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22 de março de 2024
[335] – Antroponévoa
Saída irônica à rejeição do Antropoceno poderia ser sua simples troca por algum neologismo similar ao que dá título a este texto.

Mesmo que a legenda “A Grande Aceleração” não seja usada, qualquer razoável historiador admite que o êxito material vem passando por inigualável turbinagem nos últimos setenta e poucos anos. A grande dúvida é sobre a longevidade de tanta rapidez. Se evitado um inverno nuclear, em algum momento a prosperidade precisará até se livrar do crescimento econômico, depois de o ter vagarosamente esverdeado.

É justamente este caráter passageiro da contemporânea disparada o que mais distingue a visão das Humanidades daquilo que seria o limiar de um período posterior ao longuíssimo Holoceno. Uma nova Época, a ser chamada de Antropoceno, caso formalmente aceita, pelas geociências, a proposta do prêmio Nobel de química Paul Crutzen (1933-2021). A sua duração poderia ser milenar, contra a ideia de considerálo só um “evento”, como querem alguns.

Vale lembrar que uma nova Época – definida por frenética agressão dos humanos ao restante da natureza -, já havia sido proposta, com outras denominações, muito antes do frisson, provocado por Crutzen, em fevereiro de 2000, numa conferência do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP) realizada no município mexicano de Cuernavaca.

Relatórios globais só confirmam a gravidade da degradação do meio ambiente global. Dois deles acabam de ser lançados: o ‘Global Resources Outlook’ deste ano, intitulado “Bend the trend – Pathways to a liveable planet as resource use spikes’ e o “State of the science on plastic chemicals”, do projeto norueguês PlastChem.

Mesmo assim, precisam ser dos mais meticulosos os cuidados das instâncias da União Internacional das Ciências Geológicas (IUGS) envolvidas em avaliações das evidências estratigráficas que poderiam embasar um encerramento oficial do Holoceno. Ainda mais que a sugestão do químico holandês suscitara as mais díspares estimativas dos impactos das atividades humanas sobre o conjunto dos ambientes naturais da Terra.

Foi somente no finzinho de 2009 – sete anos depois do lançamento da proposta de Crutzen nas páginas da revista Nature -, que a IUGS criou o agora célebre “AWG”, ou ‘Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno’, na Subcomissão do Quaternário (SQS), parte de sua mais antiga estrutura, a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS).

No AWG, foi se formando, aos poucos, um outro consenso sobre quais seriam os sinais de início do Antropoceno. Em vez do surgimento de crescentes concentrações de dióxido de carbono e metano, desde fins do século 18, como cogitara Crutzen, o grupo se voltou ao começo da “Grande Aceleração”, já tão estudada pelos historiadores ambientais. Passou, então, a procurar por testemunhos da radioatividade deixada pelas primeiras detonações de armas nucleares.

Em julho de 2023, teve ampla repercussão midiática a identificação do que seriam os melhores indicadores do início da nova Época, no Lago Crawford, da província canadense de Ontário. Essencialmente, amostras de sedimentos coletados a 24 metros de profundidade, referentes a 1950, com resquícios do elemento radioativo plutônio.

A partir daí, pareceu a muitos observadores desta lenta evolução institucional que as conclusões do AWG estariam maduras para finalmente serem aceitas no 37º Congresso da IUGS, programado para a última semana do próximo mês de agosto, em Busan, na Coréia do Sul.

Daí a forte reversão de expectativa imposta, há duas semanas, por “furo” do New York Times sobre rejeição de tais conclusões na Subcomissão (SQS). Por 12 a 4 e 2 abstenções! Mais: com simultâneas alegações de que pode ter havido “irregularidades processuais”, o que até motivou especulações sobre possível “fraude”.

Em vez disto, a inesperada decisão só veio a confirmar a importância de um dissenso absolutamente normal em seu contexto científico.

Continuam a ser ínfimos os impactos das atividades humanas na Geosfera. No máximo, algumas cócegas em sua camada superior, a Litosfera. Então, quanto mais um geólogo for apegado à sua tradição disciplinar, menos verá – em sedimentos como os do Lago Crawford -, razões para se instituir o fim do Holoceno.

Os seus colegas que mais se empenharam pela tese oposta, ao longo dos últimos quinze anos, são os que já haviam adotado perspectiva transdisciplinar, intensamente direcionada às conexões com a Atmosfera, Biosfera, Criosfera e Hidrosfera. São pesquisadores voltados aos estudos sobre o complexo Terra.

Em outras palavras, a propalada “morte” do Antropoceno – conforme o título de artigo do repórter Paul Voosen na revista Science -, tem por causa a tensão entre o cânone da Geologia e a adesão de boa parte de seus pesquisadores à chamada ‘Ciência do Sistema Terra’, de legitimação ainda incipiente.

Tudo indica, portanto, que terá longuíssima vida o estresse motivado pela rejeição do Antropoceno. Assim como a certeza de que a noção permanecerá muito demandada e indevidamente usada pelas Humanidades, pois o uso do sufixo “ceno” pertence à escala geológica do tempo. Uma saída irônica poderia ser a sua simples troca por algum neologismo similar ao que dá título a este texto.

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