apresenta como outra vertente.

Esta quarta asa resulta de dois deslocamentos analíticos com resultados dos mais promissores: situar melhor a IA como etapa superior da longa “era digital” e direcionar a atenção para o terreno da política, entendendo-a como um novo “poder”.

A grande questão passa a ser a governança: quem define regras, quem controla decisões automatizadas e quem responde pelos efeitos sociais. Trata-se de uma perspectiva mais evolutiva, que, ao juntar os caminhos culturais, éticos e socioeconômicos até aqui predominantes, funde e reorganiza as discussões anteriores.

Partir da pergunta sobre quem exerce poder na era digital – e explorar as suas consequências práticas no cotidiano das sociedades contemporâneas – permite pesquisar como plataformas digitais e sistemas automatizados passaram a assumir funções antes desempenhadas por instituições tradicionais, afetando toda a circulação de informações no espaço público.

A IA generativa ocupa, claro, um papel central nesta pegada analítica, pois é tecnologia capaz de ampliar ganhos de eficiência, produzindo simultaneamente repercussões difíceis de prever, especialmente pela opacidade de seus modelos e pela dificuldade de atribuir responsabilidades.

Desnecessário dizer que o cerne desta quarta visão está no grau de concentração de poder. As big techs controlam infraestruturas fundamentais da esfera digital e influenciam por demais os comportamentos, as escolhas de consumo e o debate público.

Tudo isto gera dilemas regulatórios relevantes, como o equilíbrio entre moderação de conteúdo e liberdade de expressão, além dos riscos associados à desinformação, à radicalização impulsionada por algoritmos e ao uso de deepfakes em contextos eleitorais.

Claro, merecem redobrada atenção os efeitos sociais da automação, particularmente sobre o emprego e as desigualdades. Só que, em vez de soturnas previsões ou promessas de progresso automático, parece bem mais razoável o empenho por políticas públicas e modelos de governança capazes de orientar a inovação tecnológica para a justiça social. Afinal, a tecnologia não determina sozinha os rumos da sociedade. As suas consequências dependem de opções institucionais e políticas.

Caso o leitor tenha interesse em conhecer melhor uma investida de peso nesta quarta via interpretativa, só terá a ganhar se encarar a leitura da recém-lançada terceira façanha de Eduardo Felipe Matias, intitulada A Humanidade e o Poder Digital – Impactos da IA sobre nosso futuro (Senac-SP).

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.