As ondas longas do capitalismo industrial
José
Eli da Veiga*
zeeli@usp.br
Publicado na
Revista
da Sociedade Brasileira de Economia Política, número 3, Dezembro de
1998, pp. 59-79
“O
fato de boas previsões se haverem mostrado possíveis com base nas ‘ondas
longas’ de Kondratiev - o que não é muito comum em economia - convenceu
muitos historiadores e mesmo alguns economistas de que elas contêm alguma
verdade, embora não saibamos qual.” (Hobsbawm,1994:92)
1.
Introdução
A suposição
de que a economia tenha qualquer tipo de movimento rítmico recorrente foi
refutada por Angus Maddison em seu excelente livro sobre as fases do
desenvolvimento capitalista. Apontando insuficiências metodológicas e
contrapondo estimativas sobre taxas de crescimento do núcleo central da
economia capitalista, Maddison (1982) rejeitou inteiramente as ondas longas de
Kondratiev, os ciclos de médio prazo de Kuznets-Abramovitz, a montagem de
Schumpeter (que insere ciclos curtos de Kitchin e médios de Juglar em cada
Kondratiev), assim como “ressurreições” das ondas longas nas obras de
Rostow e de Mandel [i].
Afirmou que as grandes fases do desenvolvimento capitalista decorrem de
choques sistêmicos específicos e de reorientações das políticas
governamentais que nada têm a ver com a sinuosidade dos movimentos ondulatórios
[ii].
As
primeiras análises sobre as ondas longas foram, de fato, bem precárias.
Basta dizer que elas não dispunham de medidas agregadas do produto interno
dos países considerados. Na cronologia de Schumpeter, por exemplo, a primeira
"recessão" do século XX teria ocorrido entre 1912 e 1925, sendo
seguida pela "depressão" de 1925-39. Ele não tinha como saber, por
exemplo, que, entre 1920 e 1925, o conjunto dos países desenvolvidos crescera
a uma taxa per capita anual superior
à da década de 60, de 3,58%, (Bairoch,1993:7).
Mesmo
assim, pode-se suspeitar que não seja mera coincidência que a história econômica
da Grã Bretanha, no século XIX, e dos Estados Unidos, no século XX, tenha
sido marcada por significativos impulsos situados nas décadas de 40,
subsequentes às Revoluções de 1848 e à IIa.GM. Também é coincidência
demais o fato desses dois grandes impulsos terem durado até o início das décadas
de 70. E parece muito estranho estabelecer o vasto período 1820-1913 como uma
única e primeira fase de desenvolvimento do capitalismo industrial, como faz
Maddison. O gráficos I e II foram construídos com os dados estatísticos que
ele mesmo fornece e indicam mudanças de padrão de crescimento em 1848 e
1892. Foram essas suspeitas que estimularam um exame mais atento da questão.
Este texto é um primeiro balanço dessa investigação sobre as ondas
longas.
2.
O fenômeno
O debate
sobre as ondas longas refere-se apenas ao capitalismo industrial, com seus
dois regimes sistêmicos de acumulação, liderados respectivamente pela Grã-Bretanha
e pelos Estados Unidos. Não abrange os dois regimes anteriores do capitalismo
histórico, de caráter comercial, o genovês e o holandês conforme a
caracterização de Arrighi (1994). É consenso entre os que trabalham com a
hipótese da existência dessas ondas que as duas primeiras, correspondentes
à hegemonia britânica, ocorreram durante as duas partes do século XIX
separadas pelas revoluções de 1848. Também
é consenso que as duas seguintes, correspondentes à hegemonia
norte-americana, foram as duas partes do século XX separadas pela IIa. Guerra
Mundial.
Nas quatro
ondas houve momentos de inflexão entre fases de aceleração e desaceleração
do crescimento. No caso da primeira onda, para a qual os dados estatísticos são
os mais precários, supõe-se que essa inflexão tenha ocorrido em torno de
1826, ano considerado por Marx como o da primeira crise de superprodução
industrial. No caso da segunda onda, a inflexão ocorreu em torno de 1873,
quando começou a chamada “Grande Depressão.” Usando-se as estimativas de
Maddison (1982:169), nota-se que o PIB do Reino Unido, que havia crescido 64%
nos 22 anos anteriores a 1873, cresceu apenas 49% nos 22 anos subsequentes
(1873-1895). Pode parecer estranho que algo semelhante tenha ocorrido na
terceira onda, devido ao crescimento febril durante os “exuberantes anos
20” nos Estados Unidos, intercalados entre dois fortes choques: a Ia. Guerra
Mundial e o colapso de 1929. No entanto, o contraste entre o crescimento
anterior e posterior a 1913 é muito significativo. O PIB dos Estados Unidos,
que havia crescido 89% nos 16 anos anteriores a 1913, cresceu apenas 63% nos
16 anos subsequentes, até o colapso de 1929. E na quarta onda é quase unânime
que se considere o ano de 1973 como o fim da “Idade de Ouro” e início do
atual marasmo. Tanto é que o próprio
Maddison considera os períodos 1913-1950 e 1950-1973 como as segunda e
terceira “fases da época capitalista”.
Quadro 1 - Cronologia das Ondas Longas nas Nações Líderes
|
Ondas longas |
Expansões |
Retrações |
|
Primeira (GB) |
1789-1826 |
1826-1848 |
|
Segunda (GB) |
1848-1873 |
1873-1895 |
|
Terceira (EUA) |
1895-Ia
G.M. |
Ia
G.M. - IIa. G.M. |
|
Quarta (EUA) |
IIa
G.M.-1973 |
1973
- (?) |
3.
Principais interpretações
Foram índices
de preços e de taxa de juros que levaram os “pioneiros” [iii]
a identificar longas ondas na economia. Não foram informações sobre a produção,
investimento ou emprego, indicadores diretos de acelerações e desacelerações
do crescimento econômico. Há portanto muita diferença entre a procura de
regularidade temporal
- i.é, de verdadeiros ‘ciclos’ - e o interesse em caracterizar
‘fases’, ‘estágios’, ‘etapas’ do desenvolvimento capitalista, sem
qualquer preocupação com a regularidade temporal.
No debate
sobre as ondas longas, nem sempre fica explícito que essas duas preocupações
correspondem a duas posturas bem distintas. Os que procuram usar técnicas
estatísticas cada vez mais sofisticadas para confirmar a existência de
regularidades temporais nas variações de índices, inclusive de produção
agregada, supõem que o sistema econômico tenha uma espécie de pulsação,
isto é, um movimento de dilatação e contração endógeno à economia
capitalista [iv].
Os que, ao contrário, procuram examinar as relações entre fases de expansão/retração
econômicas e outros fatos históricos - sejam eles tecnológicos, sociais,
institucionais, políticos, ou militares - supõem que as grandes etapas do
desenvolvimento capitalista sejam determinadas por algum tipo de combinação
de fatores endógenos e exógenos ao sistema econômico [v].
Para os primeiros, fenômenos como as duas guerras mundiais podem ser
entendidos como acidentes que alterariam uma normalidade cíclica.
Para os outros eles podem constituir os próprios pontos de mutação.
A
literatura sobre as ondas longas mostra que a primeira concepção - da
endogenia - está sendo abandonada, inclusive por autores de tradição
schumpeteriana, os mais propensos a assumí-la. Quase todas as novas contribuições
ao debate tendem a estabelecer algum tipo de combinação entre fatores endógenos
e exógenos. Mesmo assim, persistem enormes diferenças de ênfase, que variam
conforme a filiação teórica do analista.
3.1
A abordagem schumpeteriana
Para
Schumpeter, a base explicativa das ondas longas está nas inovações.
Distinguindo-as das invenções, ele enumerou cinco tipos: lançamento de
novos produtos, introdução de novos métodos de produção, abertura de
novos mercados, exploração de novas fontes de matérias primas e surgimento
de novas formas de organização empresarial. Esses cinco tipos de inovações
costumam resultar da ação emprendedora de uma vanguarda, difundindo-se,
depois, pelo conjunto da economia num processo de ‘destruição criativa’.
Por destruição criativa Schumpeter entendia a ascensão de ramos de
atividades inteiramente novos que minavam a base de velhos setores e
tecnologias. Numa fase inicial as inovações rendem altos lucros à
vanguarda, mas são paulatinamente dissipados à medida vão sendo adotadas
por um número cada vez maior de seguidores. Assim, num primeiro momento, os
investimentos em inovações promovem uma expansão que distancia a economia
de seu ponto de equilíbrio. Mais tarde, quando sua rentabilidade está sendo
dissipada, a economia se contrai, tendendo a voltar a seu ponto de equilíbrio.
Numa segunda aproximação, Schumpeter caracteriza quatro fases, em vez de
duas, por meio de considerações de ordem psicológica que levam a recessão
a ultrapassar o ponto de equilíbrio, transformando-se numa depressão;
seguida de uma recuperação que recoloca a economia em seu ponto de equilíbrio
[vi].
Quadro 2 - A cronologia schumpeteriana
|
|
Prosperidade |
Recessão |
Depressão |
Recuperação |
|
K-1 (1787-1842) “Rev. Industrial” * |
1787-1800 |
1801-1813 |
1814-1827 |
1828-1842 |
|
K-2 (1842-1897) (Ferrovias) |
1843-1857 |
1858-1869 |
1870-1885 |
1886-1897 |
|
K-3 (1897- ?) (Eletric./automóvel) |
1898-1911 |
1912-1925 |
1926-1939 |
|
* Tecidos de algodão, ferro
e motor a vapor.
O
principal pressuposto da interpretação schumpeteriana é, portanto, a
descontinuidade do processo gerador de inovações.
As fases de prosperidade seriam engendradas por espasmos ou surtos
inovadores, como os que marcaram a Revolução Industrial, a expansão ferroviária
e, no início do século XX, a
eletrificação e o automóvel.
Uma boa
defesa dessa hipótese schumpeteriana foi feita por Alfred Kleinknecht (1987).
Trouxe novas confirmações sobre a existência das ondas longas,
principalmente para o período posterior a 1890, baseadas em indicadores de
crescimento econômico e não de preços, como haviam feito os pioneiros.
Depois verificou que as fases de expansão ou prosperidade (“A-periods”)
estiveram, de fato, associadas aos tais surtos inovadores, particularmente no
que se refere às patentes de novos produtos.
Mesmo
assim, Kleinknecht (1987) rejeita a idéia de uma determinação inteiramente
endógena das ondas longas, como se elas fossem verdadeiros ciclos. Considera
que os surtos de inovações constituem um importante elemento endógeno do
processo formador das ondas longas, mas que eles não devem levar a uma teoria
“monocausal”. Enfatiza que a
hipótese schumpeteriana não deve ser entendida como uma hipótese
concorrente da hipótese marxista, mas que as duas devem ser vistas como
complementares [vii]
.
3.2
A abordagem marxista
Para os
marxistas, as ondas longas são períodos históricos irregulares de acumulação
de capital intimamente relacionados com mudanças significativas na taxa de
lucro média. O início de uma fase de prosperidade corresponde a movimentos
sincrônicos de aumento da taxa de mais-valia, menor elevação da composição
orgânica do capital e aceleração da rotação do capital. Quando há
combinação de pelo menos dois desses três fenômenos, a tendência geral à
queda da taxa de lucro média é fortemente contrariada, gerando um firme período
de expansão. Esse tipo de arranque exige ‘choques sistêmicos’ (fatores
exógenos, extra-econômicos), enquanto as resultantes expansões são
interrompidas por razões essencialmente endógenas: quando a composição orgânica
do capital volta a aumentar e/ou os trabalhadores conseguem impedir que a taxa
de mais-valia se mantenha tão alta. A ação conjunta desses dois fatores impõe
reduções na taxa de lucro média que acabam reduzindo o rítmo de acumulação.
Não há
aqui qualquer ênfase nas inovações, a não ser enquanto freios à elevação
da composição orgânica do capital ou alavancas para um súbito aumento da
taxa de mais-valia. O principal
pressuposto da interpretação marxista não é, portanto, a descontinuidade
do processo gerador de inovações, e sim os movimentos da taxa de lucro média
[pl/(c+v)].
O melhor
defensor da hipótese marxista foi, sem dúvida Ernest Mandel
(1972,1992,1995), o trotskista belga[viii]que chegou a prever o
final da “idade de ouro” com notável precisão[ix].
Para ele, a existência das ondas longas fica patente nas evoluções da produção
industrial e do comércio internacional.
Embora às vezes hesite sobre a ocorrência de uma verdadeira expansão
imediatamente anterior à crise de 1826, o autor considera que os dois
indicadores tiveram nítidas oscilações nos períodos indicados no quadro
abaixo.
Quadro 3 - A cronologia de Mandel
|
|
Expansões |
Contrações |
|
Século XIX |
(1789)
- 1815(25) 1848-1873 |
1826-1847 1874-1893 |
|
Século XX |
1894-1913 1940(48)-1967 |
1914-1939 1968(73)
- (?) |
Para
Mandel, as condições básicas de cada expansão estão numa somatória de
fatores que contrariam a tendência geral à queda da taxa de lucro média.
Nesse sentido, as inovações enfatizadas pelos schumpeterianos, explicariam
somente porque uma expansão se consolida, não porque ela ocorre[x].
E foram justamente as principais inovações deste final de século que o
levaram a uma posição bem cética sobre à possibilidade de um próximo período
de expansão vir a ter início nos anos 1990. Principalmente porque sua avaliação
sobre as perspectivas de aplicação das novas tecnologias baseadas na
microeletrônica levaram-no a prever que os custos sociais e humanos de
“adaptação” serão muito mais altos do que foram nos anos 1930 e 1940 [xi].
3.3
Abordagens ecléticas
Na
literatura recente sobre as ondas longas pode-se distinguir dois tipos básicos
de abordagens ecléticas: (a) as que se voltam a uma descrição concreta do
fenômeno, sem muita preocupação com a consistência da explicação teórica
que acabam reforçando; (b) as que têm alguma pretensão de superar a divergência
entre as abordagens schumpeterianas e marxistas.
Do lado
mais descritivo podem ser mencionadas as contribuições de Mager (1987),
Goldstein (1988), Berry (1991) e Modelski & Thompson (1996). A primeira
propõe mais uma detalhada “anatomia” da manifestação das ondas longas
nos Estados Unidos do que uma tentativa coerente de interpretação. A segunda
preocupa-se essencialmente com as relações entre o fenômeno econômico e as
guerras, desde 1495. A terceira utiliza uma infinidade de gráficos para
confirmar a existência das ondas longas. E a quarta tenta apresentar
19 ondas de “coevolução” global entre política e economia desde
a idade do bronze...
Do lado
mais analítico, merecem destaque as contribuições dos regulacionistas
franceses e do grupo americano filiado à “abordagem das estruturas sociais
de acumulação” (ou “SSA
approach”). Mas também devem ser registrados dois outros ensaios:
Bresser Pereira(1986) e Kleinknecht (1992), apesar de parecerem rudimentares
quando comparados à evolução das correntes regulacionista e “SSA”.
Bresser
Pereira (1986) propôs uma análise sistemática da dinâmica dos ciclos
intermediários (do tipo Juglar), usando as abordagens marxista e keynesiana.
Depois, em rápida menção às ondas longas, Keynes é substituído por
Schumpeter: “O ciclo econômico depende fundamentalmente do equilíbrio
entre a oferta e a procura agregadas e da luta de classes na fase final da
expansão, enquanto que os ciclos longos são explicados basicamente pelas
ondas schumpeterianas de inovação...”(Bresser Pereira,1986:221). E em
curta introdução a uma das melhores obras coletivas sobre as ondas longas,
Kleinknecht (1992) apresenta um simples diagrama no qual a idéia do
multiplicador keynesiano serve para estabelecer novas ligações entre as
abordagens schumpeteriana e marxista[xii].
Para os
regulacionistas Dockès & Rosier (1992), por exemplo, as ondas longas não
devem ser consideradas movimentos cíclicos, mas sim uma alternância de
“ordens produtivas” e “mutações.”
Enfatizando a relação dialética entre conflito e inovação,
amplamente estudada em trabalhos anteriores (Dockès,1979; Dockès &
Rosier,1988), a dupla propõe um esquema no qual as condições favoráveis ou
desfavoráveis ao surgimento de grandes compromissos sociais têm muito mais
importância do que qualquer determinação econômica[xiii]. Entendido como uma
terceira hipótese, o esquema proposto por Dockès & Rosier talvez possa
vir a ser uma via de convergência entre neoschumpeterianos e neomarxistas
(Veiga,1996). Mas seria muito arriscado admitir que ele torna descartáveis as
hipóteses originais dessas duas correntes.
A mesma
coisa deve ser dita a respeito da abordagem “SSA”, cuja origem foi a
pesquisa de David Gordon (1978,1980,1983) sobre as ondas longas, e que acabou
tendo desdobramentos parecidíssmos aos do regulacionismo francês.
Ao longo dos anos 1980, os pesquisadores ligados a essa abordagem foram
se afastando cada vez mais de explicações da recorrência das flutuações
de longo prazo por suas determinações econômico-tecnológicas e dando cada
vez mais importância para o papel das instituições no processo econômico.
Mais do que uma abordagem concorrente, ela é apresentada como algo que vai
“além das formulações marxistas tradicionais” (Kotz,1994:85).
A base das
interpretações “SSA” e regulacionista não está na descontinuidade do
processo gerador de inovações, nem nos movimentos da taxa de lucro média,
mas sim no complexo de instituições que sustenta o processo de acumulação.
A principal diferença entre elas está na forte tensão inerente à própria
raiz marxista sobre a autonomia relativa da luta de classes.
Os primeiros admitem ser um pouco “voluntaristas” demais e enxergam
seus “primos irmãos” franceses como um pouco “estruturalistas”
demais. (Kotz,1994:96).
4.
Duas ilustrações
a)
O impulso da terceira onda
Um bom
exemplo está na maneira como os estudiosos caracterizam o início da terceira
onda. Schumpeterianos, como Freeman & Perez (1988), não desprezam a
oligopolização, ou o “novo imperialismo”, mas centram a explicação nos
novos ramos industriais gerados pela eletricidade e barateamento do aço. Para
os marxistas, como Mandel (1995), trata-se de uma inversão de sinais. Os
novos horizontes oferecidos por essas tecnologias podem ter consolidado o
terceiro impulso, mas ele foi desencadeado pelo aumento da taxa de lucro
viabilizado pelas exportações de capitais e o resultante barateamento de matérias-primas
e gêneros alimentícios. Insatisfeitos com as duas explicações, os adeptos
da abordagem “SSA,” como McDonough (1994), pretendem superá-las mostrando
como a expansão da virada do século
foi socialmente construída no novo centro, os Estados Unidos.
O “Prometeu
Desacorrentado“ é uma boa fonte descritiva das ondas longas, apesar do
distanciamento crítico assumido por Landes quando menciona os
“pioneiros,” Schumpeter ou “os marxistas”. Reforça a abordagem
schumpeteriana ao enfatizar o “feixe de inovações”, mesmo que diluído
na imagem de um “climatério” das relações entre as economias nacionais.
Para ele, a desaceleração iniciada nos anos 1870 “só foi revertida por
volta da passagem do século, quando uma série de grandes avanços abriu
novas áreas de investimento. Esses anos assistiram à vigorosa infância, senão
ao nascimento, da energia e dos motores elétricos; da química orgânica e
dos sintéticos; do motor de combustão interna e dos dispositivos
automotores; da indústria de precisão e da produção em linhas de montagem
- um feixe de inovações que mereceu o nome de Segunda Revolução
Industrial” (Landes,1969:243).
Lembra que
também foi nesse final do século XIX que as condições do comércio
internacional alteraram-se profundamente devido à industrialização das nações
até ali “retardatárias”. “O crescimento econômico passou então a ser
também a luta econômica - uma luta que serviu para separar os fortes e os
fracos, desencorajar alguns e endurecer outros, e favorecer as nações novas
e ávidas à custa das antigas. (...) Tudo isso fortaleceu - e, por sua vez,
foi fortalecido - por rivalidades políticas que se aguçavam, fundindo-se
essas duas formas de competição no surto final de avidez de terras e na caçada
de ‘esferas de influência’ que foram chamados de Novo Imperialismo”
(Landes,1969:248).
Depois de
chamar atenção para outros aspectos, como a introdução de novos métodos
de distribuição varejista e a oligopolização engendrada pelos novos cartéis
e trustes, pergunta qual seria “a significação mais ampla dessa profusão
de inovações, ora mutuamente reforçadoras, ora contraditórias”. “A
resposta parece residir no vívido termo de Phelps-Brown, ‘climatério’ -
só que aplicado não apenas à Inglaterra, mas à economia mundial como um
todo, e primordialmente concebido em termos das relações das economias
nacionais entre si. (...) O fato de essa mudança de vida ter coincidido com
uma transformação tecnológica igualmente fundamental só fez complicar o
que era, intrinsicamente, uma adaptação difícil...” (Landes,1969:255-6).
Segundo
Hobsbawm (1988:77), esses dois aspectos - inovações e relações das
economias nacionais - seriam secundários do ponto de vista da economia
mundial. Para ele, “a chave do
problema está claramente na faixa central de países industrializados e em
vias de industrialização, que se estendia cada vez mais na região temperada
do hemisfério norte, pois eles agiam como motor do crescimento global, a um
tempo como produtores e como mercado. Esses países agora formavam uma massa
produtiva enorme, crescendo e se estendendo rapidamente no núcleo da economia
mundial.” Mesmo considerando a hipótese schumpeteriana “bastante plausível,”
o autor contesta seu valor explicativo para o início da terceira onda. “O
problema, no caso do desenvolvimento rápido do fim dos anos 1890, é que as
indústrias inovadoras daquele período - em sentido amplo, as químicas e elétricas,
ou as associadas às novas fontes de energia prestes a competir seriamente com
o vapor - por enquanto ainda não pareciam ter porte suficiente para dominar
os movimentos da economia mundial” (Hobsbawm,1988:75).
Essa rejeição
da hipótese schumpeteriana é bem mais incisiva na interpretação marxista
de Mandel (1972,1995). Ela “consistiu em relacionar as diversas combinações
de fatores que podem influenciar a taxa de lucros (tais como uma queda radical
do custo de matérias primas; uma súbita expansão do mercado mundial ou de
novos campos de investimento para o capital; um rápido aumento ou um rápido
declínio na taxa de mais valia; guerras e revoluções) na lógica interna do
processo de acumulação e valorização do capital a longo prazo, baseado em
jatos de renovação radical ou reprodução de tecnologia produtiva
fundamental. (...) No início dos anos 90 do século XIX, os fatores
desencadeantes da nova onda longa de expansão foram o enorme vigor das
exportações de capitais para as colônias e semicolônias, e o resultante
barateamento das matérias-primas e gêneros alimentícios, que similarmente
conduziram a uma aguda elevação na taxa de lucros nos países imperialistas.
Isso tornou possível a segunda revolução tecnológica, bem como uma queda
nos custos do capital fixo e uma aceleração pronunciada do tempo de rotação
do capital industrial em geral - em outras palavras, tornou possível outro
aumento fundamental na massa e na taxa de mais-valia e de lucros”
(Mandel,1972:101-2).
O
argumento central dos regulacionistas/”SSA” é que um longo período de rápida
e estável expansão econômica exige um ‘modo de regulação,’ ou
‘estrutura social de acumulação,’ que engloba instituições políticas
e culturais, além de econômicas. Elas vão das relações trabalhistas aos
acordos internacionais, passando pela organização do processo de trabalho, o
sistema financeiro, os partidos políticos, a ideologia dominante, etc. As
características de cada “SSA” são engendradas pelas
condições objetivas que condicionam a luta de classes durante a fase
de contração da onda precedente. Por isso, é muito variável o tempo de
construção da nova estrutura social de acumulação.
Segundo
McDonough(1994), foi bem rápida a construção da “SSA” que ensejou forte
expansão da virada do século. Suas instituições básicas foram forjadas em
apenas seis anos, entre 1898 e
1904, e seu princípio unificador foi a oligopolística estrutura de mercado
estabelecida pelo forte movimento de fusões ocorrido entre 1898 e 1902.
Além dessa mais concentrada estrutura industrial, o autor indica cinco
outras formas institucionais que caracterizam a essência da nova “SSA”: o
taylorismo, o esquema de regulamentação dos trustes, um novo sistema
eleitoral que permitiu duradouro domínio republicano, uma nova ideologia
corporatista e o início da hegemonia internacional dos Estados Unidos.
b)
O impulso da quarta onda
Para os que rejeitam a existência
das ondas longas - como Angus Maddison, p.ex. - o desempenho do capitalismo
entre a IIa Guerra Mundial e o início dos anos 1970 constitui um dos fatos
mais intrigantes da história econômica. Particularmente as razões da
aceleração do aumento de produtividade média. Seis pontos predominam nas
discussões: (1) o nível de flutuação e estabilidade da demanda,
bem como as expectativas dessa demanda; (2) a marcha do progresso técnico; (3) o crescimento e o nível do estoque
de capital; (4) a transmissão
entre países das influências favoráveis ao crescimento, particularmente
por meio do comércio; (5) mudanças
estruturais; e (6) outros
fatores que influenciam a eficiência
da alocação de recursos.
Depois de examinar cada um
desses fatores Maddison (1982:96) concluiu que as principais forças da
aceleração do pós-guerra foram os altos e estáveis níveis da demanda e a
aceleração do crescimento do estoque de capital induzido pela forte demanda.
Melhorias na alocação de recursos devido à eliminação do
subaproveitamento do trabalho na agricultura, assim como a eliminação de
barreiras ao comércio internacional deram um impulso suplementar ao
crescimento da produtividade na Europa e no Japão. Ou seja, ele não
encontrou evidências que apoiassem a tese de que a aceleração do pós-guerra
foi causada pela maior rapidez da inovação técnica. A fronteira tecnológica
situava-se predominantemente na economia americana, na qual a produtividade
aumentou muito menos do que na Europa ou no Japão. A aceleração do
crescimento fora dos Estados Unidos é basicamente explicável pela redução
do retardamento técnico.
Para os
que admitem a existência das ondas longas, o que parece intrigante não é o
advento da “Era de Ouro” em si mesma, mas sua profundidade e extensão. O
que exige explicação, segundo Hobsbawm (1994:263), não é o simples fato de
um extenso período de expansão econômica e bem-estar seguir-se a um período
semelhante de problemas econômicos e outras perturbações. “Essa
sucessão de ‘ondas longas’, de cerca de meio século de extensão, formou
o ritmo básico da história econômica do capitalismo desde fins do século
XVIII. (...) O que exige explicação não é isso, mas a escala e
profundidade extraordinárias desse boom secular, que é uma espécie de
contrapartida da escala e profundidade extraordinária da era anterior de
crises e depressões. Na verdade não há explicações satisfatórias para a
enorme escala desse ‘Grande Salto Adiante’ da economia mundial
capitalista...”
Schumpeterianos,
como Freeman & Perez (1988) centram a explicação do impulso da quarta
onda no petróleo, como fator-chave, e nos ramos industriais associados: automóveis,
caminhões, tratores, tanques, armas para veículos de guerra motorizados, aviões,
construção de auto-estradas e aeroportos, etc.
Outra vez,
para marxistas, trata-se de uma inversão de sinais. Os novos horizontes
oferecidos por essas tecnologias certamente consolidaram o quarto impulso, mas
ele foi desencadeado pelo aumento da taxa de lucro viabilizado pela derrota
histórica sofrida pela classe operária durante as décadas de 1930 e 1940
(fascismo, guerra, Guerra Fria e macarthismo).
Segundo
Mandel (1995:18) essa derrota permitiu que a classe capitalista impusesse um
significativo aumento da taxa de mais-valia que variou entre 100 e 300% em países
como Alemanha, Japão, Itália, França e Espanha. Esses saltos nas taxas de
exploração foram acompanhados por reduções nas taxas de crescimento da
composição orgânica do capital engendradas pelo barateamento de matérias
primas e vários elementos do capital fixo depois de 1951, pelo fácil e
barato acesso ao petróleo do Oriente Médio e pela aceleração da rotação
do capital favorecida tanto por profundas mudanças nas telecomunicações e
no crédito, quanto pelo nascimento de um verdadeiro mercado monetário
internacional junto com as grandes corporações multinacionais.
Insatisfeitos
com as duas interpretações, os adeptos da abordagem “SSA,” tendem a
enfatizar pelo menos cinco instituições do pós-guerra como elementos-chave
da construção da nova estrutura social de acumulação: o “conservador
Estado keynesiano,” a dominação dos Estados Unidos, o “burocrático sindicalismo pão-com-manteiga,” a coalizão política
em torno dos Democratas e a ideologia da Guerra Fria (McDonough
,1994:114-123).
5.
Uma hipótese sobre a quinta onda
Ao se tentar formular uma hipótese
sobre a quinta onda é fácil perceber o quanto as abordagens schumpeteriana,
marxista e regulacionista podem se completar. É difícil discordar dos
neoschumpeterianos quando dizem que a microeletrônica será para a quinta
onda longa o que o petróleo foi para a quarta. O problema é saber como a
difusão da informática poderá desencadear a expansão econômica que dará
início à nova onda. Por mais que as inovações ligadas a essas tecnologias
de informação já tenham acelerado o tempo de rotação do capital, isto por
si só não é suficiente para um aumento razoável da taxa de lucro. Enquanto
essas inovações continuarem a reduzir a necessidade de trabalho vivo -
reduzindo, portanto, o capital variável, sem reduzir em proporção comparável
o valor do capital constante - a evolução da composição orgânica não
ajudará a aumentar a taxa de lucro. Da mesma forma, enquanto essas inovações
não provocarem uma forte redução do valor da força de trabalho também não
haverá possibilidade de um aumento significativo da taxa de mais-valia, por
mais que movimentos sindicais estejam na defensiva.
Qualquer hipótese sobre um
quinto impulso exige uma discussão sobre a possibilidade de um aumento da
taxa de lucro média com forte redução do capital variável e pouca variação
do capital constante. Isto só pode ocorrer com um forte aumento da taxa de
mais valia relativa, o que exige forte redução do valor da força de
trabalho.
Em outras palavras, serão
necessárias muitas inovações nos ramos que produzem bens de capital e matérias
primas para que não haja aumento relativo do capital constante. E também serão
necessárias outras tantas inovações nos ramos que produzem as mercadorias
que determinam o valor da força de trabalho para que aumente a taxa de
exploração.
Finalmente,
mas não menos importante, é lembrar que um capitalismo no qual o trabalho
produtivo se torna cada vez menos necessário é muito diferente da sociedade
industrial que atingiu seu ápice nos três decênios que se seguiram à IIa.
Guerra Mundial. Basta lembrar o quanto pesaram na Era de Ouro a indexação
dos salários à produtividade industrial, ou as políticas keynesianas de
monitoramento da demanda, para perceber a importância da dimensão
institucional.
Os padrões
de consumo e o perfil da demanda dos mercados de massa que garantiram o
desencadeamento da quarta onda resultaram de importantes mudanças na
estrutura da distribuição da riqueza e da renda, sem as quais não poderiam
ter ascendido as novas classes médias. Pode-se supor, portanto, que a quinta
também envolverá mudanças comparáveis que possam garantir a expansão dos
mercados. Só que, hoje, a desigualdade social e econômica entre os que
fornecem os serviços pessoais e os que os compram vem aprofundando a
pauperização de uma massa crescente de pessoas,
tanto na América do Norte quanto na Europa Ocidental. Passou a ser
privilégio de uma minoria o emprego estável, a tempo integral, o ano inteiro
e durante toda a vida ativa.
Quais
modos de regulação poderão garantir alguma estabilidade ao próximo boom do capitalismo? Ao nível dos Estados nacionais, a recente onda
liberal, neoliberal ou "liberal-produtivista" trouxe mais impasses
do que soluções, não permitindo supor que surja por aí a superação do welfare
state. Paralelamente, a necessidade de um eficiente sistema de coordenação
global fica cada vez mais evidente. Fala-se muito da tendência à formação
de blocos regionais, mas, até agora, somente a União Européia pode ser
considerada como autoridade supra-nacional, isto é, constituída pela abdicação
voluntária de parte do poder nacional por um grupo de estados que,
isoladamente, não poderiam ter muita força no cenário mundial.
A evidente incapacidade do G-7 de reformar o sistema de regulação
montado em Bretton Woods é sinal bem revelador da fragilidade atual da ordem
internacional.
6.
Conclusão
De todos
os trabalhos examinados, apenas um (Salomou,1987) tende a corroborar a avaliação
negativa de Maddison (1982). Mas as restrições metodológicas que fazem,
tanto aos “pioneiros,” quanto a Schumpeter, foram superadas pelo trabalho
de Kleinknecht (1987) e, principalmente, pela análise de Reijnders (1990). Usando técnicas estatísticas
avançadas, ambos confirmaram o fenômeno conhecido como “ondas de
Kondratiev.”
Em termos
empíricos, a contestação de Maddison (1982) baseia-se essencialmente na
insignificância das mudanças econômicas até a Ia. Guerra Mundial. Todo o
período 1820-1913 seria, segundo ele, apenas a “primeira fase do
capitalismo industrial”. Isso se deve exclusivamente à opção de examinar
a evolução do PIB agregado das 16 nações mais industrializadas, como se
pudesse haver tanta sincronização entre essas economias. Se tivesse optado
pelo exame das nações líderes - o que seria, aliás, muito mais coerente
com a primeira parte do livro - não teria deixado de discutir as alterações
na cadência do crescimento nas décadas de 1840 e 1890, como mostram os gráficos
I e II. Não teria passado a borracha sobre as segunda e terceira ondas, a
“vitoriana” e a da “belle époque”.
A maioria
dos que estudaram as ondas longas estão, portanto, na situação
caracterizada por Hobsbawm na passagem escolhida para abrir este texto:
convencidos de que elas contêm alguma verdade, embora não saibam qual. Quase
todos acham que elas têm alguma coisa a ver com as inovações
(particularmente as tecnológicas), com os determinantes da taxa de lucro
(composição orgânica, taxa de mais-valia, tempo de rotação do capital) e
com o aparato institucional que garante (ou “regula”) a acumulação. A
controvérsia reside na ênfase que “muitos historiadores e mesmo alguns
economistas” tendem a atribuir a algum desses três ingredientes. É raro
que os três não estejam presentes nas diversas combinações possíveis, mas
é sempre um deles que aparece como causador essencial.
Este balanço
sugere que os argumentos dos que acreditam na recorrência de ondas longas
durante o capitalismo industrial são plausíveis e merecem ser levados a sério.
Isto não quer dizer que a existência dessas ondas esteja completamente
demonstrada. Como muitas outros idéias das teorias econômicas, a das ondas
longas deve ser entendida como uma útil hipótese geral em pesquisas sobre a
história econômica dos últimos duzentos anos.
Outra
constatação que decorre deste balanço inicial é que nenhuma das três
principais abordagens das ondas longas (schumpeteriana, marxista e
regulacionista/”SSA”) pode ser considerada suficientemente satisfatória
para que as outras sejam descartadas. É impossível imaginar que uma boa
interpretação dos fatos históricos que engendraram cada uma das quatro
ondas possa se concentrar apenas nas inovações, nas lutas de classes ou nas
estruturas sociais de acumulação. A formulação tentativa de uma hipótese
sobre a próxima onda mostrou que a integração das três abordagens não é
somente necessária, mas está longe de constituir um ingênuo ecletismo.
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* Observações valiosas foram obtidas junto aos colegas Leda Paulani, Paul Singer e Ricardo Abramovay. Aos três registro minha especial gratidão.
[i]
"the
case for believing that there are regular long-term rhythmic movements in
economic activity has not been proven, although many fascinating hypotheses
have been developed in looking for them." (Maddison,1982:83)
Conclusões muito parecidas podem ser encontradas em Salomou (1987).
[ii]
“Nevertheless, it is clear
that major changes in growth momentum have ocurred since 1820, and some
explanation is needed. In my view it can be sought not in systematic long
waves, but in specific disturbances of an ad hoc character. (...) I also
feel that the institutional-policy mix plays a bigger role in capitalist
development than do many of the long-wave theorists.”
(Maddison,1982:83)
[iii]
Foi tão grande a repercussão das pesquisas realizadas
nos primeiros anos da URSS pelo economista Nikolai Dmitrievich Kondratiev,
que hoje é comum a referência às “ondas de Kondratiev” em vez de ondas longas. Mas ele não foi o primeiro.
Observando a tragédia das grandes fomes dos anos 1790 e 1840, Hyde Clark já
havia sugerido, em 1847, a possível existência de ondas de 54 anos,
subdivididas em ciclos de aproximadamente 10 anos. Nos anos 1880, ao
construir uma das primeiras séries longas de preços, Jevons chegou a
examinar essa hipótese, mas foi mais atraído pela procura de ciclos de
10-11 anos. As especulações sobre esses ‘ciclos de negócios’
estiveram em alta na sequência dos resultados obtidos por Juglar nos anos
1860. Jevons achava que eles talvez estivessem relacionados às oscilações
das colheitas, que lhe pareciam por sua vez determinadas pela aparição
periódica de manchas solares. Na virada do século, Tugan-Baranowsky
apresentou esses ciclos (que ele chamava de ‘industriais’), como partes
de um padrão de longo prazo. E não se sabe até que ponto foi a obra de
Tugan-Baranowsky que incentivou os estudos do início do século XX
considerados “pioneiros”. Além de Kondratiev, apenas o holandês van
Gelderen explicitou, em 1913, a influência de Tugan-Baranowsky. Mas há
suspeitas de que ela tenha sido igualmente importante em outras publicações
do mesmo ano, como as dos franceses Aftalion e Lenoir e a do franco-suiço
Pareto. Mesmo a brochura de Parvus (pseudônimo de Alexander Helphand) foi
publicada em 1901, o ano da tradução alemã de Tugan-Baranowsky.
Já nas décadas de 1920 e 1930, muitos estudos passaram a discutir
possíveis causas ‘exógenas’ das ondas longas, nem sempre sendo incluídos,
por isso, na mesma família de pioneiros. Entre eles estão: Trotsky,
Spiethoff, Sombart, Wagemann, Cassel, Hansen, Simiand, Dupriez, Warren &
Pearson, von Ciriacy-Wantrup e Bernstein. E esse foi também um dos pontos
que mais haviam gerado polêmica na jovem URSS. Kondratiev percebera que as
expansões eram precedidas por alterações significativas, tanto do papel
que certos países desempenhavam na economia mundial, quanto nas condições
monetárias e tecnológicas. Também notara que esses arranques coincidiam
com fortes movimentos sociais, como revoluções e guerras. Mas até seu exílio
para a Sibéria, em 1930, continuou defendendo uma interpretação ‘endógena’
que apresentava esses fenômenos como manifestações e não como causas das
ondas longas. (Reijnders,1990:20-27)
[iv]
Como, por exemplo, Gerster (1992),
Metz (1992), Metz & Stier (1992)
e Reijnders (1990,1992).
[v]
Entre estes predominam trabalhos de inspiração schumpeteriana, como
Freeman (1984a, 1984b) e Kleinknecht (1987),
ou marxista, como Mandel (1992,1995), Shaikh (1992). Mas também há tentativas convergentes, como Kleinknecht
(1992) e Dockès & Rosier (1992), ou bem mais ecléticas, como Mager
(1987), Goldstein (1988), Berry (1991), e Modelski & Thompson (1996).
[vi]
É somente numa terceira aproximação que Schumpeter
monta a complicada engrenagem entre ciclos de 40 meses (Kitchin), de 7-11
anos (Juglar) e 45-60 anos (Kondratiev), determinados pelos efeitos
diferenciados das inovações.
[vii]
“It is our view that waves of important innovations are an
endogenous element of the long wave process. The wave-like occurence of
major innovative breakthroughs is a decisive cause of the fairly
simultaneous rise of new branches of industry which foster the long wave
upswing. However, our emphasis on the rise and eventual decline of
technologies and industries is not intended as positing a monocausal theory
of long waves. In fact, we regard the above explanation as complementary to,
rather than competing against, other long wave hypotheses. For example, the
innovation approach can easily be combined with the arguments of
‘profits-squeeze’ theorists...” (Kleinknecht,1987:206)
[viii]
As enciclopédias soviéticas do período stalinista
mencionavam as ondas longas como “vulgar teoria burguesa”. Assim, um
assunto que, no início do século, interessara muito os economistas
marxistas, acabou ficando restrito aos círculos dissidentes.
[ix]
No artigo “The economics of neo-capitalism”, The
Socialist Register (1964:56) apud
Mandel (1995:140).
[x]
“It is the sum total of factors ultimately offsetting a long-term
decline in the rate of profit which are the basic condition of possibility
for a new long expansion. Massive technological innovations explain why this
movement gathers momentum, not why it occurs.”(Mandel,1995:113)
[xi]
“When we said that one cannot exclude the theoretical possibility
of a new phase of expansion starting with the 1990s, although it seems quite
unlikely to us, one must add immediately that the social and human price of
that ‘adaptation’ would be, this time, incommensurably more costly than
it was in the 1930s and early 1940s. (...)
If one adds together all these threats and costs of the ‘destructive
adaptation (...), one should conclude that instead of speculating about the
possibility of such an ‘adaptation,’ it would be wiser to consider ways
and means of avoiding it. A new ‘wave of economic growth’ involving a
few hundreds of millions of dead isn’t exactly and ideal future to look
forward to.” (Mandel,1995:94-95)
[xii]
“If I am right that radical innovations are not randomly
distributed over time but come about in waves (being ‘triggered’ by
long-wave depressions), it becomes conceivable that the innovation
multiplier causes waves of expansion and contraction in demand that can be
felt in aggregate figures. (Kleinknecht,1992:9)
[xiii]
“The theories of long waves and innovations enphasise change in
productive techniques and more generally economic factors. Social factors
tend to play at most a secondary role. In our schema, social phenomena
(including cultural and political phenomena) are seen as strategic. (...)
social changes are the very core of the process of transformation; hence the
dialetic of innovation and conflict plays a key role.” (Dockès &
Rosier,1992:308-9)