A FACE
TERRITORIAL DO DESENVOLVIMENTO[1]
José
Eli da Veiga – USP: Dep.Economia & Procam
veiga@msh-paris.fr
Anais
do 27o. Encontro Nacional de Economia,
Belém,
8-10 de Dezembro de 1999, volume ,
pp. 1301-1318
Este texto investiga as motivações do emprego cada
vez mais freqüente da expressão “desenvolvimento territorial” (por vezes
“desenvolvimento espacial”). Seu principal objetivo é saber se tal tendência
indica uma revalorização da dimensão espacial da economia, ou se, ao contrário,
não passa de mais um prolongamento da infindável mania de se acrescentar
adjetivos ao substantivo ‘desenvolvimento’.
A resposta também acabou sendo de natureza geográfica:
“nem tanto ao céu, nem tanto à terra”. Ou seja, parece estar havendo, de
fato, uma revalorização da dimensão espacial da economia; mas tudo indica que
tal evolução está longe de permitir que se considere a expressão
“desenvolvimento territorial” como um conceito, propriamente dito, além de
ser muito cedo para conhecer seus efeitos práticos.
Mesmo não podendo dar uma resposta mais original à referida pergunta, a investigação aqui exposta foi tão frutífera que permite avançar, a título de conclusões, dez proposições bem menos banais. Elas decorrem de uma exposição que está organizada em três partes.
A primeira aborda o debate sobre as tendências da
diferenciação espacial cidade/campo, mais concentrado entre pesquisadores de
temas rurais. Trata-se essencialmente de uma crítica à tendência
relativamente comum de se amalgamar desenvolvimento e urbanização, como fazem
os que afirmam ser impossível que uma área rural se desenvolva sem que se
torne automaticamente não-rural.
A segunda aborda a heterogeneidade espacial do
dinamismo econômico, mais concentrado entre estudiosos da “economia
industrial”. Ela examina a tortuosa evolução do debate internacional
desencadeado pelos estudos sobre os distritos industriais marshallianos, que
acabou dando respaldo científico à idéia do ‘desenvolvimento local’, i.é
de que as iniciativas locais podem ser
cruciais para o desenvolvimento, pois se tornam importante fator de
competitividade ao fazerem dos territórios ambientes inovadores.
E a terceira procura estabelecer as principais relações
desses dois debates com a evolução do “planejamento regional”.
1.
Da “dicotomia” ao “continuum”
rural-urbano
Há quem acredite que o meio rural esteja sujeito a
um processo de urbanização tão poderoso que a histórica contradição entre
cidade e campo estaria fadada a desaparecer. Contudo, o que se verifica é a
existência de três tipos de países desenvolvidos sob o prisma da diferenciação
espacial entre áreas rurais e urbanas. Primeiro, um pequeno grupo fortemente
urbanizado, que reúne Holanda, Bélgica, Reino Unido e Alemanha, no qual as
regiões essencialmente urbanas ocupam mais de 30% do território e as regiões
essencialmente rurais menos de 20%, sendo que as intermediárias variam entre
30% e 50%.[2]
No extremo oposto há um grupo maior, formado por quatro países do “Novo
Mundo” - Austrália, Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia - mas do qual
também fazem parte três nações muito antigas: Irlanda, Suécia e Noruega.
Nesse grupo as regiões essencialmente rurais cobrem mais de 70% do território
e as relativamente rurais têm porções inferiores a 20%. Finalmente, no
caminho do meio encontram-se França, Japão, Áustria e Suíça, países nos
quais entre 50% e 70% do território pertence a regiões essencialmente rurais e
cerca de 30% a regiões relativamente rurais.
Qualquer esforço para interpretar os fundamentos
desses três padrões de diferenciação espacial do mundo desenvolvido será
forçosamente levado a considerar fatores naturais objetivos, como o relevo,
clima e hidrologia. Rejeitar explicações baseadas no determinismo natural não
significa que se possa admitir o puro e simples possibilismo, isto é, a
desconsideração de limites físicos e biológicos à ação humana na formação
dos espaços rurais e urbanos, eludindo, assim, toda a problemática do
relacionamento entre as sociedades humanas e os meios ditos naturais.
[3]
Além disso, foi justamente o avanço das pesquisas científicas em urbanismo
que fez emergir o conceito de
“ecossistema territorial”, entendido como o espaço sem o qual um
ecossistema urbano não pode exercer o conjunto de suas próprias funções
vitais. Se o ecossistema territorial é composto tanto de elementos do ambiente
físico-biológico, quanto do ambiente construído e do ambiente antrópico,
torna-se impossível, então, recusar todo e qualquer tipo de determinismo geográfico
para explicar a localização das atividades e das populações, como pretendiam
os primeiros teóricos da economia espacial. [4]
Nada disso impede, entretanto, que seja muito
atraente a crença de que o destino do espaço rural será seu desaparecimento
por força de avassaladora urbanização. Para seus adeptos, a oposição
cidade-campo já seria, inclusive, uma questão inteiramente superada, uma vez
que a ruralidade não passaria de mero sucedâneo de uma formação social
anterior, condenada pura e simplesmente a sumir, a exemplo do que já teria
ocorrido na Holanda, essa vasta metrópole urbana apenas recortada por
corredores verdes onde se misturam espaços recreativos e terrenos de uso agrícola.
A idéia chegou a ser formulada nesses termos pelo secretário geral do Observatório
Internacional de Prospectiva Regional, na abertura de um colóquio recentemente
patrocinado pelo Senado francês.
Acontece, contudo, que essa visão de convergência
para um suposto padrão holandês, de grande metrópole esverdeada, não resiste
a qualquer tentativa de se encontrar homogeneidade espacial entre os países
mais desenvolvidos, mesmo que se admita o reducionismo de considerar apenas os
aspectos demográficos da questão. Um dos países desenvolvidos mais densamente
povoados – a Suíça – tem 13% de sua população em regiões essencialmente
rurais, 25% em regiões relativamente rurais e 62% em regiões essencialmente
urbanizadas. Estendendo-se por largas partes do Jura, da Plaine e dos Alpes, as
zonas rurais contribuem de maneira significativa à economia nacional, para não
falar da imagem do país no exterior. E suas funções de residência, trabalho
e lazer são consideradas essenciais por suas elites.
É verdade que só uma ínfima parte dos habitantes
de meia dúzia de países do oeste europeu reside em regiões essencialmente
rurais. Mas o peso das populações nas regiões relativamente rurais dessa
seleta meia dúzia de países varia de 15% na Holanda a 44% na Itália. Nesta última,
como no Japão, não chegam a 50% os habitantes de regiões essencialmente
urbanas, mesmo que 70% residam em localidades
urbanas. Em países maiores, como a França e o Canadá, apenas 29% e 44% dos
habitantes estão em regiões essencialmente urbanas, mesmo que 60% residam em localidades
urbanas. De resto, a diferenciação rural/urbana pode ser muito parecida em
territórios tão diferentes quanto o da França e o dos Estados Unidos.
São bem diversas as combinações entre os vários
tipos de atividade econômica que permitem elevar os níveis de renda, educação
e saúde de muitas populações que continuam rurais. As novas fontes de
crescimento das áreas rurais estão principalmente ligadas a peculiaridades dos
patrimônios natural e cultural, o que só reafirma o contraste entre os
contextos ambientais do campo e da cidade. Enfim, a visão de uma inelutável
marcha para a urbanização como única via de desenvolvimento do campo só pode
ser considerada plausível por quem desconhece a imensa diversidade que
caracteriza as relações entre espaços rurais e urbanos dos países que mais
se desenvolveram. Não faz sentido, portanto, amalgamar desenvolvimento e
urbanização, como propõem sem rodeios os que dizem ser impossível que uma área
rural se desenvolva sem que se torne automaticamente não-rural.[5]
Estão justamente entre as menos urbanizadas as
microrregiões rurais dos Estados Unidos que hoje desfrutam das melhores
perspectivas de desenvolvimento. São principalmente as do sul e do oeste que
dispõem de clima agradável, montanhas, lagos, praias, podendo atrair muitos
aposentados, turistas, excursionistas, esportistas, etc. Além desses condados já
escolhidos por migrantes de alta renda, há muitos outros, principalmente no
oeste, nos quais a forte incidência de terras federais faz com que seu futuro
esteja estreitamente vinculado à evolução das políticas governamentais
relativas ao meio ambiente, ao turismo e outros ramos recreativos. De resto,
elevadas rendas per capita ocorrem nos condados rurais das Grandes Planícies,
porque ali os serviços vinculados a atividades agroindustriais engendraram baixíssimos
níveis de densidade demográfica. E há muita incerteza sobre as perspectivas
socioeconômicas de condados rurais da metade oriental do país, principalmente
no sudoeste, onde os serviços se combinaram a outros tipos de atividades
industriais.[6]
Na prática, as desigualdades internas às regiões
rurais de um mesmo país podem ser muito mais significativas que as referentes
ao contraste rural/urbano. Em mais de um terço dos condados rurais dos Estados
Unidos (795/2288), pelo menos 20% da população encontrava-se abaixo do nível
de pobreza em 1990; um problema de difícil solução em 535 deles, quase todos
concentrados no sudeste e no sudoeste, mas também presentes nos Appalaches e em
algumas reservas indígenas do norte e do oeste. Todavia, mais de 80% da população
rural americana reside em condados que conseguiram desenvolver sistemas
produtivos cada vez mais baseados em vários tipos de combinações de
atividades terciárias com as duas outras categorias setoriais. Para o conjunto
dos espaços rurais dos Estados Unidos, as novas fontes de crescimento e emprego
estão nas atividades de serviços ligadas ao lazer, à aposentadoria e ao meio
natural, mesmo que continuem muito importantes outros tipos de serviços, como
os financeiros, de seguros, imobiliários, de comércio varejista, de restauração,
de lavagem a seco, etc.
Enfim, as áreas rurais dos países avançados que
permanecem subdesenvolvidas são aquelas que não lograram explorar qualquer
vocação que as conecte às dinâmicas econômicas de outros espaços - sejam
eles urbanos ou rurais – e não aquelas que teriam sido incapazes ou
impossibilitadas de se urbanizar. E como as novas fontes de crescimento econômico
das áreas rurais estão principalmente ligadas a peculiaridades do patrimônios
natural e cultural, intensifica-se o contraste entre campo e cidade
Tudo isso quer dizer, então, que a desacreditada
abordagem “dicotômica” deveria ser reabilitada? Estaria sendo contrariada a
abordagem inversa, de “continuum”
? Depende muito, na verdade, do significado que se atribua a esses vocábulos.[7]
De qualquer forma, o que não parece existir é qualquer evidência de que
esteja desaparecendo a histórica contradição entre cidade e campo, inclusive
no caso holandês, onde os espaços
rurais tendem a ser caracterizados como meros corredores nos quais convivem
atividades agrícolas e recreativas. Em outras palavras, há uma falsa
alternativa sendo proposta nesse duelo entre dicotomia e “continuum”.
Mas para disso se dar conta, é absolutamente necessário sair do
isolamento demográfico (ou no máximo sociológico) em que foi metido esse
debate, como se seus fundamentos ecológicos e econômicos tivessem menor importância.
O desafio é, portanto, entender as várias dinâmicas
socioeconômicas, das mais efêmeras às mais duráveis, distinguindo bem as
reversíveis das irreversíveis, pois algumas podem ser duráveis sem que sejam
necessariamente irreversíveis. Ninguém ignora que a proporção das atividades
primárias nas economias mais desenvolvidas caiu, neste século, de metade para
um vigésimo. Enquanto isso, as terciárias subiram de um quarto para mais de três
quintos, e as secundárias deslizaram de pouco mais a pouco menos de um terço.
Só que os resultados dessas grandes tendências foram bem heterogêneos. Entre
os países do primeiro mundo, a parte dos serviços varia de 50% a 70%, a das
industriais de 40% a 25%, e a das primárias de 10% a 3% dos ocupados.
Mais heterogêneas ainda foram as repercussões
espaciais dessa enorme mudança estrutural. O fato de atividades primárias
estarem forçosamente muito mais presentes nas zonas rurais não significa que
os outros dois tipos sejam necessariamente muito mais recorrentes nas zonas
urbanas. O emprego industrial é mais significativo nas regiões relativamente
rurais que nas essencialmente urbanas, chegando mesmo a ser muito mais rural que
urbano em países nórdicos, como a Noruega e a Suécia. E os serviços têm
quase o mesmo peso em regiões essencialmente urbanas e relativamente rurais,
sendo extraordinariamente importantes nas regiões essencialmente rurais da Bélgica.
Não é portanto a composição setorial das
economias desenvolvidas que pode explicar o surgimento, no final do século XX,
de indícios opostos à chamada “desertificação rural” que estariam
anunciando um certo “renascimento rural”. Essa hipótese foi contrariada
pelos estudos da OCDE que compararam as regiões rurais mais dinâmicas às mais
letárgicas ou decadentes. Os
resultados mostram que o melhor desenvolvimento de determinadas zonas rurais tem
causas ainda desconhecidas, mas que, com certeza, não estariam relacionadas a
diferenças em suas respectivas estruturas setoriais.
Ora, foi justamente a vontade de entender quais
seriam as fontes geradoras do maior dinamismo econômico de certas localidades
que desencadeou tantas discussões sobre as virtudes dos distritos industriais
marshallianos para o desenvolvimento; um longo debate que acabou dando origem
aos amplos programas de pesquisa sobre relações das mais diversas entre mutações
econômicas e recomposições espaciais.
Foi a identificação de “constelações econômicas
localizadas que venciam a recessão” em áreas relativamente rurais como a
Toscana e Emilia-Romagna (Itália), Baden-Württemberg (Alemanha), Cambridge
(Inglaterra), Smäland, (Suécia), e até essencialmente rurais, como
West-Jutdland (Dinamarca), que levou um grupo de pesquisadores ligados à OIT a
se perguntar, em meados dos anos 1980, se essa virtuosa combinação entre eficiência
e altos níveis de emprego poderia se tornar um modelo para outras regiões.
Idêntica interrogação estava no centro das
preocupações que levaram à formação simultânea do Grupo Europeu de
Pesquisas sobre os Ambientes Inovadores (Gremi), que se propunha a entender os
processos coletivos de aprendizagem. Os desdobramentos do amplo debate que se
seguiu foram evidenciando os limites da noção de “distrito”, fazendo com
que paulatinamente fosse dada preferência à noção mais ampla de “sistemas
produtivos locais (SPL)” (“Local
Productive Systems”).
2. Do
“distrito marshalliano” ao localismo
Muitas controvérsias foram se misturando ao debate
desencadeado pelos pioneiros estudos italianos[8],
como evidenciam as revisões críticas publicadas em quatro espessas coletâneas
sobre o assunto.[9] E os resultados dessa
vasta produção científica ainda não explicam satisfatoriamente as razões do
maior ou menor dinamismo econômico de cada território, dificultando muito
qualquer tentativa de síntese. De qualquer forma, assim que algumas lições
gerais sobre os “distritos” começaram a ser tiradas, foram também surgindo
muitas dúvidas sobre a possibilidade de que elas pudessem vir a ser
aproveitadas em contextos muito diferentes.
No caso italiano, por exemplo, constatou-se uma fortíssima correlação
entre a distribuição espacial da economia “difusa”, que caracterizava suas
províncias mais dinâmicas, e a intensidade das formas familiares de
agricultura (e portanto de razoável distribuição de renda). Além disso, a
organização municipal específica do Centro-Norte da Itália, cuja origem
remonta à Idade Média, mostrou que essas comunidades locais haviam
estabelecido há muito tempo uma boa divisão territorial do trabalho entre
cidade e campo, uma organização muito articulada da sociedade urbana, e uma
rede muito densa de comunicações.
Em áreas como o Mezzogiorno,
historicamente fundadas em formas patronais de agricultura, não existe a
mobilidade e a articulação social que engendram a criação de um grande número
de flexíveis PMEs. Também não existe essa organização espacial que permite
evitar uma fratura entre cidade e campo. Como enfatiza o economista industrial
italiano Gioacchino Garofoli, não se trata de um processo com vocação a
ocorrer em qualquer lugar, pois está ligado a alguns pré-requisitos da própria
formação socioeconomica de cada território.[10]
Mas se as heranças institucionais de uma economia
baseada na agricultura familiar são condições necessárias, elas estão muito
longe de ser suficientes. Para que muitas empresas e muitos empregos possam ser
criados em regiões não privilegiadas pela velha obsessão de “pólos” ou
“eixos” urbano-industriais, também é preciso que elas disponham de um mínimo
de condições favoráveis em termos de comunicações e de serviços e,
sobretudo, de condições que estimulem o “empreendedorismo”. Afinal, são
os empreendedores os principais agentes da mudança econômica, pois são eles
que geram, disseminam e aplicam as inovações. Ao procurarem identificar as
potenciais oportunidades de negócios e assumirem os riscos de suas apostas,
eles contribuem tanto para um maior uso dos recursos disponíveis, quanto para a
expansão das fronteiras da atividade econômica. Mesmo que muitos não tenham
sucesso, é sua existência que faz com que uma sociedade tenha constante geração
de novos produtos e serviços.
Infelizmente, não se sabe muito bem quais são os
determinantes do “empreendedorismo”, apesar de sua crucial influência sobre
o crescimento econômico. Sequer existe acordo sobre os indicadores que melhor
revelariam os graus relativos em que o fenômeno se manifesta. É sabido,
entretanto, que ele também nunca ocorre de forma homogênea entre as regiões
de uma mesma nação. Comparando-se extremos, percebe-se que em certas regiões
da Alemanha surgem mais do que o dobro de novas firmas do que em outras. A mesma
relação se aproxima do triplo na Itália, na Suécia e no Reino Unido,
chegando a girar em torno do quádruplo na França e nos Estados Unidos.[11]
Tudo indica que essas divergências espaciais da
criatividade empreendedora correspondem ao chamado fenômeno de “clustering”
(formação de “feixes” ou “cachos”). Segundo uma das definições mais
aceitas, “cluster” é uma concentração geograficamente delimitada de negócios
independentes que se comunicam, dialogam e transacionam para partilhar
coletivamente tanto oportunidades quanto ameaças, gerando novos conhecimentos,
concorrência inovadora, chances de cooperação, adequada infra-estrutura, além
de freqüentemente também atraírem os correspondentes serviços especializados
e outros negócios correlacionados. E os estudos sobre a relação existente
entre a formação desses feixes e o “empreendedorismo” acabam sempre por
enfatizar os fatores culturais que às vezes são compactados na sedutora noção
de “capital social”: um complexo de instituições, costumes e relações de
confiança que geram a “atmosfera” necessária a seu estímulo.[12]
São muito ilustrativas as conclusões dos balanços
feitos em paralelo pelo suíço Denis Maillat e pelo italiano Giacomo Becattini,
respectivamente fundador do Gremi e principal expoente dos distritólogos.[13]
As abrangentes pesquisas empíricas do Gremi levaram Maillat a concluir que os
ambientes inovadores (milieux innovateurs)
se manifestam em condições territoriais e produtivas das mais diversas: podem
ser especializados ou multifuncionais, industriais e turísticos, urbanos e
rurais, de alta tecnologia ou de tecnologia tradicional. Dá para afirmar quais
são as mudanças possíveis e identificar empiricamente as que já estão em
curso. Mas não se sabe o que realmente faz com que determinado território seja
capaz de gerar um novo modo de organização e de produção.
A principal conclusão de Becattini é que uma política
industrial só pode ser sistemática e racional se estiver apoiada num tableau
das relações socio-econômicas “historicamente determinadas”, isto é,
numa representação da trama de sistemas produtivos locais que não isole as
relações técnico-econômicas das relações socioculturais e institucionais,
como faz a matriz input-output. A revisão dos estudos e debates sobre os distritos
industriais marshallianos acabaram por convencê-lo de que os verdadeiros
recursos críticos de uma economia nacional são os sistemas locais: organismos
de formação lenta e difícil, que constituem um patrimônio a ser reconhecido,
conservado e fortificado. Assim, para superar a ignorância reinante sobre a
importância dos SPL, Becattini considera necessária a adoção de uma estratégia
de pesquisa com três linhas de orientação: a) redefinição de uma grande
parte do aparato teórico da economia e de outras ciências sociais; b) trabalho
de campo que explore as similaridades e diferenças e não evite as conexões
entre fenômenos que pertencem a campos disciplinares diversos; c) uma
caracterização atenta dos SPL, na linha de trabalho explorada por seu colega
Fabio Sforzi.[14]
O principal mérito de Sforzi foi tentar superar as
distorsões impostas pelo uso das fronteiras de caráter político-administrativo
como unidade espacial de análise. Afinal, apenas uma parte das localidades
pertencentes às províncias que formavam a famosa “Terceira Itália” tinham
o dinamismo da economia “difusa” presentes em distritos marshallianos. Além
disso, fenômeno idêntico também ocorria no noroeste (“Primeira Itália”).
Era portanto necessário encontrar uma unidade espacial de análise empírica
que não fosse tão distante dos marcos conceituais das análises econômicas de
Giacomo Becattini, Sebastiano Brusco ou Gioacchino Garofoli e das abordagens
sociológicas de Arnaldo Bagnasco, Carlo Trigilia ou Vittorio Capecchi. A
contribuição de Fabio Sforzi foi justamente a de tomar o “sistema de
localidades interligadas” como padrão espacial de análise do processo de
industrialização e do desenvolvimento socio-econômico em geral.
A base do argumento é que o desenvolvimento ocorre
localmente quando uma indústria e uma população têm a mesma área comum de
interação social e econômica. Isso acontece em todo tipo de localidade, desde
as de tipo mono-industrial até as marcadas por uma grande quantidade de
pequenos negócios mais ou menos similares. O que as diferencia é
a maneira pela qual as firmas e a população estão envolvidas na divisão
do trabalho. Uma regionalização funcional da Itália - feita a partir de dados
censitários de 1981 sobre os fluxos de deslocamento entre residência e
trabalho (journey-to-work flows) -
permitiu a identificação de 955 Áreas de Mercado de Trabalho Local (LLMAs:
Local Labour Market Areas), que foram agrupadas em 15 tipos de sistemas
locais mediante uma análise de suas estruturas sócio-econômicas.
Essa importante contribuição de Sforzi foi,
infelizmente, distorcida pela divisão setorial. Sua principal motivação era
comparar os 61 distritos industriais marshallianos (como os de Carpi e Prato),
enquanto subcategoria das 161 LLMAs de industrialização leve, a outros três
tipos: a) as 76 LLMAs do norte e do centro dominadas por indústrias e serviços
(como as de Milão e Florença); b) as 64 LLMAs do sul, dominadas principalmente
pelos serviços (como as de Nápoles e Palermo); e c) as 96 LLMAs industriais do
norte (como as de Lumezzane e Valdagno).
Ao selecionar as categorias que considerou “comparáveis”,
Sforzi misturou todos os sistemas locais extra-urbanos baseados no turismo ou em
atividades consideradas “semi-rurais” ou “rurais”. Pior, essas nove
categorias extra-urbanas foram atiradas numa mesma gaveta com as “marginais”
e as “deprimidas” do sul. Assim, 11 tipos de sistemas locais - reunindo 558
das 955 LLMAs - foram amalgamados na única categoria considerada “residual”
e denominada “Resto da Itália”.
Ora, quando se examina com atenção as tabelas
organizadas para fazer essa comparação, percebe-se que no período considerado
– 1971/81 – a categoria “Resto da Itália” gerou proporcionalmente mais
empregos no agregado do que qualquer uma das outras quatro, embora sempre tenha
sido superada por alguma delas em quase todas as divisões setoriais específicas.
Ou seja, sem pretender, essa contribuição de Sforzi é uma excelente ilustração
do potencial gerador de empregos que também existe em sistemas locais
extra-urbanos e menos especializados. Reforça a hipótese de que nesses
sistemas locais extra-urbanos e extra-industriais podem existir efeitos sinérgicos
de geração de empregos comparáveis até aos que se manifestam nessa espécie
de vanguarda constituída pelos distritos industriais marshallianos. Mas como
eles foram todos embutidos numa única e extremamente heterogênea categoria,
formada por 60% das Áreas de Mercado de Trabalho Local, incluindo até as duas
mais “deprimidas” e as 41 “marginais”, fica impossível separar “o
joio do trigo”.
Esse forte viés “industrialista” foi mantido na
atualização feita com os dados censitários de 1991, apresentada na conferência
sobre “Sistemas Locais de Pequenas Empresas e Criação de Emprego”,
organizada pela OCDE em Junho de 1995.[15]
Os sistemas locais sem concentração de emprego fabril foram outra vez
empacotados numa categoria “residual”, desta feita denominada “não-industrial”.
O resultado ficou ainda mais estranho, pois nos anos 1980 houve redução
generalizada do emprego no setor industrial, em flagrante contraste com seu
aumento no setor terciário, particularmente entre as empresas de “serviços não-tradicionais”.
E a inevitável conclusão foi, evidentemente, a de enfatizar que, “no mundo
real”, as fronteiras entre a indústria e os serviços estão sendo
progressivamente removidas...
Os trabalhos apresentados na referida conferência da
OCDE marcaram uma clara ruptura com a tendência anterior de atribuir apenas à
indústria a glória pelo bom desempenho econômico de determinadas áreas geográficas.
Os participantes preferiram chamar a atenção para as ligações entre as
empresas em geral e sua capacidade de criar redes (“business
links and networking”) ou, de maneira ainda mais abrangente, para os
sistemas locais de PMEs (“local systems
of SMEs”). E própria idéia de “distrito” chegou a ser completamente
“desindustrializada” na contribuição holandesa sobre o ‘distrito
floricultor de Keukenhof’ (“the flower-growing
district of Keukenhof”) ...
Pode-se dizer, portanto, que a redescoberta da noção
marshalliana de “distrito” foi certamente muito enriquecedora, mas que ela não
pode dar conta da complexidade e diversidade dos sistemas locais. Ao mesmo
tempo, precisa ser evitado o risco de serem criadas tantas novas noções
quantas forem as situações diferenciadas. Daí a vantagem da noção de
“sistemas produtivos locais” (“local
productive systems”) que acabou, aliás, entrando no subtítulo da publicação
dos anais dessa conferência da OCDE sobre “Sistemas Locais de Pequenas
Empresas e Criação de Emprego”.
Nos Estados Unidos, 60% das atividades econômicas
puderam ser atribuídas a um total de 380 “clusters”
em diversas fases de amadurecimento, e depois classificados em apenas quatro
tipos de origens: a) recursos naturais estratégicos, como nos casos de Chicago
(agroalimentar); b) fontes de novas tecnologias, como o Vale do Silício
(microeletrônica); c) mercados de trabalho especializado, como Dalton, na
Georgia (tapetes) ou Tupelo, no Mississippi (móveis); e d) oportunidades
mercadológicas, como Buffalo, em New York (meio ambiente), ou mesmo New York
City (jóias).
Todos os que procuraram entender qual é a relação
existente entre a formação desses feixes e o empreendedorismo acabaram por
enfatizar os mesmos fatores culturais presentes em todas as caracterizações de
‘distritos’ ou ‘SPL’. Como já foi dito, a única diferença é que
esses fatores culturais são muitas vezes compactados na sedutora noção de
“capital social”, relançada com muita perspicácia pelas pesquisas
coordenadas por Robert Putnam sobre as diferenças de desempenho institucional
das diversas províncias da Itália. Muitas vezes, o capital social é entendido
como um complexo de instituições, costumes e relações de confiança que
alavancam a cooperação. Outras vezes, essa expressão “capital social” é
expressamente evitada e substituída por longas considerações sobre
misteriosos processos formadores de atitudes culturais que afetam não somente a
disposição a cooperar com outros, mas, sobretudo, as estruturas institucionais
que influenciam o empreendedorismo.
Uma excelente síntese da questão foi feita por
Sebastiano Brusco ao apontar as três lições essenciais que devem ser tiradas
da experiência italiana: a) a necessidade de combinar concorrência com cooperação;
b) a necessidade de combinar conflito com participação; e c) a necessidade de
combinar o conhecimento local e prático com o científico. Essas três lições
fazem com que a interrogação central passe a recair, portanto, sobre as condições
que permitem a emergência de instituições mais favoráveis a essas três
combinações. E a resposta - como não poderia deixar de ser - é afirmação
de que o desenvolvimento depende essencialmente do papel catalisador que
desempenha um projeto elaborado por atores
locais.
Nota-se, portanto, que nessa tortuosa evolução do
debate internacional desencadeado pelos estudos sobre os distritos industriais
marshallianos, ganhou forte respaldo científico uma perspectiva contrária à
que predominou durante muito tempo nas esferas governamentais e nas organizações
internacionais que procuram influenciar os rumos das políticas econômicas
nacionais.
Com muito atraso, estas começaram a levar a sério
proposições sobre desenvolvimento “endógeno”, desenvolvimento “de baixo
para cima”, e até sobre “ecodesenvolvimento”[16],
acabando por admitir que as iniciativas
locais podem ser cruciais para o desenvolvimento, pois se tornam importante
fator de competitividade ao fazerem dos territórios ambientes inovadores.
Evidentemente, não demoraram tanto a aparecer as limitações inerentes às
resultantes políticas do “desenvolvimento local”, o que acabou por
estimular debates dos mais bizantinos sobre as relações entre o “local” e
o “global” no processo de desenvolvimento, nos quais costumam até a se
levar a sério ridículas disputas entre o “glocalismo”
e o “lobalismo”...
3. Do
planejamento regional ao desenvolvimento
territorial
Durante a “era de ouro” (1948-73), a preocupação
de minorar as distorções espaciais fatalmente provocadas pelo crescimento econômico
levou à montagem de estruturas administrativas cuja principal missão seria a
de “planejar” ou “ordenar” o povoamento (ou ocupação) de territórios
nacionais mediante determinadas orientações de investimentos públicos em
infra-estrutura e várias formas de incentivos e regulamentações sobre os
investimentos privados. Surgiram então vários tipos de arranjos
administrativos nacionais de “planejamento regional” (ou “ordenamento
territorial”), que não podiam se basear em qualquer experiência acumulada em
países capitalistas. As raras tentativas anteriores haviam sido todas restritas
a uma determinada região, além de pertencerem ao contexto inverso, isto é, o
da contração da economia mundial durante o entre-guerras. Foi nos anos 1930
que a experiência do New Deal com a
TVA (Tennessee Valley Authority)
incentivou o governo britânico a dar um tratamento diferenciado a suas áreas
de mineração muito afetadas pela crise, e estimulou o governo italiano a
adotar medidas que pudessem reduzir a miséria do Mezzogiorno.
Antes disso houve imenso desprezo pelo fator espacial, tanto nas políticas econômicas,
quanto na ciência na qual pretendem se inspirar. No capitalismo anterior a
1929, talvez só possam ser citadas as propostas dos saint-simonianos e a obra
teórica de Von Thünen como as exceções que confirmam a regra.
Duas reações ao “marasmo” econômico que se
seguiu à “era de ouro”, a partir dos anos 1970, pressionaram muitos desses
recentes aparatos de planejamento (ou ordenamento) a redefinir sua missão. Uma
delas foi a forte vaga de “descentralização” baseada na idéia de que as
distorções que produziam as disparidades regionais desapareceriam por si só,
caso as administrações locais tivessem mais liberdade, poder e meios de ação.
Outra foi o impulso para uma maior integração supra-nacional, que se
manifestou principalmente no oeste europeu, mas que vem tendo desdobramentos
semelhantes em outras regiões dos continentes americano e asiático. E foi como
resultado dos mais evidentes dessa dupla pressão que se deu o deslize semântico
para “desenvolvimento espacial” e, principalmente, para “desenvolvimento
territorial”.
As vantagens das palavras “espaço” e “território”
são evidentes: não se restringem ao fenômeno “local”, “regional”,
“nacional” ou mesmo “continental”, podendo exprimir simultaneamente
todas essas dimensões. A UE vinha elaborando há quatro anos sua
“perspectiva” ou “esquema” de “desenvolvimento espacial”[17],
quando a OCDE criou um novo serviço com a missão de levar seus países membros
a elaborar suas próprias concepções de “desenvolvimento territorial”[18].
Muito mais significativas, entretanto, parecem ser as motivações que levaram
ao progressivo uso do substantivo “desenvolvimento” para substituir os fora
de moda “planejamento” e “ordenamento”.
Na França, foi uma comissão interministerial “de ordenamento
do território” que preparou um projeto de lei de orientação “para o desenvolvimento
do território”. Tal fato é considerado marco simbólico de uma virada, mesmo
que do debate parlamentar tenha resultado, em 4 de fevereiro de 1995, uma lei
que acabou conservando os dois vocábulos (“l’aménagement
et le développement du territoire”). Basicamente porque o ordenamento
seria algo “consentido, outorgado e redistribuitivo”, enquanto o
desenvolvimento seria “desejado, partilhado e produtor de riquezas”. Ou
ainda, porque se pretende cruzar, num mesmo espaço, uma política
“descendente (ordenamento) com uma política ascendente (desenvolvimento)”.[19]
A “perspectiva” européia de desenvolvimento
espacial (UE/ESDP) tem dois objetivos essenciais: aumentar a capacidade
competitiva de territórios cuja integração no processo concorrencial é
inadequada, e limitar os efeitos negativos de uma concorrência exacerbada. Nos
dois casos, a abordagem espacial procura uma melhor combinação entre competição
e cooperação, de forma que o conjunto do território europeu possa atingir um
nível ótimo de competitividade, reforçando, ao mesmo tempo, sua coesão econômica
e social. Para atingir esses objetivos, os meios foram agrupados em três
conjuntos operacionais: i) um sistema policêntrico de cidades, com uma nova
relação urbano/rural; ii) uma paridade de acesso à infra-estrutura e ao
conhecimento; iii) uma gestão mais
prudente das heranças natural e cultural.[20]
Para tanto, os vetores do desenvolvimento espacial europeu[21]
foram triados em termos de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (“SWOT
analysis”) sendo identificado um conjunto de 13 principais tendências (3
demográficas, 4 econômicas e 6 ambientais), destacando-se o fato da economia e
do emprego europeus se tornarem cada vez mais dependentes das pequenas e médias
empresas (PMEs) como a mais importante das tendências econômicas.
Uma das principais ambições do ESDP é tornar mais
coerentes as quatro políticas comunitárias de “significativo impacto
espacial” que foram substancialmente fortalecidas, em 1992, tanto pelo Tratado
de Maastricht, como pelo subseqüente Conselho Europeu reunido em Edinburgh: i)
a agrícola (PAC), reformada nesse mesmo ano; ii) a dos “Fundos
Estruturais”, ao qual foi juntado o novo “Fundo de Coesão”; iii) a de
transportes e comunicações, agrupadas sob a sigla “TENs” (“Trans-European Networks”); e iv) a política ambiental.
O serviço de desenvolvimento territorial da OCDE só
foi criado por seu Conselho no início de 1994, quase um ano depois da apresentação
formal do projeto pelo Secretário Geral. Com o firme apoio da representação
austríaca, ele propôs o agrupamento de quatro unidades até ali dispersas em
outras divisões: os grupos especializados em questões urbanas, desenvolvimento
rural e desenvolvimento regional, mais o programa de ação e cooperação sobre
iniciativas locais de criação de emprego[22].
Baseou tal proposta em duas justificativas, uma de ordem política e outra de
ordem operacional:
“i)
As zonas urbanas, suburbanas e rurais são cada vez mais interdependentes
e os problemas de uma delas também interferem nas outras. Por exemplo, os fenômenos
de aglomeração e de congestão urbana são inseparáveis da debilitação de
certas regiões e do êxodo rural. Além disso, os efeitos de proximidade tornam
ainda mais manifesta a necessidade de uma abordagem política coordenada, que
possa integrar o conjunto dos aspectos do desenvolvimento. Assim, na escala
local, os problemas de emprego, de harmonia social, de qualidade da vida –
para tomar apenas alguns exemplos – são indissociáveis. (...)”
“ii)
O desenvolvimento harmônico do tecido econômico está no centro dos
trabalhos dos grupos que tratam de assuntos urbanos, locais, rurais e regionais.
Isso se traduz por ações que visam encontrar, para uma determinada zona, um
equilíbrio entre o fortalecimento de sua capacidade concorrencial e a melhoria
da qualidade de vida de seus habitantes. Atingir esse objetivo exige a criação
de novas formas de parcerias entre os atores envolvidos, que eles sejam públicos,
privados, nacionais, regionais ou locais. Estímulo a projetos, iniciativa
rural, ação urbana, tudo isso decorre da mesma idéia, segundo a qual as
contribuições locais permitem operar mudanças significativas na paisagem
socioeconômica territorial.”[23]
Durante o primeiro debate dessa proposta, três
outras delegações - Austrália, Canadá e Noruega - juntaram-se à da Áustria
para considerar o novo serviço como “primeira etapa lógica”
de um processo que deveria permitir à OCDE uma abordagem analítica mais
horizontal das questões relativas ao desenvolvimento econômico, social e ecológico
de seus países membros. Em seguida, as delegações da Holanda e da Suíça
foram ainda mais longe, chegando a propor, inclusive, a “completa fusão dos
órgãos subsidiários dos quatro grupos”. Mas tanto entusiasmo esbarrou na
resistência das delegações do Japão, da Bélgica e do Reino Unido, e numa
certa hesitação por parte dos representantes da Irlanda e da Espanha. Muitas
dessas reticências eram de ordem orçamentária, mas também foi mencionado o
temor de que o novo serviço viesse a reforçar a concentração da OCDE em
“questões de desenvolvimento econômico e industrial em detrimento dos
problemas ambientais, do turismo e da cultura”.[24]
Como tais “dúvidas” não foram completamente
superadas, elas voltaram a se manifestar em 1998. Mas, até o momento, nada
disso alterou a natureza do “TDS”, que continua a ser apresentado da seguinte forma: “Fatores espaciais são
elementos importantes na ‘real’ organização da atividade econômica, mas
continuam fora do escopo dos atuais macro referenciais. Esses dois mundos – o
dos gestores da política macroeconômica e o das localidades, cidades e regiões
– continuam bem independentes um do outro, mesmo quando muitas questões
consideradas ‘locais’ têm revelado um caráter cada vez mais
‘transfronteiriço’. De resto, distorções econômicas e sociais continuam
a afetar a alocação espacial de recursos e de renda – assim como o papel do
setor público – não podendo, portanto, ser ignoradas pelas abordagens mais
gerais sobre o crescimento e o ajuste estrutural.”
“Contra esse tipo de herança, a OCDE reforçou seu
trabalho sobre as relações entre políticas governamentais de caráter urbano,
rural, regional e local, mediante o agrupamento dessas atividades em um único
Serviço de Desenvolvimento Territorial. Uma preocupação central é entender
como as políticas desses quatro núcleos relacionados
ao espaço podem efetivamente contribuir para reformas estruturais e
funcionamento das forças de mercado, e particularmente para a capacidade de
geração de empregos produtivos, de adequado aproveitamento de recursos
humanos, de melhoria do padrão e da qualidade de vida, de resposta à crescente
demanda de amenidades, e de prevenção contra a marginalidade social e a
degradação ambiental; enfim, todos os componentes indispensáveis ao bom
funcionamento das localidades, cidades e regiões.”[25]
Um dos fatores que fez brotar no interior da OCDE a
idéia de juntar sob o lema do “desenvolvimento territorial” seus núcleos
voltados aos problemas urbanos, rurais e regionais foi, com certeza, mais de um
decênio de experiência com o programa dedicado à geração de empregos
mediante estímulos ao “desenvolvimento local”. Esse programa de ação e
cooperação sobre iniciativas locais de criação de emprego - que hoje se
chama “LEED – Local Economic and
Employment Development” - foi criado em 1982, e deu origem a uma vasta
rede de intercâmbio que divulga análises e relatos de experiências concretas
por meio de “notebooks” e de uma “newsletter” intitulada Innovation
& Employment, que chegou a ser editada em parceria com a União Européia.
Em maio de 1993, o comitê diretor desse programa
decidiu fazer uma série de avaliações nacionais das políticas e práticas de
desenvolvimento local. O foco desses estudos anuais deveria estar justamente nas
relações entre as políticas nacionais, regionais e locais, de tal forma que
se pudesse discutir a coerência dos programas de desenvolvimento local de cada
país. O primeiro a se candidatar a esse tipo de avaliação foi o governo austríaco,
numa iniciativa conjunta de sua ‘Chancelaria Federal’ e do seu ‘Serviço
de Mercado de Trabalho’. Além de quatro funcionários da OCDE e de dois
representantes de países membros (Holanda e Canadá), o grupo de trabalho
encarregado dessa avaliação contou com a colaboração de dois especialistas
convidados: Michael Piore, do MIT e Alvaro Espina y Montero, assessor especial
do Ministro da Economia da Espanha.
Como logo no início dos anos 1970 a Áustria foi
drasticamente atingida pela crise do padrão de crescimento da “era de
ouro”, ela foi um dos primeiros países a experimentar as opções de
“reestruturação industrial” discutidas no âmbito das organizações
internacionais ao longo dos anos 1980, e que acabaram convergindo para a idéia
central de promover o “desenvolvimento local”. Isso teve um claro impacto no
“Conceito Austríaco de Planejamento Regional”, reelaborado a cada dez anos
por uma “Conferência sobre Planejamento e Políticas Regionais (ÖROK)”,
presidida pelo chanceler federal e formada por vários ministros, governadores
das Länder e representantes das
comunidades locais. A principal diferença entre os “conceitos” de 1981 e de
1991 foi que o último não visa diretamente a redução das diferenças
regionais de padrão de vida, nem a criação/atração de novas empresas em áreas
menos favorecidas mediante incentivos financeiros. O texto de 1991 procurou, ao
contrário, definir com clareza o potencial de cada região para um
desenvolvimento “endógeno”, dando origem, no âmbito federal, ao
“Programa para o Desenvolvimento Regional
Endógeno (FER)”.
Ao tirar as lições da experiência austríaca de
“ajustamento local à reestruturação industrial”, o relatório do grupo
avaliador da OCDE fez uma leve crítica a essa evolução, enfatizando que o
grande perigo da abordagem do desenvolvimento local é a simples agregação de
programas, sem uma estratégia que de fato possa mobilizar o conjunto das
comunidades. Ou ainda, que “a estratégia de desenvolvimento local é
particularmente válida como um complemento do desenvolvimento regional no âmbito
de uma estratégia maior baseada no conceito de ‘desenvolvimento
territorial’ – a combinação de políticas governamentais descendentes com
iniciativas de desenvolvimento endógeno.”[26]
Outro fator que certamente contribuiu para que a OCDE
decidisse criar um serviço de desenvolvimento territorial foi quase um decênio
de experiência com o programa de desenvolvimento rural, particularmente o
Projeto sobre Indicadores de Emprego Rural (“REMI Project”). Foi ele que deixou claro o quanto podem ser
enganosas as comparações cronológicas de indicadores de emprego para uma
mesma área, e o quanto podem ser instrutivas as comparações espaciais em um
mesmo momento. Apesar da base estatística da OCDE ser uma das que melhor
permite comparações entre países – i.é, territórios - até o início dos
anos 1990 essa organização só dava atenção às séries temporais de cada país
membro. No entanto, as diferenças cronológicas das taxas de desemprego, por
exemplo, são muito menos significativas que as disparidades entre os países
membros. Em 1995, essas taxas variavam de menos de 3% no Japão a mais de 23% na
Espanha. E as disparidades regionais dentro de cada país eram ainda mais
importantes.
Também se deve ao REMI a demonstração de que o
sucesso e o insucesso em criar novas oportunidades regionais de emprego não estão
estritamente correlacionados aos graus de urbanidade ou de ruralidade. A
ruralidade não é deficiência, e também não é sinônimo de declínio; tanto
quanto urbanidade e aglomeração não garantem automaticamente um próspero
desenvolvimento. Em vez de comparar apenas as diferenças entre áreas rurais e
urbanas, tornando implicitamente o urbano como modelo para o rural, o REMI
preferiu se dedicar a comparações entre regiões mais e menos dinâmicas.
Principalmente porque as regiões rurais mais dinâmicas podem ser melhor referência
para similares mais atrasadas do que o seriam as urbanas. E foi a partir desse
tipo de comparações realizadas pelo REMI que o programa de desenvolvimento
rural da OCDE passou a ganhar consistência.
O eixo dos poucos trabalhos sobre questões rurais
feitos durante os anos 1980 era a necessidade de melhorar sua gestão pelos
aparelhos de administração governamentais. Como a elaboração de políticas
para o meio rural depende de um amplo e heterogêneo conjunto de entidades públicas,
os principais desafios convergiam sistematicamente para a necessidade de
realizar um trabalho cooperativo. Não é de se estranhar, portanto, que a
palavra-chave dessa fase tenha sido “parceria”.
Nessa linha, diversas atividades que juntaram responsáveis nacionais pelas políticas
de desenvolvimento rural com estudiosos do assunto, revelaram o quanto era precário
o entendimento da imbricação dos problemas rurais com as mais amplas tendências
socioeconômicas, ambientais e políticas. Isto é, a necessidade de uma “uma
abordagem mais global, e inclusive territorial, da política rural”.[27]
Além disso, processos de reforma das políticas agrícolas
estavam em curso em muitos países membros e, principalmente, na Comunidade
Européia. Tudo isso certamente ajudou para que, em 1991, o Conselho da OCDE
resolvesse criar um programa voltado especificamente para o fenômeno rural,
tendo como primeira tarefa a elaboração de um relatório, só publicado em
1993 com o provocativo título “Que futuro para os nossos campos?” (“What
Future for Our Countryside?”, “Quel avenir pour nos campagnes?”). E
talvez tenha sido justamente por mostrar a dificuldade de se encontrar respostas
convincentes a essa grande interrogação, que esse trabalho tenha contribuído,
não só para a criação do Serviço de Desenvolvimento Territorial, mas,
sobretudo, para que se investisse em ‘estudos de caso’ e ‘oficinas de
trabalho’ que pudessem trazer novos “insights”, mesmo que não trouxessem
conclusões generalizáveis.
Essa linha mais empírica de trabalho foi tão
fecunda que torna impossível qualquer pretensão a uma síntese que lhe faça
justiça. Mas há três pontos que não podem deixar de ser registrados: i) a
matriz dos principais bens e serviços que aproveitam as vantagens competitivas
do meio rural (que resultou de investigações sobre a equivocada noção de
“nichos de mercado”); ii) as
razões da lentidão do processo de aproveitamento dessas vantagens
competitivas; e, sobretudo, iii) a
crescente evidência de que estão nos patrimônios natural e cultural (“rural
amenities” ou “aménités
rurales”) as principais vantagens competitivas dos espaços rurais.
Ao selecionar os estudos de caso, a ênfase recaiu
sobre os bens e serviços que usam recursos mais freqüentes nas áreas rurais.
Em seguida fez-se uma classificação segundo três características - recursos
naturais, heranças culturais e tradicionais, e recursos ambientais – e dois
critérios econômicos - bens e serviços – da qual resultou uma “matriz”
com seis janelas que ilustram muito bem a diversidade da economia rural. Depois
foi feita uma lista dos oito obstáculos que mais dificultam um aproveitamento
econômico mais rápido desses recursos, com ênfase especial para a distância
que existe entre a realidade de formações sociais ainda “agrárias” e a própria
natureza das modernas atividades de “marketing”.
O que mais chama a atenção nas seis janelas da
matriz da diversidade rural é que todas elas estão umbilicalmente ligadas ao
aproveitamento econômico do que se convencionou denominar “amenidades”. Ou
seja, em sua etapa mais avançada, o desenvolvimento rural depende muito mais
das possíveis maneiras de tornar rentável a preservação de peculiaridades
naturais e culturais, do que da exploração dos velhos trunfos baseados na
exploração da fertilidade dos solos, ou no aproveitamento de vantagens de
localização industrial. E quando se consegue estabelecer uma sinergia entre
preservação de “amenidades” e dinamismo econômico – como acontece,
p.ex., no caso da trilha de fronteiras suíça, ou no dos parques naturais
franceses - fica simplesmente
impossível dizer se a atividade é “primária”, “secundária” ou
“terciária”.
A idéia de que os países membros da OCDE devem dar
alta prioridade à capitalização do valor das “amenidades rurais” foi a
principal conclusão da oficina de trabalho realizada em setembro de 1997 no Japão,
na qual foram analisados estudos de caso referentes a doze países (Austrália,
Áustria, Bélgica, Canadá, Finlândia, França, Grécia, Japão, Luxemburgo,
Noruega, Suécia e Suíça). E as
resultantes recomendações sugerem a adoção de dois tipos básicos de políticas:
i) políticas que estimulem a direta coordenação entre os provedores e os
beneficiários das amenidades (apoio à ação coletiva e à valorização
comercial); ii) políticas que ajudem a mudar certas regras econômicas
(regulamentações e incentivos financeiros).[28]
O próprio caráter da exposição feita nos três tópicos
anteriores impede que dela se tirem verdadeiras conclusões (i.é, sínteses de
confirmações ou refutações de hipóteses). Mas permite que sejam formuladas
dez proposições em torno das quais deve se organizar o debate que permitirá o
avanço das pesquisas sobre a face territorial do desenvolvimento:
a)
É errado abordar as relações entre cidade e campo nos termos em que se
desenrola o debate sociológico, i.é, de “dicotomia x continuum”.
O aumento da densidade demográfica nas zonas “cinzentas” - que deixaram de
ser propriamente rurais e que não chegam a ser propriamente urbanas - não
significa que esteja desaparecendo a contradição material e histórica entre o
fenômeno urbano e o fenômeno rural. Em termos econômicos e ecológicos,
aprofundam-se, em vez de diluírem-se, as diferenças entre esses dois modos de
relacionamento da sociedade com a natureza.
b)
Também é errado opor uma tendência de “ressurreição rural” à
velha tese da “desertificação rural”. Em termos estritamente demográficos,
há áreas rurais que continuam se esvaziando e outras que se recuperam. Mas as
possibilidades de dinamismo econômico dessas áreas não estão necessariamente
correlacionadas às tendências demográficas, uma vez que as mais promissoras
vantagens competitivas das áreas rurais são “amenidades” que dependem de
heranças naturais e culturais, podendo ser até melhor aproveitadas por
movimentos apenas temporários de população.
c)
O processo de aproveitamento das novas vantagens competitivas tem sido
muito lento porque depende dos inúmeros e pouco conhecidos determinantes do
“empreendedorismo”. A ênfase no caráter endógeno de tais determinantes -
que está embutida no uso cada vez mais freqüente da noção de “capital
social” - não deve, todavia, levar a pensar que possam ser menos importantes
os determinantes exógenos que resultam da importância que o conjunto da
sociedade dá ao patrimônio natural e cultural de seus espaços rurais.
d)
Fatores supranacionais - como a integração européia ou, de forma mais
ampla, a regionalização internacional e a “mundialização” ou
“globalização” – têm provocado uma heterogênea evolução das políticas
governamentais. A crescente exposição ao comércio internacional e à aceleração
do progresso tecnológico exigem mudanças estruturais que permitam remover obstáculos
ao crescimento e ajudem a aproveitar novas oportunidades. Muitas dessas mudanças
estruturais são de caráter sub-nacional, mostrando a pertinência de uma
abordagem territorial, para a qual os
quadros dirigentes estão, contudo, despreparados. Sabem que o principal desafio
é identificar os fatores que permitiriam ampliar as oportunidades de
desenvolvimento das regiões menos dinâmicas, mas também não ignoram que a
resposta depende de uma explicação ainda muito precária sobre as razões
desse menor dinamismo.
e)
O uso cada vez mais freqüente da noção “DT: desenvolvimento
territorial” (ou “espacial”,
como prefere a Comissão Européia),
tende a substituir a tradicional expressão “desenvolvimento regional”, pois
permite uma referência simultânea ao desenvolvimento local, regional,
nacional, e até continental (no caso da Europa).
f)
Mas essa retórica do “DT” também deve muito à evolução paralela
dos debates da “economia industrial”, da “economia rural” e da
“economia regional e urbana”. Nos últimos quinze anos houve nessas três
disciplinas uma forte valorização da escala “local”, logo seguida (ou
acompanhada) da necessidade óbvia e imperiosa de não isolá-la das escalas
superiores que vão até a “global”.
g)
A retórica do “DT” é certamente melhor que a do “desenvolvimento
local”, mas ambas estão longe de engendrar uma ‘teoria & prática’
que venha, de fato, superar as
divisões setoriais (primário, secundário e terciário) e também permitir um
tratamento integrado da divisão espacial (cidade e campo).
h)
As mudanças semânticas do debate público sempre revelam um sentimento
coletivo de que noções utilizadas até determinado momento não mais dão
conta da percepção que se têm dos problemas enfrentados, nem exprimem direito
o que se gostaria ou pretenderia fazer em seguida. Ou seja, são mudanças que
refletem as hesitações intrínsecas ao enunciado de novos projetos sociais, e,
por isso mesmo, as novas noções em torno das quais se organiza o debate público
costumam ser sempre muito imprecisas, fluidas e ambíguas.
i)
Não há, portanto, muito interesse em saber qual pode ser a utilidade de
cada um dos inúmeros adjetivos que têm sido acrescentados ao substantivo
“desenvolvimento’ conforme evolui o debate público sobre essa grande utopia
dos últimos cinqüenta anos. Por isso, em vez de comparar o valor relativo das
inúmeras maneiras pelas quais se pode subjetivamente qualificar o
desenvolvimento como objetivo central das políticas públicas, o que
interessa é discutir a real relevância da dimensão territorial do
processo objetivo de desenvolvimento.
j)
É muito cedo para saber se, além de um indiscutível progresso retórico,
a noção “desenvolvimento territorial” traz algo de realmente novo para um
eventual desenvolvimento das regiões sem dinamismo econômico, que também
costumam ser chamadas de periféricas ou atrasadas. Por exemplo, se estão
melhorando as chances de uma região como o sul da Itália (“Segunda Itália”)
romper com a estagnação, mesmo que não possa deixar de ser periférica e
atrasada em comparações com as regiões mais dinâmicas. Não apenas porque a
abordagem territorial só começou a engatinhar em meados dos anos 1990, mas
também porque é muito difícil avaliar se as transformações positivas que
estão ocorrendo no Mezzogiorno[29]
poderão vir a ser, de fato, favorecidas por essa nova abordagem.
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[1] Este texto, que é parte do primeiro relatório de andamento da pesquisa que o autor está realizando na Europa com auxílio da FAPESP, já incorpora alguns dos comentários gentilmente enviados pelos colegas Ademir Cazella, Eduardo Ehlers, Ignacy Sachs, e Ricardo Abramovay.
[2] Conforme tipologia da OCDE baseada na proporção da população regional que vive em localidades rurais, i.é, com menos de 150 hab/km2. ‘Essencialmente Rurais’ são as regiões nas quais mais de 50% das localidades são rurais; ‘Relativamente Rurais’ são as regiões nas quais entre 15 e 50% das localidades são rurais; ‘Essencialmente Urbanas’ são as regiões nas quais menos de 15% das localidades são rurais. Ver a propósito Abramovay (1999-a).
[3] Um excelente discussão desse problema está em Bertrand (1975).
[4] Ver sobre este assunto o interessante artigo de Larceneux (1996).
[5] “It is impossible for a rural area to develop without automatically becoming non-rural.” (Saraceno,1994:468).
[6] cf. OCDE (1997).
[7] Parafraseando Jean Rostand, vale lembrar que é muito mais fácil se entender com quem fala outra língua do que se entender com quem dá outros sentidos às mesmas palavras....
[8] Realizados desde o final dos anos 1970 pelos economistas Giacomo Becattini, Gioacchino Garofoli, Sebastiano Brusco e Fabio Sforzi e pelos sociólogos Arnaldo Bagnasco, Carlo Trigilia e Vittorio Capecchi.
[9] Benko & Lipietz (1992); Rallet & Torre (1995); Abdelmalki & Courlet (1996); e Pecqueur (1996).
[10] Cf. Garofoli (1996:370). Ou seja, deve ser impossível a ocorrência dessa economia “difusa” em vastas áreas do território brasileiro, embora ela seja não só possível, como muito provável, no norte gaúcho, em Santa Catarina, no sudoeste do Paraná, em algumas mesoregiões do Sudeste e do Nordeste, e até em certas microrregiões do Centro-Oeste e do Norte.
[11] Cf. OCDE (1998).
[12] Sobre a noção de ‘capital social’, ver Abramovay (1999-b).
[13] Cf. Maillat (1995) e Becattini & Rullani (1995).
[14] Cf. Becattini & Rullani (1995:188-190).
[15] Cf. Sforzi (1996).
[16] cf. Friedmann & Weaver (1979); Sachs (1980); Stöhr (1981).
[17] Chamada de “European Spatial Development Perspective (ESDP)” ou “Schéma de Développement de l’Espace Communautaire (SDEC)”.
[18] O “Territorial Development Service” (TDS) foi criado em 1994.
[19] Leurquin (1998:196).
[20] Cf. UE/ESDP (1997).
[21] Sendo 5 relativas às estruturas urbanas; 2 relativas à mudança do papel das áreas rurais; 7 relativas às mudanças nos transportes, comunicações e conhecimento; e 4 relativas à contínua pressão sobre as heranças natural e cultural.
[22] Esse programa, cuja sigla original era “ILE”, passou depois a ser denominado “LEED: Local Economic and Employment Development”.
[23] Tradução livre de trechos do parágrafo 11 da “Nota do Secretário Geral” C(93)83, de 29/06/93.
[24] Estas observações resultam de uma leitura do processo verbal da reunião do Conselho, um documento “reservado” da OCDE.
[25] Tradução livre do tópico “Territorial Development” da brochura The OECD in the 1990s, pp. 40-41.
[26] Cf. OCDE (1995:77).
[27] cf. OCDE (1993:46).
[28] Cf. OCDE (1999:32-34).
[29] Fala-se mesmo de uma “grande svolta”. Ver a propósito Bodo & Viesti (1997).