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30 de janeiro de 2026
[363] – A quina de sir Stern
Por crescimento econômico, entendem-se aumentos do produto, algo que todas as nações podem medir – há 72 anos – usando o PIB e o PNB. Já o desenvolvimento se refere ao bem-estar e vem sendo estimado – pelo IDH – há 35 anos. Período em que as duas noções deixaram de ser usadas como se fossem sinônimas.

Só pode ser uma curiosíssima surpresa, portanto, que alguém resolva, agora, remar contra tão poderosa maré. Ainda mais uma sumidade como sir Nicholas Stern em seu recentíssimo livro The Growth Story of the 21st Century (LSE Press, 558 p). Título de difícil tradução, diga-se de passagem, pois, no contexto, o termo “story” sugere mais algo entre ‘enredo’, ‘roteiro’ ou ‘narrativa’.

Stern pretende persuadir tomadores de decisão, especialmente os políticos. Então, até pode ter sido um bom truque ressuscitar a trapalhada entre crescimento e desenvolvimento. Supondo-se que ajude a passar a mensagem central, altamente normativa: nada melhor do que descarbonizar.

Em vez de pesada obrigação onerosa, não haveria estratégia mais diligente e lucrativa para o século XXI do que a ação climática. Ele se mostra convicto de que o crescimento só será favorecido pela transição a uma economia verde, principalmente graças a investimentos em tecnologias e infraestruturas de baixo carbono. Mais do que nunca, governos, empresas e sociedade tenderiam a, juntos, realizar tal “story”.

Claro, também não deixa de reconhecer que a tarefa não será fácil – longe disso. Em suas palavras, a ambição de enfrentar as crises do clima e da biodiversidade é algo de inédita magnitude e urgência. Haverá muitos contratempos e retrocessos impostos pelas forças opositoras. Mesmo assim, alicerça seu extraordinário otimismo em cinco promessas, que precisariam ser aceleradas: poupanças mundiais, mudança tecnológica, acordos internacionais, mobilização dos jovens e o setor privado.

Primeiro, seria inevitável que políticas públicas viessem a incentivar um aumento das poupanças mundiais que fosse correspondente ao imprescindível forte aumento do investimento. Segundo, em todos os setores econômicos, o que ganharia tração, na próxima década, seriam as mudanças tecnológicas e as inovações que já limparam um terço das emissões de carbono. Terceiro, ações internacionais coordenadas tenderiam a seguir os exemplos do Acordo de Paris e dos ODS da Agenda 2030. Quarto, a juventude já estaria bem engajada em ações voltadas à sustentabilidade, ao clima e à biodiversidade. Quinto, cada vez mais empresas privadas reconheceriam as oportunidades de investimentos adequadas ao roteiro do futuro crescimento.

É admirável que estas cinco expectativas tenham sido apresentadas, com tanta firmeza, em novembro de 2025, quando já estavam bem evidentes as consequências do retrocesso imposto pela volta de Donald Trump. Será que apostar em tal quina serviria mesmo para conquistar tomadores de decisão?

Mais estranho ainda é que Stern não se cansa de enfatizar que o livro também é dirigido aos estudantes, principalmente de economia. Daí a gratuidade do acesso on-line e a excessiva repetição de ideias expostas em seus livros anteriores.

O problema é que os estudantes precisam de algo bem mais analítico do que normativo. Um exemplo que talvez resuma o tamanho da encrenca surge logo na quarta página do prefácio: “Por crescimento, me refiro ao crescimento e desenvolvimento em todas as dimensões do bem-estar”. Uma escolha suficiente para desestimular professores de economia a recomendar tal livro a seus alunos.

Isto não significa, contudo, que possa ser considerada leitura descartável. Pois ideias muito importantes – propostas por uma das principais autoridades da economia do clima – ocupam ao menos quatrocentas de suas 558 páginas. E todas se articulam em tentativa de convencer os leitores que descarbonizar só poderá ajudar o crescimento econômico. Esta seria a principal lição a ser tirada da experiência dos dois últimos decênios, desde o lançamento da célebre Stern Review (2006). Um período em que o limpo já teria se tornado bem mais barato que o sujo.

Nem é preciso dizer que se trata de indevida extrapolação para o conjunto da economia daquilo que, por enquanto, permanece restrito ao âmbito da energia elétrica. Segundo cálculos do Pnuma, o sujo vence o limpo por 30 a 1. E também nunca será demais lembrar que será insuficiente baratear energias alternativas às fósseis. Será necessário que os usos de petróleo, gás e carvão deixem de ser tão rentáveis.

Stern certamente admite que sua “story” exigirá que muitas outras inovações tecnológicas comparáveis às energias solar e eólica passem a ser aproveitadas pelos investidores. Será indispensável, então, que já tenham sido encontrados os seus equivalentes para a produção de aço, alumínio e plásticos, por exemplo.

Nada disto parece estar próximo e também não é possível prever quando tais inovações poderiam ser impulsionadas pelo emprego de Inteligência Artificial. Então, por mais que seja bem-vinda a otimista novela de sir Nicholas Stern sobre o século 21, o seu conteúdo deixa muito a desejar.