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12 de abril de 2024
[336] – Erudição astrofísica com laivos românticos
Em ‘O despertar do universo consciente’, autor tece especulações sobre o ‘nosso projeto de civilização’.

O livro de Marcelo Gleiser “O despertar do universo consciente: Um manifesto para o futuro da humanidade” só pode ser um dos mais cativantes na categoria ‘divulgação científica’. Porém, está tão embebido de outro propósito, que certamente desagradará os menos afeitos às crenças que dariam vitalidade e significado aos eventos da vida. Isto é: à tal ‘espiritualidade’, neste caso, incitada pelo monje budista vietnamita Thich Nhat Hanh (1926-2022).

O livro é uma clara mescla da pujante e invejável erudição astrofísica e astrobiológica do autor com excessivos laivos de franco pendor romântico. Quase sempre associado a uma ingenuidade típica de rudimentar conhecimento em ciência humanas.

Quem não se irritar com tal liga, provavelmente chegará ao sétimo capítulo. Aí ficará bem surpreso e aprenderá bastante com belíssimas exposições sobre o que teriam sido as quatro eras da história universal: a física, a química, a biológica e a cognitiva. Esta, ainda bem curtinha, pois teria começado há uns quarenta milênios a transição à criatividade artística, exclusividade dos humanos. Só três quartos de um segundo antes da meia noite, caso os 4,5 bilhões de anos da história universal fossem comprimidos em um dia.

Deve-se perguntar, contudo, o que poderia ter inclinado o autor a garantir aos leitores que, doravante, “o universo desperta”, chegando até a batizar seu 12º livro de O Despertar do Universo Consciente.

Qual o sentido de atribuir despertares ao universo? Mais: poderia mesmo ser extrapolado para todo o universo o esplêndido oásis da evolução humana em direção ao discernimento? Não estaríamos, aqui, diante de uma operação das mais animistas?

A boa notícia é que será relativamente fácil separar passagens mais poéticas, do gênero, da sóbria ciência contida nos principais argumentos. Na contramão do conselho contido numa “breve nota ao leitor”, será melhor não pular nada em tão bem-vindas aulas de história da ciência. Desde esclarecimentos sobre a cosmologia de atomistas e estoicos, até o chamado “espectro de absorção”, passando por ótimos esclarecimentos sobre cianobactérias e mitocôndrias ou pelas incríveis lições de Vulcan e de Marte.

Ainda assim, o maior problema é que as deficiências – pouco frequentes no denso miolo científico da obra – são preponderantes em suas duas cascas, a introdutória e a conclusiva. Por exemplo: sem nunca dizer no que consistiria um suposto “nosso projeto de civilização”, tal expressão surge doze vezes, principalmente nas primeiras 21 páginas e nas 13 últimas.

Seguindo a ordem das menções, este “nosso projeto” estaria em “situação crítica”; não seria “distópico ou utópico”; seria “insaciável” ao consumir “o planeta”; só será “viável quando nos identificarmos como membros de uma única tribo”; teria “longevidade” assegurada por “novo imperativo moral”; “sobreviverá” graças a “uma revolução sem soldados, onde a humanidade, como um todo, luta pela mesma causa”.

Continuando, o “nosso projeto de civilização depende das decisões que tomarmos agora”; será preservado se uma “encruzilhada moral” for “confrontada com a maior urgência”; tem sido mantido pelo consumo das “entranhas do planeta, o petróleo, o gás e o carvão”; precisa ser reorientado “em uma direção que garanta o seu futuro” e pode ser assegurado se vier a ser aceita a “proposta” do autor.

Só que o pior nem está em tamanha overdose de especulações sobre o espectral “nosso projeto de civilização”. Está, ainda mais, na desatenção à atualidade do debate sobre “o processo civilizador”, aberto por Norbert Elias (1897-1990), há 85 anos. Que agora leva a nata dos historiadores a apontar a tese de Elias como o principal álibi teórico do pressuposto unívoco de que a história caminhe no sentido do progresso.

Não se trata de saber quem tem razão, se o saudoso Elias ou os contestadores dezessete professores de história das melhores universidades do mundo, liderados por Philip Dwyer e Mark S. Micale. O que interessa é que nenhum dos dois campos aventa a hipótese de que civilizações tenham projetos.

O que poderia ter inclinado o autor a garantir aos leitores que, doravante, ‘o universo desperta’?

De resto, mesmo que se aceite a ideia de que as pouquíssimas civilizações selecionadas em cinco milênios estejam agora se mesclando numa única civilização global – o que já é bem discutível – nada permite pensar que tenha(m) ou venha(m) a ter algum “projeto”.

Tanta falta de conexão do autor com as Humanidades científicas atrapalha demais a sua ambição de passar uma mensagem que é tão correta quanto oportuna: nada pode ser mais importante do que a valorização da vida. Afinal, quem diria, até a própria SBPC anda se referindo a “uma utopia com base científica, para a humanidade e o planeta”, em vez de para a vida e a humanidade.

Aliás, as raríssimas alusões de Gleiser à ideia de utopia indicam que só lhe ocorra seu sentido vulgar, relativo a sonho, quimera ou fantasia. Parece desconhecer que – nas Humanidades -, utopia quer dizer uma visão de futuro na qual alguma coletividade procure embutir suas melhores esperanças.

O livro está tão distante de tal entendimento, que carrega o estranho subtítulo “Um Manifesto para o Futuro da Humanidade”. Se já é quase impossível levar a sério qualquer manifesto assinado por um único indivíduo, será que alguma declaração do gênero poderia mesmo contribuir para que a humanidade venha a melhorar? Nem teria ocorrido a tão louvável cientista a ideia de conversar com seus pares para verificar quantos topariam participar da elaboração de documento tão importante?

Boa resposta a tal pergunta talvez esteja em observação oral do próprio autor, logo no início do prazeroso lançamento de seu livro. Foi no programa Roda Viva, da TV Cultura, no último 11 de março, [que alcançou mais de duzentas mil visualizações só nas duas primeiras semanas de YouTube]. Logo no quinto minuto ele “confessa” ter pensado em imitar o Manifesto Comunista.

Mais uma vez, um deslize resultante de desconhecimento histórico. Pois Marx e Engels nunca tiveram tanta pretensão. Eles foram incumbidos de redigir o manifesto que rebatizou a Liga dos Justos (1836-1847), a maior organização de alemães exilados no oeste europeu. Em vez da anterior inclinação ao idealismo socialista de Babeuf, a nova – e mais internacional – Liga Comunista (1848-1852) deu preferência ao materialismo histórico da dupla revolucionária, apegada à esquerda Jacobina.

É preciso torcer para que, muito em breve, quando Marcelo Gleiser puder se dedicar um pouco às Humanidades científicas, seu talento possa ser bem aproveitado na redação da próxima edição do manifesto da primeira utopia do Antropoceno. Isto é, o documento sobre desenvolvimento sustentável que deverá substituir a atual ‘Agenda 2030’, com seus 17 Objetivos.

Finalmente, uma triste nota de pesar pela ganância que fez a Editora Record amputar o índice remissivo. Além de aconselhável para qualquer obra de não-ficção, é absolutamente indispensável a livros de divulgação científica, como bem testemunha a edição original da HarperOne.

O DESPERTAR DO UNIVERSO CONSCIENTE: Um manifesto para o futuro da humanidade. Marcelo Gleiser, Record, 2024; 250 páginas (R$ 69,90).

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.