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4 de julho de 2025
[356] – O embate entre Trump e os americanos inovadores
Livro mostra que a desigualdade em inovação é politicamente divisiva.

Visitando vários pontos do imenso território dos Estados Unidos, correspondentes da revista britânica The Economist vêm dando muita ênfase à divisão do maior mercado do mundo em dois blocos: o “Maga” e o “Demo”. Recheiam seus artigos com muitos exemplos de radicais oposições entre preferências de consumo dos que simpatizam ou não com Donald Trump.

No entanto, é óbvio que razoáveis estratégias de marketing não terão dificuldade em encontrar maneiras de livrar muitos produtos dessa dupla exclusividade. Gerando um terceiro mercado, que talvez encontre apelido melhor que “magademo” ou “demomaga”, sem deixar de também explorar a fundo as predileções de cada campo.

Então, por mais que sejam importantes, as dimensões subjetivas são secundárias para o entendimento da provável consolidação desses dois ou três mercados. Muito mais interessante é saber se existem – e quais seriam – os alicerces objetivos de tão forte contraste entre os comportamentos de apoiadores e opositores de Trump.

Pois é justamente essa economia política – a de manchas inovadoras rodeadas de densas populações convencionais bem propensas à regressão -, o que mais fica evidente nos mapas das vitórias de Trump em 2016 e 2024.

É verdade que, entre elas, Biden conseguiu capturar algumas franjas, suficientes para sua vitória em 2020. Mas a elas fazendo promessas que acabou não conseguindo cumprir. O que só aprofundou a derrota de Kamala Harris entre os ranhetas eleitores das áreas externas aos focos de inovação.

Não é outra a tese central de Menaldo e Wittstock, em pujante análise de economia territorial ou de geografia econômica, dos Estados Unidos. Ela também se apoia em contribuições de cientistas políticos e historiadores que ajudam a entender e explicar a dimensão mais profunda da imensa bronca dos “Maga” contra os “Demo”.

Além disto, o livro procura mostrar o quanto as políticas trumpistas representam uma grande ameaça aos inovadores americanos e aos lugares que mais derivam benefícios diretos de suas atividades.

Empresas americanas que operam em setores de alta tecnologia – como software, hardware, máquinas, veículos, biotecnologia, aeroespacial, telecomunicações, diagnósticos, produtos químicos e energia verde -, se beneficiam do comércio, dos fluxos internacionais de capital, da transferência vibrante de tecnologia entre fronteiras e de uma propriedade intelectual mais forte globalmente. Esta mesma lógica abrange seus trabalhadores e comunidades.

Em velocidades vertiginosas, muitas empresas americanas conseguiram se especializar com base em vantagens comparativas enraizadas na inovação. Só que muito mais em design do que em manufatura e na exploração de capital intangível. Tudo isso enquanto também montavam as indispensáveis cadeias de suprimentos internacionais.

Como resultado, foi substancialmente reduzida a pegada industrial doméstica gerada por empresas americanas inovadoras. A correspondente divergência dos interesses econômicos, aliada aos aumentos drásticos na desigualdade em inovação desde 1970, faz com que que políticos como Trump capitalizem essa clivagem socioeconômica.

O livro mostra que as razões econômicas pelas quais os eleitores apoiaram Trump em duas eleições presidenciais vão bem além da perda de empregos e renda devido ao comércio com a China, assim como ao aumento da automação e à mobilidade descendente associada.

Em vez disso, elas se devem a algo mais amplo e não necessariamente espacialmente correlacionado com tais fatores: existe hoje uma grande divergência nas preferências de política econômica (e, portanto, no apoio a Trump e ao populismo nos Estados Unidos) entre áreas mais e menos inovadoras.

Independentemente de sua demografia, exposição ao comércio e à robótica, níveis de educação e renda, grau de urbanização e qualquer outra diferença potencial entre eles, os clusters de inovação se opõem a Trump e às suas políticas. Exatamente ao contrário das populações que vivem nas manchas que os rodeiam.

A desigualdade em inovação é uma questão politicamente saliente e divisiva. Não apenas houve relativamente menos desigualdade em inovação no passado recente, mas mesmo quando era bastante alta, ocorreu em uma economia política americana radicalmente diferente.

Foram necessárias várias políticas – como reformas na propriedade intelectual nacional e internacional -, para ajudar a inaugurar o crescimento dos atuais setores econômicos líderes dos EUA, centrados na geração e comercialização de conhecimento e tecnologia (produtos farmacêuticos, biotecnologia, semicondutores, software, eletrônicos pessoais e computadores). E para que as diferenças em inovação realmente tivessem um impacto político, prontas para serem exploradas por um político como Trump.

Tendo este livro como referência, será impossível não se preocupar – e muito – com as democracias em que as dinâmicas de inovações poderão trazer até mais desigualdades territoriais do que as que já se impuseram nos Estados Unidos.

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico EU&, CLIQUE AQUI.