Publicado
na revista Cadernos
de Ciência e Tecnologia (Embrapa), vol 13, n. 3, set./dez. 1996, pp. 383-404
|
José
Eli da Veiga[1]
XX ENCONTRO
NACIONAL DA ANPOCS
GT
“Processos Sociais Agrários”
Caxambu,
22 a 26 de Outubro de 1996
José
Eli da Veiga[2]
Para
discutir a relação entre agricultura familiar e sustentabilidade, esta
comunicação está organizada em três tópicos. O primeiro, apresenta uma visão
panorâmica do processo de afirmação da agricultura familiar durante os dois
últimos ciclos sistêmicos de acumulação capitalista. O segundo aborda a própria
natureza da emergente transição agroambiental. E o terceiro aponta as
vantagens da empresa familiar para a sustentabilidade da agricultura.
Atualmente,
tanto a agricultura, como a produção alimentar, tendem a ser cada vez mais
influenciadas por um conjunto de pressões que emanam de seu relacionamento com
o meio ambiente. Nos países mais desenvolvidos há um movimento social em
ascensão que ataca em três frentes: combate a degradação dos
agroecossistemas provocada pelo processo modernizador do século XX; exige novas
regras disciplinares para o sistema agroalimentar; e promove práticas mais
adequadas à preservação dos recursos naturais e ao fornecimento de alimentos
mais sadios. Essa é a tripla missão das campanhas pela agricultura sustentável.
Seus
principais opositores dizem que uma população mundial de dez ou onze bilhões
de habitantes em meados do século 21 só poderá se manter se a engenharia genética
engendrar um novo salto de produtividade nas zonas nobres da agricultura
moderna. Afirmam que o uso mais intensivo das melhores terras disponíveis com
tecnologias já consolidadas é que minimizaria os custos econômicos e
ambientais, pois incrementaria a biodiversidade nas terras menos aptas que
deixariam de ser cultivadas por força da globalização. Por isso, mudanças
estratégicas motivadas por preocupações ambientais só agravariam a insegurança
alimentar do globo. O melhor seria que os países periféricos desistissem
definitivamente da auto-suficiência e importassem cada vez mais alimentos das
nações que podem facilmente aumentar a oferta.
Este
é o dilema que provoca tanta hesitação entre as elites dirigentes sobre o
futuro da agricultura. As do Norte sentem a crescente exigência social pela
salubridade dos alimentos e pela preservação dos recursos naturais necessários
à agricultura, mas também são muito influenciadas pelo lobby dos que
pretendem tirar vantagem do aumento do consumo de grãos na periferia. As elites
do Sul, por sua vez, debatem-se entre pressões domésticas pela segurança
alimentar e pressões ambientais mais externas do que internas.
Por
isso combinam-se dois cenários que frequentemente são apresentados com se
fossem as proposições de uma alternativa: um punhado de países
industrializados continuará a produzir excedentes alimentares exportáveis ao
mundo subdesenvolvido, enquanto parte dessa imensa periferia
tentará aumentar seu grau de autoabastecimento alimentar priorizando
investimentos no desenvolvimento agrícola.
Em tal contexto, o sistema internacional de pesquisa agropecuária
pergunta-se o que fazer. Deve manter sua preferência inercial pela intensificação
dos nichos de alto potencial produtivo, ou se voltar para as áreas menos
favorecidas, onde se concentram a pobreza rural e a degradação ambiental a ela
associada ? Ultimamente, influentes
formuladores da política científica para o setor têm apoiado o segundo
caminho. Querem que a pesquisa se oriente para a segurança alimentar sustentável
do Sul. Dizem que o atual desafio é fazer uma “Revolução ‘Super’ ou
‘Duplamente’ Verde” (Doubly-Green or
Super Green Revolution). Isto é, uma revolução ainda mais produtiva que a
“Verde” e que consiga, ao mesmo tempo, preservar os recursos naturais e o
meio ambiente.
Trata-se
de uma nobre e generosa intenção que, infelizmente, assemelha-se à quadratura
do círculo. Principalmente porque uma agricultura que preserve os recursos
naturais e o ambiente não resultará da difusão de qualquer nova tecnologia
genérica de fácil adoção. As atuais soluções sustentáveis não são
facilmente multiplicáveis. São bem específicas ao ecossistema e muito
exigentes em conhecimento agroecológico, além de pouco competitivas, tanto do
ponto de vista econômico, como do ponto de vista político.
Nada
impede que essa situação venha a se alterar sob as pressões sociais por
alimentos saudáveis e respeito à natureza. Tais pressões certamente
incentivarão muitos agricultores e pesquisadores a complementarem os esforços
dos movimentos de agricultura alternativa (orgânico, biodinâmico, natural e
biológico) na busca de soluções mais sustentáveis.
Mas
esse processo não poderá ter a rapidez embutida na idéia de “revolução
super ou duplamente verde.” Foram
necessários quase dois séculos para que a agronomia gerasse as milagrosas
variedades de alto rendimento. Por mais rápido que seja o sucesso da campanha
pela agricultura sustentável e a consequente conversão ideológica dos
sistemas de pesquisa e extensão, é ilusório imaginar que a biologia molecular
combinada à emergente agroecologia revolucionem a produção de alimentos em
apenas trinta anos.
Em
suma, a legitimação das propostas alternativas tende a ser paralela a um
oscilante declínio do padrão atual da agricultura moderna. Estamos no início
de uma longa transição agroambiental e não de uma fase de mudanças
aceleradas que caracteriza as revoluções.
A
transição talvez possa até caminhar com rapidez em ecossistemas menos permeáveis
aos milagres das variedades de alto rendimento, engendrando uma diversidade de
sistemas agrários comparável à que prevalecia até o início do século 20. A
variável-chave que determinará o ritmo desses processos certamente será a dinâmica
social. Particularmente, as possibilidades concretas de isolar as forças mais
conservadoras (como os grupos de interesse ligados ao fornecimento de energia fóssil)
e superar a enorme inércia política da “segunda” revolução agrícola.
Mas
não se poder ter a ilusão de que esteja em curso uma revolução
agroambiental. Essa idéia tem sido muito alimentada por uma interpretação
sociológica inspirada nas idéias de Thomas Kuhn sobre o conflito de paradigmas
gerador das “revoluções científicas”. Segundo essa visão, os movimentos
rebeldes (orgânico, biodinâmico, biológico e natural) seriam portadores de um
novo paradigma, conflitante com o paradigma dominante, isto é, a ciência agronômica
normal. Essa idéia tem sido muito explorada por Beus & Dunlap (1990,1991,1992,1994).
Eles tendem a ver todos os sinais de legitimação de propostas mais sustentáveis
como o avanço de um novo paradigma. Segundo Kuhn, se o novo paradigma estiver
"destinado a vencer," o número e a força dos argumentos persuasivos
em seu favor crescerão, e um grande número de cientistas acabará por se
converter, garantindo o seu desenvolvimento. (Kuhn,1970:159)
O
primeiro reparo que deve ser feito sobre tal interpretação é que Beus &
Dunlap nem sempre são fiéis às idéias de Kuhn. Dizem, por exemplo, que a análise
de Kuhn sobre a história da ciência pode ser “estendida” a outros fenômenos
(Beus & Dunlap,1990:592). No entanto, no posfácio da segunda edição de
sua obra, o próprio Kuhn faz questão de frisar exatamente o inverso: que sua
originalidade foi abordar a ciência sob uma ótica há muito comum em outros
campos (Kuhn,1970:208). Outra idéia confusa diz respeito à importância da
"racionalidade" dos paradigmas em conflito. Referindo-se ao debate
agroambiental, os dois sociólogos rurais dizem que “o que é racional e razoável sob uma perspectiva é irracional sob
outra.” (Beus & Dunlap,1990:592) Entretanto, segundo Kuhn, não se
deve pensar que o processo de afirmação de um novo paradigma demonstre
qualquer tipo de "irracionalidade" do anterior. O que estimula o
desenvolvimento de um novo paradigma é muito mais a percepção de que pode
haver algo de errado com paradigma dominante, do que a possibilidade de que a
resistência ao novo paradigma venha a parecer ilógica. (McMullin,1993:56)
Mas
nenhum desses enganos seria muito grave se a própria abordagem de Kuhn sobre o
progresso científico fosse clara e satisfatória. Mas não é o caso. No já
citado posfácio da segunda edição, Kuhn (1970:181) reconheceu ter usado a
palavra ‘paradigma’ em 22 sentidos diferentes... Acrescentou que, depois de
uma boa revisão editorial, eles poderiam ser reduzidos a apenas dois. Chama o
primeiro de “matriz disciplinar” (disciplinary
matrix) e o segundo de “exemplos compartilhados” (shared examples). A ambígua “matriz disciplinar” é composta de
“paradigmas, partes de paradigma ou ‘paradigmatics’
”, que formam um todo e funcionam juntos. Os “exemplos compartilhados”
(menos ambíguos) são os que permitem o desenvolvimento de uma linguagem científica
comum e uma abordagem comum para problemas similares.
Mesmo
reduzida a apenas dois sentidos, a
noção de paradigma está longe de ser clara. Fica-se sem saber se essa teoria
sobre as revoluções científicas se aplica apenas aos grandes sistemas de
pensamento, ou se vale também para várias teorias ou modelos internos a um
mesmo sistema de pensamento. Parece que a segunda opção corresponde melhor à
visão de Kuhn, embora ele nunca o diga. (Katouzian,1980:96)
Assim, no caso de ciências imaturas, como as ciências sociais, é
impossível usar o texto de Kuhn para decidir se um mesmo paradigma abrigaria,
por exemplo, Marx e Schumpeter, ou se criaram diferentes paradigmas.
Se
a confusão já é tão grande quando se trata da história da ciência, o que
dizer do uso da palavra ‘paradigma’ no campo da história econômica, como
fazem os evolucionistas-neoschumpeterianos? O que seriam, por exemplo, os tais
“paradigmas técnico-econômicos” de Freeman & Perez (1988) ?
Eles mesmos respondem que enxergam os ciclos longos de Schumpeter e suas
vagas de destruição criativa, como uma sucessão desses tais “paradigmas técnico-econômicos”,
associados a esquemas institucionais específicos que, contudo, só emergem “depois”
de um “doloroso processo de mudança estrutural”. (Freeman &
Perez,1988:47) Nada dizem sobre a natureza do processo formador desses
“paradigmas técnico-econômicos”; enquanto que Schumpeter pelo menos
associou vagamente à iniciativa da vanguarda empresarial o processo formador
das suas “creative gales of destruction”.(Schumpeter,1939)
Para
Schumpeter, pacotes de inovações são gerados por periódicas revoadas de
empresários “heróicos”. Só que esse fenômeno não é explicado por
qualquer processo sócio-econômico. Despenca na teoria como um deus
ex machina. Não há um tratamento teórico para a idéia de que as inovações
não surgem de forma aleatória, mas concentram-se em certos períodos, como se
fossem desovas. Numa excelente abordagem dessa questão, Kleinknecht (1987),
procurou resposta à seguinte pergunta: qual é a explicação para as as vagas
schumpeterianas de heróicas inovações? Em suas conclusões não há nada que
possa ser visto como uma boa resposta a tal pergunta. Não chega a qualquer
interpretação convincente para a relação de causa e efeito estabelecida por
Schumpeter, segundo a qual as expansões e as depressões seriam determinadas,
em última instância, pelo potencial inovador da vanguarda empresarial. E uma límpida
constatação desse mesmo vácuo teórico já havia sido apontada por Rosenberg
& Frischtak (1986:7-8).
O
mínimo que se pode dizer é que o uso da idéia de paradigma é tão nebuloso
entre os economistas neoschumpeterianos quanto entre sociólogos como Beus &
Dunlap. E tudo indica que a origem desse espesso nevoeiro esteja na própria
interpretação de Thomas Kuhn. Afinal, a obra de Kuhn ajuda muito o
entendimento do processo lógico do
avanço da ciência, mas quase nada no entendimento desse avanço enquanto
processo social. Apesar de se referir
muito à ‘comunidade científica,’ não chega realmente a analisá-la, como
fizeram, por exemplo, Katouzian (1980) e Latour (1995). Enfim, não é em Kuhn
que se pode encontrar qualquer esclarecimento para a complexa relação entre as
mudanças tecnológicas e as mudanças institucionais.
Essa
procura das ligações teóricas entre inovações e conflitos conduziu os
regulacionistas franceses Pierre Dockès e Bernard Rosier (1992) a duas hipóteses
e uma pergunta:
> Inovação -
sua complexidade, suas origens, sua difusão - não pode ser completamente
entendida a não ser como parte da estrutura social.
>
Em qualquer sociedade ‘dividida’ a arena social é determinada por múltiplos
conflitos internos que refletem profundos interesses divergentes.
>
Dado que as sociedades que nos interessam são cheias de conflitos
inerentes a seus modos de interação social e recorrentes devido à inovação,
pode-se estudar separadamente as inovações e os conflitos ?
Tendo
como base um conjunto de pesquisas em história econômica (Dockès,1979; Dockès
& Rosier,1988), eles respondem com um categórico não, pois enxergam uma
relação dialética entre conflitos e grandes inovações. Não somente os
conflitos estão na própria origem das inovações, como as inovações,
principalmente as maiores, engendram ou deslocam conflitos. Por isso, o que está
em questão não são apenas os ritmos
das inovações e a velocidade com que
elas penetram o tecido social, mas, sobretudo, o seu próprio conteúdo. Grandes inovações podem emergir tanto como objeto e locus
de muitos conflitos, quanto como resultantes (outcomes)
dessas lutas. Elas serão, portanto, profundamente afetadas por essas lutas. Por
isso, Dockès & Rosier chamam esse processo de “marca social” nas
tecnologias (‘social imprint’ on
technologies).
Os
conflitos que engendram inovações não ocorrem necessariamente na área em que
elas emergem. Uma das principais características do desenvolvimento do
“Ocidente,” dizem os autores, tem sido sua capacidade de transformar conflito social em inovações técnicas. Enfim, é toda
a teia de relações conflituosas que deve ser levada em conta. A criação de
um novo ‘paradigma sócioeconômico’ deve ser vista, portanto, como uma
vasta inovação que surge no interior de conjunturas conflitivas, pela emergência
de diversas séries de inovações (técnicas, sociais, políticas e culturais).
(Dockès & Rosier,1992:305-306)
Trata-se,
portanto, de um processo social de produção de inovações sob vários pontos
de vista. Em primeiro lugar, é preciso distinguir a demanda (econômica) por
inovações, da necessidade social de inovações. Em segundo, é preciso
entender o papel de cada grupo no processo social que gera a inovação, isto é,
o processo que dá a ‘marca social’ da inovação. Finalmente, é preciso
perceber que as modalidades de regulação dos conflitos são cruciais, tanto
para a força das tendências inovadoras, quanto para os tipos de inovação. A
regulação social da inovação é uma parte essencial do processo de tolerância
dos conflitos. E é justamente a relação dialética entre inovação e
conflito que permite distinguir longos períodos históricos nos quais há uma
certa ordem (que os autores chamam de “ordem
produtiva”) e períodos de ‘desordem’, isto é, de profundas mudanças
nas formas de operação do sistema econômico (que os autores chamam de “crises
de transformação”). (Dockès & Rosier,1992:306-307)
A
abordagem Dockès-Rosier contraria frontalmente duas tendências muitos comuns:
a) a que enfatiza as mudanças tecnológicas como se os fatores sociais e políticos
tivessem um papel apenas secundário; b) a que apenas troca o sinal dessa operação,
enfatizando os aspectos sociais e políticos, como se eles pudessem estar
desligados das mudanças tecnológicas. Ou seja, mostra também o equívoco de
interpretações que tendem a desqualificar o papel do movimento pela
agricultura sustentável na criação de alternativas tecnológicas às práticas
agrícolas da “segunda” revolução agrícola. [3]
O
mais importante, contudo, é perceber a implicação do esquema Dockès-Rosier
pode ter sobre os prognósticos mais frequentes sobre a próxima onda longa do
capitalismo. A presença das idéias de Schumpeter é tão forte nesse debate,
que as análises só diferem na forma como ilustram o papel da informática,
enfatizando mais o papel da microeletrônica nas telecomunicações ou na robótica.
Em alguns casos adiciona-se, é claro, o potencial das biotecnologias, ou da
biogenética... Mas não sai disso. Há unanimidade de que o “novo
paradigma” é a information technology
(IT). E as diferenças ficam por conta dos setores em que esse “novo
paradigma” já é mais aparente.
Enxergar
uma relação dialética entre inovação e conflito implica necessariamente em
levantar dúvidas sobre essa unanimidade schumpeteriana. Não em negar o papel
da IT como o instrumento crucial de uma possível (e provável) nova expansão
capitalista. Mas em trabalhar com a hipótese de que as grandes mudanças não
ocorram precisamente nos setores industriais mencionados, mas em áreas
socialmente muito mais conflituosas, como as esferas energética, agroalimentar,
ambiental e, sobretudo, do desemprego. Ou seja, não é proibido pensar que o
verdadeiro ponto de mutação somente será reconhecido quando os grandes
problemas de nossa época começarem a ser superados pela aplicação da informática.
E o que estamos chamando de transição agroambiental é um processo diretamente
relacionado às quatro esferas acima mencionadas.[4]
Nos países em que as políticas públicas já vêm
reagindo à nova exigência social, começa a ficar clara a complexidade dessa
transição. O processo está bem mais atrasado na América Latina, mas já
entrou nas prioridades de instituições regionais, tornando perceptíveis
alguns avanços. Fica cada vez mais claro que, neste aspecto, são imensas as
vantagens comparativas da agricultura familiar, pois sua principal característica
é a diversificação.
A agricultura patronal, com suas levas de bóias-frias
e alguns poucos trabalhadores residentes vigiados por fiscais e dirigidos por
gerentes, engendra forte concentração de renda e exclusão social, enquanto a
agricultura familiar, ao contrário, apresenta um perfil essencialmente
distributivo, além de ser incomparavelmente melhor em termos sócioculturais.
Sob o prisma da sustentabilidade (estabilidade, resiliência e equidade), são
muitas as vantagens apresentadas pela organização familiar na produção
agropecuária, devido à sua ênfase na diversificação e à maior
maleabilidade de seu processo decisório. A
versatilidade da agricultura familiar se opõe à especialização cada vez mais
fragmentada da agricultura patronal.
As características essenciais das duas principais
formas de produção agropecuária podem ser resumidas no seguinte quadro:
|
Modelo
Patronal |
Modelo
Familiar
|
|
completa separação entre gestão e trabalho |
trabalho e gestão intimamente relacionados |
|
organização centralizada |
direção do processo produtivo assegurada
diretamente pelos proprietários |
|
ênfase na especialização |
ênfase na diversificação |
|
ênfase em práticas agrícolas padronizáveis |
ênfase na durabilidade dos recursos naturais
e na qualidade da vida |
|
trabalho assalariado predominante |
trabalho assalariado complementar |
|
tecnologias dirigidas à eliminação das
decisões "de terreno" e "de momento" |
decisões imediatas, adequadas ao alto grau de
imprevisibilidade do processo produtivo |
|
tecnologias voltadas principalmente à redução
das necessidades de mão-de-obra |
tomada de decisões "in loco",
condicionada pelas especificidades do processo produtivo |
|
pesada dependência de insumos comprados |
ênfase no uso de insumos internos |
Mas
será que existe no Brasil um agricultura familiar que possa vir a se fortalecer
caso a sociedade venha mesmo a optar por essa via de desenvolvimento rural ? Não
estaria atrofiada a frágil agricultura familiar que se formou nas áreas menos
cobiçadas pelos grandes fazendeiros ?
O
último instantâneo da agricultura brasileira, tirado em 1985, indicou que a
agricultura familiar resistiu, apesar da opção das elites dirigentes pela
agricultura patronal. É verdade que 54% da
área ocupada pertenciam às 110 mil fazendas de mais de 500 hectares (tabela
1). Considerando-se que as unidades de tamanho gigantesco raramente têm
aproveitamento agrícola adequado, a exclusão dos 2125 estabelecimentos com área
superior a 10 mil hectares permite melhor aproximação do padrão de uso da
terra que prevalecia na agricultura patronal. Ou seja, considera-se, aqui, que
os estabelecimentos do estrato de área 500 a 10 mil hectares formavam uma amostra
mais representativa da agricultura patronal brasileira.
Mesmo
com esse cuidado, confirma-se a natureza essencialmente pecuária das fazendas.
Menos de um décimo de sua área era consagrada às lavouras, enquanto mais da
metade era ocupada por pastagens. Na verdade, a área dedicada às lavouras era
menor nas fazendas do que nos sítios, como indica a comparação com uma amostra
representativa da agricultura familiar formada pelos estabelecimentos do estrato
de 20 a 100 ha (tabela 2)
Sob
o prisma da modernização, isto é, do uso de insumos industriais no processo
produtivo, a agricultura praticada nos estabelecimentos de grande porte só
superava com nitidez a agricultura familiar no que diz respeito à motomecanização,
energia elétrica e defensivos animais. No que se refere aos defensivos
vegetais, fertilizantes, corretivos, práticas de conservação de solo, ou
irrigação, as diferenças entre os dois tipos de agricultura não eram
significativas (tabela 3). Mas os contrastes apareciam nos efeitos da modernização
para cada atividade. Em algumas culturas, os rendimentos físicos obtidos pela
agricultura patronal eram bem superiores aos da agricultura familiar (tabela 4).
E para alguns desses produtos, como a cana-de-açúcar, o arroz e a soja, essa
maior eficiência se traduzia também em maior peso relativo na oferta (tabela
5).
Todavia,
a estratificação dos estabelecimentos segundo a área fornece um retrato muito
desfocado da situação da agricultura familiar brasileira em 1985. Por isso, em
trabalho realizado para a FAO (Veiga,1995a), procurou-se chegar a uma descrição
menos grosseira por meio da sinopse apresentada na tabela 6. O que permitiu
propor uma diferenciação entre a agricultura familiar e a massa de
estabelecimentos periféricos, assim como uma separação de dois segmentos básicos
-consolidados e de transição- foi a estratificação da renda monetária bruta
gerada no estabelecimento. Os principais resultados dessas estimativas estão na
tabela 7. O estrato A é reúne os estabelecimentos não-patronais que tinham
uma renda monetária bruta superior à média da micro região geográfica. O
estrato C junta os que tinham essa mesma renda abaixo da mediana. E o estrato B
é formado pelos estabelecimentos com renda intermediária, entre a mediana e a
média microrregional. A pior situação estava evidentemente na região
Nordeste, onde a distinção entre os estratos B e C era pouco significativa.
Nos dois casos a renda monetária bruta era muito próxima, como mostra a tabela
8.
A
promoção da agricultura familiar como linha estratégica de desenvolvimento
rural está finalmente entrando na agenda política do Brasil. Com um século de
atraso, as elites dirigentes começam a se dar conta das vantagens de uma
agricultura organizada primordialmente por empresas de caráter familiar. Mas
essa conversão insere uma grande ambiguidade, pois tende a valorizar apenas as
virtudes sociais da agricultura familiar, sem romper com o mito da superioridade
econômica da agricultura patronal. Além de chamar a atenção para tal
incongruência, esta comunicação procurou rebater, também, dois fatalismos
muito comuns entre os que cultivam o mito da superioridade da agricultura
patronal: a agricultura familiar brasileira já estaria atrofiada e o pouco que
restou seria liquidado pela próxima onda de inovação tecnológica.
TABELAS
Tabela 1 - Número de estabelecimentos e área segundo grupos de área
total, Brasil, 1985
|
Grupos
de área (ha) |
Nº de estab. |
%
|
Área
(mil
ha) |
% |
|
Menos
de 20 |
3 879 851 |
67 |
21 297 |
6 |
|
De
20 a 100 |
1 345 311 |
23 |
58 255 |
16 |
|
De
100 a 500 |
457 762 |
8 |
90 474 |
24 |
|
De
500 a 10 mil |
107 955 |
2 |
150 584 |
40 |
|
Mais
de 10 mil |
2 125 |
- |
54 314 |
14 |
|
Totais |
5 793 004 |
100 |
374 925 |
100 |
Fonte: Censo Agropecuário de 1985
Tabela 2 - Utilização das terras nos estabelecimentos de estratos de
área selecionados, Brasil, 1985. (milhões ha e
porcentagens)
|
|
Estrato área (M ha) |
20-100
(%) |
Estr.
500- área
(M ha) |
10.000 (%) |
|
Total |
58,0 |
100,0 |
151,0 |
100,0 |
|
c/lav.permanentes |
3,2 |
5,5 |
1,5 |
1,0 |
|
c/lav.temporárias |
11,3 |
19,5 |
10,2 |
6,8 |
|
subtotal Lavouras |
14,5 |
25,0 |
11,7 |
7,7 |
|
c/pastag.naturais |
13,7 |
23,6 |
47,6 |
31,5 |
|
c/pastag.plantadas |
8,1 |
14,0 |
38,2 |
25,3 |
|
subtotal Pastagens |
21,8 |
37,6 |
85,8 |
56,8 |
|
outras |
21,7 |
37,4 |
53,5 |
35,4 |
Fonte:
Censo Agropecuário de 1985
Tabela
3 - Indicadores do grau de modernização dos estabelecimentos de estratos de área
selecionados, Brasil 1985.
|
Estabelecimentos
que: |
Particip.
no estrato 20-100 % |
Particip.
no estrato 500-10.000 % |
|
Tinham
alguma assistência técnica |
16 |
35 |
|
Tinham
energia elétrica |
24 |
34 |
|
Usavam
tração mecânica |
31 |
56 |
|
Tinham
trator |
13 |
48 |
|
Tinham
veículos de tração mecânica |
17 |
53 |
|
Usavam
defensivos animais |
58 |
81 |
|
Usavam
defensivos vegetais |
40 |
42 |
|
Usavam
fertilizantes químicos |
36 |
37 |
|
Usavam
fertilizantes orgânicos |
41 |
41 |
|
Usavam
calcário e outros corretivos |
10 |
15 |
|
Com
práticas de conservação do solo |
19 |
25 |
|
Usavam
algum tipo de irrigação |
5 |
8 |
|
Obtiveram
crédito de custeio |
17 |
15 |
|
Obtiveram
crédito de investimento |
2 |
3 |
Fonte: Censo Agropecuário de 1985
Tabela
4 - Rendimentos físicos nos estabelecimentos de estratos de área selecionados,
Brasil, 1985
|
|
Estrato
20-100 |
Estrato
500-10000 |
Unidades |
|
Algodão |
1,1 |
1,0 |
ton/ha |
|
Feijão
|
0,4 |
0,4 |
" |
|
Mandioca |
8,0 |
6,9 |
" |
|
Soja |
1,8 |
1,8 |
" |
|
Trigo |
1,6 |
1,4 |
" |
|
Cacau |
0,6 |
0,5 |
" |
|
Banana |
918 |
890 |
cachos/ha |
|
Leite |
997 |
841 |
l/vaca ord. |
|
Arroz |
1,6 |
2,0 |
ton/ha |
|
Batata
Inglesa |
9,4 |
13,1 |
" |
|
Cana-de-açúcar |
53 |
65 |
" |
|
Milho |
1,5 |
1,8 |
" |
|
Tomate |
19 |
21 |
" |
|
Café
|
1,3 |
1,8 |
" |
|
Laranja |
91 |
102 |
mil frut/ha |
Fonte:
Censo Agropecuário de 1985
Tabela 5 - Participação dos
estabelecimentos de estratos de área selecionados na oferta agrícola, Brasil,
1985
(Porcentagens)
|
|
Estrato
20-100 |
Estrato
500-10000 |
|||
|
|
Área |
Produção |
Área |
Produção |
|
|
Batata
Inglesa |
42 |
42 |
6 |
8 |
|
|
Trigo |
41 |
42 |
14 |
13 |
|
|
Cacau |
39 |
40 |
10 |
9 |
|
|
Banana |
36 |
35 |
7 |
7 |
|
|
Café |
35 |
32 |
11 |
14 |
|
|
Milho |
33 |
34 |
11 |
13 |
|
|
Feijão
(1ª Safra) |
33 |
34 |
5 |
6 |
|
|
Algodão |
33 |
35 |
11 |
11 |
|
|
Tomate |
32 |
30 |
7 |
8 |
|
|
Laranja |
32 |
31 |
21 |
22 |
|
|
Mandioca |
31 |
33 |
4 |
4 |
|
|
Soja |
26 |
26 |
29 |
30
|
|
|
Arroz |
23 |
21 |
27 |
32
|
|
|
Cana-de-açúcar |
13 |
11 |
48 |
52
|
|
|
Leite
vendido |
- |
32 |
- |
17 |
|
|
Ovos
vend.p/consumo |
- |
35 |
- |
8 |
|
Fonte: Censo Agropecuário de 1985
Tabela 6 - Proposta de
sinopse indicativa da estrutura da agropecuária brasileira, 1985
|
Estabelecimentos |
Nº (milhares) |
% |
|
Patronais
|
580 |
10 |
|
Familiares: |
|
|
|
- consolidados |
1 160 |
20 |
|
- de transição |
1 740 |
30 |
|
Franja periférica |
2 320 |
40 |
|
Total |
5 800 |
100
|
Fonte: Veiga (1995b)
Tabela 7 - Número de Estabelecimentos Não-Patronais e Renda Monetária
Bruta (RMB) média e per capita, em
salários mínimos por ano (sm/a), segundo o estrato, Brasil, 1985 (agregações)
|
Estrato |
Nº
de estabelecimentos |
% |
RMB média (sm/a) |
RMB per
capita (sm/a) (*) |
|
A |
1
030 700 |
26 |
52,7 |
13,8 |
|
B |
958
213 |
24 |
11,5 |
3,5 |
|
C |
1
985 723 |
50 |
0,9 |
0,3 |
|
Total |
3
974 636 |
100
|
17,2 |
5,4 |
(*) do pessoal ocupado nos estabelecimentos
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
Tabela 8 - Renda Monetária Bruta Média (RMBm), em salários mínimos
por ano (sm/a), dos estratos de Estabelecimentos Não-Patronais segundo as
Grandes Regiões, Brasil, 1985
|
REGIÕES |
|
RMBm |
|
|
|
|
A |
B |
C |
Todos |
|
Norte |
55 |
17 |
4 |
22 |
|
Nordeste |
25 |
5 |
0 |
8 |
|
Sudeste |
119 |
17 |
-3 |
30 |
|
Sul |
91 |
22 |
2 |
31 |
|
Centro
Oeste |
68 |
13 |
-6 |
19 |
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
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[1] Professor Associado/USP (Departamento de Economia/FEA e Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PROCAM) / (zeeli@usp.br)
[2] Professor Associado/USP (Departamento de Economia/FEA e Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PROCAM) / (zeeli@usp.br)
[3]
Este é um equívoco
bem frequente nas importantes contribuições dadas ao debate sobre a
agricultura sustentável no Brasil por José Francisco Graziano da Silva.
(Silva,1987,1993,1994)
[4]
São raríssimos os prognósticos que enfatizam essas quatro esferas
(energia, alimento, meio ambiente e desemprego). Uma brilhante exceção é
o artigo “Inovation and Long-Term
Growth” de George F. Ray (1983).