Quando o assunto é descarbonização, uma ideia bem frequente – provavelmente até dominante – é de que soluções tecnológicas estariam de vento em popa, em forte contraste com a debilidade da imprescindível coordenação política global.
Parece mesmo ser verdade quando se considera a contribuição da energia solar para a eletricidade. Como ressaltou a Bloomberg, o mundo levou cerca de uma década para atingir o primeiro terawatt de capacidade solar instalada. O segundo terawatt foi acrescentado em menos de três anos, e a marca de três terawatts acaba de ser alcançada em menos de dois anos.
Mas é um equívoco. Os setores elétrico e de veículos leves permanecem exceções. Fora deles, a descarbonização tem se mostrado tanto mais indomável quanto maior a dependência de processos térmicos de alta temperatura e reações químicas emissoras.
É por isto que aço, cimento e concreto, edificações, fertilizantes, transportes pesados e hidrogênio formam, hoje, o que há de mais hostil a uma real transição para o que poderá vir a ser uma economia de baixo carbono. De resto, placas solares e torres eólicas aumentam a demanda por alguns destes materiais.
É mais razoável, portanto, tentar entender as velocidades das soluções tecnológicas fora do âmbito elétrico. Com a preciosa ajuda dos relatórios anuais da Breakthrough Agenda, publicados pela Agência Internacional de Energia (IEA), desde 2022.
O primeiro foi bem otimista. O problema não estaria tanto na falta de tecnologias promissoras, e sim nas dificuldades em levá-las a ganhar escala. Daí a mensagem central ter sido por mais cooperação para acelerar inovações, reduzir custos, criar mercados e assegurar infraestruturas transfronteiriças.
No segundo, de 2023, os destaques foram para o aço, hidrogênio e agricultura, considerados os mais difíceis de descarbonizar. Apenas nos já citados âmbitos elétricos, as soluções tecnológicas estavam avançando mais rápido do que os mecanismos internacionais de coordenação política.
O de 2024 anunciou que alguns outros setores começavam a criar as bases para mercados de tecnologias limpas, mas que ainda faltava demanda suficiente. Por isto, as recomendações se concentraram em financiamento, padrões e normas comuns, infraestrutura, compras governamentais e criação de demanda.
No relatório de 2025, em vez de uma avaliação detalhada, setor por setor, a discussão se voltou para a melhora da metodologia de avaliação, para a definição do significado de “sucesso” e para bons exemplos de cooperação eficaz, além de uma atenção particular ao caso dos fertilizantes. A mensagem central foi que a colaboração internacional precisa ser avaliada por sua capacidade de harmonizar padrões, ampliar demanda, estimular financiamento e criar mercados.
E o relatório mais recente, lançado em junho, trouxe outra mudança importante. O eixo deixou de ser a definição de prioridades, dando lugar a uma análise dos 120 Plans to Accelerate Solutions (PASs).
Esses PASs foram elaborados por ‘grupos de iniciativas internacionais’ (Activation Groups), reunindo governos, empresas, investidores, cidades, organizações da sociedade civil e coalizões já existentes.
Grupos que foram criados para identificar tecnologias prioritárias, políticas habilitadoras e áreas de colaboração ao longo das cadeias de valor e entre setores. Os seus planos, que podem ser temáticos ou setoriais, são apresentados como mecanismos para superar barreiras de execução e acelerá-la até 2028.
Esta primeira avaliação dos PASs indica que os grandes objetivos já estão relativamente definidos, que há centenas de iniciativas internacionais em operação e que o problema agora é transformar coordenação em implementação verificável. Em suma, que o gargalo está na capacidade de execução e entrega.
O exemplo mais ilustrativo é o do cimento. Mesmo usando eficiência energética e combustíveis alternativos, uma parcela importante das emissões do setor vem da própria química da produção. Por isto, as apostas não são tanto em possíveis substitutos, mas, sim, na ‘captura e armazenamento’ de gases de efeito estufa (CCS).
O problema é que a expectativa de resgate no futuro tende a reduzir incentivos para que se corte emissões na fonte, o que tem sido chamado de ‘moral hazard’ da CCS. Pois ela poderá ser ótimo pretexto para prolongar esquemas com maior dependência de combustíveis fósseis, levando empresas e governos a adiarem investimentos inovadores. Ou seja, a CCS competirá com alternativas que evitem futuras emissões.
Mesmo assim, a CCS já virou o xodó dos setores em que a descarbonização será mais difícil, como o aço, produtos químicos e hidrogênio, além do já destacado cimento. O próprio IPCC diz que a neutralidade de carbono na indústria requer CCS para as emissões remanescentes. Em hipóteses de mitigação profunda, vários estudos indicam que só a CCS poderá reduzir os custos de cumprimento de metas climáticas, podendo ser uma opção-chave para setores de difícil abatimento.
Felizmente, uma boa parte da literatura especializada continua a manifestar o desejo de manter a CCS no banco dos reservas, para antes maximizar as reduções de emissões.
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