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CRESCIMENTO, AGRICULTURA
E MEIO AMBIENTE
José Eli da Veiga [1] zeeli@usp.br Anais do
25o. Encontro Nacional de Economia, Recife, Dezembro de 1997, volume 2, pp. 900-939 |
Introdução
Quando se compara o crescimento econômico dos últimos
duzentos anos ao de milênios anteriores tende-se a pensar que a época pré-industrial
foi marcada pela estagnação. Keynes, por exemplo, em seu brilhante ensaio de
1930 - As possibilidades econômicas de
nossos netos - afirmou sem rodeios que “até o início do século XVIII, não
houve uma mudança muito grande no padrão de vida do homem médio, do habitante
dos centros civilizados da Terra.
(...) Duas razões causaram esse ritmo lento de progresso, ou falta de
progresso: a notável ausência de importantes melhoramentos técnicos e a
deficiência da acumulação de capital.” (Keynes,1930:151)
Como muitos outros grandes pensadores, Keynes notou
enorme contraste entre a lentidão da mudança econômica anterior ao século
XVIII e a progressão cumulativa iniciada por invenções científicas e técnicas,
e definitivamente impulsionada por meio “do carvão, do vapor, da
eletricidade, do petróleo e do aço, da borracha, do algodão e das indústrias
químicas, das máquinas automáticas e dos métodos de produção de massa, do
telégrafo e da imprensa, de Newton, Darwin e Einstein, e milhares de outras
coisas, homens famosos e conhecidos demais para enumerar.” (Keynes,1930:153)
Essa visão de completo contraste, que continua
dominante no pensamento econômico, foi o principal objeto das pesquisas do
Nobel de Economia de 1971, Simon Kuznets. Apesar dos aspectos quantitativos de
seus trabalhos serem os mais conhecidos, Kuznets teve preocupação constante
com as causas, com as flutuações e com a difusão do crescimento econômico.
Basta lembrar que o mais importante de seus livros, publicado em 1966, tem o título
Crescimento Econômico Moderno; Ritmo,
Estrutura e Difusão. Esse livro contém duas “observações alertadoras”
que distanciam Kuznets da citada certeza de Keynes:
“Primeira,
os rompimentos bruscos sugeridos pelas distinções entre épocas econômicas não
ocorrem na realidade. Uma parte do crescimento econômico dos tempos modernos não
era apoiada na tecnologia baseada na ciência, sendo, antes, fruto de um
processo lento de aprendizagem constituído de tentativas e erros; (...). Em
segundo lugar, estamos ainda vivendo essa época (moderna); e, embora tenha
decorrido um tempo suficiente, e uma experiência suficientemente variada tenha
sido acumulada de modo a permitir-nos distinguir seus traços fundamentais, não
se trata absolutamente de um capítulo encerrado. Por conseguinte, embora
possamos tratar das características da época econômica moderna como as vemos
atualmente, as formas finais dessas características estão no momento ocultas
para nós.” (Kuznets,1966:15-16)
À luz de novas evidências sobre o crescimento econômico
pré-moderno, este artigo procura reforçar a primeira dessas duas advertências
de Kuznets, mostrando que o rompimento sugerido pela distinção entre as duas
épocas econômicas não foi tão brusco quanto pensava Keynes e continuam a
pensar grande parte dos economistas. Na primeira parte são contestadas as
supostas “falta de progresso” e “notável ausência de importantes
melhoramentos técnicos” anteriores ao século XVIII. Na segunda parte, são
destacados tanto recentes avanços do pensamento econômico sobre o crescimento
de longo prazo, quanto algumas das principais incógnitas que indicam suas
limitações.
1.
Dez mil anos de crescimento
Do surgimento da agricultura, há
cerca de dez mil anos, ao início do século XIX, o crescimento da economia mundial foi predominantemente extensivo,
isto é, com produção e população aumentando a taxas muito próximas. Mas
isto não quer dizer que crescimento intensivo,
com aumento da renda per capita - essência
do “modern economic growth (MEG)”
de Kuznets - só tenha se manifestado nos últimos duzentos anos, após a ascensão
da grande indústria.
O crescimento da era pré-industrial
não podia deixar de ser principalmente extensivo porque as mudanças tecnológicas
que permitiam a progressiva intensificação agrícola resultavam em redução
da produtividade do trabalho, apesar do aumento do rendimento físico das
culturas (produtividade dos recursos naturais).
A intensificação agrícola de toda a época pré-industrial foi um árduo
processo de encurtamento do período de descanso da terra (pousio). Por milênios,
só houve agricultura de sequeiro, em ecossistemas florestais, com sistemas
produtivos que exigiam a completa regeneração da cobertura vegetal por meio de
pousios que duravam de vinte a trinta anos. O encurtamento desses períodos de
descanso, por meio de tratos culturais e fertilização, não aumentava a produção
na proporção do aumento das necessidades de trabalho, engendrando redução da
produtividade marginal do trabalho. Em tais circunstâncias, só a pressão
populacional podia levar as sociedades antigas a adotarem inovações tecnológicas,
como mostrou o notável trabalho de Ester Boserup (1965).
Foi o crescimento extensivo
permitido pela agricultura de sequeiro que predominou, desde o surgimento dos
primeiros núcleos sedentários na região situada entre a atual Palestina e as
montanhas do Irã (cujos principais testemunhos são os restos das vilas de
Jericó e Çatal Hüyük, 8350-5000 a.C), até a chamada “revolução agrícola”
européia, a partir de meados do século XVI. Mas a transição ao cultivo de
forrageiras em rotação com cereais, característica essencial dessa “revolução”
que precisou de três séculos para atingir todo o oeste europeu, não foi a única
saída. Muito antes dela, diversas civilizações cultivaram suas melhores
terras uma vez por ano, ou mais, com adubação orgânica e irrigação,
deixando as terras mais fracas para pastagens permanentes. As pesquisas arqueológicas
sobre antigas civilizações da Mesopotâmia, Egito, Índia, China, Mesoamérica,
Peru, etc. indicam que essa alternativa engendrou surtos muito significativos de
crescimento intensivo.
Taxas
A evolução do crescimento
extensivo pode ser aproximada por meio das estimativas de aumento populacional.
Deixando de lado as oscilações, North (1981:14) sugeriu três grandes etapas
de expansão demográfica: a primeira, com uma taxa próxima a 0,036% a.a.,
entre o surgimento da agricultura e o ano 1 d.C., quando a população chegou a
mais ou menos 300 milhões; a segunda, com uma taxa próxima a 0,056% a.a., que
resultou em 800 milhões de pessoas por volta de 1750; a terceira, com forte
aceleração, passando de uma taxa próxima a 0,44 a.a. entre 1750 e 1800, a
0,53% a.a. no século XIX, e depois a 0,79% a.a. na primeira metade do século
XX e a 1,7% a.a. a partir de 1950, fazendo com que a população mundial
ultrapassasse os 4 bilhões de habitantes.
Já a síntese das estimativas
demográficas feita por Ponting (1991:91) fornece uma aproximação mais
circusntanciada da evolução do crescimento extensivo. Do surgimento da
agricultura até por volta do ano 1000 aC., a população mundial dobrou a cada
milênio, passando de 4 para 50 milhões de habitantes. Em seguida dobrou a cada
500 anos, chegando a 200 milhões no ápice dos impérios Romano e Han (c. 200
d.C). Com o declínio desses impérios, as guerras desestabilizaram a tendência
até por volta do ano 1000. A partir daí, tanto na China quanto na Europa,
houve nova aceleração que levou a população mundial a 350 milhões por volta
de 1200. Mas o ritmo voltou a diminuir no século seguinte, elevando a população
a apenas 400 milhões por volta de 1300. Com as grandes fomes e pestes, houve
novo declínio e a população voltou aos 350 milhões por volta de 1400. Nos
dois séculos seguintes recuperou a tendência anterior, chegando a 550 milhões
por volta de 1600, quando as dificuldades climáticas tornaram a reduzir o ritmo
de crescimento. Por volta de 1700 a população mundial estava em torno de 600
milhões. Daí para frente o aumento populacional passou a ser vertiginoso,
chegando à marca de 1 bilhão em torno de 1825.
Caracterizar os surtos
de crescimento intensivo é uma tarefa muito mais difícil. Por isso
permanece forte a idéia de que o crescimento tenha sido apenas extensivo antes
do final do século XVIII, com a ascensão da grande indústria. A maioria dos
economistas continnua a pensar com a metáfora do ‘take off’, formulada por
W.W.Rostow em 1960, ignorando suas ponderações posteriores [2].
E poucos sabem que Douglass North pensa exatamente o inverso, tomando como favas
contadas a ocorrência de longos períodos de crescimento intensivo “na
Mesopotâmia, Egito, Grécia, Rodes, e, com certeza, na República e Império
Romanos” (North:1981:23).
As primeiras ‘decolagens’
O avanço tecnológico exigido
pela irrigação fez com que os primeiros surtos de crescimento intensivo só
tenham ocorrido em férteis bacias aluviais de grandes rios que desciam
contrafortes montanhosos para irrigar planícies. Sociedades complexas, muito
parecidas entre si, surgiram nas bacias dos rios Tigre-Eufrates; no vale do
Nilo; no vale do Indus, nos arredores de Harappa e Mohenjo Daro; e no rio
Amarelo (Huang), nas proximidades de An-yang. O aparecimento das cidades
indicava uma nítida divisão do trabalho; existência de pessoas que tinham
capacidade para ler e escrever e uma classe culta (geralmente sacerdores); edifícios
públicos monumentais; hierarquias políticas e religiosas; monarquia
descendente dos deuses; e, finalmente, um império ou a pretensão a um governo
universal. Foi a eliminação do pousio mediante o domínio desse tipo de irrigação
que estabeleceu uma clara dicotomia entre o que se considera o “mundo
civilizado’ e os ‘bárbaros do mundo exterior’. As investidas violentas de
povos cujos sistemas agrícolas eram baseados no pousio longo foram uma
constante na história mundial até o século XV, quando o advento de poderosas
armas de fogo passou a permitir uma defesa mais eficaz dos núcleos
‘civilizados’.
A primeira civilização urbana
da Mesopotâmia (c. 3500 a.C.) talvez tenha influenciado indiretamente a
civilização de Harappa no vale do rio Indus (c. 2500 a.C.). Excedentes agrícolas
obtidos com irrigação permitiram que uma parte da sociedade fosse mantida em
atividades não-agrícolas e que segmentos políticos, militares e religiosos
fossem mantidos por meio de tributos. Escribas treinados e empregados em templos registravam as
contas e redigiam mensagens. Edifícios públicos monumentais reforçavam a
autoridade do Estado, que detinha o controle do comércio de longa distância.
Expedições comerciais eram enviadas à busca de bens raros e valiosos, como
metais, madeiras e gemas. Artigos de luxo e matérias-primas importadas eram
trocadas por têxteis e outros produtos manufaturados. Tais atividades levaram
à comunicação entre cidades das planícies aluviais e centros menores dos
vales ribeirinhos de regiões circunvizinhas, onde processos de urbanização
ocorriam em menor escala. Uma verdadeira rede de centros comerciais em expansão
formava um grande arco do Mediterrâneo Oriental ao vale do Indus, enquanto do
outro lado da selva do Sudeste Asiático e do Himalaia se desenvolvia a civilização
chinesa. (Barraclough,1993)
Desastres
A decadência da primeira
civilização letrada do mundo, formada por dezenas cidades-Estado Sumérias -
principalmente Kish, Uruk, Ur e Lagash - foi motivada pelo processo de salinização
que, obrigou a substituição do cultivo do trigo pela mais tolerante cevada. O
trigo, que por volta de 3500 a.C. ocupava uma área semelhante à da cevada,
passou a ocupar apenas 15% da área por volta de 2500 a.C. Quatrocentos anos
depois, Ur já havia abandonado completamente a cultura do trigo, que só
ocupava agora 2% de toda a região Suméria. Por volta de 1700 a.C. a salinização
havia liquidado a cultura do trigo em todo o sul da Mesopotâmia. Ao mesmo
tempo, os rendimentos físicos da cevada diminuiram em 42% entre 2400 e 2100
a.C. e em 65% por volta de 1700 a.C.. Com esse colapso da base agrícola,
conflitos bélicos se multiplicaram e a sociedade Suméria foi declinando até
tornar-se um império despovoado, empobrecido e atrasado. (Ponting,1991:71-2)
Por razões parecidas, durou
menos de 500 anos a complexa, hierárquica e centralizada civilização que
surgira no vale do Indus por volta de 2300 a.C.. Mas, neste caso, além de salinização influiu muito a erosão
provocada pela devastação florestal. Enquanto na Mesopotâmia templos e palácios
eram construídos com tijolos que secavam ao sol, no vale do Indus os tijolos
eram cozidos em fornos a lenha. Em 1900 a.C. essa civilização praticamente
desapareceu, tendo como causa imediata uma invasão bárbara, seguida de um período
de colapso interno. Mas a base desse processo também foi a insegurança
alimentar engendrada pela corrosão da base agrícola. (Ponting,1991:73)
Nem sempre era viável a
alternativa de interromper o cultivo de terras mais pobres, usadas em rotações
com pousio curto, transformando-as em pastagens permanentes, enquanto a terra
melhor passava a ser cultivada uma vez por ano (ou mais) com adubação orgânica
e irrigação. Muitas sociedades não conseguiram encontrar os meios de repor a
fertilidade dos solos que começavam a se degradar à medida que se encurtavam
os pousios. E quando tentaram encurtá-los sem realizar as outras mudanças
necessárias, provocaram o declínio dos rendimentos físicos e a exaustão dos
recursos naturais. Outras vezes essas sociedades até poderiam saber como
fertilizar os solos, mas não chegaram a estabelecer a necessária relação
entre agricultura e pecuária que teria permitido a obtenção tanto da força
de tração para o arado, quanto o indispensável estrume.
O declínio de muitas sociedades
esteve ligado a processos de erosão decorrentes de devastação florestal. O
caso mais evidente foi o desaparecimento da Civilização Maia clássica entre
800 e 900 d.C.. Mas também na Grécia havia começado a aparecer sinais de
destruição por volta de 650 a.C., como consequência de excessivo pastoreio
nas terras que não serviam para a agricultura (4/5 do total). Apesar do
conhecimento grego sobre técnicas de conservação de solo, como o
terraceamento e a fertilização orgânica, a pressão demográfica tornou
carecas as colinas da Ática. Em 590 a.C., uma reforma constitucional proposta
por Solon chegou a prever a proibição da agricultura em áreas de declive. E,
algumas décadas mais tarde, o tirano Peisistratus iniciou a recuperação dos
solos degradados por meio do plantio de oliveiras. A mesma coisa ocorreu em
escala ampliada com o império romano a partir de 58 a.C.. (Ponting,1991:76)
Sistemas bem sucedidos
Notável
exemplo inverso é o do Egito. O manejo do processo natural da cheia do
Nilo, desde o surgimento dos primeiros núcleos agrícolas (c. 5500 a.C.),
garantiu por sete milênios a sucessão de muitas sociedades dominadas por faraós,
ptolomeus, romanos, árabes e mamelucos, até que a especificidade desse
agroecossistema passou a ser ameaçada pelas alterações introduzidas no
sistema hídrico a partir do século XIX. Mas a mais genuina experiência pré-moderna
de crescimento intensivo parece ter sido a da China sob a Dinastia Sung, entre
os séculos X e XIII[3].
Sob os Sung, mais de um milhão
de homens chegaram a trabalhar em atividades não-agrícolas. A produção de
ferro per capita foi multiplicada por
seis entre 806 e 1078, chegando, no norte, a 7 libras per capita. Na Europa, em 1700, essa relação variava entre 3,5 e
4,3 libras per capita. Comparado ao
preço do arroz, o preço do ferro passou de 632/100 em 997, para 177/100 em
1080. Na Inglaterra, comparado ao preço do trigo, o preço do ferro passou de
223/100 em 1600, para 160/100 em 1700. Somente o avanço tecnológico do final
do século XVIII fez com que o preço relativo do ferro britânico viesse a ser
inferior ao obtido na China durante a Dinastia Sung. Apesar dos britânicos
continuarem venerando a elegante ponte de Coalbrookdale, construída em 1779,
como “the first Iron Bridge,” os
chineses dispunham, sob os Sung, de centenas delas e de melhor qualidade.
(Jones,1988:36,76-81)
Mesmo perdendo territórios, a
China Sung manteve a prosperidade, pois as áreas meridionais eram mais
produtivas do que a região central do norte. A população continuou a crescer,
comércio e indústria floresceram e a capital Hangchou tornou-se a maior cidade
da época. Foi um período de realização cultural, com avanços nas artes
visuais, literatura, filosofia, ciência e tecnologia. A instrução
difundiu-se, ajudada pela invenção da imprensa em 730. A sociedade se
transformou. Exames oficiais para a admissão de funcionários públicos aos
poucos substituíram a casta aristocrática pelo mandarinato, uma meritocracia
de burocratas de carreira. Os mercadores foram excluídos do funcionalismo público,
mas muitos enriqueceram, formando corporações e instalando uma organização
comercial complexa, com bancos, sistema de crédito e papel moeda. Foi liberado
o mercado de terras, muitos camponeses tornaram-se arrendatários, e um
sofisticado sistema agrícola elevou os rendimentos físicos ao nível máximo
que poderia ter sido obtido antes da introdução da fertilização química.
O grande fator limitante parece ter sido a falta de terras que pudessem
ser destinadas aos animais, fonte indispensável da adubação orgânica.
(Ponting,1991:95)
O ritmo de mudanças diminuiu
no século XIII, devido a conflitos sociais e perturbações causadas
pelos mongóis. Mesmo assim, a China continuou mais populosa, produtiva e rica,
e sua sociedade muito mais avançada do que a da Europa. “Neste período a
China foi a maior potência mundial e a cultura chinesa a mais esplendorosa.”
(Barraclough,1993:125)
Outro surto de inequívoco
crescimento intensivo pré-mederno também foi asiático, manifestando-se no Japão,
durante o shogunato Tokugawa (1600-1868). A população japonesa, que havia
dobrado entre 1000 e 1300, passando de 5 para 10 milhões, saltou para 18 milhões
por volta de 1600. O desempenho da agricultura, não apenas permitiu tal aumento
populacional, mas também um avanço dos padrões de vida do clero, dos
mercadores e dos guerreiros. E esse
progresso continuou inclusive durante o tumulto político do século XVI, que
precedeu a unificação. Sob o controle Tokugawa, entre 1600 e 1850, a produção
agrícola quase dobrou, enquanto a população aumentava cerca de 45%. Isso foi
possível pelo aumento da área cultivada, mas também por avanços técnicos
significativos nas práticas de irrigação e adubação. Como consequência,
houve inédita urbanização, especialização regional e aumento da esperança
de vida. Em 1850 o padrão de vida era certamente mais alto no Japão do que na
Grã-Bretanha. (Jones,1988:36,149-167)
O maior surto
Também na Europa Ocidental houve
muito progresso tecnológico entre os séculos XI a XIII, mesmo que se considere
exagerada a visão de “primeira revolução industrial” proposta por Gimpel
(1975). De qualquer forma, o mito
de uma obscurantista Idade Média difundido pelos historiadores liberais do século
XIX foi totalmente desmentido pela historiografia contemporânea. E foi no oeste
europeu que acabou ocorrendo o maior surto de crescimento intensivo pré-moderno.
A população européia passou de
70 milhões para 190 milhões entre 1500 e 1800. Em 1700, Londres, Paris e
Constantinopla já haviam ultrapassado a marca do meio milhão de habitantes. A
grande demanda de trigo e centeio engendrou a chamada “revolução agrícola”
iniciada no século XVI, principalmente nas zonas mais densamente povoadas da Itália,
Holanda e Inglaterra. Foi o processo que engendrou, pela primeira vez, a supressão
do pousio na agricultura de sequeiro. E o que permitiu a passagem do pousio
curto ao cultivo anual foi a viabilização da tração animal, graças à
introdução de forragens nas rotações[4].
As estimativas sobre a evolução
da renda per capita no período em que
ocorreu a “revolução agrícola” são divergentes. Para Landes (1969:20),
“parece claro que, ao longo do quase-milênio decorrido desde o ano 1000 até
o século XVIII, a renda per capita
elevou-se expressivamente - talvez tenha triplicado -, e que essa elevação
acelerou-se drasticamente no século XVIII, antes mesmo da introdução da nova
tecnologia industrial.”
Mais prudente, Maddison (1982:7)
estima que o aumento da renda per capita
tenha sido de apenas um quarto entre 1500 e 1700, passando de $215 a $265 (dólares
de 1970). Segundo ele, antes de 1500, com o simples “agrarismo”, a produção
apenas acompanhava o aumento populacional. Após 1500, o crescimento intensivo
ocorreu em três estágios: o de “agrarismo avançado (1500-1700)”,
quando o produto per capita teria aumentado a uma taxa média de 0,1% a.a.; o de
“capitalismo mercantil (1700-1820)”, quando essa taxa passou a 0,2% a.a.; e
finalmente o de “capitalismo” propriamente dito (1820-1980), quando ela
saltou para 1,6% a.a..
Seja como for, é inegável que,
no caso europeu, a gestação do capitalismo - o sistema que engendrou o
“MEG” de Kuznets - ocorreu no chamado “Renascimento do fim do século
XV”. Como “ferramenta monstruosa (modeladora) da história do mundo,” a
Europa nasceu dois ou três séculos antes, se não mais (Braudel,1986:78). Mas
foi a partir do século XV que os “componentes do capitalismo fundiram-se na
poderosa mescla que impeliu as nações européias à conquista territorial do
mundo e à formação de uma economia mundial capitalista poderosíssima e
verdadeiramente global”(Arrighi,1994:11).
Uma das principais raízes desse
processo foi a precocidade da integração entre a cidade-Estado genovesa e a
Ligúria, região rural circundante. Muito antes que a Terraferma fosse controlada por Veneza, a Lombardia por Milão, e a
Toscana por Florença, a aristocracia rural genovesa já dera impulso à expansão
comercial. Quando caía a rentabilidade do comércio, ela se refeudalizava,
trazendo seus recursos para a apropriação do espaço rural e a formação de
poderosos exércitos particulares; e quando aumentavam os lucros comerciais, ela
se ‘aburguesava’. Com o correr do tempo, os banqueiros mercantis genoveses
se transformaram na mais poderosa classe capitalista da Europa do século XVI.
(Arrighi,1994:113-9)
Na interpretação de Arrighi, o
capitalismo europeu se desenvolveu em três etapas, que denomina “ciclos sistêmicos
de acumulação,” liderados por Gênova (secs. XV-XVI), Holanda (secs.
XVII-XVIII) e Inglaterra (sec. XIX). E foi exatamente esse o percurso da
“revolução agrícola”. Como sintetizou Boserup (1965:41), ela “começou
no populoso e altamente urbanizado vale do Pó e dali moveu-se para a Inglaterra
e o norte da França, passando pela densamente povoada e urbanizada Flandres”.
P nascimento do “MEG”
Os noventa anos que separaram a
prolongada resistência das Treze Colônias norteamericanas à política
colonial britânica, que resultou na Declaração de Independência em 1776, e a
queda do governo Tokugawa, no Japão, em janeiro de 1868 foram marcados por
tantas revoltas e revoluções políticas que eles podem ser considerados como o
período de parto do crescimento econômico moderno. Foi durante esses noventa
anos que a chamada “revolução industrial” atingiu as nações hoje
consideradas “desenvolvidas” e que fazem parte do seleto “primeiro
mundo.” Nelas, o crescimento passou a ser inequivocamente intensivo, mas instável.
Tanto é que desde o final do século passado se discute a existência de ondas
longas, mais conhecidas pela equivocada denominação de “ondas de
Kondratiev”[5].
Seja qual for a opinião que se
possa ter sobre esse assunto, é inegável a alternância de fases de
crescimento mais ou menos intensivo. A tabela 1 é um ótimo exemplo, justamente
por não ter sido construída com o propósito de caracterizar o fenômeno. No
segundo período, o de “crescimento mais rápido” na terminologia de Paul
Bairoch, houve crescimento excepcional do comércio internacional. As exportações
cresceram a uma taxa anual de 5%., contra apenas 3,8% no período de maior
crescimento intensivo (o quarto da tabela 1). É importante notar que nessa
primeira “era de ouro”, o quarto de século situado entre meados da década
de 1840 e meados da década de 1870 (fase de expansão da segunda ‘onda
longa’ do capitalismo industrial), o que aumentou foi a taxa de crescimento da
agricultura, não a da indústria. É que a agricultura já havia iniciado sua
“segunda revolução,” quando insumos de origem industrial passaram a ser
cada vez mais usados para aumentar a oferta de alimentos. Na Inglaterra, onde
tudo começou, o processo ficou conhecido como “High Farming” (Chambers
& Mingay,1966:170-198; Perry,1974:19-20)
Tabela 1 - Taxas anuais de crescimento, Europa,
1830-1913
(Em porcentagens)
|
Períodos |
Agric. |
Ind. |
PIB |
Pop. |
|
I. Crescimento lento 1829/31-1842/44 |
0,8 |
2,5 |
1,6 |
0,6 |
|
II. Crescimento +rápido 1842/44-1868/70 |
0,9 |
2,3 |
2,0 |
0,7 |
|
III. Grande Depressão 1868/70-1891/3 |
0,7 |
1,9 |
1,1 |
0,9 |
|
IV. Crescimento rápido 1891/3-1911/13 |
1,7 |
3,4 |
2,4 |
1,0 |
Fonte: Bairoch (1993:47)
Foi justamente durante o último
quarto do século XIX, período conhecido como “A Grande Depressão” (a fase
de contração da segunda ‘onda longa’), que esse “High Farming” foi
destroçado pela consolidação da agricultura americana como o principal
celeiro mundial. Na Grã-Bretanha, entre 1870 e 1900, o plantio de trigo caiu
pela metade, enquanto seu valor diminuía 77%. Enquanto isso, nos Estado Unidos,
uma vez completado seu processo de especialização regional, em meados da década
de 1860, a ocupação do Oeste gerou uma rapidíssima expansão da oferta. Entre
1866 e 1900, a produção americana de trigo quase quadruplicou, a de milho
aumentou 3,5 vezes, a de cevada 6,5 vezes e a de algodão 5 vezes. Nesses 34
anos o rebanho bovino dobrou e o suíno aumentou 50%. (Veiga,1991:35-45,59-63)
O desempenho agrícola
Durante todo o século XIX, tanto
os rendimentos físicos (“produtividade da terra”), quanto a produtividade
do trabalho, aumentaram nas agriculturas européias. No Estados Unidos, ao contrário,
os rendimentos físicos permaneceram estáveis, enquanto a produtividade do
trabalho aumentava muito mais do que na Europa. Outro fato pouco mencionado
sobre esse processo de “segunda revolução agrícola” foi a ultrapassagem
da indústria pela agricultura em termos de produtividade do trabalho. No
conjunto dos países capitalistas desenvolvidos, entre 1850 e 1950, a
produtividade do trabalho industrial aumentou a uma taxa anual de 1,8-2%, contra
1,1-1,3% na agricultura. No entanto, entre 1950 e 1990 essas taxas passaram a
3,4-3,6% na indústria, enquanto a produtividade do trabalho agrícola aumentava
a taxas anuais de 5,4-5,6%. A virada se deu primeiro nos Estados Unidos, na década
de 1930, a somente ocorreu na Europa nos anos 1950. No conjunto dos países do
“primeiro mundo”, a produtividade do trabalho agrícola aumentou mais nesses
40 anos (1950-1990) do que havia aumentado durante os 900 anos precedentes
(1050-1950). Os custos de produção
alimentar dos países desenvolvidos passaram a ser os mais baixos do mundo e,
recentemente, o chamado “terceiro mundo” tornou-se importador líquido de
alimentos. (Bairoch,1993:150-7)
Durante a década de 1980, o
conjunto dos países subdesenvolvidos aumentou em 13% a sua produção de
alimentos per capita. Mas com grandes
contrastes. Enquanto na China esse aumento foi de 35% e no Leste Asiático de
22%, houve estagnação na África e no Oriente Médio. Também houve diminuição
desse coeficiente em 75 países, sendo que em quinze ele caiu 20% ou mais. Por
isso, em termos mundiais, a produção de grãos per capita passou a mostrar
sinais de estagnação (ou mesmo um leve declínio) desde 1985. Na Ásia os
rendimentos físicos na produção dos três principais grãos continuam
aumentando, só que cada vez mais devagar. Na África eles mostram grandes
oscilações. E mesmo em áreas de grande impacto da chamada “Revolução
Verde,” como o Punjab indiano, os rendimentos estão ameaçados por vários
fatores limitantes, como a água, a exaustão de micronutrientes, a salinização
e o consequente aumento de pragas e doenças. Junto com outros processos de
degradação dos solos, como erosão, acidificação, poluição, compactação,
sedimentação, encharcamento, etc., já foram comprometidos 2 bilhões de
hectares, sendo 1,5 bilhão em países subdesenvolvidos. Em muitos casos não há
chance de recuperação biofísica. Em outros os custos seriam muito altos. Tudo
isso levou o sistema internacional de pesquisa agropecuária a enfatizar a
necessidade de uma “Dupla ou Super Revolução Verde” nos próximos trinta
anos. (CGIAR,1994)
Não se trata de um impasse, uma
vez que existem muitas frentes a serem exploradas: melhoria das técnicas
convencionais de seleção pela engenharia genética, uso mais eficiente dos
fertilizantes, aperfeiçoamento das práticas de irrigação, etc. Mas tudo
indica que já está em curso uma nova transição agroambiental que
dificilmente poderá incluir taxas de crescimento agrícola comparáveis às da
chamada “segunda revolução” (Veiga,1997b).
Finalmente, são importantes duas
constatações sobre o momento atual. A primiera, é que o emprego generalizado
da expressão “desenvolvimento sustentável” indica, antes de tudo, a extensão
da tomada de consciência das elites sobre a problemática dos limites naturais.
A segunda é que a tremenda mutação técnica, que tem sido chamada de
“revolução microeletrônica,” está engendrando uma redução generalizada
das necessidades de trabalho, provocando um sério debate sobre o destino das
sociedade mais desenvolvidas. (Veiga,1993)
2.
Avanços e incógnitas nas teorias
Foram tantas as variantes teóricas
sobre o crescimento elaboradas desde a publicação das obras de David Hume e
Adam Smith, em meados do século XVIII, que é mais prático perguntar o que
elas continuam não explicando, do que cair na tentação de tentar enquadrá-las
em alguma síntese cronológica ou temática. Por mais seletiva que fosse, essa
síntese exigiria centenas de páginas.[6]
Encarando o crescimento como uma
questão econômica, pelo menos quatro incógnitas merecem destaque: população,
tecnologia, distribuição e flutuações. A mais básica talvez seja a demográfica.
Há razoável certeza sobre as determinantes das taxas de mortalidade, mas a
importância relativa das variáveis relacionadas à fertilidade - como saúde,
educação, mobilidade, urbanização, etc. - continuam a ser objeto de grande
controvérsia entre os especialistas. E este é justamente o ponto fraco de uma
das melhores teorias sobre o crescimento pré-moderno, desenvolvida desde os
anos 1960 por Ester Boserup (1965,1981). Discutindo a tese malthusiana, ela
mostrou que as baixas taxas de aumento da população observadas (até
recentemente) em comunidades pré-industriais não podem ser explicadas como
resultado da escassez de alimentos devida ao excesso de população. Mostrou o
quanto os efeitos do aumento populacional sobre o crescimento agrícola ainda
precisam ser incorporados ao pensamento econômico. Mas nada conseguiu afirmar
sobre os vetores que determinam a pressão demográfica.
Um segundo ponto, também básico,
e que continua bem obscuro, é do investimento em tecnologia. Quem elevou-o ao
primeiro plano, por enfatizar o papel das inovações em geral, foi Joseph
Schumpeter. Mesmo assim, o desenvolvimento do debate entre os evolucionistas
neoschumpeterianos parece conter mais problemas do que soluções. Duvida-se,
inclusive, da hipótese schumpeteriana de que pacotes de inovações são
gerados por periódicas revoadas de empresários heróicos, uma idéia que, aliás,
despenca na teoria como uma espécie de deus
ex machina. Mais grave, há grande divergência sobre qual seria a real direção
de causalidade entre inovações, rentabilidade e expectativas empresariais.
(Veiga,1996)
Em terceiro vem o dilema abordado
por Kuznets em seu memorável discurso presidencial para a 67a. reunião anual
da American Economic Association, em 29 de dezembro de 1954: de que maneira o
crescimento se relaciona com a distribuição?
A última frase desse discurso põe em dúvida a possibilidade do avanço
do conhecimento sobre esta questão no âmbito da ortodoxia econômica [7].
E, de fato, tornaram-se cada vez menos ortodoxos os programas de pesquisa
cnetrados nessa questão. Convergiram, a partir da década de 1970, para a idéia
de que a desconcentração da riqueza pode ter sido o alicerce do crescimento
econômico moderno. Uma idéia diametralmente oposta à tese de Kuznets
(Veiga,1992).
Desaparecimento de ciclos
O quarto destaque também vai
para um assunto que esteve no centro das pesquisas de Kuznets, e que talvez seja
o que continua mais nebuloso: as flutuações do crescimento. Em fases de expansão
econômica, há uma tendência a desprezar este tema, ou, pelo menos, afirmar
que elas já não são tão importantes quanto no passado. Nessas fases torna-se
impopular a tese de que “certamente algum dia haverá outra recessão; a única
questão é quando.”[8]
Ou seja, deixando-se de lado a ingênua idéia de que as flutuações econômicas
possam ter a regularidade dos ciclos astronômicos (como o lunar), ou biológicos
(como o menstrual), fica muito difícil negar a recorrência da alternância
expansão/contração, mesmo que não se saiba porque ela ocorre.
No crescimento da época pré-moderna,
baseado essencialmente na agricultura, pode muito bem ter havido ciclos
determinados por razões ambientais (no sentido biofísico), uma vez que as
oscilações demográficas eram fortemente influenciadas por micróbios, e as
oscilações das colheitas pelo clima. Prova
disso é que mesmo as flutuações da economia americana do século XIX
estiveram fortemente ligadas ao ciclo das chuvas, como mostrou recentemente o
metereorogista Robert Currie (Tylecote,1992:8) [9].
Mas à medida em que o sistema econômico foi se distanciando cada vez mais da
natureza, os movimentos de expansão/contração deixaram de ter essas determinações.
As rápidas mudanças estruturais
provocadas pelo crescimento econômico moderno fazem com que certos ciclos
transformem-se, desapareçam, sejam substituídos por outros, etc. Sumiram
tanto os ciclos médios identificados por Juglar em 1862, quanto os curtos
caracterizados por Kitchin em 1923, quanto os mais longos, identificados por
Kuznets em 1930. E não deixa de ser curioso que os que sobraram sejam chamados
de ‘ondas,’ em vez de ciclos. As ‘ondas longas’ continuam a ser aceitas
por muitos historiados e alguns economistas porque nos últimos duzentos anos o
crescimento econômico dos países mais dessenvolvidos alternou, de fato, fases
de expansão e de contração que duraram por volta de um quarto de século.
(Veiga,1997a)
Todavia, as teorias econômicas
sobre as ondas longas estão muito longe de convencer, pois fatores político-militares
não podem ser separados dos econômicos, principalmente no desencadeamento das
fases de expansão: as revoluções de 1848, o início da hegemonia
norteamericana no final do século XIX, e o fim da IIa Guerra Mundial. Como diz
Paul Krugman, “o exame das causas dos períodos de prosperidade e depressão
ocorridos desde a última vez que o ciclo econômico foi declarado extinto faz
com que admiremos a extraordinária variedade de situações que a história nos
apresenta. (...) não teremos no futuro os mesmos problemas que tivemos no
passado. Mas teremos problemas diferentes. E como esses problemas serão novos,
vamos enfrentá-los de maneira inadequada, e o ciclo econômico continuará
existindo.” (Krugman,1997:12)
Renovação de antigas heterodoxias
A maioria dos economistas que se
dedicaram ao estudo das ondas longas levou a sério a sugestão de Kuznets:
distanciou-se da ortodoxia. O caso mais evidente é a aproximação dos
neoschumpeterianos do movimento teórico que, nos últimos vinte anos, se
desenvolveu paralelamente dos dois lados do Atlântico, com a ‘teoria da
regulação’ (TR), na França, e a abordagem das ‘estruturas sociais de
acumulação’ (SSA), nos Estados Unidos. Mas tanto uma quanto a outra acabaram
por abandonar o estudo das ondas. Em recente balanço do programa de pesquisa
regulacionista, organizado por Boyer e Saillard(1995), nenhuma das 54 contribuições
de 46 autores demonstra qualquer interesse pelo assunto. E um livro semelhante
sobre a vertente americana, traz logo na introdução a recusa do
“determinismo econômico e tecnológico associado à tradição teórica das
ondas longas” [10] (Kotz, McDonough &
Reich,1994:4).
O tema que unifica essas duas
correntes regulacionistas, e atrai os evolucionistas neoschumpeterianos, é o da
importância das instituições no processo econômico. Em vez de procurarem os
determinantes das fases de expansão/contração em inovações ou em conflitos,
essas correntes passaram a procurá-los na relação dialética entre os dois
(Dockès & Rosier,1988). Ou seja, passaram a identificar essas determinações
em certos arranjos institucionais, chamados pelos franceses de “modos
de regulação” e pelos americanos de “estruturas sociais da acumulação”.
Quando os desequilíbrios cumulativos de uma fase de expansão podem ser
absorvidos pelo arranjo institucional em vigor surgem apenas “pequenas
crises”. Quando não podem, geram um processo de desestabilização, primeiro
da forma institucional, depois da própria arquitetura que lhe dava coerência.
(Boyer,1995:532)
Apesar da recusa de muitos
expoentes desse movimento teórico formado pelas duas vertentes regulacionistas
(TR e SSA), parece inegável que suas abordagens tendem a ser muito semelhantes
à da nova economia institucional americana de origem neoclássica,
principalmente se a referência for a obra de Dougrass North.
Novas heteorodoxias
Na verdade, a nova visão do
crescimento econômico proposta por North (1981) talvez seja a melhor refutação
do raciocínio maniqueista ainda dominante no pensamento econômico e que foi
ilustrado na abertura deste ensaio com uma passagem de Keynes. Ele sugere que o
surgimento da agricultura, há dez milênios, pode ter sido um acelerador do
progresso material tão ou mais importante que o surgimento da grande indústria
[11].
O fenômeno que o arqueólogo V. Gordon Childe chamou de “revolução neolítica,”
e que North prefere denominar “primeira revolução econômica,” acelerou o
crescimento, principalmente porque o direito de propriedade trouxe o incentivo
essencial para o avanço do conhecimento e aprendizado tecnológico. E ela deu
origem ao Estado, condição essencial da especialização e da divisão do
trabalho.[12]
Aquilo que os historiadores
estereotiparam como “A Revolução Industrial,” para North é apenas um
momento muito significativo da “Segunda Revolução Econômica”. O auge de
uma série de eventos anteriores, que exigiu mais um século para gerar a
verdadeira revolução, com a fusão entre ciência e tecnologia. Muito mais
importante do que o feixe de inovações normalmente associados à idéia de
revolução industrial, foi a inflexão na curva de oferta de novos
conhecimentos que só se tornou possível com a mudança do direito de
propriedade, iniciada na Grã-Bretanha, em 1624, com a primeira lei de patentes.[13]
Para Douglass North, o sistema
econômico é um complexo de instituições. As instituições fundamentais são
as regras constitucionais, fortemente condicionadas pela tecnologia militar e
pela ideologia. Por isso, a organização econômica é basicamente condicionada
pelo Estado. O desenvolvimento das outras formas de organização econômica
dependem fundamentalmente dos preços relativos, do estoque de tecnologia e dos
custos de implantação de formas de organização alternativas. Assim, o que
está no centro da proposta teórica de North é a tensão permanente entre os
ganhos e os custos da especialização. Os ganhos de especialização que
resultaram da Segunda Revolução Econômica geraram inéditos padrões de vida
durante o século XX, mas a captura desses ganhos sem o correspondente aumento
de seus custos de transação exigiram alterações radicais no tamanho e na
estrutura de controle das organizações que trouxeram consequências
desestabilizadoras, tanto no interior dos Estados, quanto entre eles.
Além desse nova abordagem
institucional proposta por Douglass North, há uma outra corrente teórica de
origem neoclássica que também refuta o maniqueismo dominante no pensamento
econômico a respeito do crescimento. Trata-se dos defensores da tese do “rent-seeking”,
isto é, a idéia de que determinados arranjos institucionais fazem com que o
comportamento maximizador dos indivíduos gere ‘ganhos improdutivos’ e,
portanto, prejuízos à sociedade. Introduzida na análise econômica para
caracterizar o desperdício de recursos envolvido em atividades que permitem a
obtenção de rendas institucionais, essa idéia está no âmago da hipótese de
Eric Lionel Jones (1981,1988,1996) sobre a permanente propensão ao crescimento.
Pela comparação entre experiências inequívocas de crescimento intensivo,
como a da China Sung, entre os séculos X e XIII, e inúmeras outras de frustração
desse tipo de crescimento, o autor afirma que é a generalizada tendência ao
“rent-seeking” que explica a
constante supressão do crescimento na época pré-moderna. Isso exige, segundo
ele, uma nova explicação do crescimento.[14]
Tanto a ênfase no direito de
propriedade como acelerador do crescimento (North), quanto o realce para a tendência
ao “rent-seeking” como principal
entrave (Jones), indicam o quanto alguns teóricos de origem neoclássica já se
distanciaram de seu modelo básico, centrado no desenvolvimento do mercado. É
bom lembrar que uma das mais célebres interpretações da história mundial
baseada nesse modelo apresenta o mercado como “personagem principal” do
crescimento com as seguintes palavras: “Desejaria ressaltar o fato de que a
especialização no comércio é que é o início do mundo; (...).”
(Hicks,1969:31)
Last but not the least, é preciso registrar que a
ortodoxia continua procurando uma explicação para as causas profundas do
crescimento. Mas pouco avançou desde a quarentona revisão do modelo neoclássico
proposta por Solow, até seus mais recentes desenvolvimentos com novas teorias
sobre as flutuações econômicas (Barro, Lucas, etc.). Não é por acaso que um
conceituado manual de macroeconomia encerra a apresentação dessas novas
teorias enfatizando o mistério que continua a existir sobre os próprios
fundamentos do crescimento [15] .
Conclusões
Este artigo explorou uma advert6encia de Kuznets (1966)
sobre o crescimento econômico moderno à luz de novas evidências, destacando,
em seguida, algumas limitações das teorias sobre o crescimento de longo prazo.
A advertência de Kuznets referia-se a possíveis
continuidades e regularidades do crescimento econômico em geral, que poderiam
reduzir as distinções entre as épocas moderna e pré-moderna. Pode-se afirmar
com segurança que o crescimento intensivo, com aumento da renda per capita, é
um fenômeno que não se restringe à época moderna. Sua anterior recorrência
é evidente. O que não se sabe ao certo são as razões da também recorrente
frustração desses surtos de crescimento intensivo anteriores à revolução
agrícola européia. Com certeza, razões eminentemente ecológicas
inviabilizaram a continuidade de certas civilizações, guerras, principalmente
invasões bárbaras, liquidaram tantas outras. Mas não se pode descartar as hipóteses
de que muitos desses desastres tenham sido precedidos pelo dilema malthusiano
e/ou por comportamentos sociais de “rent-seeking”.
Kuznets também alertou
sobre a possibilidade de estarem ocultas para nós as formas finais do
crescimento econômico moderno. E não parece haver dúvida de que o crescimento
econômico dos últimos vinte e cinco anos adquiriu características bem
diferentes das que puderam ser examinadas por Kuznets até 1966.
Em dezenas de países desenvolvidos e “em desenvolvimento,” as taxas
médias anuais de crescimento per capita
cairam pela metade. Em muitos outros tornaram-se até negativas. Paralelamente,
surgiram novas dúvidas, tanto sobre a sustentabilidade dos padrões de
crescimento da “era de ouro” (1950-73), quanto sobre o futuro do emprego, ou
melhor dizendo, da sociedade de trabalho.
No que se refere às teorias
sobre o crescimento de longo prazo, percebe-se que continuam a existir muitas
incógnitas sobre alguns de seus elementos essenciais. Foram aqui apontadas pelo
menos quatro: população, tecnologia, relação com a distribuição e natureza
das flutuações do crescimento. Mas também foi possível mostrar que, apesar
dessas incógnitas, houve um duplo movimento teórico: ênfase generalizada na
importância das instituições e maior abertura para um resgate da antiga
Economia Política.
Talvez seja temerário dizer que
está em curso uma convergência teórica que abrange economistas de tradição
keynesiano-marxista (regulacionistas), de tradição schumpeteriana
(evolucionistas), e mesmo de tradição neoclássica (novos institucionalistas).
Uma coisa, entretanto, é certa: as teorias sobre o crescimento de longo prazo
estão superando simultaneamente determinismos unilaterais calcados na
“tecnologia,” “luta de classes,” e “mercado”, para se concentrarem
cada vez mais nas relações sistêmicas entre esses três fatores que se
manifestam nas mudanças institucionais.
De resto, não é mais possível
levar a sério a idéia de Keynes segundo a qual a notável ausência de importantes melhoramentos técnicos teria sido uma
das causas do lento ritmo de progresso, ou mesmo da “falta de progresso”
antes do início do século XVIII. Os avanços agrícolas dos últimos dez milênios
- e particularmente as transformações pós-renascentistas da agricultura européia
- fazem parte de uma única dinâmica que só foi revolucionada de fato na
segunda metade do século XIX. Nessa perspectiva, mesmo que vagaroso, foi imenso
o progresso baseado na agricultura. Na verdade, o crescimento econômico moderno
é um fenômeno muito mais recente do que se imagina. O que provocou uma mudança
fundamental no funcionamento do mundo foi muito mais o casamento entre ciência
e tecnologia, no final do século XIX, do que a chamada revolução industrial
do final do século anterior.
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[1]
Observações valiosas foram obtidas junto aos colegas Dante M.
Aldrighi, José Flávio Motta, Leda Paulani, Lenina Pomeranz, Rubens Nunes e
Wendy Wolford. Aos seis registro minha especial gratidão.
[2] No primeiro capítulo de How It All Began (1975), intitulado “Why Traditional Societies Did Not Generate Self-sustained Growth”, Rostow oferece uma visão bem diferente da vulgar fórmula do ‘take off’ que continuna associada a seu nome.
[3] Antes dele talvez só devam ser cogitados os casos da Grécia, de Roma, e o caso islâmico do grande Califado Abássida de Bagdá, no século IX, muito enfatizado por Perry Anderson (1974).
[4]
“Fait européen, la révolution agricole se propagea selon des
lignes de filiation extrêmement curieuses à relever. Les pays de
peuplement intense et plus particulièrement de fort développement urbain
furent partout les premiers à abolir la jachère: telles les banlieues de
quelques villes allemandes, quelques campagnes de Normandie et de Provence,
- mais surtout les deux grandes contrées de civilisation urbaine qu’ait
connues l’Europe, dès le moyen-âge: Italie du Nord et Flandre. Bien que,
dès le XVIe siècle, un agronome vénitien (C.Torello), le premier sans
doute dans tout l’Occident, eût recommandé un assolement sans repos,
avec fourrages, et dépit de quelques références, dans les écrits français
du XVIIIe siècle, aux pratiques de la Lombardie, l’exemple italien ne
paraît pas avoir exercé sur les techniques d’outre-monts une influence
bien forte. La Flandre, au
contraire, avec le Brabant, fut vraiment la mère des réformes
culturales.” (Bloch,1931:220)
[7]
“Effective work in this field necessarily calls for a shift from
market economics to political and social economy.” (Kuznets,1954:28)
[8]
The
Economist, 28 de outubro de 1995, pp.89-90
[9]
O que sugere que Jevons não estava tão perdido quanto se pensa ao
procurar correlações entre os ciclos da economia britânica e as oscilações
de colheitas. Pena que as tenha relacionado à aparição periódica das
manchas solares...
[10]
“The long-wave theories (...) influenced the development of SSA
theory, particularly in Gordon’s early work. (...) However, over time work
on the SSA school has placed less stress on explaining the recurrence of
relatively regular long-term macroeconomic fluctuations, and it has not
accepted the economic and technological determinism associated with the
long-wave theoretical tradition.” (Kotz, McDonough & Reich,1994:4).
[11]
“The First Economic Revolution was not a revolution because it
shifted man’s major economic activity from hunting and gathering to
settled agriculture. It was a revolution because the transitions created for
mankind an incentive change of fundamental proportions. The incentive change
stems from the different property rights under the two systems. When common
property rights over resources exist, there is little incentive for the
acquisition of superior technology and learning. In contrast, exclusive
property rights which reward the owners provide a direct incentive to
improve efficiency and productivity, or, in more fundamental terms, to
acquire more knowledge and new techniques. It is this change in incentive
that explains the rapide progress made by mankind in the last 10,000 years
in contrast to his slow development during the long era of primitive
hunting/gathering.” (North,1981:89)
[12]
“The First Economic Revolution produced the state, the politcal
constraints essential to establish economic order, and the expansion of
specialization and division of labor beyond the primitive requirements of
tribal hunting and gathering units.” (North,1981:208)
[13]
“What determines the rate of development of new technology and of
pure scientific knowlwdge? In the case of technological change, the social
rate of return from developing new techniques had probably always been high;
but we would expect that until the means to raise the private rate of return
on developing new techniques was devised, there would be slow progress in
producing new techniques. (...) The failure to develop systematic property
rights in innovation up until fairly modern times was a major source of the
slow pace of technological change. It is only with the Statute of Monopolies
in 1624 that Britain developed a patent law.” (North,1981:164)
[14]
“Economic history may be thought of as a struggle between a
propensity for growth and one for rent-seeking, that is, for someone
improving his or her position, or a group bettering its position, at the
expense of the general welfare. (...) Whenever conditions permitted, that
is, when rent-seeking was somehow curbed, growth manifested itself.
Occasionally it rose to full stature. This (...) requires a more mutable
conception of the struggle against poverty than is usual. It necessitates a
new explanation of the process of growth.” (Jones,1988:1)
[15]
“Recent developments in the theory of economic fluctuations remind
us that we do not understand economic fluctuations as well
as we would like. Fundamental questions about the economy remain open
to dispute. (...) Much is at stake, both in economic science and in economic
policy. It is this kind of debate that makes macroeconomics an exciting
field of study.”(Mankiw,1997:398)