Será correto promover livro que contenha dois graves deslizes? Resposta rigorosa tenderia a ser negativa, mas pode haver exceções. Por exemplo, quando o conhecimento empírico condensado é tão relevante que veta qualquer privilégio a controvérsias teóricas ou avaliações divergentes.
É este o caso de Despite It All, de Fred Pearce, lançado em fevereiro pela editora Granta. Tão rica e fundamentada descrição do que tem sido chamado de ‘transição’ ou ‘transformação’ ecológica não pode ser ofuscada por dois perdoáveis quiproquós.
O primeiro, teórico, é seu desleixado recurso a Kuznets. Poucos dos premiados com um Nobel de economia, o mereceram tanto quanto Simon Kuznets (1901-1985), em 1971. Principalmente, pelo avanço empírico que propiciou à disciplina, decorrente de suas contribuições à história econômica quantitativa. Porém, também esteve na origem de quebra-pau sobre a relação da renda com o crescimento econômico.
Em 1955, ele achou que a desigualdade de renda obedeceria a uma curva em forma de sino ou de ‘U invertido’. Depois de um topo de concentração, sempre seguiria a tendência inversa. Mas Kuznets não deixou de alertar, no mesmo artigo, que se tratava de uma hipótese, baseada em 5% de informação empírica e 95% de especulação.
Com a crescente obtenção de novos dados, inúmeros testes geraram forte controvérsia, decorrente das fartas restrições trocadas entre os que encontravam confirmação e os que concluíam pela inexistência desta cada vez mais célebre ‘curva de Kuznets’. Contexto em que também surgiu, em 1991, sua variante ambiental. Segundo a qual, a poluição primeiro aumenta, para só começar a cair na medida em que o país, ou região, se tornem ricos.
Um excelente jornalista, como Fred Pearce, não deveria sugerir que a ‘curva de Kuznets ambiental’ se aproxime de indiscutível evidência. Uma simples busca Google logo aponta muitos resultados opostos de pesquisas relatadas em revistas científicas.
O deslize ocorre, portanto, quando o autor procura realçar os sinais de que as economias das sociedades mais avançadas já estejam em desmaterialização. Sem considerar que elas podem estar exportando às menos avançadas os procedimentos mais resistentes à redução de uso de recursos físicos.
Mesmo assim, a tentativa de mostrar que já estaríamos nos aproximando do teto do consumo (“peack stuff”) é recheada de tantos bons exemplos factuais, que não deve ser cancelada pelo erro de não reconhecer que tal curva é uma hipótese teórica das mais controversas. Ajuda muito a entender por que, globalmente, o consumo só triplicou, desde 1970, enquanto a economia quase quintuplicava.
O outro fora do livro é transmitir excessiva confiança sobre a evolução das soluções técnicas que vêm surgindo para combater o aquecimento global. Fred Pearce também exagera na exclusividade do que está ocorrendo no âmbito elétrico, sem dar quase nenhuma atenção às imensas dificuldades das indústrias pesadas e dos transportes marítimos e aéreos – assunto da coluna anterior, ‘Entre ilusão e xodó’, na página A19 do Valor de 28 de agosto. O otimismo é pertinente, mas ainda falta muito para se poder dizer que a crise climática deixou de constituir um desafio técnico. Basta lembrar, por exemplo, que metanol verde ainda é promessa para a próxima década.
Por que, então, é altamente recomendável a leitura de um livro que contém os dois problemas destacados acima?
Porque ainda não havia surgido exposição comparável sobre o alicerce da esperança de que o Antropoceno venha a ser melhor do que se pensa, reforçando a suposição de que nossa espécie ainda possa, sim, ter muitos milhões de anos pela frente. Um alicerce que resulta da combinação de dois supertrunfos: o da inovação humana e o da capacidade do restante da natureza de se recuperar, se adaptar e se restaurar.
Foram sete as razões que convenceram Pearce de que o colapso ecológico não é um destino inevitável. A regeneração de inúmeros ecossistemas, fenômeno de difícil percepção baseada no noticiário. O resgate de técnicas agrícolas tradicionais, que estavam esquecidas ou banidas. Os projetos de restauração ecológica e ‘rewilding’, que vêm demonstrando grande eficácia na recuperação de biomas. As promissoras soluções tecnológicas limpas. A desaceleração na demanda física por bens materiais que apontam caminhos de reequilíbrio. A indiscutível estabilização demográfica global. E muitos exemplos de ação comunitária radical, baseada em iniciativas locais, que superam a lentidão das promessas governamentais, mostrando que as saídas dependem muito mais do apoio a tal capacidade regenerativa.
A sua principal mensagem é que não há pior inimigo que o pessimismo paralisante. A ser combatido por ação urgente, baseada nos fatos que colecionou em visitas a 79 países, ao longo dos quarenta anos de jornalismo dedicado ao meio ambiente. Sem deixar de lembrar que, aos 38 anos, também foi autor do primeiro livro sobre os trabalhos do IPCC: Turning Up the Heat (1989). Três anos antes do best-seller de Al Gore: Earth in the balance (1992).
Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.
