JOSÉ
ELI DA VEIGA
USP/DEP.ECONOMIA
& PROCAM
zeeli@usp.br
Publicado
no livro Reconstruindo a
agricultura: Idéias e ideais na perspectiva de um desenvolvimento rural sustentável,
organizado por Jalcione Almeida e Zander Navarro, Porto Alegre: Editora da
Universidade (UFRGS), 1997, pp.123-143
Introdução
Em quase
todos os países do chamado “primeiro mundo, os intensos choques sócioculturais
dos anos 60 deram um forte impulso a movimentos que vinham contestando a ciência
agronômica normal desde o final do século passado. No Estados Unidos, como uma
espécie de subproduto do fenômeno conhecido por ‘contracultura,’ surgiram
muitos novos adeptos dos métodos orgânico, biodinâmico, biológico e natural.
Quando começaram a ter alguma visibilidade, foram alvo de uma imensa campanha
de descrédito, lançada por uma coalizão de interesses do agribusiness e do sistema de pesquisa agropecuária. Em ambientes
arejados, os chamados “alternativos” eram considerados apenas “folclóricos”.
Mas em entidades mais ‘fechadas’ de educação, extensão e pesquisa,
profissionais com dúvidas sobre os programas dominantes sofreram uma verdadeira
‘caça às bruxas’. E só agora, em meados dos anos 90, algumas dessas vítimas
sentem segurança suficiente para vir a público revelar como conseguiram
escapar dessas perseguições e denunciar empresas e instituições que ainda
estão nessa linha.
Na verdade, a
mesma coalizão que promoveu o escárnio público dos “alternativos” durante
os anos 70, agora admite, com certo embaraço, que a agricultura precisa mesmo
ser mais sustentável. Isto não quer dizer que ela tenha esverdeado. Ao contrário,
apesar de se sentirem na defensiva, vários segmentos do establishment (agroburocracia e agronegócio) continuam a espinafrar
os ambientalistas. A grande diferença é que se tornou impossível
desqualificar a preocupação dos contestadores com a saúde e com os recursos
naturais, como aconteceu até meados dos anos 80. Agora os ideais ecológicos
dos ‘alternativos’ são, ao contrário, enaltecidos.
Apenas o ‘irrealismo’ de suas propostas é recusado. Talvez não haja
melhor símbolo dessa nova postura do que o título de um livro publicado pelo Hudson
Institute, com apoio financeiro do setor petroquímico: Salvando
o Planeta com Praguicidas e Plástico: o Triunfo Ambiental da Agricultura de
Altos Rendimentos[2](Avery,1995).
Os
fornecedores de insumos ao agribusiness
precisam vender variedades de alto rendimento (HYV), praguicidas, e plásticos
como a “salvação do planeta”, porque as sociedades mais desenvolvidas estão
cada vez mais preocupadas com a saúde e a preservação dos recursos naturais.
A maioria conservadora, em torno do Partido Republicano teve que rever sua intenção
inicial de desmantelar os programas ambientais do governo federal. De olho nas
eleições de novembro de 1996, deputados republicanos que se dizem mais “sensíveis”
aos temas ecológicos foram liberados para emendar o projeto de lei agrícola de
seu partido. E pediram a ajuda de várias organizações ambientalistas, entre
as quais o Natural Resources Defense
Council e o Environmental Defense Fund.
Uma dessas emendas, relativa à imensa área de proteção do sul da Flórida,
as Everglades, foi aprovada por 299 a
124. Uma outra, que reautorizou o esquema de preservação de solos frágeis (Conservation
Reserve Program), teve 372 votos a favor e apenas 37 contra. (Freedman,1996)
Essa
crescente legitimação das preocupações agroambientais, tão ferozmente
combatidas nas décadas de 70 e 80, tem sido vista como uma espécie de revolução. Três exemplos muito significativos merecem ser
citados. Primeiro, a reportagem sobre agricultura sustentável nos Estados
Unidos, publicada pela National Geographic
de dezembro de 1995, que teve enorme repercussão. O assunto foi tratado como o
início de uma nova ‘revolução agrícola’[3]. O segundo exemplo está na conversão ideológica do
sistema internacional de pesquisa agropecuária. Ela tem sido tão intensa, que
o CGIAR (Consultative
Group on International Agricultural Research) lançou o slogan de uma
“dupla” ou “super-revolução verde” (CGIAR,1994,1995a,1995b) para se
referir à necessidade de um aumento ecologicamente correto da produtividade agrícola
mundial nos próximos trinta anos. E o terceiro pode ser encontrado nos
documentos técnicos que estão sendo preparados pela FAO para a Cúpula Mundial
sobre a Alimentação. Um deles prega “uma nova revolução verde” baseada
em “dois paradigmas complementares”[4].
Este trabalho
começa com uma crítica a essa idéia de uma nova ‘revolução agrícola’.
Afirma essencialmente que esses fatos não configuram uma revolução, e sim a
emergência de uma ‘transição’. Em seguida, traz uma nova aproximação
dos problemas dessa transição, aprofundando duas das três questões
consideradas essenciais em ensaio anterior sobre o mesmo tema
(Veiga,1994a,1995): os avanços científico-tecnológicos e as pressões sociais
pela agricultura sustentável. Aborda o ‘conflito de paradigmas’ (ítem 2) e
o significado histórico a nova lei agrícola americana (ítem 3).
1.
Revolução ou transição ?
O intenso
processo de mudanças tecnológicas, sociais e econômicas que se manifestou em
quase toda a Europa e em algumas regiões de colonização européia, entre o século
18 e o início do século 20, foi batizado pelos historiadores de “A Revolução
Agrícola.” A principal característica dessa “primeira” revolução agrícola
foi a expansão do cultivo anual, quase sem descanso, de uma mesmo lote de
terra. Tal prática, viabilizada pela substituição dos antigos pousios pelo
plantio de forragens em rotação com os cereais, gerou um círculo virtuoso:
inseriu a pecuária no sistema de cultivo, favorecendo, ao mesmo tempo, o
progresso da tração animal e maior aporte da principal fonte de adubação, o
estrume. O resultado foi um aumento exponencial da capacidade produtiva de cada
família camponesa, em flagrante contraste com a estagnação das agriculturas
medievais. Foi tanto uma ruptura, como um salto, que liquidou a crônica
escassez de alimentos. (Augé-Laribé,1955; Van Bath,1960; Chambers & Mingay,1966;
Bloch,1968; Thompson,1968; Gervais, Jollivet & Tavernier,1976)
Até hoje se
discute se o rápido crescimento da população européia foi efeito ou causa
dessa mudança. Mas ninguém pode ignorar que a base tecnológica dessa revolução
não era uma novidade. Vinha sendo usada há muitos séculos em jardins e
pomares. E sua aplicação ao cultivo de cereais não surgiu na Inglaterra, como
continuam a dizer as enciclopédias. Na
verdade, começou no urbanizado Vale do Pó (norte da atual Itália) e moveu-se
para a região normanda (norte da França e Inglaterra), passando pela
densamente povoada Flandres (Bélgica e Holanda). Ou seja, a inovação tecnológica
da “primeira” revolução agrícola não foi uma repentina ‘descoberta’
ou ‘invenção’ do século 18. Foi a resultante de um complexo processo sócioeconômico
que ainda exige muita pesquisa para que venha a ser realmente explicado.
(Boserup,1965,1981; Jones & Woolf,1969; Mazoyer,1993)
A crescente
demanda por alimentos induziu mudanças mais radicais, particularmente na
qualidade dos insumos. Assim, a partir de meados do século 19, começa na
Inglaterra uma “segunda” revolução agrícola, espalhando-se mais tarde
pelo mundo todo. Como resultados da organização da pesquisa agropecuária,
insumos de origem industrial começaram a ser cada vez mais usados para aumentar
a oferta de alimentos. A motomecanização, os fertilizantes químicos e os
agrotóxicos engendraram, no século 20, uma rapidíssima transformação em
regiões que haviam realizado a “primeira” revolução agrícola. E quando
variedades super produtivas (de arroz, milho e trigo) permitiram a exportação
desse modelo para países do terceiro mundo, o processo foi apelidado de “A
Revolução Verde.” (Hazell & Ramasamy,1991)
O termo
“revolução” sempre surgiu para caracterizar fases de mudanças muito rápidas
que coroaram processos bem mais longos e profundos. A fusão da agricultura e da
pecuária que caracterizou a “primeira” revolução agrícola foi o
resultado de uma progressiva aproximação de quase um milênio (Servolin,1985).
Da mesma forma, a “Revolução Verde” foi o ápice de mais de um século de
apropriação industrial de partes da produção agropecuária. Começou pela
mecanização dos instrumentos de trabalho necessários ao preparo do solo, à
semeadura e à colheita, concentrando-se do lado “externo” do processo biológico
do processo produtivo. Em seguida, foram os próprios ciclos biológicos vitais
desse processo que se tornaram objeto de apropriação parcial, por meio da
produção de fertilizantes e sementes híbridas. Paralelamente, avanços genéticos,
nutricionais e veterinários também transformaram a pecuária, distanciando-a
outra vez dos sistemas de cultivo. (Goodman, Sorj & Wilkinson,1981)
É bem provável
que, no futuro, um outro momento de intensas transformações venha a ser
caracterizado como a ‘terceira’ revolução desta série. Mas toda a cautela
é pouca quando se trata de especular sobre os impactos prometidos pelas
modernas biotecnologias, microeletrônica, robótica, novas fontes de energia,
etc. Os precipitados prognósticos sobre a “biorevolução” (como os de
Rifkin,1995) revelam ilusões sobre o desenvolvimento autônomo da ciência, da
técnica e de sua aplicação sistemática à produção. Subestimam o
inter-relacionamento das três variáveis decisivas: o progresso científico, os
fatores econômicos e o ambiente sócio-institucional.
Estas duas últimas variáveis são poderosos e imprevisíveis
“filtros,” porque balizam e orientam a liberdade de inovação e difusão.
Muitos esforços analíticos levaram a previsões irrealistas sobre o futuro do
sistema agroalimentar justamente porque subestimaram a importância desses
“filtros.” Não somente se enganaram sobre os prazos das mudanças.
Equivocaram-se sobre sua própria direção.
Como
aconteceu com as duas citadas revoluções, a próxima também poderá ser o
apogeu de um profundo processo de mudanças incrementais nas normas, convenções
e comportamentos. Não tem faltado instâncias mediadoras do conflito que opõe
os defensores da agricultura convencional e os que pretendem impulsionar a adoção
de práticas alternativas consideradas mais sustentáveis. Mesmo que as
barganhas não sejam fáceis (e nem sempre resultem em bons compromissos), é
inegável a existência do diálogo, pelo menos nos processos mais amadurecidos.
Neles já se pode identificar a emergente
transição. (Beus & Dunlap,1990,1991,1992,1994; Buttel,1995a,1995b;
Hamlin & Shepard,1993; Hassanein & Kloppenburg,1995; Kloppenburg,1991;
Norgaard,1994; Ruttan,1994)
A pesquisa
agropecuária continua mantendo sua preferência pela intensificação em áreas
da alto potencial, enquanto é cada vez mais incitada a se voltar para as áreas
de menor potencial, onde se concentram a pobreza rural e a degradação
ambiental a ela associada. Os que querem de ver a pesquisa agropecuária
orientada para a segurança alimentar sustentável do Sul dizem que o atual
desafio é fazer a tal “Revolução ‘Super’ ou ‘Duplamente’ Verde” (Doubly-Green
or Super Green Revolution); isto é, uma revolução ainda mais produtiva
que a anterior e que consiga preservar os recursos naturais e o meio ambiente.
(CGIAR,1994,1995a,1995b)
Trata-se de
uma nobre e generosa intenção que, infelizmente, assemelha-se à quadratura do
círculo. Principalmente porque uma agricultura que preserve os recursos
naturais e o meio ambiente não resultará da difusão de qualquer nova
tecnologia genérica de fácil adoção. As atuais soluções sustentáveis não
se mostram multiplicáveis. São específicas ao ecossistema e muito exigentes
em conhecimento agroecológico, além de pouco competitivas, tanto do ponto de
vista econômico, como do ponto de vista político. São raros os exemplos de práticas
consideradas sustentáveis que podem ser adotadas em larga escala por um grande
número de agricultores (NRC,1989; Bird, Bultena & Gardner,1995)
Nada impede
que essa situação venha a se alterar sob as pressões sociais por alimentos
saudáveis e respeito à natureza. Tais pressões certamente ajudarão os
agricultores e pesquisadores convencionais a complementarem os movimentos de
agricultura alternativa (orgânico, biodinâmico, natural e biológico) na busca
de soluções mais sustentáveis[5]. Mas esse processo não
poderá ter a rapidez embutida na idéia de “revolução super ou duplamente
verde.” Foram necessários quase
dois séculos para que a agronomia gerasse as milagrosas variedades de alto
rendimento. É ilusório pensar que a biologia molecular combinada à emergente
agroecologia venham a revolucionar a produção de alimentos em apenas trinta
anos, por mais rápida que possa ser a conversão ideológica do sistema CGIAR.
Em vez de uma
“Super Revolução Verde,” é muito
mais provável que a legitimação de propostas alternativas seja paralela a um
oscilante declínio do padrão atual da agricultura moderna. Principalmente
porque o aumento da demanda internacional por alimentos continuará a incitar as
elites dos países desenvolvidos a insistir na linha da revolução verde em
regiões de maior potencial exportador de grãos. Em áreas especialmente favoráveis
à manutenção do padrão tecnológico da “segunda” revolução - como o
cinturão milheiro no Centro Oeste dos Estados Unidos, p.ex. - é muito provável
que a resistência se prolongue por muito tempo, mesmo que decline o apoio
governamental. E não faltarão argumentos para os detratores dos movimentos
pela agricultura sustentável. Eles repetirão as duas teses básicas do já
citado livro do Hudson Institute
(Avery,1995): para alimentar uma população mundial de dez ou onze bilhões de
habitantes, vai ser necessário investir pesado em biotecnologias que possam dar
novo alento à Revolução Verde; ii)
a liberalização do comércio internacional induzirá o uso intensivo dos solos
mais nobres com as tecnologias mais avançadas, minimizando custos ambientais,
pois aumentará a biodiversidade nos solos mais frágeis que deixarão de ser
utilizados.
Na prática,
estão se combinando dois cenários que costumam ser apresentados como proposições
alternativas: um punhado de países industrializados continuará a produzir
excedentes exportáveis aos países em desenvolvimento, enquanto uma parte dessa
imensa periferia tentará aumentar o auto-abastecimento, priorizando
investimentos no desenvolvimento agrícola. As elites do Norte têm hesitado
entre as pressões opostas dos agroambientalistas e de segmentos do agribusiness
que querem tirar máximo proveito do aumento da demanda internacional de grãos.
As elites do Sul, por sua vez, hesitam entre o anseio por segurança alimentar e
pressões ambientais mais externas do que internas. Por isso, é muito mais
apropriada a idéia de um processo de legitimação das práticas sustentáveis
concomitante a um lento declínio do padrão ‘revolução verde’. Isto é,
de uma transição agroambiental, que poderá incluir, num futuro longínquo,
uma fase de mudanças suficientemente aceleradas para que venha a ser
caracterizada como uma nova revolução. Mas não é o que está acontecendo no
momento.
Essa transição
talvez possa até caminhar com mais rapidez em ecossistemas menos permeáveis
aos milagres das variedades de alto rendimento, engendrando uma diversidade de
sistemas agrários comparável à que prevalecia até o início do século 20. A
variável-chave que determinará o ritmo desses processos certamente será a dinâmica
social. Particularmente, as possibilidades concretas de isolar as forças mais
conservadoras (como os grupos de interesse ligados ao fornecimento de energia fóssil)
e superar a enorme inércia política da “segunda” revolução agrícola.
2.
O nevoeiro dos “paradigmas”
A
ilusão de que esteja em curso uma revolução agroambiental tem sido muito
alimentada por uma interpretação sociológica inspirada nas idéias de Thomas
Kuhn sobre o conflito de paradigmas gerador das “revoluções científicas”.
Segundo essa visão, os movimentos rebeldes (orgânico, biodinâmico, biológico
e natural) seriam portadores de um novo paradigma, conflitante com o paradigma
dominante, isto é, a ciência agronômica normal. Essa idéia tem sido muito explorada por Beus & Dunlap (1990,1991,1992,1994).
Eles tendem a ver todos os sinais de legitimação de propostas mais sustentáveis
como o avanço de um novo paradigma. Segundo Kuhn, se o novo paradigma estiver
"destinado a vencer," o número e a força dos argumentos persuasivos
em seu favor crescerão, e um grande número de cientistas acabará por se
converter, garantindo o seu desenvolvimento. (Kuhn,1970:159)
O primeiro reparo que deve ser feito sobre tal
interpretação é que Beus & Dunlap não são fiéis às idéias de Kuhn[6].
Dizem, por exemplo, que a análise de Kuhn sobre a história da ciência pode
ser “estendida” a outros fenômenos (Beus & Dunlap,1990:592). No
entanto, no posfácio da segunda edição de sua obra, o próprio Kuhn faz questão
de frisar exatamente o inverso: que sua originalidade foi abordar a ciência sob
uma ótica há muito comum em outros campos (Kuhn,1970:208). Outra idéia
confusa diz respeito à importância da "racionalidade" dos paradigmas
em conflito. Referindo-se ao debate agroambiental, os dois sociólogos rurais
dizem que “o que é racional e razoável
sob uma perspectiva é irracional sob outra.” (Beus & Dunlap,1990:592)
Entretanto, segundo Kuhn, não se deve pensar que o processo de afirmação de
um novo paradigma demonstre qualquer tipo de "irracionalidade" do
anterior. O que estimula o desenvolvimento de um novo paradigma é muito mais a
percepção de que pode haver algo de errado com paradigma dominante, do que a
possibilidade de que a resistência ao novo paradigma venha a parecer ilógica.
(McMullin,1993:56)
Mas nenhum
desses enganos seria muito grave se a própria abordagem de Kuhn sobre o
progresso científico fosse clara e satisfatória. Mas não é o caso. No já
citado posfácio da segunda edição, Kuhn (1970:181) reconheceu ter usado a
palavra ‘paradigma’ em 22 sentidos diferentes... Acrescentou que, depois de
uma boa revisão editorial, eles poderiam ser reduzidos a apenas dois. Chama o
primeiro de “matriz disciplinar” (disciplinary
matrix) e o segundo de “exemplos compartilhados” (shared
examples). A ambígua “matriz disciplinar” é composta de “paradigmas,
partes de paradigma ou ‘paradigmatics’
”, que formam um todo e funcionam juntos. Os “exemplos compartilhados”
(menos ambíguos) são os que permitem o desenvolvimento de uma linguagem científica
comum e uma abordagem comum para problemas similares.
Mesmo
reduzida a apenas dois sentidos, a
noção Kuhniana de paradigma está longe de ser clara. Fica-se sem saber se
essa teoria sobre as revoluções científicas se aplica apenas aos grandes
sistemas de pensamento, ou se vale também para várias teorias ou modelos
internos a um mesmo sistema de pensamento. Parece que a segunda opção
corresponde melhor à visão de Kuhn, embora ele nunca o diga.
(Katouzian,1980:96) Assim, no caso
de ciências imaturas, como as ciências sociais, é impossível usar o texto de
Kuhn para decidir se um mesmo paradigma abrigaria, por exemplo, Marx e
Schumpeter, ou se criaram diferentes paradigmas.
Se a confusão
já é tão grande quando se trata da história da ciência, o que dizer dos
tais “paradigmas técnico-econômicos”? O mínimo que se pode dizer é que o
uso da idéia de paradigma é tão nebuloso entre os economistas
neoschumpeterianos (como Freeman & Perez,1988) quanto entre sociólogos como
Beus & Dunlap. E tudo indica que a origem desse espesso nevoeiro esteja na
própria interpretação de Thomas Kuhn. Afinal, a obra de Kuhn ajuda pouco no
entendimento do avanço da ciência enquanto processo social.
Apesar de se referir muito à ‘comunidade científica,’ não chega realmente
a analisá-la, como fizeram, por exemplo, Katouzian (1980) e Latour (1995).
Enfim, não é em Kuhn que se pode encontrar qualquer esclarecimento para a
complexa relação entre as mudanças tecnológicas e as mudanças
institucionais.
Essa procura
das ligações teóricas entre inovações e conflitos conduziu os
regulacionistas franceses Pierre Dockès e Bernard Rosier (1992) a duas hipóteses
e uma pergunta:
> Inovação - sua complexidade, suas origens,
sua difusão - não pode ser completamente entendida a não ser como parte da
estrutura social.
> Em
qualquer sociedade ‘dividida’ a arena social é determinada por múltiplos
conflitos internos que refletem profundos interesses divergentes.
> Dado que
as sociedades que nos interessam são cheias de conflitos inerentes a seus modos
de interação social e recorrentes devido à inovação, pode-se estudar
separadamente as inovações e os conflitos ?
Tendo como
base um conjunto de pesquisas em história econômica (Dockès,1979; Dockès
& Rosier,1988), eles respondem com um categórico não, pois enxergam uma
relação dialética entre conflitos e grandes inovações. Não somente os
conflitos estão na própria origem das inovações, como as inovações,
principalmente as maiores, engendram ou deslocam conflitos. Por isso, o que está
em questão não são apenas os ritmos
das inovações e a velocidade com que
elas penetram o tecido social, mas, sobretudo, o seu próprio conteúdo. Grandes inovações podem emergir tanto como objeto e locus
de muitos conflitos, quanto como resultantes dessas lutas. Elas serão,
portanto, profundamente afetadas por essas lutas. Por isso, Dockès & Rosier
chamam esse processo de “marca social” nas tecnologias.
Os conflitos
que engendram inovações não ocorrem necessariamente na área em que elas
emergem. Uma das principais características do desenvolvimento do
“Ocidente,” dizem os autores, tem sido sua capacidade de transformar
conflito social em inovações técnicas. Enfim, é toda a teia de relações
conflituosas que deve ser levada em conta. A criação de um novo ‘paradigma sócioeconômico’
deve ser vista, portanto, como uma vasta inovação que surge no interior de
conjunturas conflitivas, pela emergência de diversas séries de inovações (técnicas,
sociais, políticas e culturais). (Dockès & Rosier,1992:305-306)
Trata-se,
portanto, de um processo social de produção de inovações sob vários pontos
de vista. Em primeiro lugar, é preciso distinguir a demanda (econômica) por
inovações, da necessidade social de inovações. Em segundo, é preciso
entender o papel de cada grupo no processo social que gera a inovação, isto é,
o processo que dá a ‘marca social’ da inovação. Finalmente, é preciso
perceber que as modalidades de regulação dos conflitos são cruciais, tanto
para a força das tendências inovadoras, quanto para os tipos de inovação. A
regulação social da inovação é uma parte essencial do processo de tolerância
dos conflitos. E é justamente a relação dialética entre inovação e
conflito que permite distinguir longos períodos históricos nos quais há uma
certa ordem (que os autores chamam de “ordem
produtiva”) e períodos de ‘desordem’, isto é, de profundas mudanças
nas formas de operação do sistema econômico (que os autores chamam de “crises
de transformação”). (Dockès & Rosier,1992:306-307)
A abordagem
Dockès-Rosier contraria frontalmente duas tendências muitos comuns: a) a que
enfatiza as mudanças tecnológicas como se os fatores sociais e políticos
tivessem um papel apenas secundário; b) a que apenas troca o sinal dessa operação,
enfatizando os aspectos sociais e políticos, como se eles pudessem estar
desligados das mudanças tecnológicas. Ou seja, mostra também o equívoco de
interpretações que tendem a desqualificar o papel do movimento pela
agricultura sustentável na criação de alternativas tecnológicas às práticas
agrícolas da “segunda” revolução agrícola. [7]
O mais
importante, contudo, é perceber a implicação que o esquema Dockès-Rosier
pode ter sobre os prognósticos mais frequentes sobre a próxima onda longa do
capitalismo. A presença das idéias de Schumpeter é tão forte nesse debate,
que as análises só diferem na forma como ilustram o papel da informática,
enfatizando mais o papel da microeletrônica nas telecomunicações ou na robótica.
Em alguns casos adiciona-se, é claro, o potencial das biotecnologias, ou da
biogenética... Mas não sai disso. Há unanimidade de que o “novo
paradigma” é a tecnologia da informação
(TI). E as diferenças ficam por conta dos setores em que esse “novo
paradigma” já é mais aparente.
Enxergar uma
relação dialética entre inovação e conflito implica necessariamente em
levantar dúvidas sobre essa unanimidade schumpeteriana. Não em negar o papel
da TI como o instrumento crucial de uma possível (e provável) nova expansão
capitalista. Mas em trabalhar com a hipótese de que as grandes mudanças não
ocorram precisamente nos setores industriais mencionados, mas em áreas
socialmente muito mais conflituosas, como as esferas energética, agroalimentar,
ambiental e, sobretudo, do desemprego. Ou seja, não é proibido pensar que o
verdadeiro ponto de mutação somente será reconhecido quando os grandes
problemas de nossa época começarem a ser superados pela aplicação da informática.
E o que estamos chamando de transição agroambiental é um processo diretamente
relacionado às quatro esferas acima mencionadas.[8]
3.
O significado histórico da nova lei agrícola americana
O Federal Agricultural Improvement and Reform Act promulgado no início
de 1996 (“FAIR Act”) finalmente iniciou a ruptura com um padrão protetor de
política agrícola que vigorou durante mais de sessenta anos. E sua elaboração
realçou as contradições do processo de coalizão política pela agricultura
sustentável.
Desde que
passou à defensiva, no início da década de 1950, o lobby do agribusiness sempre evitou um enfrentamento direto com seus
principais opositores: consumidores, contribuintes e ambientalistas. Os
primeiros foram sendo neutralizados em sucessivas barganhas, nas quais foram
seduzidos por esquemas de subsídio ao consumo, principalmente o selo-alimentação.
A pesada ofensiva dos contribuintes, nos anos 1980, foi neutralizada pelo
desencadeamento de uma crise setorial só comparável à dos anos 1920. E o
movimento ambientalista teve um lentíssimo amadurecimento, pelo menos no que se
refere à agricultura. Sua influência só começa a ser levada a sério a
partir da lei de 1990. Mas a obsolescência do padrão protetor de política agrícola
não só causava crescente desconforto e indignação entre as elites, como
dividia cada vez mais os próprios agricultores.
Apesar do
avançado processo de deterioração da sustentação de preços, nada garantia,
contudo, que seu fim estaria próximo, ou mesmo que a nova lei iniciasse a
ruptura. Ainda no final de 1995 continuava a parecer bem improvável a substituição
da sustentação de preços por esquemas diretos de estabilização da renda do
agricultor. Continuava a não parecer provável que esse tipo de proposta viesse
a ter boa acolhida entre os que iriam influir decisivamente na elaboração da
nova lei. Mas essa impressão começou a ser desmentida no início de fevereiro
de 1996 quando o Senado optou pelo desmantelamento gradual dos commodity programs[9].
A
idéia de que as perspectivas do mercado internacional favorecem uma expansão
da produção de grãos nos Estados Unidos era comum às duas propostas
originais dos republicanos: a de Pat Roberts, na Câmara, e a de Richard Lugar,
no Senado. As duas visavam - com abordagens bem diferentes - reduzir as restrições
de plantio, incentivando os agricultores a aumentarem a área cultivada. Os dois
líderes não tomariam iniciativas nessa direção se não tivessem sentido um
apoio pelo menos de parte dos triticultores do Kansas e dos sojicultores de
Indiana.
O
pano de fundo desse comportamento está bem claro no editorial do Wall
Street Journal de 20 de setembro de 1995: o aumento do consumo mundial de grãos
de 18% entre 1981 a 1993 foi atendido por concorrentes, uma vez que os
agricultores americanos estavam sendo pagos para não plantar. Não se deve
temer que a expansão da produção de grãos americana cause uma nova saturação
do mercado mundial. Essa foi, em poucas palavras, a racionalidade econômica que
respaldou a ousadia do projeto ‘Freedom
to Farm’.
Evidentemente,
não são essas as perspectivas dos ramos em que os Estados Unidos não consegue
o mesmo nível de competitividade e, muito menos, dos produtos para os quais
continua crucial o controle das importações e da área plantada. Daí a fúria
do pessoal do algodão, açúcar, amendoim, arroz, laticínios, etc.; e a conseqüente
incoerência das votações no Congresso.
Apesar de
seus grandes defeitos, indefinições e ambigüidades, o projeto de Pat Roberts
rompia com o cerne de um sexagenário padrão protetor: a sustentação de preços
por meio do controle da oferta. Ao “libertar” os agricultores de muitas
restrições de plantio, sem acabar de forma abrupta com a complementação de
renda oferecida pelos “commodity
programs,” a plataforma republicana ia além das mais otimistas previsões
sobre o que poderia sair do processo decisório em torno da nova lei. Ou seja, a
essência da plataforma agrícola republicana já constituía, por si só, um
fato novo. Não somente novo, como considerado bem improvável pelos analistas.
E este fato novo foi um sintoma de ruptura com o padrão gerado pelo New Deal[10]; isto é, de uma
ruptura com uma das características da “segunda” revolução agrícola, o
cerne do “contrato social” tecido na Grande Depressão.
Tal ruptura
foi impulsionada pelo partido político mais conservador e contrariada por
grupos que defendiam privilégios bem específicos (açúcar, algodão, etc.),
mas também, com muita veemência, por segmentos de esquerda do Partido
Democrata, os principais porta-vozes do movimento ambientalista em geral, e das
entidades que participam da ‘Campanha pela Agricultura Sustentável’ (CSA).
Muito além de uma combinação estranha de circunstâncias, este início de
ruptura pode estar indicando uma das contradições fundamentais da emergente
transição agroambiental. E, talvez, a principal contradição desse processo
no caso específico dos Estados Unidos.
O debate
parlamentar não foi esclarecedor dessa contradição e acabou por se polarizar
em torno da manutenção da “rede de salvamento”[11],
refletindo diretamente a ambivalência das atitudes dos agricultores captadas
pelos surveys. O projeto republicano,
que procurava atender os anseios dos que queriam a desmontagem gradual do padrão
protetor do New Deal, com mais flexibilidade produtiva e menos burocracia,
enfrentou a oposição dos parlamentares que representam os segmentos mais
“temerosos” ou “inseguros.” E essa polarização atrapalhou bastante a
coalizão das entidades agroambientais.
De qualquer
forma, o resultado desses embates - o “FAIR Act” de 1996 - marcou o começo
de uma ruptura com as restrições dos sexagenários commodity
programs que vinculavam a melhoria da renda dos agricultores participantes
ao nível dos preços de uma determinada mercadoria. Com isso, cresce a importância
relativa do governo federal nas outras dimensões da política agrícola: comércio
exterior, pesquisa, conservação, salubridade alimentar, segurança alimentar e
desenvolvimento rural.
Quatro
consequências do “FAIR Act” de 1996 precisam ser enfatizadas:
Maior orientação
para o mercado. Ao remover a ligação entre subsídios
e preços, previu sete pagamentos anuais declinantes aos produtores que
participaram em algum dos cinco anos anteriores dos programas de trigo, cereais
forrageiros, algodão e arroz. Para receber esses sete pagamentos declinantes
proporcionais à média dos subsídios recebidos nos cinco anos anteriores, o
agricultor deverá assinar uma novo “contrato de flexibilização produtiva”
para o período 1996-2002. Desde que o produtor aplique os planos de conservação
existentes, ele pode plantar o que quiser - exceto frutas e hortícolas - nas
terras sob contrato. A terra deve ser mantida para uso agrícola, sem qualquer
restrição às pastagens ou à produção de forragens.
Maior orientação
para as exportações. A agricultura americana está cada
vez mais dependente dos mercados externos. No setor agrícola, a parte da produção
exportada já é duas vezes superior à proporção referente ao conjunto da
economia. Deve passar a ser 2,5 vezes maior no ano 2000. Considera-se, portanto,
que as exportações têm um papel decisivo na renda do setor.
O “FAIR
Act”de 1996 dá mais ênfase à exportação de produtos de alto valor
agregado. Os produtos ‘semi-processados’, ‘prontos para o consumo’, ou
simplesmente ‘de alto valor’, constituem o segmento de mais rápido
crescimento. A participação relativa das exportações em granel caiu, nos
ultimos vinte anos, de 70% para menos de 50%. A comida pronta passou de 13% para
35% do total exportado no mesmo período.
Apesar da
China ser considerada o principal destino das vendas em granel, ela também é
um mercado em expansão para comida pronta, junto com o Japão, Coréia do Sul,
Indonésia, India e outras nações asiáticas em desenvolvimento. Segundo o
ministro da agricultura Dan Glikman, o próprio México continua a oferecer boas
perspectivas a longo prazo, apesar das dificuldades que enfrenta para se
recuperar da desvalorização do peso. (Glickman,1996)
Mantida a
conservação.
Os programas de conservação ambiental não somente mantidos, como
diversificados. As mencionadas emendas dos republicanos mais sensíveis às
questões ambientais acabaram reautorizando o Environmental Conservation Acreage Program (ECAP) que ajuda o
ministro a operar os programas de conservação de maneira consistente; e o Conservation
Reserve Program (CRP), que paga os agricultores que estão recuperando 36,4
milhões de acres de terras fragilizadas. Surgiu um programa semelhante,
especificamente voltado para as Everglades
(sul da Flórida), com um teto orçamentário de 210 milhões de dólares. E foi
alocado 1,3 bilhão de dólares para um Environmental
Quality Incentives Program (EQIP), com o objetivo de dar apoio técnico-educacional,
partilhar custos assistenciais, e atribuir incentivos financeiros a produtores
que pretendam implementar projetos de gestão agroambiental. Pelo menos metade
desses recursos terão que ser destinados à pecuária.
Reorientação
das estratégias de pesquisa, educação e economia (“REE”). É crescente preocupação da
opinião pública com a salubridade e valor nutricional dos alimentos; com os
possíveis efeitos das biotecnologias, da irradiação e da informática; e com
os impactos das práticas produtivas no meio ambiente, nas comunidades e no
bem-estar dos animais. Além disso, a adoção das novas tecnologias implicará
em mudanças siginificativas nos sistemas de produção e de mercado. Todas
essas questões gerarão fortes pressões sobre as instituições do setor agrícola
e aumentarão a necessidade de programas aplicados à solução de problemas na
área-missão do Ministério da Agricultura (USDA)
conhecida por “REE”: “Research,
Education and Economics mission area”. A “REE” é uma das sete grandes
divisões do Ministério, sendo composta por quatro agências: o Serviço de
Pesquisa Agropecuária (ARS), o Serviço
de Pesquisas Econômicas (ERS), o
Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas (NASS),
e o Serviço Cooperativo de Pesquisa, Educação e Extensão (CSREES).
O “FAIR
Act” de 1996 consolidou três comissões anteriormente existentes em um único
Comitê Nacional para a Pesquisa, Extensão, Educação e Economia (National Agricultural Research, Extension, Education and Economics Board),
cuja missão será definir as prioridades das políticas governamentais voltadas
para o setor agroalimentar.
A “REE”
já está desenvolvendo seu “plano estratégico de transição ao século
21”, que estará em vigor a partir no ano fiscal de 1999. Até lá será
considerado apenas um projeto em elaboração. Seu rascunho estabelece cinco
objetivos básicos que refletem as principais prioridades da área para o período
1999-2003. E o primeiro esboço da distribuição dos recursos entre esses cinco
objetivos estratégicos está resumido na seguinte tabela:
|
Linhas
de trabalho |
M$/ano |
% |
|
Competitividade
global da agricultura |
444,6 |
25,4 |
|
Segurança
e salubridade do sistema alimentar |
444,9 |
25,4 |
|
Nutrição
suficiente e saudável à população |
277,1 |
15,8 |
|
Interface
da agricultura com o meio ambiente |
272,5 |
15,6 |
|
Melhoria
econômica e qualidade de vida |
311,9 |
17,8 |
|
TOTAL |
1.751,0 |
100,0 |
*
US dólares de 1996.
Fonte:USDA: REE Draft Strategic Plan, May 15, 1996
Se o plano
estratégico da “REE” mantiver as
linhas gerais desse rascunho, pode-se pensar que os Estados Unidos estarão
reformando profundamente seu sistema de pesquisa-educação-extensão, pois
estarão estabelecendo pontes entre os três “impérios ilhados” da
agricultura, do meio ambiente, e da saúde.
Já
as consequências de curto-prazo do “FAIR Act” são mais difíceis de serem
vislumbradas.
É óbvio que
os produtores terão que responder rapidamente às mudanças de mercado. Mas é
impossível saber se eles capitalizarão as oportunidade e evitarão as
barreiras ao comércio internacional. Também é óbvio que os produtores terão
que se adaptar a mudanças significativas nas maneiras de produzir, processar e
distribuir os alimentos, até que eles cheguem à mesa do consumidor. Mas é
impossível saber se nos próximos sete anos eles conseguirão dar mais
salubridade e valor nutricional aos alimentos que produzem e vendem. Também é
óbvio que os produtores terão que entender melhor as relações entre o comércio
agroalimentar internacional, o uso dos recursos naturais e a qualidade
ambiental. Mas é impossível saber se serão levados a acelerar a adoção de
sistemas de produção mais sustentáveis. Enfim, única coisa certa é que a
ruptura com as restrições de plantio foi uma iniciativa crucial para o fomento
de inovações agroambientais
Conclusões
O mais provável
é que a legitimação de propostas de agricultura sustentável seja paralela a
um oscilante declínio do padrão atual da agricultura moderna. Essa legitimação
poderá ser rápida em ecossistemas menos permeáveis aos milagres das
variedades de alto rendimento. Em áreas especialmente favoráveis à manutenção
do modelo tecnológico da “segunda” revolução, a resistência talvez se
prolongue por muito tempo, mesmo que decline o apoio governamental. Essa transição
agroambiental até poderá incluir, num futuro longínquo, uma fase de mudanças
suficientemente aceleradas para que venha a ser caracterizada como uma nova
revolução. Mas não é o que está acontecendo agora.
O chavão do
“conflito de paradigmas” não ajuda a entender a complexa relação entre as
mudanças tecnológicas e as mudanças institucionais que está na essência da
emergente transição agroambiental. Também não ajudam as abordagens que
enfatizam as mudanças tecnológicas, como se os fatores sociais e políticos
tivessem um papel apenas secundário; ou as que enfatizam os aspectos sociais e
políticos, como se eles pudessem estar desligados das mudanças tecnológicas.
Enxergar uma relação dialética entre inovação e conflito implica
necessariamente em trabalhar com a hipótese de que as grandes mudanças que
determinarão a próxima fase de expansão capitalista poderão ocorrer nas
esferas energética, agroalimentar, ambiental e, sobretudo, do desemprego. E
estes quatro grandes problemas de nossa época estão intimamente relacionados
à transição agroambiental.
O ritmo dessa
transição certamente depende da política. Particularmente, da possibilidade
de superar a enorme inércia política da “segunda” revolução agrícola.
Mas o isolamento político dos segmentos mais ligados ao setor petroquímico,
por exemplo, só poderá ocorrer à medida em que inovações tornem obsoleta a
base fóssil da matriz energética. Isto mosta o quanto o avanço do processo
social passa pelo progresso científico-tecnológico.
A
elaboração da lei agrícola americana de 1996 realçou os dois principais
flancos do componente agroalimentar do modo de regulação da ‘Idade de
Ouro’ : (a) o mecanismo de estabilização da renda vinculada ao controle da
oferta; (b) os impactos ambientais dos sistemas produtivos dominantes.
A nova lei não acabará por completo com os commodity programs, nem provocará uma mudança radical das práticas
agrícolas convencionais. Mas indica que o novo modo de regulação setorial terá
uma política de rendas desvinculada de restrições de plantio e terá que
responder à crescente pressão social pela proteção ambiental e por alimentos
mais saudáveis.
Ou
seja, no futuro contrato entre a sociedade e a agricultura, os produtores se
comprometerão a continuar garantindo abundância alimentar, mas agora com
trabalho limpo. E a sociedade se comprometerá a continuar garantindo um aceitável
padrão de vida aos produtores, sem que para isso precise de tantos controles e
gastos públicos. O processo decisório que gerou o “FAIR Act 1996” indica
que são justamente as dificuldades objetivas de negociar esse novo contrato que
podem explicar os fluxos e refluxos da emergente transição agroambiental.
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[1] A primeira aproximação está em Veiga (1994)
[2]
Saving
the Planet with Pesticides and Plastic:
The Environmental Triumph of High-Yield Farming
(Avery,1995).
[3]
"A Farming Revolution: Sustainable Agriculture";
(KLINKENBORG,1995)
[4] “Enseñanzas de la Revolucion Verde: Hacia una Nueva Revolucion Verde” (FAO,1995)
[5] Uma boa análise desta questão está no livro de Eduardo Ehlers (Ehlers,1996)
[6]
Na verdade, Beus & Dunlap são apenas duas das milhares de vítimas
da banalização da idéia de paradigma. Na literatura da ciências sociais,
a expressão tornou-se sinônimo de “arcabouço teórico (e sua
correspondente metodologia). Neste sentido, haveria, na verdade, uma coexistência
conflituosa de inúmeros paradigmas, o que se choca à tese central de Kuhn,
segundo a qual a ciência avança por revoluções nas quais um novo
paradigma substitui o velho. Um
exemplo emblemático dessa vulgarização está no citado documento da FAO
(1995:3), quando afirma que “o
progresso tecnológico da agricultura moderna se baseia em dois paradigmas complementares” (em negritos no original)
[7]
Este é um equívoco
bem frequente nas importantes contribuições dadas ao debate sobre a
agricultura sustentável no Brasil por José Francisco Graziano da Silva.
(Silva,1987,1993,1994)
[8]
São raríssimos os prognósticos que enfatizam essas quatro esferas
(energia, alimento, meio ambiente e desemprego). Uma brilhante exceção é
o artigo “Inovation and Long-Term
Growth” de George F. Ray (1983).
[9] Desde as suas origens, em 1933, a política agrícola dos Estados Unidos foi estruturada por programas para certos produtos, com normas e mecanismos específicos. Durante os últimos 63 anos, variaram bastante tanto a lista desses produtos quanto as regras de intervenção estatal. Mas o sentido geral dos programas manteve-se o mesmo: complementação da renda dos agricultores por meio da sustentação dos preços dessas commodities.(ver Veiga,1993a,1994b)
[10]
Termo aplicado
ao programa (1933-8) de Franklin D. Roosevelt, pelo qual ele procurou salvar
a economia norte-americana e acabar com a Grande Depressão. O termo foi
utilizado por Roosevelt em seu discurso de 1932, quando aceitou a indicação
presidencial. A legislação do New Deal foi proposta por políticos
progressistas e o plano foi aprovado pela maioria do Congresso. Apesar de não
se poder considerar que o New Deal tirou os EUA da depressão, foi
importante para a revitalização da moral da nação. (ver
Veiga,1993a,1994b)
[11]
A expressão
usada é safety net e ela evoca
aquele tipo de rede que os bombeiros utilizam para salvar pessoas que saltam
de prédios incendiados.