Sobram evidências de que – desde meados do século passado – têm sido excessivas as pressões humanas sobre ciclos biogeoquímicos vitais, a começar pelos do carbono e do nitrogênio. De todo o dióxido de carbono que as atividades humanas já concentraram na atmosfera, três quartos foram emitidos nos últimos setenta anos.
Também foi neste piscar de olhos temporal, em que viveram as três últimas gerações, o aumento exponencial do uso de plásticos, motores a combustão ou quantidades de nitrogênio sintético. Aliados à erosão da biodiversidade, à acidificação dos oceanos e à escassez de água doce, aí estão os principais saltos intrínsecos àquilo que os melhores historiadores batizaram de “Grande Aceleração”.
Será que tanta rapidez poderá continuar? Até quando? Felizmente, há bons indícios de que quase tudo já tenha entrado em desaceleração, seguindo o exemplo do crescimento populacional.
O problema é que há uma séria exceção, considerada “catastrófica” pelos que esmiuçaram tais dados históricos: a temperatura. E têm sido míseros os resultados do descomunal arranjo de governança global gerado para tentar contê-la: a Convenção do Clima (UNFCCC), de 1992.
Exatamente o inverso do regime para proteger a camada de ozônio, instituído pela Convenção de Viena, em 1985. Nunca será demais repetir que os seus resultados têm sido dos mais benéficos. Foram gradualmente eliminadas cerca de 99% das substâncias responsáveis pela destruição da camada de ozônio.
Mas o regime do ozônio começou pela articulação das principais empresas e nações responsáveis e – só depois – paulatinamente foi atraindo adesões. Em chocante contraste com o regime do clima, que nasceu impotente ao criar mastodôntica gincana anual para duelos entre o Sul e o Norte. Em trinta anos, o que menos entrou nas pautas das 29 COPs foi a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Fracassou até mesmo o Acordo de Paris, de 2015, tido como o marco de um novo patamar de engajamento, via “NDCs” (Contribuições Nacionalmente Determinadas) voltadas a 2030, mas orientadas pelo sonho de zerar supostas “emissões líquidas”.
Os cenários da Agência Internacional de Energia (IEA) visam a derrubada das emissões anuais de CO2 para 21,1 bilhões de toneladas em 2030 e deslumbrantes 12,8 bilhões de toneladas em 2035. Porém, desde a assinatura do Acordo, o que houve foi um pulo de 35,5 para 37,8 bilhões de toneladas.
Então, por mais que seja necessário torcer por um fim da “Grande Aceleração”, iniciada por volta de 1948, o impasse climático – por si só – garante que o conjunto da biosfera continuará, ainda por muito tempo, excessivamente estressado.
Em outras palavras, por enquanto nada permite que se vislumbre alguma saída do Antropoceno, por mais que os geólogos vacilem em formalizar esta nova Época. Muito bem aceita, ao contrário, por quase todas as outras ciências, como procurei mostrar em dois livros: O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (2019) e O Antropoceno e as Humanidades (2023).
Vai agora às livrarias uma análise dos impactos da “Grande Aceleração” na chamada ciência econômica. Intitulado O Antropoceno e o Pensamento Econômico (2025), este terceiro volume vasculha as primeiras observações feitas sobre a originalidade histórica da segunda metade do século passado e as relaciona aos mais recentes debates sobre as condições de vida das gerações futuras.
Consequentemente, o tema central não poderia deixar de ser a estreita relação entre o crescimento econômico e o que veio a ser chamado de “desenvolvimento sustentável”, principalmente a partir da Rio-92. Numa dinâmica que engendrou a primeira utopia da nova Época, no bojo da legitimação da sustentabilidade como um novo valor.
A mensagem do livro é sobre a importância do verbo que melhor traduz e simboliza o desafio econômico deste início de Antropoceno: “desacoplar”. Exprime a ambição de que a melhoria do bem-estar humano venha a se soltar do extrativismo de recursos naturais. De que a busca por prosperidade não proíba o advento de sociedades mais justas em saudável biosfera.
Claro, por um bom tempo serão poucos os desacoplamentos absolutos, em que a pressão ambiental resultante do uso de algum recurso natural diminui, enquanto a atividade econômica continua a crescer. Mas já deixaram de ser sonhos alguns desacoplamentos relativos, em que tal pressão cresce em ritmo mais lento que a economia.
Mesmo assim, os impactos dos usos de materiais continuam a aumentar a taxas bem superiores às do Índice de Desenvolvimento Humano ajustado à desigualdade. São impulsionados, principalmente, pela construção civil e transportes, seguidos por alimentação e energia. Estes quatro fatores respondem por cerca de 90% da demanda global de materiais.
Permitir que as futuras gerações possam desfrutar de qualidade de vida ao menos comparável à de hoje é o mais severo dos dilemas morais. Uma ambição irrealizável se não for possível superar muitas das adversidades trazidas por oitenta anos de inédita prosperidade. Pois obtida por crescimento econômico tão acelerado quanto cego.
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