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24 de maio de 2024
[339] – Da criatividade à inovação
Ainda inseguros sobre diferenças da criatividade on-line e off-line, pesquisadores já se defrontam com a necessidade de avaliar as metamorfoses trazidas pela IA.

Apesar de seu incomensurável alcance, a criatividade – como objeto de pesquisa – tem obtido muito menos incentivos públicos do que mereceria. Mesmo assim, é possível distinguir três nítidos avanços, desde as pioneiras incursões dos anos 1950.

Tudo começou com a ideia de investigar a personalidade de indivíduos extraordinariamente criativos. Em seguida, já nos anos 1970-1980, a atenção migrou para o estudo das dinâmicas mentais mais características do comportamento criativo. Desde então, os pesquisadores passaram a se dedicar, cada vez mais, à criatividade coletiva.

Ao contrário do ocorrido nas duas primeiras fases, quando tudo cabia no âmbito disciplinar – da psicologia, em geral, à psicologia cognitiva -, o caráter sociocultural da terceira exigiu ampla interdisciplinaridade, com predomínio de humanidades científicas, como antropologia, história e sociologia.

Disso tudo, decorreram as duas mais aceitas definições de criatividade. Para a versão mais individualista, nada além da expressão de uma nova combinação mental. Já para a visão sociocultural, não basta que haja algo novo. Também é preciso que seja considerado útil e valioso por expressivo grupo social.

Só a segunda definição se aplica à ideia de inovação, cada vez mais valorizada. Mesmo que a maioria dos estudiosos de negócios esteja tentando restringi-la à execução bemsucedida de uma novidade, ela é parte essencial das pesquisas sobre a criatividade sociocultural.

Além disto, a dicotomia individual/coletiva se dissipa ou é superada em classificações de uns cinco tipos de criatividade: a expressiva, a produtiva, a inventiva, a inovadora e a emergente. Ou, mesmo, mediante uma espécie de filtro, apelidado de “os quatro Ps”: produtos, pessoas, processos e pressões.

Desde dúvidas sobre o potencial de intervenções lúdicas em ambiente escolar, até promissoras pesquisas científicas colaborativas, há uma lista de quinze desafiantes interrogações para a continuidade das investigações sobre o assunto.

Um bom exemplo é o do raciocínio analógico associado a inúmeros avanços criativos. Os pesquisadores confessam não entender patavina dessas “manipulações criativas de analogias”. Pior: ainda inseguros sobre as diferenças entre a criatividade off-line e online, esses mesmos pesquisadores já se defrontam com a necessidade de avaliar as metamorfoses trazidas pela inteligência artificial.

Assim como a linguagem, as ferramentas tecnológicas predispõem a que sejam favorecidas e valorizadas certas perspectivas e realizações. Com o acúmulo de informação e conhecimento – sendo armazenados e facilmente encontrados on-line -, a resolução de problemas e a criatividade podem ser ainda mais críticas.

As grandes perguntas são semelhantes para todas as tecnologias. Quais características ou qualidades são inerentes a uma ferramenta para influenciar o que se faz com ela? Como uma ferramenta permite enxergar o mundo? O que se poderia fazer com isso que não se poderia de outra forma? O que isto significa para a criatividade humana?

Também há questões ainda bem carentes de mais estudos empíricos. Por exemplo, a escrita colaborativa – como a “fanfiction” – ou o teatro improvisado. Daí a importância de dois lançamentos recentes, que expõem as muitas tentativas de enfrentar tais perguntas ou lacunas. Ambos de parcerias de notáveis veteranos da área, com jovens professoras universitárias.

Pela Oxford University Press, R. Keith Sawyer (keithsawyer.com) e Danah Henriksen, da Universidade Estadual do Arizona, propõem uma terceira versão, bem didática, do best seller Explaining Criativity – The Science of Human Innovation, desta vez com 593 páginas.

Para a Palgrave-MacMillan, Robert J. Sternberg (robertjsternberg.com) e Sareh Karami, da Universidade Estadual do Mississipi, montaram uma rica coletânea, com vinte artigos inéditos, de mais trinta de seus colegas, em Transformational Creativity – Learning for a better future, 407 páginas.

Estas duas avaliações do estado da arte em criatividade sugerem que as pesquisas vindouras continuarão muito influenciadas por controvérsias nascidas em alguma das grandes etapas precedentes. A mais importante talvez seja a que opõe defensores e críticos da hipótese de uma dinâmica histórica marcada pela retenção seletiva de novidades geradas por variações aleatórias.

Tal hipótese tem sido taxada de darwiniana e identificada – desde 1960 -, pelo acrônimo BVSR, referente a “blind-variation and selective-retention” (variação-cega e retenção-seletiva). O que só poderia ter provocado mal-entendidos, tanto por reduzir a célebre tríade da conjectura de Darwin a mera dicotomia, quanto por confundir aleatoriedade com cegueira.

Mesmo assim, não parece haver contribuições mais instigantes sobre o laço entre criatividade e inovação do que as do psicólogo Dean Simonton, professor emérito da Universidade da Califórnia-Davis. Além de ser um dos autores da citada coletânea, acaba de discutor o status epistêmico da “BVSR” no Creativity Research Journal (2023, v. 35, nº 3, p. 304-323).

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.