DESENVOLVIMENTO RURAL
O BRASIL PRECISA DE UM PROJETO
José Eli da Veiga
Universidade
de São Paulo
zeeli@usp.br
(Versão
para a Reunião da SOBER de Agosto 1998)
São
Paulo, Maio de 1998
Anais
do 36º Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural, Poços de Caldas, MG, 10 a 14 de agosto de 1998, vol.
1, pp. 153-186
Este
trabalho tem duas partes: (I) a primeira é uma reprodução com pequenos
retoques de um texto de dezembro de 1997 que abordava as principais dificuldades
conceituais contidas na idéia do movimento sindical dos trabalhadores rurais
liderado pela CONTAG de elaborar um projeto
‘alternativo’ de desenvolvimento rural [1];
a segunda (II) procura aprofundar a discussão de alguns dos tópicos que
mais suscitaram críticas e sugestões até meados de maio de 1998 [2].
Infelizmente, por falta de espaço, não foi possível incluir outras reflexões
sobre o desenvolvimento rural presentes em alguns dos artigos quinzenais que o
autor vem publicando no jornal O Estado de
São Paulo desde o final de 1996 [3].
PRIMEIRA
PARTE
CINCO QUESTÕES BÁSICAS PARA A
ELABORAÇÃO DO PROJETO DE DESENVOLVIMENTO RURAL DO MSTR[4]
1.1
Qualquer conversa séria sobre este assunto tem que começar por uma
pergunta simples, mas que exige resposta complexa: o que é desenvolvimento?
Apesar
de ouvirmos a palavra ‘desenvolvimento’ com enorme frequência, é muito
raro que seu sentido seja bem explicitado. Todo mundo faz de conta que está se
entendendo quando usa essa palavra, mas ninguém dá uma explicação satisfatória
sobre o seu significado. E não adianta imaginar que os grandes especialistas no
assunto possam resolver o problema. Eles ainda não chegaram a um acordo sobre a
melhor definição de desenvolvimento, e não há sinais de esse acordo esteja
próximo.
Nem
sempre foi assim. Entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados dos anos
sessenta, quando não se fazia distinção entre desenvolvimento e crescimento
econômico, as dificuldades eram bem menores. Discutia-se a melhor maneira de
medir o crescimento do produto anual de uma nação, mas havia um largo consenso
sobre a idéia de que uma economia cresce quando a produção aumenta pelo menos
no mesmo compasso que a população. Quando a expansão do produto ultrapassa a
da população, elevando a renda per
capita, costuma-se dizer que o crescimento não foi apenas extensivo, mas
intensivo.
Foi
a insatisfação com essa visão do desenvolvimento como sinônimo de
crescimento que acabou complicando as coisas. As condições de vida de muitas
populações não melhorava, e até piorava, mesmo quando os seus países haviam
alcançado altas taxas de crescimento. Foi ficando claro que em certas circunstâncias
o crescimento podia beneficiar apenas uma pequena parcela da população, e
aumentar simultaneamente a pobreza e as desigualdades em vez de reduzí-las.
Como
resultado, a idéia de desenvolvimento foi paulatinamente incorporando uma série
de aspectos sociais: emprego, necessidades básicas, saúde, educação,
equidade, etc. Mais recentemente percebeu-se que as bases ambientais de qualquer
progresso futuro poderiam estar sendo comprometidas por um crescimento econômico
predatório de recursos naturais e altamente poluidor. Os limites naturais do
crescimento estavam sendo desrespeitados tanto no núcleo central da economia
mundial, formado pelos países mais desenvolvidos, quanto nos dois grandes círculos
de subdesenvolvimento, formados pelos países periférios e semiperiféricos.
Assim,
antes mesmo que as organizações internacionais do sistema das Nações Unidas
pudessem gerar um novo consenso sobre a própria idéia de desenvolvimento
(juntando objetivos sociais à noção básica de crescimento), a consciência
mundial sobre os danos ambientais já antecipava a sua insuficiência ao exigir
uma qualificação por meio da expressão ‘desenvolvimento sustentável,’
que busca um compromisso entre o desenvolvimento e preservação ambiental.
Tanto é que o primeiro relatório do PNUD sobre o “desenvolvimento humano”
só surgiu em 1990, três anos depois da divulgação internacional da noção
de “desenvolvimento sustentável” pela famosa Comissão Bruntland e apenas
dois anos antes de sua completa consagração na Rio-92. [5]
Não
é surprendente, portanto, que seja difícil dizer com clareza e simplicidade o
que é desenvolvimento. Praticamente todos os grandes dilemas do mundo contemporâneo
estão concentrados nessa noção. Tudo o que no passado esteve associado à idéia
de ‘progresso’ foi transferido para a palavra ‘desenvolvimento’. E é
justamente por isso que muitos intelectuais foram levados a tratá-la como
“ilusão” ou “mito”.
Por
exemplo, acaba de ser lançado um livro intitulado “A Ilusão do Desenvolvimento” do sociólogo italiano Giovanni
Arrighi (Vozes, 1997). Referindo-se especificamente aos países semiperiféricos,
como o Brasil, ele diz ser quase impossível cruzar o golfo que os separa da
fortuna do núcleo orgânico da economia mundial, como chegou a acontecer com o
Japão. Mesmo assim não considera ineficazes os esforços desses Estados, pois
sem tais esforços cairiam na pobreza abismal dos periféricos...
Há
mais de vinte anos, Celso Furtado já havia publicado um pequeno grande livro
intitulado “O Mito do Desenvolvimento
Econômico” (Paz e Terra, 1974), chamando a atenção para a
impossibilidade prática de generalizar os padrões de vida característicos dos
países centrais ao resto do planeta. “O custo, em termos de depredação do
mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma elevado que toda tentativa
de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização,
pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana.” (p.75)
Mesmo
convencido de que os povos pobres não teriam chance de desfrutar das formas de
vida dos povos ricos, Celso Furtado salientava a utilidade da idéia de
desenvolvimento. “Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da
periferia nunca serão desenvolvidas,
no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema
capitalista. Mas, como negar que essa idéia tem sido de grande utilidade para
mobilizar os povos da periferia e levá-los a aceitar grandes sacrifícios, para
legitimar a destruição de formas de cultura arcaicas,
para explicar e fazer compreender
a necessidade de destruir o meio físico, para justificar formas de
dependência que reforçam o caráter predatório do sistema produtivo? Cabe,
portanto, afirmar que a idéia de desenvolvimento econômico é um simples
mito.” (p.75)
É
interessante notar que, tanto o ceticismo de Furtado desde os anos setenta,
quanto o de Arrighi nos noventa, são temperados pela necessidade de destacar a
“utilidade” ou a “eficácia” da idéia de desenvolvimento. Certamente é
porque não lhes escapou que sem ela não há visão de futuro sobre a
qual a sociedade possa estabelecer suas esperanças e seus projetos.
No fundo, a ‘utilidade do mito,’ em Furtado, como a ‘eficácia da ilusão,’
em Arrighi, são provas de que a idéia de desenvolvimento continua a ser aquela
que melhor exprime a utopia da
sociedade moderna (entendendo-se utopia em seu sentido filosófico e não em sua
versão vulgar na qual é sinônimo de sonho ou fantasia).
O
que leva o movimento sindical dos rurais ao esforço de construir um projeto
de desenvolvimento é justamente a esperança de uma vida melhor para os que
vivem no campo e não possíveis sonhos e fantasias sobre as chances dos países
semiperiféricos entrarem no primeiro mundo, ou sobre a possibilidade de
generalização dos padrões de vida do núcleo central. Por isso, enquanto não
surgir uma palavra que melhor sintetize essa forte esperança na revalorização
da vida no espaço rural não há motivo para se dispensar a idéia de
desenvolvimento, por mais ambiguidades que ela possa conter.
Foi
certamente uma esperança similar que levou outros intelectuais à elaboração
de indicadores de desenvolvimento que pudessem combinar objetivos sociais e
metas de crescimento. Contribuições de estudiosos como Amartya Sen e Michael
Lipton permitiram o surgimento, em 1990, da melhor medida disponível de
desenvolvimento: o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Hoje, o sistema das
Nações Unidas não somente define, como avalia o desenvolvimento em função
do alargamento das escolhas das pessoas.
Esse
alargamento só pode ocorrer se forem garantidas três premissas básicas do que
se costuma chamar de ‘qualidade de vida’: viver uma vida longa e saudável,
ser instruído e gozar de um nível de vida adequado. Outros aspectos essenciais
incluem liberdade política, garantia de outros direitos humanos e diversos
outros elementos ligados ao auto-respeito - incluindo o que Adam Smith chamava
de capacidade de se envolver com os outros sem se ficar “com vergonha de
aparecer em público”. A ausência de alguma dessas escolhas essenciais pode
bloquear muitas outras oportunidades. O desenvolvimento humano é, assim, um
processo de alargamento das escolhas das pessoas bem como de elevação do nível
de bem-estar atingido. (PNUD, Relatório
do Desenvolvimento Humano 1997, p.15)
Com
essa definição, qualquer país pode ser avaliado segundo suas realizações médias
em três dimensões básicas do desenvolvimento: longevidade, conhecimento e
padrão de vida. Foi então construído um índice composto por três variáveis
relativamente simples: esperança de vida, nível educacional
(alfabetização de adultos e escolaridade conjunta dos ensinos primário,
secundário e superior) e PIB real per
capita.
As
vantagens dessa abordagem sobre as anteriores são óbvias. No entanto, é possível
notar uma tendência no pensamento do PNUD em reduzir a ambição do
desenvolvimento a uma agenda de erradicação
da pobreza. Uma grande aliança para erradicar a pobreza é proposta como o
tema integrador dos esforços de desenvolvimento do sistema ONU. O relatório de
1997 considera que “o progresso sem
precedentes na redução da pobreza no século XX prepara o caminho para a
erradicação da pobreza absoluta no início do século XXI - um imperativo
moral, um objetivo atingível. Como já não é inevitável, a pobreza deve
passar à história - juntamente com a escravatura, colonialismo e guerra
nuclear. (pp: 116-117)
Esse
deslocamento de uma concepção geral de desenvolvimento humano aferido pela
esperança de vida, nível educacional e renda per capita, para uma agenda centrada na erradicação da pobreza
talvez seja coerente quando se pensa nos 44 países de baixo desenvolvimento
humano (periféricos), onde vivem 1,8 bilhão de pessoas (32% da população
mundial). Todavia, quando se pensa nos 66 países de médio desenvolvimento
humano (semiperiféricos), com seus 2,6 bilhões de habitantes (45% dapopulação
mundial), há fortes motivos para dúvidas.
Pelo
menos no Brasil, que é parte integrante dessa semiperiferia, a pobreza poderia
ser bem reduzida sem qualquer mudança significativa na distribuição de renda.
Bastaria conseguir aumentar o nível médio de renda por meio de um crescimento
econômico contínuo. As simulações de Ricardo Paes de Barros, pesquisador do
IPEA, mostram que um crescimento contínuo de 5% ao ano levaria, em uma década,
a uma redução de 13 pontos percentuais no grau de pobreza, mantendo-se intacta
a distribuição de renda. E mostram também que um resultado um pouco maior -
redução de 15 pontos percentuais - poderia ser obtido sem crescimento econômico,
se fosse possível dar ao Brasil uma distribuição de renda igual à da Costa
Rica. Mas como essas relações não são lineares, ele conclui que a melhor
maneira de combater a pobreza é combinar políticas voltadas ao crescimento com
políticas incisivamente redistributivas.
A
questão que está colocada é a de saber se uma agenda de erradicação da
pobreza engendra desenvolvimento, como tendem a supor os redatores do Relatório
do Desenvolvimento Humano 1997. Em princípio, a resposta é negativa, pois,
no Brasil, um crescimento econômico contínuo com menor pressão demográfica
seria suficiente para cumprir a agenda sem que a pior distribuição de renda do
planeta fosse alterada.
O
próprio Relatório reconhece que
pobreza e desigualdades não caminham sempre juntas. Em alguns casos elas
aumentam ou diminuem conjuntamente - noutros movem-se em sentidos contrários.
Também reconhece, e dá inúmeros exemplos, de que as desigualdades - entre
pobres e ricos, mulheres e homens, rurais e urbanos, regiões e grupos étnicos
diferentes - raramente estão isoladas. Pelo contrário, estão
interrrelacionadas e sobrepostas. (p.38)
Mas
há outro motivo importante para que se enfatize que o desenvolvimento
brasileiro está a exigir muito mais uma agenda centrada na distribuição de
renda do que uma agenda centrada na erradicação da pobreza. É que se acumulam
evidências de que o próprio crescimento dos países semiperiféricos depende
da redução das desigualdades. Estudiosos como Birdsall, Rossi e Sabot
mostraram, por cálculos econométricos, que a desigualdade obstrui as
possibilidades de crescimento latino-americanas. Os efeitos negativos da
desigualdade sobre o crescimento também foram descritos em 13 estudos de campo
recentes enumerados por Benabou. E taxas de crescimento muito baixas foram
associadas a grandes desigualdades na distribuição da terra por Deininger e
Squire em estudo de 1996 para o Banco Mundial.
Em
outro estudo de 1997 também para o Banco Mundial, Ravaillon chegou à conclusão
que, mesmo quando existem condições favoráveis ao crescimento, ele não
ocorrerá se a desigualdade for alta. Em recente artigo publicado na American Economic Review, Birdsall e Londoño mostram o quanto o
crescimento é afetado pela má distribuição de ativos em geral, com destaque
especial para o capital humano.
E
é apoiado nas evidências desses trabalhos que o diretor do Instituto de
Desenvolvimento Social do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID),
Bernardo Kliksberg, afirma que “a redução das desigualdades, além de ser
fundamental para uma sociedade e básica para uma democracia, é estratégica
para a obtenção de desenvolvimento real e sustentado.” E é por isso que ele
se empenha para que o tema da desigualdade não continue na penumbra. “Deve,
ao contrário, colocar-se no centro dos debates sobre o desenvolvimento.” [6]
Nesse
sentido pode ser até reconfortante consultar o Relatório Sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil 1996. Nele está
bem enfatizado que se trata, principalmente, de conciliar, dinamicamente, o
crescimento com redistribuição interpessoal e interespacial de renda e com o
combate à pobreza crítica, de modo a alcançar níveis mais elevados de
desenvolvimento humano. Também está claro que a esses desafios de natureza sócio-econômica
juntam-se desafios de ordem político-social e de dimensão ambiental.
Sempre
segundo o relatório brasileiro de 1996, esses três conjuntos de desafios são
interdependentes, tanto no sentido de se condicionarem entre si quanto porque
sua superação concertada deflagra sinergias potencializadoras do processo
global de desenvolvimento. As sequências de desenvolvimento, porém, nunca
ocorrem, concretamente, de forma equilibrada. Evoluem, ao contrário, de modo
assimétrico, desbalanceado, diacrônico, ainda que existam limites (variáveis
no tempo e no espaço sociais e, em geral, difíceis de precisar objetivamente)
para esses descompassos e arritmias.
Por
isso, o relatório brasileiro de 1996 insiste que devem ser consideradas “as
opções estratégicas e as áreas prioritárias de atuação com maiores
probabilidades de deflagrar os processos de transformação econômico-social
capazes de realizar esses objetivos mais celeremente” (PNUD/IPEA, Relatório
sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil 1996, Brasília: IPEA, pp. 103-105)
Pode-se
concluir, portanto, que qualquer processo de desenvolvimento sempre envolverá a
superação de conflitos entre os lados de um triângulo formado pelo
crescimento econômico, a redução das desigualdades e a preservação
ambiental. Ou seja, uma resposta direta à pergunta inicial pode ser:
desenvolvimento é um processo sistêmico mediante
o qual uma economia consegue simultaneamente crescer, reduzir desigualdades
sociais e preservar o meio ambiente. Fácil de falar, difícil de conseguir.
1.2
A segunda pergunta é a seguinte: porque o movimento sindical dos
trabalhadores agrícolas chama de “alternativo” o projeto de desenvolvimento que quer construir?
À
primeira vista esta pergunta tem uma resposta óbvia: um projeto construído
pelo movimento será com certeza uma alternativa ao atual “modelo” de
desenvolvimento. Mas as coisas complicam um pouco quando se tenta caracterizar
esse tal modelo em relação ao qual o movimento quer uma alternativa. Na
verdade, é preciso se dar conta de que o Brasil continua à procura de um
modelo de desenvolvimento.
Diz-se
que até a década de 1930 vigorou um “modelo econômico primário-exportador,”
mas seria absurdo pensar que se tratava de um modelo “de desenvolvimento”.
Com o processo de industrialização por substituição de importações, chegou
a despontar um estilo de crescimento que até pode ser chamado de “nacional
autônomo”. Mas se ele produziu algum surto de desenvolvimento, certamente foi
no governo Juscelino (1956-61), justamente quando a economia foi aberta ao
capital estrangeiro.
Com
a ditadura militar surgiu uma nova onda que costuma ser chamada de “modelo
exportador-associado”. Contudo, após o rápido “milagre” dos anos
1968-73, esse modelo se revelou tão concentrador e excludente que também seria
temerário caracterizá-lo como um modelo “de desenvolvimento”. E o mesmo
pode ser dito do fracassado “Projeto Brasil Potência” e do frustrado IIo.
PND (1975-79), sem falar do ridículo IIIo. PND improvisado no início do
governo Figueiredo.
Depois
disso, o caos inflacionário que dominou o país até 1994 impôs seguidas
tentativas de estabilizar a economia que exigiam decisões emergenciais ou, na
melhor das hipóteses, de curto prazo. Em tais condições, parecia bizantina
qualquer discussão sobre as perspectivas de desenvolvimento
Com
a estabilização monetária alcançada no governo Itamar Franco, surgiram as
condições mínimas para a retomada de um debate democrático sobre estratégias
de desenvolvimento. Só que, até agora, nenhum dos blocos com pretensões hegemônicas
conseguiu gerar alguma plataforma que possa ser vista como um modelo de
desenvolvimento.
É
verdade que o atual governo tem a ambição de superar o esgotamento de um longo
ciclo que vigorou desde a década de 1930, caracterizado pela industrialização
substitutiva de importações liderada pelo Estado por meio de um novo modelo de
desenvolvimento. Esse modelo não pode ser encontrado em qualquer documento
produzido pelo planejamento nacional, mas teria emergido, de forma mais ou menos
longa e desestruturada, de decisões e ações públicas e privadas. E no
domingo 8 de fevereiro de 1998 o articulista Gilson Schwartz relatou na Folha
de São Paulo que o Grupo de Análise e Pesquisa da Presidência da República
(GAP) tem por missão organizar essa “agenda” do desenvolvimento brasileiro.
No
discurso inicial do atual governo esse modelo compreenderia, antes de tudo, a opção
pela liberalização da economia, concomitante à transformação produtiva e,
em particular à reestruturação industrial. Seus objetivos seriam crescimento
sustentado e manutenção ou criação de vantagens competitivas, capazes de
assegurar o mercado interno à produção nacional, e de ensejar maior e mais
dinâmica inserção do país no comércio internacional.
No
entanto, diz Gilson Schwartz, “depois da
crise mexicana foram surgindo políticas em defesa de setores que foram expostos
demais à concorrência externa. A criação de novas linhas de crédito pelo
BNDES, orientadas para setores considerados estratégicos, é outro exemplo de
intervenção quase ‘asiática’ na economia. E houve alguns ajustes tributários,
reforçando o caixa do Tesouro e tentando estimular as exportações. Essas ações
não entrariam num receituário liberal típico.”
Na
prática, coexistem no interior da atual coalizão governmental pelo menos três
perspectivas. De um lado, uma tendência de inspiração juscelinista, que
chegou a lançar um “Plano de Metas,” depois rebatizado programa “Brasil
em Ação”. De outro, uma tendência ultraliberal, que perdeu muito fôlego
nas escaramuças com choques externos, como o mexicano, no início do governo, e
o asiático, no final de 1997. No caminho do meio, opera uma corrente bem pragmática,
que acaba comandando a maior parte das decisões de varejo, mas que, em termos
estratégicos, não chega a constituir uma terceira via.
Como
essas três correntes também estão presentes em todos os partidos políticos
que formam a base de apoio parlamentar do atual o governo, este tem conseguido
manter a iniciativa, preservando a abertura da economia e a estabilidade da
moeda; desregulamentando, privatizando e aprovando algumas reformas; e até avançando
na direção da austeridade nas contas públicas. Por isso, mesmo na ausência
de um bom consenso sobre o modelo de desenvolvimento, a ação governamental
acaba complicando bastante o processo de discussão de uma alternativa viável,
isto é, a política econômica de centro-esquerda de uma aliança
oposicionista.
Se
não existe um “modelo” ao qual possa ser contraposto um outro projeto de
desenvolvimento, porque, então, chamá-lo de “alternativo”? Qual seria o
sentido dessa ênfase do discurso sindical em qualificar seu futuro projeto de
“alternativo”?
Na
verdade, quando o movimento insiste em dizer que quer um projeto alternativo de
desenvolvimento, ele não se refere à existência de um “modelo”, mas sim
às circunstâncias objetivas a que estão submetidas as suas bases: a insegurança
econômica dos agricultores familiares, o desemprego crescente entre os
empregados rurais assalariados, e a extrema pobreza em que vive a maior parte da
população rural.
Por
alternativa a essa situação o MSTR entende:
Que os homens e as mulheres das áreas rurais devem
viver uma vida longa e saudável, instruir-se e gozar de um nível de vida
adequado.
Que a população rural tenha garantia dos direitos
humanos e possa alcançar auto-respeito.
Estas
são as premissas básicas do desenvolvimento rural e sua ausência bloqueia
muitas outras oportunidades.
Por isso o que o MSTR pretende é essencialmente
construir um projeto que melhore a qualidade de vida dos rurais, começando por
aumentar sua renda per capita, seu nível
educacional e sua esperança de vida, preservando simultaneamente as bases
ambientais desse desenvolvimento.
1.3
Uma terceira questão, que decorre diretamente dessa resposta à segunda
pergunta é: o que pode ser um projeto alternativo de desenvolvimento rural
na ausência de um modelo nacional de desenvolvimento?
Alguém
poderia dizer que é impossível ou inviável qualquer projeto de
desenvolvimento rural que não seja parte integrante de um plano para o conjunto
do país. E há fortes argumentos para sustentar essa tese.
Para
começar, é fácil mostrar o quanto o desenvolvimento é um processo sistêmico,
no qual inexiste uma clara separação entre espaço rural e espaço urbano,
economia rural e economia urbana, sociedade rural e sociedade urbana, etc. Basta
examinar os dados de um país desenvolvido para perceber que as diferenças
entre os indicadores rurais e
urbanos de desenvolvimento são muito menos significativos que diferenças entre
regiões ou cidades. Por exemplo: nos Estados Unidos é muito mais significativa
a defasagem entre o desenvolvimento dos estados sulinos, intensamente marcados
pelo passado escravista, e o resto do país, cuja formação sócio-econômica
foi baseada na agricultura familiar. Lá, os indicadores de baixo
desenvolvimento humano estão muito mais relacionados à concentração de
negros (e também novos imigrantes de origem latina e asiática) do que ao grau
de urbanização.
Além
das principais disparidades do desenvolvimento enquanto processo sistêmico não
corresponderem à separação urbano-rural, também não existe qualquer
autonomia do desenvolvimento rural enquanto objetivo de políticas públicas.
Quando se tenta responder a perguntas do tipo - como tal sociedade
estabelece suas prioridades de investimento? como elabora o orçamento público?
que importância vem atribuindo à educação no meio rural? - fica evidente o
quanto as políticas voltadas ao desenvolvimento rural estão entranhadas em inúmeros
conflitos de interesse dos quais podem resultar situações altamente
discriminatórias. Em países nos quais a urbanização foi muito rápida, além
de tardia, essa discriminação contra o rural pode ser tão forte que o “viés
urbano” dos investimentos públicos se revela como o grande vilão do
subdesenvolvimento. Foi o que mostrou um livro intitulado “Porque
os pobres continuam pobres,” de Michael Lipton, um dos principais
elaboradores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Por
isso, a falta de autonomia não impede que um projeto de desenvolvimento rural
venha a ser instrumento crucial dessa luta contra o “viés urbano” das políticas
públicas. Um instrumento que ajude uma sociedade precocemente urbanizada a
perceber o quanto seu desprezo pelo meio rural gera desperdício. Um instrumento
que impulsione essa sociedade a revalorizar a vida rural. Um instrumento que
evidencie o quanto as oportunidades de cidadania rural podem reduzir a degradação
das cidades. Um instrumento que leve as elites dirigentes dessa sociedade a
descobrirem o potencial de desenvolvimento rural.
Entendido
como um instrumento de persuasão e disputa, não há motivo para que um projeto
de desenvolvimento rural seja inviabilizado pela ausência de um plano de
conjunto, isto é, um plano nacional de desenvolvimento. Ao contrário, ele pode
justamente gerar garantias de que um futuro projeto não reproduza o descaso
reinante pela vida rural.
Mas
atenção. Por viverem em um país que inchou suas cidades com mais 100 milhões
de habitantes em apenas meio século, é muito forte entre os brasileiros a
associação entre rural e passado, ou rural e atraso. O Brasil é um país com
um “viés urbano” tão forte que muitos chegam a dizer que a única saída
é a “urbanização do meio rural,” sem sequer se darem conta de que essa é
uma maneira de legitimar a desvalorização do meio rural que reina entre as
multidões de novos urbanos.
Além
disso, existem pelo menos outras quatro razões que dificultam a emergência de
estratégias de desenvolvimento rural, segundo o grupo de trabalho do Banco
Mundial encarregado de estudar o assunto (“Rural
Development: From Vision to Action. A Sector Strategy”, ESSD 12, 1997):
(i) Em primeiro lugar, a
percepção de que a agricultura é um setor declinante leva muita gente a não
considerá-la importante para o desenvolvimento.
(ii)
Em segundo lugar, a queda dos preços reais dos alimentos durante as duas
últimas décadas gerou uma espécie de complacência em relação ao setor agrícola.
Tal complacência, por sua vez, minou a capacidade de executar as complexas
reformas e programas necessários ao progresso no meio rural.
(iii)
Em terceiro vem a incipiente presença política dos pobres rurais. Com a
dispersão geográfica das populações rurais somada à precariedade da
infraestrutura de transportes e comunicações, é muito frequente que essas
populações - e as mulheres em especial - tenham imensos obstáculos a
enfrentar se quiserem expressar suas preferências no âmbito das dinâmicas políticas.
(iv)
E o quarto fator é de ordem internacional: tudo isso gerou um
amolecimento das organizações internacionais que se manifesta claramente na
falta de coordenação entre elas, os governos da OCDE, grupos da sociedade
civil e fundações privadas.
Em
tais condições, elaborar um projeto alternativo de desenvolvimento rural é
enfrentar um fogo cruzado: o fogo do obscurantismo que se manifesta desde logo
na indigência das informações e estatísticas sobre tudo o que é rural; e o
fogo dos inúmeros preconceitos anti-rurais que são diariamente reproduzidos
pelos meios de comunicação e pelo próprio sistema educacional.
A força ideológica do “viés urbano” é tão grande que até causa
espanto que haja tanta gente ocupando latifúndios, expandindo e fortalecendo a
agricultura familiar, e buscando oportunidades de geração de renda não apenas
agrícola no meio rural.
1.4
Se um projeto alternativo de desenvolvimento rural é um instrumento de
persuasão e disputa, a quarta pergunta só pode ser: como se elabora um projeto
desse tipo?
Antes
de tudo convidando os que estudam esse assunto para discutirem com os principais
interessados: os rurais. E é justamente o que tem procurado fazer a CONTAG, com
os recursos que estão a seu alcance. Para promover a reflexão coletiva sobre o
desenvolvimento rural, a CONTAG promoveu seminários regionais entre feveveiro e
agosto de 1996. O principal resultado dessa atividade foi evidenciar tremenda
diversidade de um espaço rural gigantesco como é o brasileiro.
Tendências
predominantes em algumas áreas podem ser secundárias, ou nem se manifestar, no
próprio estado ou região em que tais áreas estão inseridas, para não falar
em outros estados e regiões. Um bom exemplo é o fenômeno do êxodo rural, que
só continua a ter grande importância na região Nordeste. Fora do polígono
das secas, dez microrregiões geográficas tiveram crescimento demográfico
entre 3 e 4% ao ano durante a década de 1980. Em outras oito esse crescimento
superou 4% ao ano. Pode-se dizer que foi a recessão econômica nos polos mais
dinâmicos que reduziu a saída e até devolveu migrantes às suas regiões de
origem. Mas é bom lembrar que enquanto a economia brasileira crescia a uma média
de apenas 1,2% ao ano, a economia estadual nordestina de pior desempenho - a
pernambucana - crescia a 2,5% ao ano. E
em todos os outros estados da região essas taxas foram superiores a 3%,
ultrapassando a marca dos 6% no Rio Grande do Norte e no Maranhão.
As
dinâmicas locais de mudança rural são tão variadas que qualquer tentativa de
descrevê-las produziria um imenso caleidoscópio. Em estudo recente do CEDEPLAR/UFMG,
realizado pelos pesquisadores Mauro Borges Lemos e Juliano J. Assunção, no
qual foram usados apenas indicadores de modernização, foi difícil agrupar as
361 microrregiões geográficas em 72 regiões, das quais foram selecionadas as
37 que respondem por 4/5 da produção agrícola brasileira. Qual teria sido a
dificuldade se tivessem usado indicadores de desenvolvimento rural?
Assim,
para poder entender dinâmicas locais de mudança rural, torna-se necessário
associá-las a determinados “tipos” que permitam um mapeamento qualitativo
do que poderia ser chamado de principais tendências das transformações
rurais.
Tal
necessidade, que ficou patente nos resultados dos cinco Seminários Regionais,
foi objeto de uma investigação pioneira conduzida, em 1997, por uma pareceria
CUT/CONTAG. Esse trabalho sobre os rumos do desenvolvimento rural produziu um
mapa de cada grande região do país no qual foi plotada a ocorrência dos
seguintes padrões de comportamento:
(A) situações
regionais que tendem a articular um bom desempenho da agricultura familiar com
um diversificado e flexível entorno sócio-econômico. Neste caso, a gradual
redução das necessidades de trabalho na agricultura tende a ser compensada
pela criação local de oportunidades de trabalho não-agrícolas (tanto rurais
quanto urbanas), contribuindo para o fortalecimento da agricultura familiar em
vez de ser o testemunho de seu definhamento.
(B)
situações regionais que tendem a combinar a afirmação da agricultura
patronal com um entorno sócio-econômico absorvedor de mão-de-obra, isto é,
gerador de oportunidades de trabalho não-agrícola (rurais e urbanas). Neste
caso, uma franja periférica da agricultura sobrevive essencialmente mediante à
venda de braços, dentro e fora da agricultura.
(C)
situações regionais que tendem a combinar o marasmo da agricultura
(seja ela familiar ou patronal) a um entorno sócio-econômico incapaz de
absorver os excedentes populacionais das áreas rurais.
(D) situações
de esvaziamento populacional que tendem a combinar sistemas produtivos bem
extensivos (em geral pecuária) com um entorno sócio-econômico rígido,
especializado e poupador de mão-de-obra.
(E)
situações nas quais a ocupação territorial é tão recente, e a
precariedade ou incipiência do entorno sócio-econômico é tão grande, que
ainda não estão definidas as chances de viabilização de um dos quatro padrões
anteriores.
(F)
situações de tanta fragilidade - dos ecossistemas e do entorno sócio-econômico
- que impedem a intensificação das práticas agrícolas, bloqueando ao mesmo
tempo a geração de oportunidades de trabalho não-agrícola.
É
provável que esses seis casos precisem ser desdobrados, tanto por subdivisão,
quanto pela identificação de outras características importantes que possam
ter escapado nessa primeira aproximação. Por isso, é fundamental que os mapas
sejam submetidos a testes mais circunstanciados, que só podem ser feitos pelos
que mais conhecem cada uma das áreas tipificadas. Além de melhorar e corrigir
esse primeiro mapeamento, o debate público com os protagonistas dessas dinâmicas
locais poderá gerar um inédito movimento de conscientização sobre o
potencial de cada mesorregião, revelando suas contradições fundamentais e as
vantagens comparativas das diversas opções estratégicas de desenvolvimento
rural.
Tanto
os seminários quanto a pesquisa evidenciaram que as bases objetivas do
desenvolvimento rural estão presentes nas cinco regiões, mas em situações
muito diversas. Apesar de numerosos no noroeste riograndense, no oeste
catarinense e nos sudoeste e oeste paranaenses, os agricultores familiares estão
encontrando nessas mesorregiões condições de progresso material menos favoráveis
do que as existentes, por exemplo, no nordeste riograndense e no Vale do Itajaí
catarinense.
Apesar
dos canaviais e laranjais do Sudeste terem asfixiado um grande número de
agricultores familiares, estes ainda mostram sinais de vida em muitas microrregiões
paulistas, inclusive no centro-norte formado pelas divisões de Campinas e
Ribeirão Preto. Continuam com muito fôlego na mancha formada pelo sul e partes
do centro e centro-oeste mineiros, o mesmo acontecendo no corredor produtivo
capixaba denominado “cinturão verde/turismo” e nas regiões serrana e
centro-sul fluminenses.
Malgrado
as imensas dificuldades prevalecentes no Nordeste, os agricultores familiares
continuam no páreo, principalmente nas regiões dos Agrestes, Serras do Ceará,
Subcosteiras e Hortigranjeiras. E, dada a recente ocupação dos imensos espaços
regionais do Centro-Oeste e do Norte, a incipiência de suas infra-estruturas e
a precariedade de seus serviços, as possibilidades de afirmação e consolidação
dos agricultores familiares parecem amplas, mas de avaliação e delimitação
muito mais difíceis.
Contrariamente
ao que muita gente imagina, as chances de se induzir uma situação do tipo
“A” continuam a existir em muitas áreas rurais. Só o derrotismo de quem
está muito distante dos movimentos sociais rurais pode levar à idéia de que o
meio rural brasileiro possa estar condenado às situações de tipo “C” e
“D”, com eventuais ocorrências de um padrão de desenvolvimento do tipo
“B”.
É
verdade que a linha de mudança rural que predominou no Brasil desde a década
de 60 teve como característica essencial a expulsão prematura de trabalho. A
linha oposta - conforme a classificação internacional proposta pelo chefe do
departamento rural do Banco Mundial, Hans Binswanger - tem como característica
essencial a redução da pobreza. Mas nada impede que a segunda linha possa vir
a predominar no futuro. Se a expulsão prematura de trabalho houvesse sido tão
profunda, a ponto de erradicar a própria base da linha de desenvolvimento
humano - a agricultura familiar - seria absurdo sonhar com esse tipo de virada.
Mas
se, ao contrário, a expulsão prematura de trabalho não chegou a liquidar a
base da segunda linha, então o projeto alternativo de desenvolvimento rural que
o movimento sindical quer construir
será uma adaptação às condições específicas da sociedade brasileira do
final do século XX de um padrão que teve êxito nas nações mais avançadas
do planeta. E a principal diretriz política desse padrão será a liberação
do potencial econômico dos agricultores familiares que conseguiram escapar da
decadência, mesmo que não tenham conseguido escapar do empobrecimento.
Tudo
dependerá, na verdade, da possibilidade dos brasileiros virem a valorizar o
espaço rural e a entender a importância da agricultura como principal
fronteira entre a sociedade e a natureza. As nações que adotaram a linha do
desenvolvimento humano preferiram ter muitos agricultores e poucos safristas, em
vez de muitas favelas e um punhado de barões (por aqui eles foram promovidos a
reis). Até há pouco, foi inversa a atitude que prevaleceu na sociedade
brasileira, desde o bastidor brasiliense, até o chão de fábrica, passando
pela biblioteca. E os sinais de mudança são muito novos para que possam ser
considerados favas contadas.
O
mais importante foi a recente legitimação da necessidade de expandir e
fortalecer uma forma de ocupação geradora de renda antes desprezada como
excrescência anacrônica: a agricultura familiar. É preciso lembrar que, em
1983, no início da redemocratização, a palavra “assentamento” ainda era
um barbarismo. Também não se deve esquecer que a expressão “agricultura
familiar” continuava a ser exótica durante a campanha eleitoral de 1994.
A
sociedade brasileira pode estar se dando conta, com muito atraso, de que o
crescimento econômico nas cidades, por mais forte que pudesse ser, seria
incapaz de reduzir ou estabilizar o desemprego urbano. E não é impossível que
venha a se dar conta, também, que qualquer anseio de desenvolvimento será mero
sonho se não puder ampliar as oportunidades de geração de renda no meio
rural.
É
essa ampliação das oportunidades de geração de renda no meio rural que
constitui a viga mestra do projeto alternativo de desenvolvimento rural que os
sindicalistas querem construir. Essa viga mestra não se resume, evidentemente,
à expansão e fortalecimento da agricultura familiar. Ela inclui a melhoria das
condições de vida de imensos contingentes de empregados agrícolas e envolve
também inúmeras outras ocupações rurais não-agrícolas.
Mas
é preciso lembrar do bordão sempre repetido pelo saudoso doutor José Gomes da
Silva: não se faz feijoada sem feijão. Não pode haver desenvolvimento rural
sem consolidação da agricultura familiar. Ao mesmo tempo, tanto quanto o feijão,
por si só, está longe de ser feijoada, só com outros ingredientes é que a
agricultura familiar pode ser, de fato, a protagonista do desenvolvimento rural.
A
transição para a linha do desenvolvimento humano só poderá ocorrer mediante
uma combinação de mudanças das políticas governamentais (mais de âmbito
federal e estadual) e iniciativas da sociedade (mais de âmbito local, i.é,
comunitário, municipal e intermunicipal).
É
essa combinação que impõe um duplo desafio ao movimento sindical: conseguir
as necessárias alterações de programas e legislações constitutivos da linha
de expulsão prematura de trabalho, alavancando, simultaneamente, as ações de
base que podem fazer emergir a linha do desenvolvimento humano.
O
surgimento de associações de municípios para a elaboração de planos de
desenvolvimento microrregionais, com a participação de cooperativas, escolas,
pequenas agroindústrias e outras entidades formais ou informais tanto podem dar
origem a projetos de desenvolvimento local, como garantir a execução dos
programas governamentais voltados a um desenvolvimento rural redutor de pobreza.
O
fato é que o desenvolvimento rural é um fenômeno intrinsecamente local e
regional. E as localidades e regiões que melhor conseguem se desenvolver são
as que apresentam maior capacidade de organizar os fatores endógenos,
direcionando-os para o fortalecimento da organização social, para o aumento da
autonomia local na tomada de decisões, para o aumento da capacidade de reter e
reinvestir capitais, para o aumento da inclusão social e para o aumento da
capacidade de regenerar e conservar o meio ambiente.
Um
projeto de desenvolvimento rural só pode ser, portanto, um projeto de
investimento em “capital social”, isto é, a dimensão do processo de
desenvolvimento mais esquecida pela tecnocracia. Os arranjos institucionais que
mais incentivam organização, absorção de tecnologias e inovação,
baseiam-se grau de confiança que existe entre indivíduos, grupos e governos.
Nesse
sentido, além dos seminários regionais de 1996 e da pesquisa de 1997, foi de
crucial importância o início de um “Programa de Formação de Dirigentes e Técnicos
em Desenvolvimento Municipal Baseado na Agricultura Familiar”, organizado pela
assessoria de política agrícola da CONTAG no final de 1997. Com apoio do MtB/FAT
e MtB/SEFOR, da Fundação Lindolfo Silva e do Banco Nacional da Agricultura
Familiar (BNAF), o material preparado por técnicos do CEPAGRO, DESER e MOC para
o manual de formação de monitores trouxe elementos fundamentais para
impulsionar as necessárias mudanças institucionais e organizacionais que podem
promover o desenvolvimento local.
Mas
a concentração das energias do MSTR nessa alavancagem exige, também, a definição
de propostas mais amplas. É com essas propostas que o movimento sindical poderá
estabelecer um frutífero diálogo com a sociedade e mais eficientes negociações
com as esferas governamentais. Sem elas ele corre o risco de continuar isolado
dos grandes debates nacionais, deixando que agenda política brasileira seja
influenciada somente pelas elites da agricultura patronal que hoje controlam as
cooperativas, as grandes associações especializadas e quase todos os serviços
do Ministério e das Secretarias estaduais de Agricultura.
Por
isso, se o MSTR não conseguir renovar suas propostas de forma a inserí-las na
pauta dos próximos embates políticos de âmbito nacional, dificilmente ele
poderá levar a sociedade a enxergar a agricultura familiar como o grande
alicerce do desenvolvimento rural.
E isto impõe
uma quinta pergunta.
1.5
Qual é o eixo propositivo de um projeto alternativo de desenvolvimento
rural?
Pela
definição oficial, o fenômeno rural abrange a população e os domicílios
recenseados em toda a área situada fora dos limites das cidades (sedes
municipais) e das vilas (sedes distritais), incluindo aglomerados rurais de
extensão urbana, povoados e núcleos. Nessa perspectiva, o desenvolvimento
rural envolveria diretamente uma população economicamente ativa residente de
17 milhões de pessoas e, em menor medida, quase 5 milhões de pessoas com
ocupacões na agricultura mas com residênca urbana. São, portanto, quase 22
milhões de ocupados, dos quais 18 milhões trabalham na agricultura e quase 4
milhões são residentes rurais com ocupações não-agrícolas.
OCUPADOS
AGRÍCOLAS
|
|
Milhares |
% |
|
Empregadores |
500 |
3 |
|
Empregados |
4.700 |
26 |
|
Conta-própria |
4.500 |
25 |
|
Não-remunerados |
5.100 |
28 |
|
Auto-consumo |
3.200 |
18 |
|
OCUPADOS |
18.000 |
100 |
Fonte:
estimativas do autor, J.E.V.
OCUPADOS
RURAIS NÃO-AGRÍCOLAS
|
|
Milhares |
% |
|
Prestação
de Serviços |
1.174 |
30 |
|
Indústrias
|
911 |
23 |
|
Serviço
Público |
714 |
18 |
|
Comércio |
528 |
13 |
|
Construção |
419 |
11 |
|
Tranporte
e comun. |
146 |
4 |
|
Outros |
38 |
1 |
|
OCUPADOS |
3.930 |
100 |
Fonte:
Projeto Rurbano, IE/UNICAMP
Mas
é fundamental dar atenção à crescente importância dessas ocupações não-agrícolas
no meio rural, como vêm mostrando os estudos conduzidos pelo professor José
Graziano da Silva no âmbito do Núcleo de Economia Agrícola do IE/UNICAMP.
Entre 1992 e 1995, enquanto o número de ocupados na agricultura teve uma redução
de quase 2% (346 mil postos de trabalho), o número de residentes rurais com
ocupações não-agrícolas cresceu quase 11% (384 mil postos de trabalho). Pelo
menos a metade dessa população rural não-agrícola é formada por empregados
domésticos, pedreiros ou serventes, serviços gerais, vendedores, motoristas,
etc., ocupações relacionadas a baixos níveis de qualificação. Também é
preciso destacar que, em termos relativos, é a região Sudeste que possui uma
proporção maior de rurais não-agrícolas.
O
que está ocorrendo é uma crescente combinação de atividades agrícolas e não-agrícolas
no interior das unidades familiares, cuja descrição por meio de estatísticas
é muito difícil, uma vez que elas se referem aos indivíduos e não às famílias.
De qualquer forma, é preciso saber que essa tendência à pluriatividade das
famílias rurais tem sido uma característica marcante do desenvolvimento rural
dos países do núcleo orgânico, o chamado primeiro mundo.
Por
isso, em vez de propostas compartimentadas para cada segmento
(4,7 milhões de
empregados agrícolas; 4,5 milhões de trabalhadores por conta-própria com seus
5,1 milhões de não-remunerados; 3,2 milhões de produtores do próprio
consumo; e 3,9 milhões de trabalhadores rurais não-agrícolas) o eixo
propositivo de um projeto de desenvolvimento rural deve estar voltado para a
ampliação das oportunidades de geração de renda monetária pelas famílias
rurais que ainda são predominantemente agrícolas, mas que, em grande número,
se tornarão cada vez menos agrícolas no processo de desenvolvimento.
Hoje esse eixo propositivo deve se voltar
principalmente para a consolidação, expansão e aperfeiçoamento de ações
como o PRONAF, PROGER-Rural e a política de assentamentos. Mas é bem possível
que amanhã todas essas ações devam ser integradas em um
amplo programa-rede voltado ao fortalecimento da família rural, cuja principal
ênfase certamente será a educação. Principalmente porque tem sido na
educação onde mais se manifesta a desigualdade decorrente do “viés
urbano” das políticas governamentais.
Não
será possível acompanhar as mudanças provocadas pelo fenômeno que tem sido
chamado de “globalização,” - e muito menos enfrentar os problemas
ambientais - sem uma mudança profunda da trindade educacional à disposição
das famílias rurais. Essa trindade educacional é formada: i) pelo ensino
regular básico que deveria estar sendo oferecido nas escolas rurais; ii) a
necessária formação profissional; iii) a relação dos dois anteriores com as
redes de ciência, tecnologia e extensão.
O movimento sindical dos trabalhadores rurais
precisa propor com urgência uma completa reforma dessa trindade educacional
rural. Esse é, na prática, o maior obstáculo à melhoria da distribuição de
renda e, por conseguinte, do desenvolvimento em condições como as do Brasil.
Neste
país, é na desigualdade em oportunidades educacionais que ficam mais patentes
as desigualdades sociais. Estima-se que, no Brasil, cada ano de escolaridade
adicional tende a elevar o nível de renda de um trabalhador em aproximadamente
15%. E essa relação varia conforme o nível educacional. Para um trabalhador
com nível secundário, um ano adicional de estudo tende a elevar seu nível de
renda em mais de 15%. Por ser um dos países mais desiguais em oportunidades
educacionais (seis vezes superior à observada nos Estados Unidos) o Brasil também
é um dos países com maior sensibilidade de renda ao nível educacional do
trabalhador. Isso faz com que a importância da desigualdade educacional para a
concentração de renda também seja uma das mais elevadas do mundo.
Como
uma da principais fontes de desigualdade de oportunidades educacionais está
justamente na disparidade rural-urbana, o eixo propositivo de um projeto voltado
para a ampliação das oportunidades de geração de renda pelas famílias
rurais deve se concentrar na reforma educacional. Principalmente em um país que
está em último lugar no que se refere ao ensino nas cinco primeiras séries.
Pelo potencial econômico brasileiro, a Unicef calculou que pelo menos 88% das
crianças matriculadas no primeiro grau deveriam concluir, no mínimo, a quinta
série. Mas apenas 39% chegam a esse estágio.
O
ponto de estrangulamento do desenvolvimento rural é o ensino, principalmente o
de primeiro grau. Dos alunos que entram, muitos até ficam em média sete a oito
anos, mas saem sabendo muito pouco, sobretudo os das famílias mais pobres. Por
isso, só se pode concordar com o pesquisador Claudio de Moura Castro quando diz
que o milagre brasileiro foi ter ido tão longe com tão pouca educação. Só
que acabou em catástrofe. Fez com que um país com o potencial que tem o Brasil
chegasse ao fim do século com um ensino básico igual ao do Haiti.
Países
muito mais pobres do que o Brasil - como a Tailândia ou a Costa Rica - venceram
o desafio do ensino básico. Os atuais países mais desenvolvidos o venceram
quando ainda eram mais pobres do que o Brasil atual. E seus governos não
dipunham de qualquer varinha de condão. Apenas agiram pressionados por
sociedades que davam uma prioridade real à educação. O problema do Brasil é
até agora não houve empenho, essencialmente porque a sociedade brasileira não
se mobilizou nessa direção. Como diz Moura Castro, “se o brasileiro vigiasse a escola como vigia a seleção, o problema do
ensino básico já teria sido resolvido há muito tempo”.
Portanto,
a resolução do problema da educação rural começa por uma questão de
persuasão. É preciso convencer as famílias rurais a não aceitarem um ensino
tão ruim e ajudá-las a cobrar bons resultados. Vender essa idéia às
diretorias dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais é um dos desafios. O outro é
gerar o ambiente institucional necessário para que a trindade seja de fato
reformada.
Se
fosse possível obrigar os filhos de todos os governantes a estudarem em escolas
públicas rurais, provavelmente esse ambiente surgiria com rapidez. No entanto,
como essa é uma proposta politicamente inviável, vai ser necessário percorrer
um caminho mais longo.
Esse outro caminho passa necessariamente por uma
redistribuição das funções dos governos federal, estaduais e municipais. É
preciso haver mais autonomia para que os Estados e Municípios repartam
responsabilidades no que se refere à educação, cultura, assistência social,
saúde, etc. Não somente autonomia, como flexibilidade para que possam ser
acomodadas situações específicas impostas por disparidades regionais, tamanho
das cidades, etc.
Mas
para que isso possa ocorrer, é necessária uma clara redefinição das competências
tributárias entre as unidades de governo, de tal forma a ajustar os usos às
fontes de recursos para cada nível administrativo. Maior autonomia e
responsabilidade aos Estados e Municípios significa redução das atuais
transferências federais. Daí o imenso impacto que uma reforma tributária
pode ter sobre os rumos do desenvolvimento rural.
O
atual sistema tributário constitui um dos principais entraves à geração do
ambiente institucional necessário à resolução dos problemas rurais, a começar
pelo mais importante: a educação. E nada garante que o debate que se avizinha
sobre sua reforma permita a superação desses entraves.
A
maioria das lideranças do patronato rural e o conjunto da bancada ruralista no
Congresso não deram importância à reforma fiscal, apesar da tributação da
agricultura brasileira ser uma das mais perversas do mundo. Limitaram-se, nos últimos
anos, a bater na tecla da renegociação de suas dívidas. É verdade que alguns
líderes mais esclarecidos do agribusiness
estão mobilizados para modernizar a tributação de suas cadeias. Mas suas
preocupações não vão muito além do ICMS e demais incidências que atingem
sua renda: Cofins, PIS/PASEP, ISS, CPMF, etc.
A
tendência da proposta do patronato urbano é de que cada esfera de governo
venha a ter sua base tributária própria. A União ficaria com o imposto de
renda, impostos sobre o comércio exterior e impostos seletivos sobre energia,
combustíveis, telecomunicações, fumo e bebidas. Os estados ficariam com um
novo imposto sobre o consumo que juntaria os atuais ICMS, IPI e ISS. E os municípios
ficariam com um novo imposto sobre a propriedade que fundiria os atuais IPTU e
ITR.
As
transferências de recursos entre esferas de governo iriam principalmente dos
Estados para os Municípios e apenas residualmente da União para os Estados.
Paralelamente seria descentralizado o provimento de todos os serviços públicos
que pudessem ser realizados a níveis inferiores de governo.
O MSTR deve se mobilizar para que seja incluído no
debate parlamentar da reforma tributária mudanças substanciais no processo orçamentário
que exprimam uma clara superação o “viés urbano” dos dispêndios
governamentais.
A
revalorização do espaço rural deveria comandar, tanto a atribuição de maior
autonomia aos Estados e Municípios, como a maior participação da iniciativa
privada na prestação de serviços públicos.
O
diagnóstico da situação econômica e social, bem como a avaliação e
monitoramento dos programas de desenvolvimento deveriam ser as principais funções
do Ministério do Planejamento, que, ao estabelecer a proposta orçamentária,
deveria estar traduzindo os resultados da avaliação dos programas voltados aos
objetivos prioritários. E a vinculação da proposta orçamentária com tais
objetivos deveria explicitar com clareza a prioridade ao desenvolvimento rural.
De todo modo, a aprovação da legislação necessária a um reforma tributária
que inclua mudança do processo orçamentário constituirá apenas o começo de
um longo processo que poderá conferir ao setor público feições mais
adequadas para lidar com a realidade rural do país.
Ao mesmo tempo em que estaria pressionando pela
reforma do sistema educacional rural - cuja primeira grande batalha será a
reforma tributária de 1998 (ou 1999) - o MSTR poderia também preparar um plano
mais abrangente em parceria com as organizações internacionais que estão
voltando a priorizar estratégias de desenvolvimento rural.
Os
resultados da quarta conferência anual do Banco Mundial sobre desenvolvimento
ambientalmente sustentável mostram que está em curso uma profunda revisão das
anteriores posturas das organizações internacionais. Tendem agora a
privilegiar as intervenções de desenvolvimento rural que possam ser executadas
com forte envolvimento local dos protagonistas. (“Rural
Well-Being: From Vision to Action”, The World Bank: Outubro 1997)
Depois
de abandonar seus célebres programas de “desenvolvimento rural integrado,”
que pretendiam atender a inúmeras e heterogêneas necessidades de forma global
e simultânea, o próprio Banco Mundial passou uns dez anos sem articular uma
estratégia alternativa. Investiu em estradas, irrigação, saneamento, etc, sem
qualquer visão de conjunto que
definisse prioridades. Agora volta a uma abordagem integradora, mas voltada para
a instância local, e não mais para os governos centrais.
Aprendendo
com seus próprios erros, o Banco reconhece agora a necessidade de planejar e
executar seus projetos de forma decentralizada e participativa. Até porque é
somente no âmbito local que existem as informações, incentivos e capacidades
necessários para implementar esses projetos.
A
palavra de ordem é promover políticas públicas mais focalizadas, o que obriga
os envolvidos na confecção de políticas governamentais a darem mais atenção
para o papel das microinstituições locais no processo de desenvolvimento. E
esta é talvez a principal vantagem comparativa do MSTR: sua enorme capilaridade
social e geográfica.
SEGUNDA
PARTE
TEMAS QUE MAIS SUSCITARAM CRÍTICAS
E SUGESTÕES [7]
(Até
meados de Maio de 1998)
2.1
“A grande ausência do texto é uma fundamentação mais clara e detida
sobre o porquê da opção pela agricultura familiar como base de uma proposta
de desenvolvimento rural.”
Como
as razões de uma opção preferencial pela agricultura familiar foram muito
enfatizadas em textos anteriores[8],
não pareceu necessário reconsiderá-la entre as questões básicas para a
elaboração do projeto de desenvolvimento rural do MSTR. No entanto, pelo menos
dois argumentos mostraram a necessidade de retomar esta questão. Por um lado, a
suspeita de que a expressão ‘agricultura familiar’ talvez não seja a mais
apropriada para exprimir o “acordo com a
idéia central que é de um modelo não concentrador de terras e de rendas...”
Por outro, o fato de muitos dirigentes sindicais terem “uma
visão um tanto romântica/utópica” da opção pela agricultura familiar.
A
opção por uma agricultura tocada predominantemente por trabalho assalariado
(isto é, pela agricultura patronal), é uma das características mais marcantes
dos países subdesenvolvidos, sejam eles periféricos ou semi-periféricos. Quem
tiver a oportunidade de examinar os fatos, logo perceberá que o caminho
trilhado pelas nações mais desenvolvidas foi exatamente o inverso.
Depois
de muita hesitação, pelo menos 17 nações hoje consideradas desenvolvidas
fizeram uma clara opção pela agricultura familiar: Alemanha, Austrália, Áustria,
Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, França, Grã
Bretanha, Holanda, Itália, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Suécia e Suíça. A pioneira foi a Dinamarca, onde a virada
política que permitiu a expansão e consolidação da agricultura familiar começou
ainda no final de século 18. A última foi o Japão, onde essa virada só foi
mesmo garantida pela forte pressão exercida pelo Supremo Comando do Poder dos
Aliados (SCAP). E a essa lista podem ser acrescentadas algumas nações
semi-periféricas, sejam elas “tigres” (principalmente Coréia do Sul e
Taiwan), países ex-socialistas (principalmente a China) ou o caso recente (e
emblemático) da África do Sul.
Em
todas as agriculturas do primeiro mundo, fazendas tocadas por levas de
assalariados tornaram-se um apêndice de uma massa de estabelecimentos de médio
porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto que grandes
fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de
subdesenvolvimento. Na Europa é fácil achá-los em Portugal, Espanha ou Grécia.
Mas é preciso muita paciência para localizá-los na França, Alemanha ou Grã-Bretanha.
Na América do Norte, ainda são numerosos nas áreas próximas ao México,
tornando-se cada vez mais raros à medida em que se sobe para o Canadá. No Japão
e em suas ex-colônias será necessária uma lupa para descobrir assalariados
agrícolas. Ou seja, a crença de que “o
caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado” só faz
sentido se esse caminho for o caminho do subdesenvolvimento.
Será
possível imaginar que tudo isso não passa de uma coincidência? Que os países
que atingiram os mais altos níveis educacionais, de esperança de vida, e de
PIB real per capita tenham todos
optado por uma agricultura baseada no trabalho familiar; enquanto os países com
os mais baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) continuam a hesitar
diante dela (ou muitas vezes nem
isso)?
Os
estudiosos que duvidaram que isso fosse uma mera coincidência dedicaram-se a
pesquisas comparativas e encontraram fundamentos econômicos, sociais e políticos
para o fenômeno. Mas esses fundamentos costumam estar tão ligados às circunstâncias
históricas específicas de cada país que fica muito difícil juntá-los numa
única síntese explicativa. Uma dessas tentativas pode ser encontrada em dois
livros disponíveis em português: Paradigmas do capitalismo agrário
em questão, de Ricardo Abramovay (São Paulo: Hucitec/Anpocs/Edunicamp,
1992) e O Desenvolvimento Agrícola; Uma Visão Histórica, de José Eli
da Veiga (São Paulo: Edusp/Hucitec,1991). Uma outra, bem parecida, encontra-se
na vasta obra de Hans Binswanger, o atual coordenador da área de
desenvolvimento rural no Banco Mundial [9].
Mas
a mais completa e profunda análise da questão foi publicada na França há
apenas quatro meses por Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, professores do
Institut National Agronomique Paris-Grignon: Histoire
des Agricultures du Monde; Du Néolitique à la Crise Contemporaine (Ed.
Seuil, Paris: Novembro 1997). Nesse
livro, que deveria ser traduzido para todas as linguas vivas por ser a melhor e
mais completa síntese já produzida sobre quase dez milênios de crescimento
econômico, encontra-se não somente a melhor interpretação do contraste atual
entre as agriculturas desenvolvidas e subdesenvolvidas, como o esboço do
arranjo internacional necessário à promoção da agricultura familiar nos países
subdesenvolvidos.
Ao
analisar a dinâmica agrícola dos países desenvolvidos durante o século 20,
Mazoyer & Roudart enfatizam que todos eles foram levados a adotar políticas
de sustentação de preços que impediam reduções abruptas da renda média dos
agricultores e, ao mesmo tempo, políticas visando a uma aceleração da chamada
modernização: organização da comercialização; crédito com taxas de juros
favorecidos; aumento dos prazos de arrendamento; renovação de sistemas de
pesquisa intimamente relacionados com os correspondentes sistemas educacionais e
correspondentes redes de experimentação-informação-e-vulgarização agropecuária;
transferência a agricultores em processo de consolidação das terras liberadas
pelos estabelecimentos cessantes ou em dificuldade, principalmente pelo
incentivo à aposentadoria dos agricultores mais idosos; leis proibindo o acúmulo
de mais terras por agricultores que já dispunham de área suficiente para o
pleno emprego da mão-de-obra familiar; e vários mecanismos que impediam o
acesso de estabelecimentos pouco viáveis às subvenções e ao crédito barato.
No
fundo, dizem os autores, esses programas facilitaram o desenvolvimento de
estabelecimentos familiares médios e grandes, impedindo, em certa medida, o
desenvolvimento de grandes fazendas com mão-de-obra assalariada. Por outro
lado, ponderam que o mínimo que se pode dizer é que tais medidas não ajudaram
os estabelecimentos menos viáveis, mas também não os fizeram desaparecer
brutalmente. No final das contas foram medidas que impulsionaram o
desenvolvimento desigual de estabelecimentos médios e grandes, garantindo ao
mesmo tempo a sobrevivência dos periféricos pelo período de uma geração.
Ou
seja, as agriculturas dos países desenvolvidos foram enquadradas por políticas
comerciais, financeiras, e de fomento que não corresponderam à visão de
muitos economistas e agrônomos segundo a qual a modernização (motomecanização,
fertilização mineral, seleção vegetal e animal, agrotóxicos, etc.) levaria
cedo ou tarde à generalização de enormes unidades de produção, fossem elas
patronais ou coletivizadas. Isto quer dizer que essas políticas contrariaram o
que seriam as tendências objetivas do desenvolvimento capitalista na
agricultura? De maneira nenhuma, mostram Mazoyer & Roudart. Se elas
contrariaram alguma coisa foi a ingenuidade das previsões feitas por
economistas e agrônomos impressionados com a forte aceleração das mudanças
agrícolas do século 20.
Uma
das melhores partes dessa História das Agriculturas do Mundo é a descrição
analítica das etapas em que se deu a “modernização”, fenômeno que os
autores preferem chamar de “segunda revolução agrícola dos tempos
modernos”. Infelizmente é impossível reproduzí-la neste texto. Mas
certamente será útil chamar a atenção para alguns pontos essenciais.
A
cada etapa desse processo, só puderam continuar a investir e a progredir os
estabelecimentos suficientemente equipados, suficientemente grandes e
suficientemente produtivos para que pudessem gerar uma renda por trabalhador
superior ao preço de mercado da mão-de-obra pouco qualificada. Esse nível de
renda constitui o que os autores chamam de ‘patamar
de capitalização’ ou ‘patamar de
renovação’. Os estabelecimentos que conseguiam se consolidar eram os que
geravam uma renda superior a esse patamar. Os que geravam renda inferior a esse
patamar e não se renovavam, terminavam por regredir: viviam em
crise, e, com enormes sacrifícios, muitos conseguiam se manter até a
aposentadoria do agricultor. Depois disso, na falta de um sucessor (parente ou não),
esses estabelecimentos tendiam a ser desmembrados e suas terras e outros bens
ainda úteis adquiridas por estabelecimentos que se encontravam acima do
referido patamar.
Como
as inovações tecnológicas que permitiam acompanhar a constante elevação do
patamar podiam sempre ser adotadas por muitos dos agricultores familiares que
participavam dessa espécie de corrida de obstáculos; e como a queda tendencial
dos preços agrícolas era administrada por governos interessados numa certa
regulação do êxodo rural; o desempenho econômico da agricultura familiar só
podia ter contrariado as profecias sobre uma esmagadora vitória da agricultura
patronal.
Na
verdade, muitas dessas profecias baseavam-se também numa idéia bem equivocada
sobre a importância que as chamadas ‘economias de escala’ ou ‘economias
de tamanho’ teriam na agricultura. Mas as reduções dos custos fixos ligadas
aos aumentos de escala ou de tamanho mostraram-se pouco significativas na
agricultura. Quando são possíveis, elas só são realizáveis até um tamanho
bem modesto, correspondente a uma pequena equipe de trabalho. Acima desse
tamanho passam a se manifestar deseconomias que aumentam com muita rapidez.
Para
a maior parte dos sistemas de produção praticados hoje em dia nas agriculturas
dos países desenvolvidos, dizem Mazoyer & Roudart, a dimensão mais favorável
à eficácia econômica de uma unidade de produção corresponde ao trabalho de
equipes que variam entre 3 e 7 trabalhadores.
E,
mesmo assim, os estabelecimentos tocados por um único trabalhador (a tempo
completo ou parcial) vêm se mostrando tão competitivos que seria muito
arriscado prever o triunfo de unidades de tamanho correspondente a uma equipe de
3 a 7 trabalhadores, sejam elas familiares, patronais ou de outro tipo.[10]
O
que foi dito até aqui ajuda a entender porque a forma familiar foi a base da
modernização agrícola dos países desenvolvidos. Isso é apenas parte de “uma
fundamentação mais clara e detida sobre o porquê da opção pela agricultura
familiar como base de uma proposta de desenvolvimento rural.” Mas é uma
parte muito importante de qualquer argumentação em favor da agricultura
familiar porque mostra que essa tese está longe de ser uma mera ideologia em
defesa dos pobres do campo, cujo conteúdo seria anti-histórico e anti-econômico.
Por incrível que possa parecer à maioria dos leigos em assuntos agrícolas, é
justamente o inverso - a obsessão ideológica de certas elites brasileiras pela
agricultura patronal - que carece de qualquer respaldo histórico e econômico
no processo de desenvolvimento dos países que fazem parte do chamado primeiro
mundo.
Mas
é claro que a opção pela agricultura familiar como base de uma proposta de
desenvolvimento rural no Brasil de 1998 não se baseia apenas na constatação
de que essa foi a forma que predominou em todas as agriculturas de países
desenvolvidos. Para saber porque o predomínio de grandes fazendas patronais que
dispõem de uma abundante e baratíssima força de trabalho constitui um obstáculo
ao desenvolvimento é necessário perceber seus efeitos fortemente regressivos
na distribuição de renda.
Compare-se,
por exemplo, economias latinoamericanas, como a brasileira ou a mexicana, a
economias semi-periféricas muito mais desenvolvidas, como as da Coréia do Sul
ou de Taiwan. O contraste começa a aparecer quando se compara o potencial de
consumo de suas respectivas populações. Nas economias de tipo latinoamericano,
as populações rurais economicamente ativas são majoritariamente formadas por
peões (sem terra ou sitiantes abaixo do patamar de renovação) que trabalham
para um punhado de empregadores. Nas economias semi-periféricas de sucesso
essas famílias de peões não chegam a 3% dos ocupados no meio rural. Lá a
grande maioria da população agrícola está ocupada em sítios com renda igual
ou superior ao patamar de renovação.
É
claro que em países como a Coréia do Sul e Taiwan a demanda rural depende
essencialmente da renda corrente dos agricultores familiares, enquanto que no México
ou no Brasil ela depende basicamente do poder de compra de uma enorme massa de
peões. Como esses peões situam-se sempre nos mais baixos estratos de distribuição
de renda, seu poder de compra não chega a favorecer a ampliação do consumo de
massa. A evolução do poder de compra dos 20% mais pobres de populações
latinoamericanas tem oscilado pouco acima do nível atingido em meados do século,
enquanto que o consumo das camadas de altas rendas tem crescido se forma
permanente.
Nos
países semi-periféricos que conseguem se desenvolver ocorre exatamente o
inverso. A elevação da renda da maioria da população rural acompanha de
perto a evolução da renda média urbana, contribuindo, portanto, para a ampliação
do consumo de massa. A drástica reforma agrária realizada na Coréia do Sul,
por exemplo, não somente engendrou pouca desigualdade na distribuição dos
ativos e da renda, mas também criou as pré-condições para uma ampla difusão
dos incrementos de renda. Quem tem dúvida sobre este ponto precisa ler com urgência
o artigo de E.Lee, publicado em 1979 na revista World Development (7:493-517): “Egalitarian Peasant Farming and
Rural Development: the Case of South Korea”.
Em
suma, com base na experiência histórica dos países mais desenvolvidos e dos
raros países semi-periféricos que chegaram a se desenvolver, deve-se pensar
que a passagem da economia capitalista para sua sua fase socialmente articulada
de desenvolvimento dificilmente pode prescindir de um conjunto de políticas públicas
que venha a permitir a liberação do potencial da agricultura familiar.
Essas
vantagens de uma estratégia de desenvolvimento rural que priorize a promoção
da agricultura familiar ainda não foram percebidas pela sociedade brasileira.
No entanto, o Brasil é um país onde a forma de agricultura mais favorecida - a
patronal - está empregando cada vez menos trabalhadores, e engendrando,
portanto, cada vez mais concentração de renda
e exclusão social.
Enquanto
isso, a forma de agricultura mais desprezada - a familiar - quando consegue
furar o cerco exibe um perfil essencialmente distributivo, além de ser
incomparavelmente melhor em termos socioculturais. E seus sistemas
poliprodutivos de cultura e criação, aliados à maior maleabilidade de seu
processo decisório, também trazem imensas vantagens comparativas sob o prisma
ambiental.
Enfim,
a agricultura familiar é tão mais sustentável (estabilidade, resiliência e
eqüidade) que é impossível imaginar que a sociedade brasileira não venha a
se dar conta do preço que está pagando por acreditar no mito da maior eficiência
da agricultura patronal. Um dia acabará percebendo que mesmo essa sua
periclitante eficiência alocativa nem de longe compensa sua absurda ineficiência
distributiva.
2.1
“O MSTR deve defender um modelo que de fato seja ‘alternativo’ ao
modelo hoje vigente. Há um ‘modelo neoliberal de desenvolvimento,’ o que em
parte, é uma contradição em termos. Mas parece correto afirmar que, mesmo não
havendo um modelo de desenvolvimento, existe uma concepção e estratégias de
inserção do país na ordem competitiva internacional. E isso dá parâmetros
para um determinado comportamento do Estado, para uma determinada maneira de se
pensar a modernização da base produtiva do país, o que dá origem às
mencionadas consequências nefastas.”
O
uso da expressão ‘modelo alternativo’ entre os sindicalistas (e
principalmente entre seus assessores) é muito ambígua, como revela a passagem
acima. Por isso, sempre causa uma grande insegurança alguém contestar que
algum ‘modelo de desenvolvimento’ esteja sendo seguido no Brasil. E quando
se solicita uma explicitação sobre o que seria esse modelo, consegue-se, na
melhor das hipóteses, respostas do seguinte tipo: “o
modelo hoje vigente tem destinado à agricultura, e consequentemente ao meio
rural, um papel secundário,..”
Como
ainda não surgiu qualquer modelo de desenvolvimento no qual a agricultura e o
meio rural não tivessem papel secundário (a menos que se considere a experiência
do regime de Pol Pot, no Cambodja, um “modelo de desenvolvimento”) fica-se
sem saber o que seria esse desconhecido e misterioso modelo “alternativo”.
Por
isso, pode ser muito importante transcrever aqui algumas passagens de um comentário
enviado por um dos colegas que mais entende desse assunto.
“Se
o ‘alternativo’ refere-se, como é óbvio, e você indica imediatamente,
“ao que aí está”, o surgimento e o enraizamento desta noção na agenda
dos rurais (incluindo os pequenos produtores da órbita cutista, mas também os
movimentos sociais, como o MST) decorre de uma matriz essencialmente teológica,
fruto das construções fortemente maniqueístas que a ‘teologia da libertação’
associada a um marxismo vulgar, introduziu na visão de mundo dos dirigentes que
formaram as organizações antes opositoras ao sindicalismo oficial e, depois,
com a aproximação CUT-CONTAG, trouxeram este temário ideológico para o campo
da confederação. Creio, assim, que essencialmente, o ‘alternativo’ opõe-se
ao ‘aí existente’, como você tão bem enfatiza, mas seu conteúdo, como
visão de mundo e de sociedade, não se esgota nas linhas mestras indicadas
(...). Em outras palavras, e tentando ser mais claro, o ‘alternativo’ é,
antes de mais nada, político-ideológico e propõe principalmente “uma outra
sociedade”, e não o aperfeiçoamente do existente. Você me perguntaria: mas,
qual sociedade? a socialista ou algo do gênero (ou, então, qual socialismo)?.
Estas perguntas, cabíveis, nunca estiveram presentes nas falas, apreciações
sociais, documentos e manifestações existentes, mas sempre fundamentaram a
externalidade das propostas, permanecendo subjacentes por tantas razões, desde
a necessidade de primeiramente serem capazes de ‘atacar e mudar o existente’
como, também, por certo, por ninguém ter respostas definitivas para as mesmas.
Ou seja, o ‘alternativo’ é mais do que o meramente econômico da melhoria
das condições de vida material e implicitamente supõe a transfomação política
da sociedade. Mas que fique claro: esta é uma leitura do processo formativo e
do desenvolvimento das organizações de pequenos produtores e trabalhadores
rurais e não estou afirmando que isto é possível, nem estou, sequer
remotamente, defendendo que isto é lógico ou racional, do ponto de
vista científico (provavelmente não o é). Apenas estou insistindo que o
‘alternativo’ tem outra origem e conotação principal do que a que você
indicou, sendo mais anti-sistêmico do que meramente reformador.”
Essas
palavras sugerem que alguns dirigentes sindicais e seus assessores estão
participando de uma vasta operação coletiva de auto-engano. É fundamental que
esclareçam se pretendem elaborar um projeto de desenvolvimento rural ou se
querem elaborar um projeto de sociedade alternativa. São duas coisas
completamente diferentes...
2.3
“A Contag não pode empunhar a bandeira educacional a não ser dentro
de um amplo projeto de desenvolvimento rural que tenha como pré-requisito a
alteração da estrutura de acesso à terra.”
Aparentemente
essa tese não é divergente da concepção apresentada no texto preliminar “Cinco
Questões...”. O objeto central do texto é exatamente a elaboração de
um “amplo projeto de desenvolvimento rural” e a ênfase na educação está
inserida nessa abordagem. Todavia, essa passagem retirada de uma das críticas
ao texto inicial tem a virtude de embutir sinteticamente duas controvérsias que
precisam ser melhor explicitadas para que a discussão possa evoluir e ser frutífera.
A primeira controvérsia reside na relação entre a questão educacional e a
questão distributiva (de riqueza e de renda). A segunda controvérsia reside na
idéia de “pré-requisito”, e é muito mais abrangente porque envolve
diversas visões sobre a hierarquia das bandeiras que a Contag deve empunhar.
Como não poderia deixar de ser, é muito forte, por exemplo, a visão de que a
reforma agrária deve ser um pré-requisito de qualquer outra linha de ação do
projeto de desenvolvimento rural que se pretende elaborar.
2.3.1
Educação e distribuição de renda
Esta
é uma longa controvérsia. Economistas de posição conservadora liderados por
Langoni e Simonsen costumam ser acusados de usar a questão educacional para
negar o papel central de uma distribuição de renda e de ativos (propriedade da
terra, por exemplo). Por isso, houve um grande número de trabalhos feitos por
economistas de posição progressista com o objetivo de mostrar o contrário.
Por exemplo: a dissertação de mestrado de José Graziano da Silva procurou
mostrar que a educação segue o perfil da distribuição de renda. Ou seja,
estuda quem tem renda familiar. Em outro trabalho o mesmo autor procurou mostrar
que quando se introduz a variável posição na ocupação, ela capta o efeito
da educação, demonstrando que o nível educacional é, na verdade, uma forma
muito mais de ‘legalizar’ ou legitimar uma posição ocupada por alguém do
que a condição desse alguém chegar àquela posição.
Um
outro economista de posição progressista, Claudio Salm, tem um livro que
explora bastante essa tese: ele diz textualmente que quando todo mundo tiver
primário completo, vai se exigir secundário completo do bóia-fria, do mesmo
jeito que agora as principais universidades públicas já exigem o título de
doutor no início da carreira de um professor. Ou seja, os níveis educacionais
vão sendo empurrados para cima como forma de distinguir e diferenciar as
pessoas. E a escala relativa de rendas vai sendo adequada ao nível educacional
disponível no país.
Mais
recentemente, um outro economista de posição progressista, Ricardo Paes de
Barros, procurou mostrar que essas críticas à tese Langoni-Simonsen podem ter
provocado aquele conhecido fenômeno de jogar fora o bebê junto com a água do
banho. Sem negar a importância de qualquer outro tipo de programa distribuitivo,
ele procurou mostrar que a educação também faz sim muita diferença. Muito
mais no Brasil do que em países menos desiguais. E foram esses trabalhos mais
recentes feitos por Ricardo Paes de Barros que influenciaram a argumentação
apresentada no texto preliminar, fazendo com que algumas passagens exagerassem,
talvez, o papel que pode ter a melhoria dos níveis educacionais no processo
distributivo.
Em
outras palavras, não se pretende desenvolver aqui essa polêmica, porque ela
certamente vai exigir muitas outras páginas. O que se pretende é tão somente
insistir numa convicção que também se formou da observação empírica dos
processos de desenvolvimento rural, principalmente na Europa e nos Estados
Unidos. Essa convicção é de que o nível educacional foi o principal trunfo,
tanto do sucesso dos agricultores que conseguiram saltar todos os obstáculos
impostos pelo tapete rolante da corrida tecnológica e se manter sempre acima do
tal patamar de renovação, quanto do sucesso daqueles que tiveram que se tornar
pluriativos, quanto do sucesso dos que foram sendo obrigados a transitar para
ocupações externas à agricultura, fossem elas rurais ou urbanas.
O
mesmo fenômeno pode ser constatado aqui no Brasil, tanto em casos nos quais o
próprio sucesso econômico dos agricultores familiares tende a exigir que uma
parte da família encontre outras fontes de renda locais, ou em casos nos quais
o insucesso torna obrigatório que os filhos deixem a agricultura, procurem
emprego em outras atividades rurais, ou mudem para as cidades. Em qualquer
desses casos o nível educacional faz uma tremenda diferença. E mesmo que ainda
não se possa dizer que na agricultura brasileira o sucesso econômico está
diretamente ligado ao nível educacional, isso não demorará muito para
ocorrer, pois em áreas onde a pressão pela inovação é mais intensa já se
pode notar sinais desse fenômeno.
Em
outras palavras, é simplesmente inconcebível pensar qualquer processo de
desenvolvimento no qual a educação não ocupe um lugar estratégico. Basta
lembrar, por exemplo, que na idéia de desenvolvimento humano o nível
educacional foi considerado uma dos três principais critérios de avaliação,
ao lado da esperança de vida e do PIB per
capita. Apesar de ter uma renda per
capita bem inferior à do Brasil, a Polônia está na frente em termos de
desenvolvimento humano porque atingiu uma taxa de alfabetização de 99% e uma
taxa de escolaridade bruta de 79%, enquanto que no Brasil essas taxas continuam
a ser vergonhosas: 82,7% e 72%.
Assim,
o fato de não poder demonstrar aqui o quanto a educação influencia ou não
alterações na distribuição de renda, isso não impede que seja reafirmada a
idéia de que a educação deve ter prioridade máxima no projeto de
desenvolvimento rural que o Brasil precisa, e cuja elaboração deve ser
conduzida pela Contag.
2.3.2
Hierarquia das linhas de ação e “pré-requisitos”
O
estabelecimento de uma hierarquia de linhas de ação em um projeto de
desenvolvimento rural já é um problema difícil, e fica ainda mais complicado
quando é confundido com o problema do estabelecimento de uma hierarquia de
atuais “bandeiras” ou “lutas” do movimento sindical.
Uma
coisa a avaliação tática que leva o movimento sindical a afirmar que “a
reforma agrária é o principal instrumento político para a ruptura com o atual
modelo de desenvolvimento excludente, concentrador de terra e renda e reprodutor
do poder oligárquico.” Outra coisa completamente diferente é tentar
entender quais são as linhas de ação que no processo de desenvolvimento -
necessariamente de longo prazo - devem ser consideradas as mais determinantes.
Por
exemplo, é fácil perceber o quanto o sucesso econômico de um agricultor
familiar assentado há alguns anos está relacionado com sua formação anterior
e com as oportunidades de acesso a uma melhoria dessa formação. Isso pouco tem
a ver com seu “nível escolar”, isto é, saber se tem ou não primário
completo, etc. O ensino básico oferecido pelas escolas rurais pode ser um dos
elementos do fenômeno educacional, mas está longe de ser o mais importante.
A formação dos agricultores familiares é um processo muito mais
complexo, que exige não somente escola, como o contato direto com outras
esferas, como as cooperativas, associações, redes de extensão e assistência
técnica, igrejas, sindicatos, etc.
Assim
sendo, o sucesso de um assentamento, a médio e longo prazo, está diretamente
relacionado com a ampla questão educacional. E o fato da “bandeira” reforma
agrária ter hoje muito mais importância tática que a “bandeira” da educação
não significa que a questão da formação dos atuais ou futuros agricultores
familiares possa ser subestimada ou até desconsiderada, como está ocorrendo.
Estudos
empíricos realizados em quase toda a América Latina apontam para a existência
de um forte contraste entre as situações mais periféricas e as situações
mais modernizadas, onde os agricultores estão mais avançados no domínio de
tecnologia e de mercados promissores. Em Honduras, El Salvador, Paraguai e Colômbia,
a educação praticamente não altera a renda agrícola das famílias, embora
altere modestamente, em alguns desses países, a renda do trabalho não-agrícola
de famílias rurais. Ao contrário, em situações mais mordernizadas - como a
do Chile, por exemplo - o nível educacional tem um efeito bem positivo sobre a
renda da população rural, seja ela agrícola ou não-agrícola.
Como
diz Cláudia Romano, em seu comentário ao texto que está na primeira parte
deste trabalho, “em países como o Chile, onde a economia rural vem se
expandindo nos últimos 20 anos mais rapidamente do que a economia urbana, fica
evidente o papel da educação. Além disso, esses estudos empíricos mostram
que o aumento da renda familiar provocado pela educação é maior para as famílias
que têm renda acima de um ‘patamar de pobreza’ (por volta de $360 per capita/ano na América Latina). Quer dizer, um ano a mais de
escolaridade tem maior efeito positivo sobre a renda das famílias ‘não-pobres’
do que sobre a renda das famílias ‘pobres’.” Segundo Cláudia Romano,
tudo indica que a variável chave é a qualidade da educação, fenômeno
difícil de medir e, por isso mesmo, não incluído em análises econométricas.
Quanto mais uma família é pobre, piores são as condições em sala de aula, nível
dos professores, e assim por diante.[11]
Ou
seja, o efeito-renda da educação é maior entre os segmentos de agricultores
familiares já consolidados e em processo de consolidação, do que entre os
mais fragilizados ou em processo de decadência. E essa e mais uma razão para
que se entenda a educação - e principalmente a qualidade da educação - como
elemento estratégico de qualquer proposta de fortalecimento a agricultura
familiar.
Como
é possível imaginar que o MSTR possa alavancar processos de desenvolvimento
local se ele considera que essa tal “bandeira” educacional está
subordinada, por exemplo, à mudança da estrutura de acesso à terra? Imaginar
que a educação só deve se tornar importante no âmbito da realização de uma
verdadeira reforma agrária é admitir a impossibilidade do desenvolvimento
local em áreas onde a questão fundiária não tem tanta importância,
justamente as áreas onde é mais fácil o processo de consolidação da
agricultura familiar.
Ou
seja, frases do tipo “a Contag não pode
empunhar a bandeira educacional a não ser dentro de...(seja o que for)”
revelam um enorme equívoco de avaliação sobre a importância estratégica do
fator educacional; equívoco que tem origem nos vícios eminentemente “táticos”
ainda predominantes.
Nenhum
maluco está sugerindo que o MSTR coloque suas “bandeiras” históricas a
meio pau para erguer lá no alto a “luta” por uma educação compatível com
as exigências do desenvolvimento rural. Mas é extremamente preocupante notar
que a questão educacional é tratada quase como se fosse apenas um detalhe.
Basta dar uma olhada no “Documento Base” do sétimo congresso da CONTAG para
perceber a pouca importância atribuída ao problema educacional. Ele se
encontra completamente diluído no ítem 1.4 (página 32), que trata da “formulação de políticas sociais para o campo” e só volta a
aparecer como um dos cinco sub-ítens de uma das onze comissões temáticas!
Para
que fique bem clara a questão que deve ser aprofundada na discussão aqui
proposta: sindicalistas e assessores devem se perguntar se o problema
educacional pode ser tratado como um mero apêndice, isto é, um mero sub-ítem
do que chamam de “políticas sociais”, atribuindo-lhe a mesma importância
que a implantação do SUS (Sistema Único de Saúde), ou o acesso aos benefícios
da Previdência. Parece que isto
está errado, mesmo no plano tático, que não é o assunto deste trabalho. E no
plano estratégico, imaginar que a questão educacional possa tratada com esse
grau de desprezo é decretar desde já que o Brasil não terá o projeto de
desenvolvimento rural que precisa (ou que sua elaboração não poderá ser
conduzida pela Contag).
E
não é apenas no menosprezo pela questão educacional que se manifesta essa
dificuldade de estabelecer uma hierarquia da linhas de ação. Um outro aspecto
muito bem assinalado em duas das críticas enviadas diz respeito ao absurdo silêncio
da CONTAG a propósito do cooperativismo/associativismo, assunto que também
merece um outro texto de muitas páginas.
Enfim,
estas são algumas das questões que estão a exigir mais reflexão coletiva e
precisam ser incluídas como prioritárias na pauta das discussões da nova gestão
da Contag.
[1]
Texto preparado para a CONTAG, tendo como referência os resultados
dos Seminários Regionais realizados entre Fevereiro e Agosto de 1996,
intitulado “Cinco Questões Básicas
Para a Elaboração do Projeto de Desenvolvimento Rural do MSTR”, versão
preliminar: 23/Dez/97, 36p.
[2]
Observações valiosas foram obtidas junto aos colegas
Ademar Romeiro, Arilson, Claudia Romano, Dino Sandro Borges de Castilhos,
Eugênio Conolly Peixoto, Ignacy Sachs, José Graziano da Silva, Renato
Maluf, Ricardo Abramovay, Vicente Marques, Vilson Marcos Testa e Zander
Navarro; como também em reunião realizada em Brasília com alguns
diretores e quase toda a assessoria da CONTAG . A todos registro minha
especial gratidão. Infelizmente não foi possível superar todos os
problemas apontados, ficando evidentemente sob responsabilidade exclusiva do
autor todos os erros e imprecisões.
[3]
“Nova dinâmica da economia
rural” 07/05/98; “Opção pela agricultura familiar” 27/03/98;
“Ponto básico de uma agenda de desenvolvimento” 14/03/98; “Um grande
dilema do fim do século” 28/02/98; “Erradicação da pobreza produz
desenvolvimento?” 10/01/98; “Do mito à ilusão do desenvolvimento”
27/12/97; “A demanda de um padrão de distribuição de renda” 13/12/97;
“Pronaf avança apesar de sabotagens” 22/11/97; “A extinção dos
‘pequenos’” 27/09/97; “Nunca fomos modernos” 16/08/97; “O padrão
Binswanger de agricultura bem-sucedida” 26/07/97; “Na vanguarda”
03/05/97; “Mitos e preconceitos” 28/03/97; “Desigualdade e
desenvolvimento” 28/12/96; “Novela do espaço rural” 21/12/96;
“Entre o possível e o inatingível” 21/09/96; “Três visões do
desenvolvimento” 14/10/96.
[4]
Texto preparado para a CONTAG, tendo como referência os resultados
dos Seminários Regionais realizados entre Fevereiro e Agosto de 1996.
[5]
Cabe resgistrar, entrentanto, que, desde meados dos anos 1970, o
economista Ignacy Sachs já havia antecipado a noção de ‘desenvolvimento
sustentável’ ao usar a expressão ‘ecodesenvolvimento’.
Mas a idéia só “pegou” mesmo com a publicação do Relatório
Bruntland.
[6]
Cf. Folha de São Paulo,
30/11/97. Esses argumentos estão muito bem desenvolvidos no livro Repensando o Estado para o Desenvolvimento Social: superando dogmas e
convencionalismos, que
Bernardo Kliksberg acaba de publicar no Brasil (S.Paulo: Cortez, 1998)
[7] Observações valiosas foram obtidas junto aos colegas Ademar Romeiro, Arilson, Claudia Romano, Dino Sandro Borges de Castilhos, Eugênio Conolly Peixoto, Ignacy Sachs, José Graziano da Silva, Renato Maluf, Ricardo Abramovay, Vicente Marques, Vilson Marcos Testa e Zander Navarro; como também em reunião realizada em Brasília com alguns diretores e quase toda a assessoria da CONTAG . A todos registro minha especial gratidão. Infelizmente não foi possível superar todos os problemas apontados, ficando evidentemente sob responsabilidade exclusiva do autor todos os erros e imprecisões.
[8]
Uma referência importante são os artigos de Ademar Romeiro, José
Eli da Veiga e Ricardo Abramovay reproduzidos no livro A
Questão Agrária Hoje (Porto Alegre: Editora da Universidade,1994).
[9]
A melhor referência talvez seja: BINSWANGER, Hans P. & Klaus
Deininger (1997) “Explaining Agricultural and Agrarian Policies in
Developing Countries” The World Bank
(Agriculture and Natural Resources Department) , Policy Research Working
Paper 1765.
[10]
Por falar em
outros tipos de estabelecimentos além do familiar e do patronal, é
importante que se faça um esclarecimento sobre o uso da expressão
“agricultura familiar”. Uma das grandes vantagens dessa expressão está
justamente na sua amplitude e flexibilidade para excluir apenas as formas de
organização produtiva ancoradas no emprego de grandes contingentes
trabalhadores assalariados que caracterizam seu oposto, a agricultura
patronal. Mas ao se falar em agricultura familiar não se está dizendo
absolutamente nada sobre as relações de propriedade da terra, dos
equipamentos ou mesmo sobre as formas de administração ou organização do
trabalho. Todas as experiências
de agricultura familiar bem sucedida revelam a existência de diversas
formas e graus de cooperação. A mais comum e menos complexa é a cooperação
apenas em processos de escoamento da produção e aquisição de insumos.
Mas também são bem frequentes as cooperativas de máquinas, condomínios
especializados numa parte do sistema de produção, ou mesmo pequenas
agroindústrias organizadas de forma associativa. Menos frequente é a
exploração conjunta de vários estabelecimentos pela chamada
“agricultura de grupo,” mas ela não é tão rara quanto se pensa. E
todas essas formas de cooperação entre agricultores familiares combinam-se
com várias formas jurídicas de propriedade e de posse das terras
exploradas. A mais comum é a propriedade privada que passa do pai para os
herdeiros, mas é absurdo pensar que a promoção da agricultura familiar
deve ser necessariamente ou exclusivamente a promoção da forma privada e
individual da propriedade da terra. Ao contrário, mesmo em situações de
inequívoco predomínio de terras em propriedade privada ela está sempre
misturada com diversas formas de arrendamento, parceria, posse, ou mesmo de
propriedade associativa ou comunitária. Enfim, quando se enfatiza a forma familiar de produção não se está excluindo nenhuma forma jurídica de
posse ou propriedade da terra, e muito menos qualquer tipo ou grau de
cooperação entre as famílias. Muito pelo contrário, entende-se que a
expressão ‘agricultura familiar’ é a que melhor dá conta dessa
unidade na diversidade. O que certamente não faz parte da agricultura
familiar são as formas de produção cujo alicerce é uma completa separação
entre o trabalho e a propriedade dos ativos (terra, equipamento, instalações,
etc.), principal característica da agricultura patronal.
[11]
Está para sair um livro com os resultados das investigações empíricas
das quais Cláudia Romano participou. Por enquanto esses resultados podem
ser encontrados no texto para discussão “Rural
Poverty in Latin America” (World
Bank, July 1997, draft)