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22 de dezembro de 2023
[330] – O que é o ‘rewilding’, que prevê a volta de animais ‘ferozes’ no combate ao aquecimento global
Livro ilustrado documenta a regeneração da vida animal originária

Com capa dura, tamanho maxi, oitenta lindas fotos e dez ilustrações bem elucidativas, este pode ser um dos mais supimpas presentes de fim de ano. Dará um toque requintado à decoração da sala de todo felizardo que ganhar um exemplar deste “livro de mesa de centro” (coffee table book).

Porém, será triste se a obra só ficar conhecida por sua exuberância estética. É preciso torcer para que ela também crie muita curiosidade pelo significado e implicações da palavra-chave “rewilding”, forte candidata a ter formidável peso ao longo do Antropoceno.

Os dicionários sugerem que tal vocábulo seja traduzido por “renaturalização”. Contudo, além de esquisito, tamanho palavrão – de sete sílabas! -, trai o conteúdo do original em inglês. São necessárias, no mínimo, três palavras para que não se fuja demais de seu real sentido: regeneração da vida pristina.

Tornar outra vez natural algo que tenha sido artificializado por ação humana, nem de longe significa buscar a recomposição integral de um ecossistema, a condição essencial da restauração pretendida pelo “rewilding”. E um dos mais determinantes vetores desta ambição é a fauna, particularmente os animais “ferozes, bravios e cruéis”, chamados de feras.

Claro, no conjunto dos atuais embates contra a erosão da biodiversidade, tão radical “refaunação” ainda permanecerá, por um bom tempo, método específico e marginal. Mesmo que possa estar entre os mais eficientes no combate à pior de todas as “mega-ameaças”.

Como Mega-Ameaças é o título de simultâneo lançamento, pela editora Planeta, da mais recente pérola do badalado economista Nouriel Roubini, impõe-se curta digressão, antes de se voltar ao veio mais científico.

A rigor, a humanidade está diante de apenas duas ameaças que justificariam o emprego do prefixo “mega”. No curto prazo, a possibilidade do chamado “inverno nuclear”, tragédia que, por muita sorte, foi evitada nas últimas quase oito décadas. No médio, a ruína mais dilatada da biosfera, imposta pelo aquecimento global.

Então, se Roubini estivesse certo ao relegar o choque climático à décima posição em sua lista das mais “perigosas tendências que ameaçam nosso futuro”, o “rewilding” deveria ser considerado um supérfluo passatempo ou mera perfumaria. Só que este é um ótimo exemplo da cegueira provocada pelos antolhos do pensamento econômico considerado normal.

Mesmo que curtíssimo, o décimo capítulo – intitulado “Um Planeta Inabitável?” -, é suficiente para escancarar a inconsistência da obra, pois admite que solos arderão, desertos se alastrarão, comunidades serão incineradas, furacões aumentarão em frequência e intensidade, tornados chegarão a todas as localidades, migrações atingirão escala monumental e a riqueza há de se evaporar.

Então, o que mais interessa é fazer tudo o que for possível em favor da chamada “mitigação”, mediante intervenções que, paulatinamente, reduzam os impactos ambientais nocivos da atividade humana. Hoje, principalmente buscar a superação da matriz energética fóssil, responsável pelo grosso das emissões de gases de efeito estufa.

O problema é que, sozinho, o esforço de descarbonizar as atividades humanas não bastará, por mais hercúleo que venha a ser. Também são conhecidas, há muito, algumas das funções estratégicas que plantas, solos e sedimentos desempenham na captura e armazenamento de carbono.

O que vai além só foi demonstrado, há poucos meses, no volume 13 da revista Nature Climate Change. Liderados pelo professor de ecologia da universidade de Yale, Oswald J. Schmitz, quinze cientistas ambientais, de oito países, mostraram o quanto tem sido subestimada a contribuição das feras para o ciclo do carbono.

“Apelamos a um novo pensamento que inclua a restauração e conservação dos animais selvagens e do seu papel nos ecossistemas, como componente crucial das soluções naturais que podem aumentar a capacidade de prevenir o aquecimento climático”.

A inclusão das feras nas tentativas de enfrentar o aquecimento global poderia encurtar o tempo necessário para que o equivalente a quinhentas gigatoneladas de dióxido de carbono venham a ser retiradas da atmosfera. Ignorá-las significará oportunidades perdidas de aumentar o escopo, a extensão espacial e a variedade de ecossistemas envolvidos.

As contribuições das feras resultam principalmente do forrageamento e dos movimentos que redistribuem sementes e nutrientes pelas paisagens, terrestres ou marinhas. Mas também por pisoteio, escavação e chafurdamento.

Estas várias funções aumentam a diversidade, a abundância e a densidade de carbono das comunidades vegetais, alterando os regimes de fogo, de forma a evitar a liberação massiva de metano.

Ao mesmo tempo, protegem contra o degelo do permafrost, aumentam os estoques de carbono do solo e dos sedimentos de matéria orgânica (fecal, carcaça e vegetação) e melhoram a retenção de carbono no solo e nos sedimentos, influenciando a ação microbiana e as reações químicas.

Desta ampla gama de alterações promovidas por animais selvagens, destaca-se a capital dispersão de sementes. O que mostra a insuficiência dos modos de restauração ecológica que os discriminam. Sua presença ou ausência altera demais a dinâmica de absorção e armazenamento de carbono. Não há dúvida, portanto, de que aí está o elo perdido entre clima e biodiversidade.

Isto não é novidade, mesmo que uma razoável quantificação só tenha sido publicada no referido artigo puxado por Schmitz. Afinal, o movimento em favor do “rewilding” surgiu há trinta anos, mais entre ativistas da conservação do que entre acadêmicos.

Só que foi das mais determinantes a contribuição de alguns ecólogos dos EUA – entre os quais se destacaram o saudoso Michael Soulé e o septuagenário Reed Noss -, para que se chegasse à uma definição do então estranho neologismo.

Foram eles que propuseram as duas diretrizes seguidas no extraordinário trabalho conduzido pela ‘Fundação Rewilding Argentina’: conseguir ecossistemas sustentáveis com a mínima necessidade possível de intervenção humana e foco nos predadores de topo.

No Brasil, o trabalho que acabou dando origem a este livro começou quando a ONG “Onçafari” (oncafari.org) foi procurada pela fundação argentina. Por incrível que possa parecer, seus profissionais nunca haviam visto dar certo alguma devolução de onças ao restante da natureza.

Por lá, esforços haviam começado, ainda nos anos 1990, nos “Esteros del Iberá”, os estuários que têm o nome guarani ý berá, “água brilhante”. Uma mistura de pântanos, lagos, lamaçais e cursos, na província de Corrientes, que forma o segundo maior complexo de zonas úmidas do mundo, só depois do nosso Pantanal.

Mais do que isto seria puro spoiler. Mas não é possível deixar de registrar que, no Brasil, a principal referência sobre o assunto é Fernando Fernandez, professor do departamento de ecologia da UFRJ e tradutor de um livro que – repisando – merece bem mais do que só admiração por sua beleza plástica.

Rewilding na Argentina
Sebastián di Martino, Sofia Heinonen e Emiliano Donadio.Trad.: Fernando A.S. Fernandez – Documenta Pantanal 280 págs., R$ 250,00

Para acessar o artigo no site do Valor Econômico, CLIQUE AQUI.