Publicado
no livro Reforma da Política Agrícola
e Abertura Econômica, editado por Erly Cardoso Teixeira e Wilson C.
Vieira, Viçosa, MG: IFV-FAPEMIG, 1996, pp. 31-47
POLÍTICA AGRÍCOLA DIFERENCIADA
José
Eli da Veiga
USP-FEA-Dep.Economia
zeeli@usp.br
VIII SEMINÁRIO
INTERNACIONAL DE POLÍTICA AGRÍCOLA
Painel
1: “Globalização da Economia e Reforma da Política Agrícola”,
Dep.
Economia Rural/UFV, Viçosa, MG, 16-17 Outubro 1996
POLÍTICA AGRÍCOLA DIFERENCIADA
José
Eli da Veiga, USP/Economia
zeeli@usp.br
Antes
de tudo, é preciso notar que o título deste VIII Seminário Internacional de
Política Agrícola opõe agricultura “comercial” e “familiar”. Trata-se
de um equívoco, pois o contrário de “comercial” é a subsistência, ou a
autarcia, estados que nem de longe podem caracterizar a agricultura familiar
contemporânea. Estabelecer essa dicotomia é contradizer todas as experiências
de desenvolvimento do século 20 e, mesmo, as evidências disponíveis sobre o
subdesenvolvimento brasileiro. Se viesse a se basear nesse tipo de dualismo, a
diferenciação da política agrícola seria desastrosa.
Por
isso, este texto está dividido em três tópicos. Primeiro chama-se a atenção
para alguns fatos da experiência histórica dos países desenvolvidos. Em
seguida, destaca-se alguns dados estatísticos disponíveis sobre a estrutura da
agropecuária brasileira. Depois discute-se a recentíssima introdução da
agricultura familiar na agenda política nacional.
A
predominância da agricultura familiar durante o século 20 pode ser constatada
em todos os países considerados desenvolvidos. No leste asiático essa afirmação
só se consolidou com as radicais reformas agrárias do pós-guerra. Mas em
todos os outros países do “primeiro mundo”, as elites dirigentes não
demoraram tanto para perceber as desvantagens econômicas e sociais da
agricultura baseada no trabalho assalariado[1].
Desde o início do século 20, adotaram políticas que favoreceram a progressiva
afirmação da agricultura familiar.
Nos
Estados Unidos, essa opção pela agricultura familiar foi até anterior.
Durante a primeira metade do século 19 havia prevalecido a opinião
conservadora, segundo a qual as terras públicas deveriam ser vendidas em
grandes glebas, a preços altos e pagas a vista. Imensos domínios foram
comprados em leilões por muitos especuladores. Mas, aos poucos, o sistema de
atribuição das terras foi sendo liberalizado, num processo doloroso e cheio de
idas e vindas. E durante a Guerra Civil, quando a rebelião do sul deu maioria
parlamentar ao jovem partido Republicano, surgiu a famosa Homestead
Law, que visava a distribuição de lotes de 160 acres à famílias de
colonos. Na década de 1870 houve um verdadeiro boom
colonizador na linha Minnesota-Dakota-Nebraska-Kansas. Nos anos 1890, os
assentamentos pioneiros já cobriam grande parte do oeste de Nebraska e do leste
do Colorado, assim como o oeste do Kansas. Na luta contra a grilagem dos barões
de gado, pipocaram conflitos entre “cowboys”
e “sod-busters,” mundialmente
popularizados pelos “westerns”.
Mas nada poderia segurar aquela multidão de sem-terra europeus que cruzou o Atlântico.
Estabeleceram-se no noroeste, em algumas áreas do oeste texano e até na Califórnia,
onde ficaram com os piores solos, pois os melhores já haviam sido apropriadas
nos anos 1850. E, entre 1866 e 1900, a produção de trigo foi quase
quadruplicada, a de milho aumentou 3,5 vezes, a de cevada 6,5 vezes e a de algodão
5 vezes. Nesses 34 anos o rebanho bovino dobrou e o suíno aumentou 50%.
O
caráter essencialmente familiar da agricultura americana não parou de se
afirmar. Contrariamente ao que muitos pensam, as “corporações” continuam a
ser exceção. O último Censo Agropecuário indica que sua participação nas
vendas do setor é declinante, representando apenas 6% em 1992 (US$9,8 bilhões).
As vendas das sociedades de tipo familiar aumentaram, chegando a 21% (US$34,4
bilhões). A tradicional agricultura familiar foi responsável por 54% da produção comercializada (US$87,9 bilhões). E os
restantes 19% (US$30,5 bilhões) referem-se a outras formas societárias que não
podem ser rigorosamente classificadas como familiares ou patronais. (Hoppe,1996)
Ou seja, mesmo a tremenda evolução organizacional da agricultura
americana neste século não chegou a alterar significativamente seu caráter
essencialmente familiar.
O
Brasil é um dos exemplos mais chocantes da opção inversa, isto é, de
desprezo e intolerância em relação à agricultura familiar. Com a exceção
do fluxo colonizador que partiu do extremo sul e permitiu sua afirmação até o
sudoeste do Paraná, o padrão agrário das demais regiões teve características
semelhantes às que predominaram no Leste europeu. Ao contrário da aristocracia
britânica, que acabou se livrando de seus domínios durante a primeira guerra
mundial, os senhores do Leste preferiram impedir que suas populações rurais
tivessem acesso à propriedade da terra.
A
rigor, o sistema agrícola brasileiro começou a surgir com o complexo cafeeiro,
no final do ciclo britânico. Antes, as atividades agropecuárias não haviam
chegado a formar qualquer nexo sistêmico. E a maneira como as elites dirigentes
aboliram a escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o
mesmo sentido histórico da “segunda servidão” do Leste europeu. Houve um
amplo pacto para impedir que os negros e os imigrantes europeus e japoneses
tivessem acesso à terra. Foi preciso esperar a crise de 29, e a longa depressão
que se seguiu, para que uma parte do colonato pudesse comprar os lotes colocados
a venda por fazendeiros falidos. Paralelamente havia se formado um imenso
excedente populacional que logo passou a exercer forte pressão para ter acesso
à terra. E, no início da década de 60, as ligas camponesas nordestinas, junto
com os movimentos de sem-terra sulistas, quase levaram o governo de João
Goulart a optar pela agricultura familiar.
O
último instantâneo da agricultura brasileira, tirado em 1985, indicou,
entretanto, que a agricultura familiar resistiu, apesar da opção contrária
das elites dirigentes. Pode-se dizer que, naquele ano, metade dos
estabelecimentos agrícolas brasileiros eram familiares (ver tabela 1)
É
preciso enfatizar que esses quase 3 milhões de estabelecimentos familiares não
tinham nada a ver com a idéia muito difundida sobre a agricultura “de
subsistência” (e que está embutida no dualismo temático deste seminário,
ao opor ‘familiar’ a ‘comercial’). Isto fica bem claro quando se procura
estimar a Renda Monetária Bruta dos estabelecimentos não-patronais[2].
Calculando-se as RMB média e mediana para cada unidade
geográfica - das Micro às Grandes Regiões - pode-se obter um estrato inferior
formado pelos 50% mais pobres; um estrato superior formado pelos
estabelecimentos com RMB superior à média; e um estrato intermediário situado
entre a mediana e a média. Esses três estratos podem ser batizados de
"A", "B" e "C", segundo as indicações abaixo:
|
Estrato |
Nível de RMB |
|
A |
Acima da média da unidade geográfica |
|
B |
Entre a média e a mediana da unidade geográfica |
|
C |
Abaixo da mediana da unidade geográfica |
A tabela 2 indica que - em termos agregados para todo o
Brasil - os estratos A e B, os mais representativos da agricultura familiar,
tinham níveis médios de RMB que estavam longe de permitir qualquer tipo de
assimilação com uma agrigultura “não-comercial”, como sugere o título
deste seminário. Mas é fundamental examinar, também, os enormes contrastes
regionais. Principalmente porque, no Nordeste, apenas um quarto dos
estabelecimentos não-patronais alcançava níveis razoáveis de RMB e, mesmo
assim, bem abaixo das outras regiões. Mas também, porque no Norte e no
Centro-Oeste, apesar dos bons níveis de RMB, a agricultura familiar ainda tinha
a incipiência natural da dinâmica da fronteira (ver tabela 3). Ou seja, para
enfatizar o caráter comercial
da agricultura familiar, é importante focalizar as regiões Sul e Sudeste
(tabelas 4 e 5).
Para o Estado de São Paulo há dados bem mais recentes
no trabalho de Abramovay et.al.(1995). Em 1991, foi bem alta a participação
relativa dos imóveis rurais ‘não-patronais’ no valor da produção de
atividades inequivocamente comerciais. Mais da metade do algodão (52%), quase
metade da soja (43%) e 38% do café foram produzidos por esses ‘não-patronais’,
muito embora tivessem apenas 34% da área total e participassem de apenas 33% do
valor total da produção agropecuária paulista. (tabela 6)
Não só a política agrícola, mas também outras políticas
governamentais que afetam a agropecuária, têm passado por mudanças profundas
nos últimos meses. Talvez seja precipitado dizer que elas estão configurando
um novo modelo de desenvolvimento. Mas pode-se afirmar, sem correr muito risco,
que estão sendo superadas muitas das indefinições e desorientações que
foram se acumulando nos últimos dez ou quinze anos.
A extinção do ICMS sobre as exportações, por
exemplo, pode ter um impacto imediato e muito efetivo sobre a agricultura
familiar. O aumento das exportações certamente favorecerá a manutenção de
postos de trabalho, principalmente em seus segmentos mais consolidados. Além
disto, o fim do imposto também elevará alguns preços pagos ao produtor, já
que as indústrias terão que gastar mais para evitar que algumas de suas matérias-primas
sejam comercializadas no mercado externo.[3]
Basta dizer que exportações de milho passam a ser competitivas, situação
anteriormente impensável. Durante os meses de colheita, entre fevereiro e maio,
os preços do milho já não cairão tão acentuadamente. As esmagadoras pagarão
mais pela soja e a cafeicultura reconquistará mercados perdidos nos últimos
sete anos.
Também foram finalmente estabelecidas as prioridades
de investimento público do governo federal. Em 42 projetos considerados prioritários
deverão ser aplicados R$ 10,2 bilhões de recursos fiscais no biênio 1997/98.
Pretende-se também captar mais R$ 3,7 bilhões junto às principais fontes de
financiamento internacional. De 18 subconjuntos obtidos pela agregação dos
valores globais de projetos similares, a “reforma agrária” surge em
segundo lugar ( com R$ 7,2 bilhões) e o PRONAF em nono (com R$ 3,1 bilhões).[4]
Será bem difícil cumprir tais metas de investimento.
O Orçamento de 1996 previu uma dotação de R$ 6,3 bilhões para investimentos.
Desse total, R$ 3,4 bilhões deveriam ter sido destinados a esses 42 projetos
que passaram a ser considerados prioritários a partir da definição do Plano
de Metas aprovado em 9 de Agosto de 1996. Até junho deste ano, porém, estes
programas haviam recebido apenas R$ 231,8 milhões, o que representa 6% do total
previsto no Orçamento. Mesmo o valor empenhado (que inclui recursos que ainda
deverão ser liberados), R$ 933 milhões, representa apenas 27% da dotação orçamentária
total. (Vaz,1996)
Além disso, os recursos necessários para o
cumprimento do Plano de Metas no biênio 97/98 não estão previstos no Orçamento
de 1997. Dos anunciados R$ 10,28 bilhões, o Orçamento destina apenas 3,8 bilhões
para os 42 projetos. Para a “Reforma Agrária”, o Orçamento de 97 destina
R$ 1,14 bilhão (contra a meta de R$ 3,86 bilhões para 97/98). Para irrigação,
ele destina R$ 124 milhões (contra a meta de R$ 371,5 milhões para 97/98).
(Vaz,1996)
Isto significa que a execução do Plano dependeria de
uma alocação de R$ 6,4 bilhões em 1998, ou de uma negociação com o
Congresso de uma elevação da dotação orçamentária de 1997. E essas duas
possibilidades são difíceis, pois o orçamento de 1997 prevê um total de R$
7,7 bilhões para investimentos. (Vaz,1996)
Essas contradições entre o Plano e os Orçamentos de
1996 e 1997 são muito sérias e permitem duvidar de que ele seja, de fato,
exequível. Também permitem supor que os conflitos entre os grupos de interesse
ligados a esses 42 projetos serão bem acirrados. Mas, atenção: nada disso
anula a importância sinalizadora das metas de investimento estabelecidas pelo
poder executivo (leia-se Ministério do Planejamento) para o próximo biênio.
3.1
“Reforma Agrária”
As
aspas são propositais. Na verdade, o que as circuntâncias políticas permitem,
e o que está de fato na agenda política brasileira, não é reforma agrária,
mas sim um programa de assentamentos, cuja meta é atingir 280 mil famílias no
quadriênio 95/98 (70 mil/ano em média).
Reformas
agrárias sempre resultaram do isolamento político de oligarquias fundiárias,
no âmbito de convulsões sociais, como a guerra civil americana, as duas
guerras mundiais, várias revoluções e muitos golpes de Estado. Os programas
preventivos e pacíficos de redistribuição de terras, além de raras exceções,
foram, muito menos abrangentes e significativos.
Basta comparar, por exemplo, o impacto sócioeconômico da reforma da Coréia
do Sul e da “reforma” da Venezuela.
A
“reforma” que está em pauta no Brasil é de tipo venezuelano. A meta de
assentar 70 mil famílias por ano
é irrisória, se comparada ao estoque de terras subaproveitadas e à
dimensão da pobreza rural. Mas é muito ambiciosa, se comparada às
realizações de governos anteriores (tabela 7). O pior é que essa meta é
simplesmente inatingível, devido aos entraves políticos, legais e
intitucionais.
Qualquer
assentamento começa pela obtenção de uma gleba, o que nunca foi fácil. Mas
ficou quase impossível com a Constituição de 1988 e a legislação agrária
complementar. No Brasil de hoje, a idéia de que o direito de propriedade é
condicionado pela função social virou piada de mau gosto. Só é desapropriado
quem quer e pode aguardar com calma a sentença judicial que lhe atribuirá uma
indenização de valor escandaloso. Em certos casos, o assentamento de algumas
famílias pode ficar mais caro que a construção de um hospital.
Por
isso, são raríssimos os assentamentos em que a terra não foi antes
“ocupada” ou “invadida”. Só assim é que os sem-terra conseguem alguma
coisa. O governo está sempre a reboque. O
que não seria tão grave se ele chegasse com as necessárias ações de
fomento, educação e assistência técnica. Mas nem isso o governo federal
consegue fazer, porque o INCRA é um dos mais trágicos resultados da
megalomania da ditadura militar. O pior é que seus funcionários são produto
dessa cultura centralizadora e dificultam qualquer tentativa de delegar poderes
a estados e municípios.
Há,
portanto, dois pré-requisitos para a execução desse programa de assentamentos
que está sendo chamado de “reforma”. Primeiro, amparo constitucional para
as desapropriações por interesse social. Segundo, transferência das atuais
atribuições do INCRA aos Institutos de Terra estaduais. É com eles que os
sindicatos de trabalhadores agrícolas, as prefeituras e outras entidades locais
podem aumentar e consolidar os assentamentos. Só esse tipo de mutirão melhora
o desempenho dos assentados.
Como
não existem as condições objetivas para que o governo realize essas reformas
constitucional e administrativa, o mais provável é que continue contabilizando
como assentamento qualquer título entregue a posseiro. Mas é ingênuo pensar
que mesmo esse arremedo de “reforma” não sai por “falta de vontade política,”
como diz muita gente da oposição. Ao contrário, mesmo que o governo FHC
conseguisse apenas assentar um pouco mais que o governo Sarney, isto já seria
um grande trunfo eleitoral para os partidos da aliança governamental.
3.2
Pronaf e Plano de Safra 1996/97
Uma
política agrícola diferenciada para a agricultura familiar começou a emergir
com o Decreto 1.946, de 28 de Junho de 1996, que criou o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Não é mais uma simples
diferenciação nas normas de crédito rural para “pequenos produtores”. Além
de uma nova concepção do financiamento da produção dos agricultores
familiares e de suas organizações, trata-se de uma estratégia de parceria
entre eles, os Governos Municipais, Estaduais e Federal e a iniciativa privada
na aplicação de recursos destinados também à melhoria da qualidade de vida,
ao aprimoramento profissional, à adoção de tecnologia, à adequação e
implantação de infra-estrutura, etc. Em 1996, foram alocados para o programa
R$ 1 bilhão, dos quais R$ 200 milhões para custeio e R$ 800 milhões para
investimentos.
O
decreto estipulou básicamente que o PRONAF será constituído por organismos
co-particpantes, cujas ações confluirão para Conselhos Municipais de
Desenvolvimento Rural - CMDR, e
Conselhos Estaduais e Nacional do PRONAF. Paralelamente, as medidas creditícias
do Plano de Safra 1996/97 (Votos CMN 125 e 126/96 - Resoluções BACEN 2296/96)
mantiveram a equivalência-produto apenas para os recursos aplicados no PRONAF,
estabeleceram encargos financeiros de 9% ao ano para custeio de até R$ 5.000,00
por beneficiário e TJLP mais 6% ao ano (50% de rebate no pagamento) para
investimento individual de até R$ 15.000,00 e coletivo de até R$ 75.000,00.
As
resistências estruturais da rede bancária logo se manifestaram. A CONTAG
denunciou que o BB estaria restringindo financiamentos do Pronaf às culturas da
cesta básica, impondo limites mínimos de área, cobrando taxas indevidas e
financiando apenas clientes. Outra denúncias referiam-se a gerentes que estavam
exigindo garantias reais, apesar do crédito do Pronaf ser o único que manteve
o respaldo governamental por meio da equivalência produto (subentende-se que
com direito a EGF/COV). Para o BB, os custos operacionais do Pronaf seriam muito
elevados: R$ 50 a serem pagos pelo Tesouro a cada contrato assinado.
Por
tudo isso, o governo anunciou no dia 5 de setembro de 1996 a descentralização
operacional e financeira do Pronaf para estados e municípios, o que significará
a participação dos bancos estaduais e cooperativas na liberação de suas
linha de crédito. Dois dias depois o presidente do BB, Paulo César Ximenes,
informou a intenção de “diminuir peso da agricultura em sua carteira, sem
reduzir o montante destinado à atividade”[5].
É
muito cedo para ter uma avaliação do PRONAF, uma vez que sua complexa implantação
mal começou. Mas algumas observações já podem ser feitas a respeito de sua
linha de crédito: (a) supondo que o valor médio dos contratos de custeio fique
entre R$ 2.000,00 e R$ 3.000, o programa atingiria, em 1996, uns 80 mil
agricultores. (b) supondo que todos os recursos para créditos de investimento
fossem individuais é que o valor médio dos contratos girasse em torno de R$
10.000,00, o programa atingiria, também, uns 80 mil agricultores. É um bom
começo. Mas não se pode esquecer que existem uns 3 milhões de agricultores
familiares no Brasil (tabela 1).
3.3
Diretrizes para efetivar o Pronaf [6]
É
preciso abrir novas oportunidades de expansão e/ou reconversão produtiva para
o maior número possível de estabelecimentos que se encontrem na categoria
transitória. No âmbito das políticas agrícola e agrária, o desenvolvimento
da agricultura familiar exigirá novos programas em três grandes domínios
prioritários: fundiário, creditício e educacional.
3.3.1
no domínio educacional
Contrariamente
ao padrão tecnológico da "Revolução Verde", que orientou a chamada
"modernização conservadora", o que vem emergindo em reação à
forte pressão ambiental não poderá ser resumido ao um mero "pacote"
acompanhado de receitas simples sobre o uso de insumos básicos. O novo padrão
tende a reforçar o caráter ‘versátil’ da atividade agrícola, tendo como
principal insumo o conhecimento. Não será possível acompanhar essa mudança
com o atual ambiente educacional à disposição dos agricultores. E por
ambiente educacional entende-se, aqui: (a) o ensino regular básico oferecido
nas escolas rurais; (b) a quase inexistente formação profissional; (c) as
redes de extensão e/ou assistência técnica, e suas relações com o sistema
de pesquisa agropecuária.
a) Ensino básico:
Constata-se a necessidade de uma profunda reforma da escola rural e aponta-se
algumas experiências que poderão ser de extrema valia no planejamento dessa
reforma. Em tais experiências procura-se uma total imbricação de duas dimensões
que costumam estar bem separadas no ambiente urbano: ensino básico e formação
profissional. Além disso, essas experiências acabam por forjar, também,
esquemas eficientes para uma melhor relação entre os agricultores e os
profissionais que prestam assistência técnica, sejam eles das redes oficiais
ou das cooperativas. Daí a importância de não separar artificialmente
propostas sobre o ensino básico de propostas relativas à formação
profissional e à assistência técnica/extensão rural.
b) Formação profissional:
Quem oferecerá formação aos milhões de brasileiros que vivem e
trabalham em estabelecimentos de caráter familiar? Falta uma solução de massa
para atender às necessidades simples de uma grande quantidade de agricultores.
Quem poderá resolver este problema ? Deve-se pensar em um modelo que possa
aliar as lições das experiências pedagógicas de alternância, às vantagens
da organização institucional tipo SENAI. A principal recomendação é,
portanto, que o Ministério da Agricultura constitua uma comissão de alto nível,
com participação sindical e cooperativa, encarregada de estudar essas experiências
e propor uma completa reforma do sistema educacional rural.
c)
Assistência técnica/extensão rural e pesquisa:
É difícil imaginar que as redes de assistência técnica estatais
possam ser remontadas e desenvolvidas para que venham a ajudar uma boa parte dos
agricultores familiares. Por isso, é necessário procurar um novo caminho, que
evite os problemas anteriores. Os sistemas de assistência técnica montados
pela administração pública já deram o que tinham que dar. É hora de superá-los.
Grupos organizados de agricultores podem contratar seus próprios técnicos e
levá-los a atuar de maneira mais eficaz do que os técnicos empregados por órgãos
públicos. Em algumas regiões do Brasil os agricultores familiares se organizam
em grupos para realizar empreendimentos bem mais complexos. Isto permite pensar
que, com algum incentivo, poderiam iniciar um movimento semelhante que, em
futuro próximo, lhes garantisse uma forma autônoma de assistência técnica e
de gestão. As agências financiadoras certamente estarão mais dispostas a
conceder uma boa ajuda para a decolagem de grupos de agricultores com essa
finalidade, do que apoiarem projeto de reforma e expansão das redes de assistência
técnica estatais, mesmo que municipalizadas.
3.3.2
no domínio fundiário:
Favorecer
a aquisição dos recursos fundiários disponíveis no mercado fundiário rural
por jovens agricultores familiares com boas perspectivas profissionais,
permitindo, simultaneamente, diversas formas de planejamento e gestão sócio-ambiental
do espaço agrário. É muito comum que terras ofertadas no mercado fundiário
rural por agricultores que estão se transferindo para outra região, ou que estão
saindo do ramo (caso típico dos que se aposentam sem ter sucessores), sejam
adquiridas por agentes não-agrícolas ( como comerciantes, imobiliárias,
profissionais liberais etc.) ou grandes fazendeiros, sem que seja oferecida
qualquer oportunidade de compra pelos mais necessitam desses ativos: os
agricultores vizinhos. No entanto, a sociedade ganharia mais se houvesse alguma
forma de aumentar as chances de que essas terras fossem transferidas a
agricultores da categoria transitória, principalmente
aos jovens.
Para
que um programa de ordenamento agrário tenha eficácia, os governos federal e
estaduais devem ter um papel estritamente normativo, deixando a competência
operacional para iniciativas intermunicipais que favoreçam a participação
ativa das organizações da sociedade civil na esfera local. Ou seja, o controle
efetivo da evolução agrária de uma microrregião deve ser exercido pela
sociedade, por meio de suas organizações locais, governamentais e não-governamentais.
Para isso é imprescindível, entretanto, que tais iniciativas tenham, não só
legitimidade, mas, também, efetiva capacidade de intervenção no mercado de
terras rurais.
3.3.3
no domínio creditício:
Uma
forma decisiva de apoio seria a montagem de uma linha especial de crédito de investimento especificamente
voltada ao jovem agricultor familiar. Isto é, um programa mais
abrangente de apoio ao ‘desenvolvimento global integrado’ de
estabelecimentos familiares dirigidos por jovens agricultores de reconhecida
capacitação profissional. Por ‘desenvolvimento global integrado’
entende-se, aqui, a execução de planos de expansão, reorientação ou
reconversão do sistema de produção praticado em determinado estabelecimento.
Ou seja, aponta-se para a necessidade de um esquema mais abrangente de
financiamento, que estimule o enfoque sistêmico no planejamento e gestão dos
estabelecimentos familiares, particularmente no que se refere à integração
vertical agricultura-pecuária.
TABELAS
Tabela
1 - Proposta de sinopse indicativa da estrutura da agropecuária brasileira,
1985
|
Estabelecimentos |
Nº (milhares) |
% |
|
Patronais |
580 |
10 |
|
Familiares: |
|
|
|
- consolidados |
1
160 |
20 |
|
- de transição |
1
740 |
30 |
|
Franja periférica |
2
320 |
40 |
|
Total |
5
800 |
100
|
Fonte:
Veiga (1995b)
Tabela 2 - Renda Monetária Bruta (RMB) média e
per capita, em salários mínimos por
ano (sm/a), segundo o estrato, Brasil, 1985 (agregações)
|
Estrato |
RMB
média (sm/a) |
RMB
per capita (sm/a)
(*) |
|
A |
52,7 |
13,8 |
|
B |
11,5 |
3,5 |
|
C |
0,9 |
0,3 |
|
Total |
17,2 |
5,4 |
(*) do pessoal ocupado nos estabelecimentos
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
Tabela 3 - Renda Monetária Bruta Média (RMBm),
em salários mínimos por ano (sm/a), dos estratos de Estabelecimentos Não-Patronais
segundo as Grandes Regiões, Brasil, 1985
|
REGIÕES |
|
RMBm |
|
|
|
|
A |
B |
C |
Todos |
|
Norte |
55 |
17 |
4 |
22 |
|
Nordeste |
25 |
5 |
0 |
8 |
|
Sudeste |
119 |
17 |
-3 |
30 |
|
Sul |
91 |
22 |
2 |
31 |
|
Centro Oeste |
68 |
13 |
-6 |
19 |
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
Tabela
4 - Renda Monetária Bruta (RMB), em salários mínimos por ano (sm/a) e Área Média
(em ha) dos estratos de Estabelecimentos Não-Patronais segundo as Unidades da
Federação, Região Sudeste, 1985
|
Estados |
RMB |
média |
(sm/a) |
Área |
média |
(ha)
|
|
|
A |
B |
C |
A |
B |
C |
|
Minas Gerais |
56 |
11 |
-1 |
37 |
20 |
18 |
|
Espírito Santo |
129 |
31 |
3 |
30 |
21 |
16 |
|
Rio de Janeiro |
76 |
14 |
-1 |
17 |
9 |
5 |
|
São Paulo |
225 |
30 |
-8 |
38 |
18 |
18 |
|
Região Sudeste |
119 |
17 |
-3 |
34 |
20 |
17 |
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
Tabela
5 -Renda Monetária Bruta (RMB), em salários mínimos por ano (sm/a) e Área Média
(em ha) dos estratos de Estabelecimentos Não-Patronais segundo as Unidades da
Federação, Região Sul, 1985
|
Estados |
RMB |
média |
(sm/a)
|
Área |
média |
(ha) |
|
|
A |
B |
C |
A |
B |
C |
|
Parana |
114 |
20 |
2 |
27 |
24 |
11 |
|
Sta. Catarina |
99 |
28 |
6 |
29 |
18 |
14 |
|
R.G. do Sul |
76 |
21 |
2 |
31 |
18 |
14 |
|
Região Sul |
91 |
22 |
2 |
29 |
16 |
13 |
Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 1985
Tabela 6 - Participação Relativa dos Imóveis Rurais Não-Patronais no
Valor da Produção das Principais Atividades Agrícolas, Estado de São Paulo,
1991
|
Produtos |
% |
|
Aves e Ovos |
53,7 |
|
Algodão |
51,8 |
|
Milho |
44,2 |
|
Soja |
43,1 |
|
Carnes (bov+sui) |
39,8 |
|
Feijão |
39,5 |
|
Café |
37,6 |
|
Arroz |
32,2 |
|
Leite |
30,6 |
|
Laranja |
26,5 |
|
Amendoim |
23,1 |
|
Cana |
18,2 |
|
TOTAL |
32,8 |
Fonte: Abramovay et.al.(1995)
|
|
Número de Famílias |
Média Anual |
|
1964/84 - “Colonização-Ditad.” |
115
mil |
5.500 |
|
1985/89 “PNRA-Sarney |
90
mil |
18.000
|
|
1990/92 “Collor” |
- |
- |
|
1993/94 “Pl.Emerg.-Itamar” |
12,6
mil |
6.300 |
|
[1995/98] (METAS do Gov. FHC) |
(280
mil) |
(70.000) |
Referências
bibliográficas
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campo", in: João Pedro Stédile (coord) A questão agrária hoje,
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e diagnóstico dos sistemas de produção do Sudoeste do Paraná, Curitiba:
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EDMONDSON,
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(Economic Research Service/USDA), n.230, Junho 1996, pp. 26-28
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(1996) “A Close-Up of Changes in Farm Organization,”
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VAZ, Lucio (1996)
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de São Paulo, 07/09/96.
VEIGA,
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preparado para o Workshop Teórico sobre Economia Política da Agricultura,
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(1996d) “A Opção pela Agricultura Familiar” (texto a ser publicado pela
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da UNB)
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(1996e) “A Transição Agroambiental: Segunda Aproximação” (texto para o
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Principais Macrovetores de Desenvolvimento:
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especial do ano de 1994, pp.9-29
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Metamorfoses
da Política Agrícola dos Estados Unidos, São Paulo: ANNABLUME/FAPESP
______________(1993a)
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da Política Agrícola dos Estados Unidos, Tese de Livre Docência,
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(1993b) "O futuro da política agrícola dos Estados Unidos", Anais do
Encontro Nacional de Economia, (ANPEC), Belo Horizonte, dezembro de 1993
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(1993c) "O berço do agribusiness está ficando verde", Reforma
Agrária, volume 23, número 01, janeiro-abril de 1993, pp: 3-13
______________ (1991) O
Desenvolvimento Agrícola; Uma
Visão Histórica, São Paulo: EDUSP e HUCITEC.
[1]
Durante a segunda metade do século 19 houve a ilusão de que a
agricultura acabaria por adotar o modelo “fabril”de organização
produtiva, como vinha acontecendo com a indústria britânica desde os
finais do século 18. Mas foi um fenômeno passageiro. Ver a respeito Veiga
(1991 e 1996d).
[2]
A RMB foi obtida por meio da
simples diferença entre Receitas e Despesas, mas com o cuidado de excluir
toda e qualquer receita ou despesa que não fosse proveniente de atividades
agropecuárias. Isto porque, em certas situações geográficas,
estabelecimentos agrícolas podem ter atividades de mineração que distorçam
os resultados econômicos que se pretende aquilatar. Ver Veiga
(1995b e 1995c).
[3] Em 1984, cada aumento de U$ 1 bilhão das exportações agrícolas americanas gerava uns 30.000 novos empregos, sendo quase a metade no setor agrícola propriamente dito (Edmondson,1996:28). Pode-se supor que essa relação ainda seja mais favorável no Brasil de 1996. Segundo cálculos de Fernando Homen de Mello, a agricultura brasileira verá sua renda aumentar em até R$ 2,5 bilhões ao ano, até o final da década (Exame, 618, 11/09/96, p.19)
[4]
Em R$ bilhões: 1.Telecomunicações
33,1; 2.“Reforma Agrária” 7,2
(assentamento de 150 mil famílias); 3. Emprego 5,3; 4.Habitação
5,2; 5. Saúde 3,8; 6. Saneamento 3,7; 7. Rodovias 3,7; 8.Gás/Gasoduto 3,1;
9. PRONAF 3,1 (para atingir 1.125
municípios); 10. Portos 2,7; 11. Irrigação 2,5; 12. Microempresa 2,2; 13.
Ferrovias 1,6; 14.Eletricidade 1,5; 15.Educação 1,4; 16. Turismo
0.8; 17. Hidrovias 0,4; 18. Crédito Popular 0,2. (Folha
de São Paulo, 10/08/96, p.1-5; Gazeta
Mercantil, 12/08/96, p.A-4.
[5] cf. Folha de São Paulo, 07/09/96, p. 2-6