Além de sempre benvindos, só podem ser de leitura recomendada esforços de síntese das ciências naturais, como anuncia o bem mais correto e adequado subtítulo – “Ensaio sobre ciência e vida” – deste novo Além de Darwin, lançado de César Benjamin, editor da Contraponto e doutor honoris causa pela Universidade Bicentenária de Aragua, em Maracay, Venezuela.
Uma das principais qualidades da obra é seu estilo. Algumas ideias das mais contraintuitivas são explicadas com excepcional talento redacional e formidável economia de fórmulas matemáticas.
Bom exemplo está no capítulo 15 – “Forma e Simetria” -, que certamente agradará tanto os mais interessados em ciências, quanto artistas, gestores e curiosos em geral. Explica como o impacto da geometria se espraiou para a física e atingiu a biologia, especialmente no domínio até hoje bastante misterioso da morfogênese.
Porém, é muito difícil dizer o quanto tais virtudes superam os quiproquós que este lançamento, certamente, não deixa de suscitar.
Por exemplo: qual poderia ser o sentido de se classificar a ‘entropia’ como conceito “complementar”? Além de ser um dos dois pulmões das ciências naturais, o segundo princípio da termodinâmica só ganha importância nas mais avançadas pesquisas científicas. Recentes interpretações baseadas em dimensões fractais, quânticas e logperiódicas proclamam, com muita ênfase, que a entropia é altamente criativa.
Outro problema é que qualquer razoável interpretação de Darwin precisa – obrigatoriamente – dar conta da estreita relação entre suas duas principais obras. Não apenas da sempre lembrada “A Origem das Espécies”, de 1859, mas também da bem mais madura e cuidadosa “The Descent of Man”, de 1871.
O mais frequente é que seja desprezado tal vínculo entre a biologia evolutiva e a antropologia darwinianas. O que só prolonga o secular mal-entendido que mais distancia as ciências da vida das ciências humanas: a cisão entre as duas inseparáveis conjecturas de Darwin. É pena, portanto, que mais este livro não fuja a tal regra.
O terceiro problema é que tenha sido completamente desprezada toda a produção nacional sobre o tema. Não há sequer uma autoria brasileira entre as 186 que entraram no índice onomástico.
Nada de grave, se a produção científica local sobre Darwin fosse muito fraca. Porém, bastam dois fatos para que se perceba o inverso.
Um está no riquíssimo site do filósofo brasileiro que mais se dedicou a pesquisas sobre o assunto, o carioca Paulo Abrantes, com longa carreira na Universidade de Brasília: pauloabrantesfilosofia.com.br O segundo está nas contribuições dos sete outros convidados para oito conversas sobre a teoria darwiniana, promovidas, em 2022, pelo IEA/USP.
Sobre Darwin mesmo, no livro de Benjamin não dedica muito mais que umas trinta páginas. Basicamente, o segundo dos nove capítulos da primeira parte, dedicado a concentrada história da biologia, que chega até os impactos causados por sua vertente molecular. Quando os biólogos teriam chegado ao limiar de um precipício experimental bem semelhante ao que os físicos nucleares enfrentaram às vésperas de Hiroshima.
Então, cabe perguntar se o leitor poderá encontrar, no livro, alguma justificativa para uma argumentação que, a rigor, não chega a ir ‘além de Darwin’, por sequer explicálo. A resposta é um tranquilizante sim, mas ela só surge lá nas oito últimas páginas, após outras 258 de suspense. Embora spoiler, é inevitável resumir o que ali está dito.
A redação do livro se deveu a um convite para que o autor discorresse sobre método científico. Como seriam vazias discussões meramente formais sobre método, preferiu optar pela observação do elo entre ciência e vida.
Benjamin assevera – com toda razão -, que, nos últimos 160 anos, as polêmicas sobre a evolução das espécies, predominantes entre biólogos nem chegaram aos seus aspectos mais profundos. Essencialmente, por não atentaram para a estrutura química e os fluxos energéticos em que a matéria está inserida.
A exigência de conservar as características geoquímicas do imenso conjunto chamado ‘natureza’ é o que limitaria as alterações morfológicas. Em outras palavras, seria preciso ir “além” de uma teoria sobre a evolução da vida, pois ela não inclui a evolução do inanimado que, em parte, também está nela contido.
De fato, não há dúvida de que uma das principais fronteiras do conhecimento científico continua a ser a da relação entre entropia e evolução. E, sobre isto, pode-se encontrar, neste livro, informações de qualidade, embora bem desatualizadas. Chega a ser chocante que tenha ignorado todos os esforços já empreendidos por uma nova “Síntese Evolutiva Estendida”: extendedevolutionarysynthesis.com/about-the-ees
De resto, é provável que os interessados saibam da existência de um outro livro com título idêntico: o também “Além de Darwin”, que o jornalista científico Reinaldo José Lopes publicou, pela Editora Globo, em 2009. Vale destacar que, com o biólogo Pirula, Lopes também publicou “Darwin sem frescura”, pela HarperCollins, em 2019. E mantém o blog “Darwin e Deus” – darwinedeus.blogfolha.uol.com.br – desde 2013.
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