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Desenvolvimento sustentável
José Eli da Veiga
Prefácio
Na segunda metade do século passado,
impulsionado pelos processos de descolonização e de emancipação do
Terceiro Mundo e pela emergência do sistema das Nações Unidas, o
desenvolvimento, um avatar do progresso iluminista, firmou-se como uma
das idées-force das ciências sociais, configurando uma problemática
ampla de caráter pluri e transdisciplinar, atravessada por polêmicas
vivas de caráter ideológico e teórico.
Idéia, visão, conceito, utopia ? Não creio que devamos nos envolver
neste debate semântico. O que importa é deixar bem claro que o
desenvolvimento não se confunde com crescimento econômico, que constitui
apenas a sua condição necessária porém não suficiente. Como bem disse
Celso Furtado num dos seus derradeiros pronunciamentos, « só haverá
verdadeiro desenvolvimento, que não se deve confundir com crescimento
econômico, no mais das vezes resultado de mera modernização das elites –
ali onde existir um projeto social subjacente ».
Por isso, em última instância, o desenvolvimento depende da cultura, na
medida em que ele implica a invenção de um projeto. Este não pode se
limitar unicamente aos aspectos sociais e sua base econômica, ignorando
as relações complexas entre o porvir das sociedades humanas e a evolução
da biosfera ; na realidade, estamos na presença de uma co-evolução entre
dois sistemas que se regem por escalas de tempo e escalas espaciais
distintas. A sustentabilidade no tempo das civilizações humanas vai
depender da sua capacidade de se submeter aos preceitos de prudência
ecológica e de fazer um bom uso da natureza. É por isso que falamos em
desenvolvimento sustentável. A rigor, a adjetivação deveria ser
desdobrada em socialmente includente, ambientalmente sustentável e
economicamente sustentado no tempo.
Tudo indica que a idéia do desenvolvimento não perderá a sua
centralidade nas ciências sociais do século que se inicia. Mais do que
nunca precisamos enfrentar as abismais desigualdades sociais entre
nações e dentro das nações e fazê-lo de maneira a não comprometer o
futuro da humanidade por mudanças climáticas irreversíveis e
deletérias.
No entanto, a problemática do desenvolvimento passou de moda e o seu
status acadêmico é cada vez mais marginal. As razões são múltiplas.
A teologia do mercado, que faz hoje a cabeça de muitos economistas,
torna redundante o conceito de desenvolvimento.
Por sua vez, os adeptos da ecologia profunda teimam em considerar o
crescimento econômico como um mal absoluto, quaisquer que sejam as suas
modalidades e os usos sociais do seu produto.
Por fim existem os desencantados do desenvolvimento, que apontam o
fracasso bastante geral das políticas que se reclamavam do
desenvolvimentismo para justificar o abandono puro e simples do conceito
do desenvolvimento, visto por alguns como uma mera armadilha ideológica
inventada por políticos do primeiro mundo para perpetuar seu domínio
sobre os países periféricos.
Este fracasso é indiscutível, porém como avaliá-lo sem lançar mão do
conceito normativo de desenvolvimento ou, ainda melhor, sem recorrer ao
par desenvolvimento/mau-desenvolvimento que configura um contínuo de
situações possíveis ? Sobretudo, como definir políticas de saída do
mau-desenvolvimento reinante na ausência de um projeto de
desenvolvimento visionário e exequível ?
Convém apreciar o livro de José Eli da Veiga neste contexto difícil e
confuso. Em quatro capítulos densos e eruditos, fruto de leituras bem
escolhidas e de reflexão original, o autor discute os conceitos de
desenvolvimento e de sustentabilidade e as diferentes maneiras de sua
mensuração. Conclui, como era de se esperar, pela defesa do conceito de
desenvolvimento sustentável como utopia para o século XXI, postulando a
necessidade de buscar um novo paradigma científico, capaz de se
substituir ao industrialismo.
Concordo com o autor de que necessitamos de novos paradigmas, já que
estamos sentados sobre as ruínas do socialismo real, do Consenso de
Washington, do crescimento econômico socialmente perverso por se
alimentar de desigualdades crescentes, da social-democracia, que foi
longe demais na aceitação da economia de mercado, um conceito que J. K.
Galbraith considera com razão como totalmente inócuo e por isso tão
difundido.
Em paralelo, devemos superar as barreiras que hoje separam as diferentes
disciplinas do saber, caminhando para a eco-socio-economia proposta por
William Kapp.
Mas estes já são temas para um novo livro, que os leitores deste têm o
direito de esperar de José Eli da Veiga.
Ignacy Sachs
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