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PROBLEMAS
DA TRANSIÇÃO À AGRICULTURA SUSTENTÁVEL
José
Eli da Veiga[1] Publicado
na revista Estudos Econômicos, vol.24, número especial 1994, pp.9-29 |
Introdução
Qualquer avaliação de desempenho da agricultura das nações mais avançadas
durante a segunda metade do século XX será forçosamente levada a constatar
que ela garantiu às suas populações um inédito grau de segurança alimentar.
Foi somente nos últimos trinta ou quarenta anos que amplos contingentes de
desvalidos de alguns países da América do Norte, Europa e Leste Asiático
tiveram acesso a uma verdadeira abundância alimentar. A tal ponto que, hoje em
dia, essas sociedades defrontam-se com os problemas de saúde causados por
dietas pletóricas, enquanto o resto do mundo continua a conviver com a degeneração
causada pela fome. Simultaneamente, também tem sido nos países adiantados onde
mais cresce a consciência sobre as distorções ambientais de seus sistemas de
produção e de consumo de alimentos. Ampla gama de manifestações sociais
permite perceber uma ascendente preocupação com a salubridade alimentar que
tende a estar cada vez mais ligada à preservação dos recursos naturais usados
em sua produção. E as pressões decorrentes já requerem novos métodos de
produção agropecuária que venham a reduzir os impactos ambientais adversos e
assegurar altos níveis de pureza e não-toxicidade dos alimentos. É este, em
última instância, o desafio social embutido na expressão "agricultura
sustentável"
Nesses países do
chamado primeiro mundo, onde as políticas públicas já vêm reagindo à nova
exigência social, começa a ficar clara a complexidade da transição a um novo
padrão agroalimentar. O processo está bem mais atrasado na América Latina,
mas já entrou nas prioridades de instituições regionais, tornando perceptíveis
alguns avanços, particularmente no âmbito da pesquisa agropecuária. Este
trabalho procura avaliar os principais problemas dessa transição.
Desafios
Durante muito tempo se acreditou que o avanço das forças produtivas agrícolas
esteve apoiado essencialmente na descoberta de novas técnicas. A chamada
"agricultura itinerante" teria sido superada pela invenção da enxada
e, depois, do arado; a revolução agrícola teria sido provocada pela
descoberta de leguminosas forrageiras; e o modelo atual gerado diretamente pela
fabricação rentável de motores, fertilizantes e defensivos químicos. Hoje se
sabe, entretanto, que a adoção em escala social de novas tecnologias sempre
dependeu de processos muito complexos, e que também existem diversos exemplos
históricos inversos, isto é, de sociedades que não conseguiram superar os
desequilíbrios sociais e ambientais gerados por seus sistemas de uso da terra.
Ainda há muito que pesquisar sobre o desaparecimento de algumas formações
sociais (cidades sumérias e maias, p.ex.), sobre os processos de desertificação,
e até mesmo sobre o nascimento da agricultura, para que se chegue a um real
conhecimento da dinâmica histórica do uso da terra. Só compreendendo como se
deu a passagem gradual a sistemas cada vez mais intensivos é que poderemos ter
uma boa base de discussão do dilema atual de mudança para um paradigma já
internacionalmente chamado de "sustentável".
A humanidade não poderá optar nos próximos cinquenta anos por um recuo
à extensificação, mesmo que isto venha a ocorrer em algumas regiões específicas
das nações mais industrializadas.
É possível que os progressos da engenharia genética venham a trazer
soluções, hoje inimagináveis, a esse tipo de dilema. Não é proibido pensar,
por exemplo, em novos cultivares (ou até em novas espécies) que venham a
prescindir do uso dos insumos químicos atualmente indispensáveis. Entretanto,
a direção que tomaram as pesquisas no ramo das biotecnologias não sugere que
esse tipo de resultado venha a surgir a médio prazo. Contrariamente ao processo
que gerou a chamada "Revolução Verde", essa pesquisa depende, hoje,
quase que exclusivamente do setor privado, o qual encontra muito mais benefícios
na geração de novos produtos finais, como, p.ex. o tomate menos perecível da
Calgene. E aqui fica muito clara a imbricação global entre os aspectos
ambientais e os aspectos sociais. Se novos alimentos gerados por novas
tecnologias pudessem minimizar a fome nos países menos desenvolvidos, eles
estariam simultaneamente reduzindo um poderosíssimo fator de degradação
ambiental, pois grande parte dos desequilíbrios ecológicos estão intimamente
associados à pobreza. No entanto, a rentabilidade dessas iniciativas só pode
ser obtida justamente em sociedades afluentes que, no fundo, são as que menos
necessitam as novidades prometidas pelo agribusiness.
Em tais circunstâncias, qualquer exercício de antecipação sobre os
caminhos da transição a um padrão mais sustentável deve passar pela discussão
de, pelo menos, três questões: (a) a dinâmica histórica do uso da terra, (b)
a evolução do pensamento científico em áreas-chave como a agronomia e a
economia, e (c) os movimentos sociais mais diretamente voltados à utopia do
desenvolvimento sustentável.
Dinâmica
do uso da terra
Qualquer classificação dos sistemas de uso da terra em sua mais provável
sequência histórica ainda envolve certo grau de arbitrariedade e boa margem de
erro. Um razoável acúmulo científico sobre a história agrária da Europa
contrasta com o caráter ainda fragmentário do conhecimento sobre as outras
partes do mundo. Feita esta advertência, parece aceitável um esquema provisório
composto de quatro etapas essenciais: 1ª) a dos sistemas de pousio longo, nos
quais a queima é um recurso tecnológico indispensável, sendo a enxada
introduzida quando deixa de ser possível esperar pela completa regeneração da
floresta; 2ª) os sistemas de pousio curto, em campos, nos quais o arado toma o
lugar do fogo ; 3ª) os sistemas sem pousio e intensivos em mão-de obra, com
forte adubação orgânica e muita diversidade de culturas, viabilizados pela
introdução de leguminosas forrageiras nas rotações ("fusão entre
agricultura e pecuária" no oeste europeu), ou por sofisticados sistemas de
irrigação ("sociedades hidráulicas" asiáticas e mesoamericanas); 4ª)
os sistemas especializados, intensivos em capital, com artificialização
exacerbada do meio ambiente por meio químico (fertilizantes e praguicidas), híbridos
e pesada motomecanização.
Mas essas etapas não correspondem a períodos estanques. Desde a
antiguidade, foi muito comum o cultivo ininterrupto de uma área pequena,
enquanto a maior parte da terra era explorada em vários sistemas de pousio. Além
disto, todos esses sistemas continuam a ser praticados, e frequentemente
coexistem no âmbito de uma mesma nação. Por que pensar então na existência
de "etapas"?
Principalmente porque a passagem para um sistema mais intensivo sempre
foi marcada por forte resistência social. Em épocas anteriores à Revolução
Industrial (três primeiras etapas) a intensificação do cultivo, por meio de
redução do tempo de pousio, correspondia a um declínio da produtividade do
trabalho. Em tais circunstâncias, as comunidades agrícolas só aceitavam
passar para um sistema mais intensivo de uso da terra quando a pressão demográfica
o exigia (Boserup,1987). E também não foi com entusiasmo que os agricultores
entraram na corrida tecnológica que caracterizou a modernização agrícola do
século XX, apesar de seus efeitos revolucionários, em termos de produtividade
e de abundância alimentar. Nos Estados Unidos, por exemplo, a preocupação com
a resistência às novas técnicas gerou o Country Life Movement, importante
coalizão de empresários urbanos com a nata da comunidade científica e da
burocracia estatal ligadas ao setor agropecuário. O sucesso da indústria
dependia essencialmente de comida barata, repetia Theodore Roosevelt, um dos
principais líderes desse movimento, que tinha por missão inculcar o espírito
da agricultura científica entre os produtores, sem o que, acreditavam, a nação
sofreria consequências desastrosas (Dambon,1979; Veiga,1993:14-31).
Não é surpresa, portanto, que o incipente processo de transição para
a próxima etapa (a quinta, na classificação adotada) já esteja evidenciando
fortes resistências sociais. De um lado, porque é socialmente inaceitável uma
volta à "terceira etapa", como parecem pregar algumas tendências
mais românticas dos movimentos de agricultura alternativa. Por mais que avance
a preocupação social com a qualidade dos alimentos e a conservação dos
recursos naturais ela não será suficiente para eliminar a exigência objetiva
de comida barata para uma população que ainda crescerá muito no próximo século.
De outro, porque o reconhecimento da existência de impasses em áreas como a
agronomia e a economia não anula sua inércia, pois ainda está longe de
engendrar novos paradigmas científicos.
Agronomia
X Agroecologia
A evolução do conhecimento sobre as leis (nomos)
do campo cultivado (agros) pode ser
resumida em três grandes etapas históricas: 1ª) até meados do século XIX,
predominou a abordagem essencialmente empírica, que considerava o humus como
fator dominante, e mesmo único, da fertilidade: 2ª) rápidos progressos analíticos
foram engendrados pelas descobertas do químico Liebig sobre a alimentação
mineral das plantas, e pelos trabalhos do fisiologista De Saussure sobre a
fotossíntese, mas tornaram o conhecimento agronômico uma verdadeira
"colcha de retalhos", na qual estavam emendadas a pedologia, a
fisiologia vegetal, a química do solo, a botânica, etc.; 3ª) a recente tendência
à síntese, por meio de um enfoque sistêmico das relações solo-planta-clima,
que poderia ser definida como uma "ecologia do campo cultivado" (Jouve,s/d).
Até o início dos anos 1980, a ecologia agrícola (crop
ecology) era uma disciplina ministrada em alguns cursos de agronomia. No
entanto, como resultado do avanço do movimento ambientalista durante as décadas
de 60 e 70, ela começou a ser vista, principalmente na Califórnia, como algo
superior, não somente à agronomia, como ao próprio "pensamento
ocidental". Há quem descreva até uma "visão agroecológica do
mundo".
"A diferença mais importante entre a visão agroecológica do mundo e a
da ciência ocidental é que os agroecologistas vêem as pessoas como parte dos
sistemas locais em desenvolvimento. A natureza de cada sistema biológico
desenvolveu-se para refletir a natureza do povo - sua organização social,
conhecimento, tecnologias e valores. (...) O ecossistema, nesta visão, inclui o sistema de conhecimento, o sistema
de valores, a organização social e a tecnologia do povo paralelamente ao seu
sistema biológico. Este, é claro, é um ecossistema muito maior do que muitos
ecologistas estão querendo examinar" (Norgaard,1989:44-5).
No entanto, mais adiante o próprio Norgaard procura temperar
uma pouco o exagero de sua pretensão.
"Apesar dos agroecologistas terem uma visão mais sofisticada do mundo, a
maneira de saber desta disciplina emergente apenas pode ser justaposta às crenças
epistemológicas do pensamento convencional do ocidente. As crenças epistemológicas
para uma visão evolutiva do mundo ainda estão em andamento (...) Na
ausência de um consenso sobre crenças epistemológicas, os agroecologistas
recorrem ao pragmatismo. O conhecimento ocidental não é rejeitado, uma vez que
a visão mecânica do mundo nos deu muita percepção e as explicações
convencionais na agricultura ajudaram os agroecologistas a entender os sistemas
tradicionais. Ao mesmo tempo, os agroecologistas estão receptivos às explicações
dos povos tradicionais (Norgaard,1989:45-6).
O que seria, então, a agroecologia ? Uma sofisticada visão evolutiva do
mundo, ou uma simples disciplina emergente que, num vácuo epistemológico,
recorre ao pragmatismo ? Ambos, respondem os agroecologistas californianos. Na
primeira opção haveria um uso "normativo" do termo agroecologia,
"porque implica um número de fatores sobre sociedade e produção que
estão além dos limites do campo da agricultura. Mais estreitamente,
agroecologia se refere ao estudo de fenômenos puramente ecológicos que ocorrem
nos campos das culturas, tais como relações predador/predado, ou competição/invasores"
(Hecht,1989:28).
Já entre os praticantes de métodos alternativos de produção agrícola,
o termo agroecologia ganhou outros usos. Saltou do âmbito das disciplinas científicas
para a agricultura propriamente dita, isto é, a atividade humana destinada à
produção de alimentos e fibras. No Brasil já se fez mesmo um amplo
levantamento de "propriedades agroecológicas". E são extremamente
comuns raciocínios maniqueistas que opõem a agroecologia à "agroquímica",
ou atribuem à agroecologia o mais alto grau de sustentabilidade. Chega-se a
afirmar que
"quanto mais o agrossistema se aproximar de um sistema natural mais perto
ele estará da sustentabilidade, enquanto, ao contrário, quanto mais ele se
artificializar mais longe ele estará deste estado ideal. A agroquímica,
portanto, estaria no grau zero de sustentabilidade e a agroecologia no grau 100
da escala. Entre os dois podemos encontrar infinitas graduações que significam
combinações das duas ou imperfeições na proposta agroecológica" (Weid,1994:64).
Nessa perspectiva, nunca teria exisitido e nem poderia surgir uma
agricultura sustentável, pois agricultura é, por definição, uma
artificialização do meio natural. Basta semear para artificializar. No limite,
só seria sustentável a obtenção de alimentos por meio da coleta, combinada
talvez com o uso parcimonioso da caça e da pesca... É também o que sugere o
mais famoso agroecologista californiano quando diz que:
"o fator final necessário a uma agricultura ecológica é um ser humano
desenvolvido e consciente, com atitudes de coexistência e não de exploração
para com a natureza" (Altieri,1989:211).
Desde quando exploração se opõe a coexistência? Até aviso em contrário,
quem explora sempre procura coexistir com o objeto de sua exploração. Aliás,
a melhor maneira de explorar é justamente garantir máxima durabilidade à base
objetiva dessa exploração. Em outras palavras, quando Weid e Altieri rejeitam
a "artificialização" e a "exploração" da natureza estão
revelando uma percepção muito ingênua do que poderá vir a ser um padrão
sustentável de agricultura. Até porque não é necessário que todos os
elementos que compõem um sistema sejam sustentáveis para que o próprio
sistema o seja. Vale notar, inclusive, que, segundo o próprio Altieri
(1989:60),
"sustentabilidade refere-se à habilidade de um agroecossistema em manter
a produção através do tempo, face a distúrbios ecológicos e pressões sócio-econômicas
de longo prazo."
O que estas rápidas observações críticas sobre o discurso agroecológico
parecem indicar é que há muita distância a ser percorrida antes que surjam as
bases científicas da agricultura sustentável.
Economia
X Ecologia
Ao longo dos cento e cinquenta anos que separaram Malthus das sombrias
previsões do Clube de Roma, as teorias econômicas tenderam a eludir a questão
dos limites naturais. São, portanto, também imensos os obstáculos a serem
ultrapassados para que a ciência econômica venha a dar conta da problemática
ambiental. Mas eles vem sendo abordados sob vários prismas e alguns resultados
começaram a surgir a partir do final da última década. Distinguem-se
claramente duas grandes correntes: a mais "otimista", segundo a qual o
arsenal econômico pode ser aperfeiçoado para responder ao "novo"
desafio; e a mais "pessimista", segundo a qual a problemática
ambiental coloca em xeque os próprios fundamentos da ciência econômica
(Veiga,1993:155).
A maioria otimista enxerga os problemas ambientais como meros defeitos na
alocação de recursos que poderiam ser corrigidos por meio de taxações específicas.
Acreditam que, uma vez restabelecida a igualdade entre os custos privados da
firma e os custos que sua atividade inflige à sociedade, voltaria a haver
coincidência entre o ótimo individual e o ótimo coletivo. Assim, a procura do
lucro continuaria a ser a melhor alavanca do bem-estar social e a lógica do
mercado permaneceria sã e salva.
No extremo oposto, uma minoria pessimista contesta as virtudes
reguladoras dos preços para a preservação ambiental. Qual poderia ser o preço
do ozônio em rarefação ou o preço de uma função como a regulação térmica
do planeta? Tais perguntas referem-se à irreversibilidade de processos
naturais. Se esperarmos pela escassez que transformará bens "livres e
gratuitos" em bens "econômicos", com preços, é muito provável
que já seja tarde demais. Por outro lado, reduzir os desgastes ambientais a
simples custos de reposição, ou tentar estimá-los por meio dos preços fictícios
que lhes atribuem as sondagens, equivale a deixar de lado o essencial, uma vez
que se trata de estragos nos mecanismos que asseguram a reprodução da
biosfera. O fim de uma floresta, de um mar, ou de uma espécie, não é apenas o
desaparecimento de um eventual valor mercantil, mas, sobretudo, o fim de
determinadas funções em um meio natural.
Assimilar os problemas ambientais a simples "distorções",
"disfunções", ou "acidentes" significaria assumir que não
existe conflito entre as lógicas que asseguram respectivamente o
desenvolvimento econômico e a reprodução da biosfera. Por isso, o uso de
instrumentos analíticos baseados no mercado deveria ser circunscrito aos
estritos limites de sua aptidão reguladora, tornando-se cada vez mais evidente
a necessidade de outros intrumentos, como o cálculo ecoenergético, os
indicadores de biodiversidade, a abordagem física na contabilidade do patrimônio
natural, ou ainda, a simulação do crescimento sustentável. É fundamental ter
presente que
"todas as escolas econômicas resistem a reconhecer um valor na natureza
em si, e têm sido impotentes para administrar o longo prazo no qual os
resultados do impacto ecológico se manifestam com clareza" (Buarque,
1990:117).
O reconhecimento dessa impotência vem ajudando, inclusive, a descoberta
e muitos precursores de Georgescu-Roegen que sofreram uma resistência social
persistente (Alier & Schlupmann,1991). No entanto, essa "exumação"
necessária à revisão das teorias econômicas parece ser muito mais lenta que
os expedientes meramente adaptativos, pois não consegue apoio institucional
equivalente. Esse esforço está confinado à iniciativa individual de alguns
pesquisadores solitários ou, no máximo, ao amparo de algumas ONG; enquanto o
trabalho de recauchutagem das ferramentas econômicas mais convencionais conta
com adrede promoção das organizações internacionais e de alguns governos dos
países centrais.
A valoração monetária dos elementos do meio ambiente tem sido tentada
como se fosse o único caminho possível para que se alcance um planejamento das
ações governamentais e empresariais compatível com a aspiração a um
desenvolvimento sustentável. No entanto, é altamente discutível que esta seja
a via mais relevante, pois alguns impasses já estão claros (Veiga,1993:156-7).
Na verdade, quando nos propomos a valorar elementos do meio ambiente, estamos
tentando estender a Economia para um
campo que não é o seu. A noção, hoje usual, de sistema econômico
consolidou-se graças ao distanciamento crescente do contexto ambiental,
acabando por delimitar o universo formado apenas pelos objetos apropriados e
valorados que se considera produzíveis. O que pretendem, hoje, as várias
"escolas" voltadas para a problemática ambiental é ampliar o raio de
ação da economia para o campo dos recursos naturais e do meio ambiente,
sistema composto precisamente por bens comumente denominados livres ou não econômicos.
O grau de arbitrariedade e as limitações dos exercícios de valoração
ambiental levaram parte dos economistas empenhados em estudos ambientais a
"abandonar os pressupostos sobre os quais se articula a versão numérica
corrente do sistema econômico, para construir outros sistemas de representação
mais aptos para registrar as dotações de recursos naturais e ilustrar seu
comportamento. Assistimos, assim, sem anunciá-lo, ao início de uma ruptura do
monopólio que vinha exercendo esse ideal usual de sistema econômico fechado
sobre si mesmo, ao sentir a necessidade de conectá-lo com a análise de outros
sistemas" (Naredo, 1987:66-70).
As lacunas e inconsistências das diversas teorias sobre a renda (dita
"fundiária"), que só merecem a atenção de uma ínfima minoria de
pesquisadores, também indicam que existe um penoso caminho a ser percorrido
para que a ciência econômica supere o seu manifesto desprezo pelas
especificidades das coisas vivas. E o primeiro passo poderá ser o
reconhecimento de que o conjunto das atividades econômicas constituem apenas
uma das inúmeras dimensões de um complexo composto de seres humanos, que estão
em contínua interação com recursos naturais, a maioria dos quais, por seu
turno, constituída de organismos vivos (Veiga 1990:475). Trata-se, portanto, de
reconhecer que, até agora, a necessidade de novo paradigma mal se insinuou no
debate científico entre os economistas.
Movimentos
sociais
A busca de uma agenda comum por ambientalistas e consumidores exige muito
cuidado com alguns temas incômodos, que só criam divergências. Principalmente
propostas de aumentar os preços de certos produtos, justificadas pela
necessidade de incorporar custos ambientais até hoje desprezados; ou de criar
novos tributos, justificadas pela necessidade de desestimular o consumo de
certos bens estratégicos. Há organizações de consumidores que se recusam a
estabelecer qualquer tipo de compromisso que leve ao encarecimento de bens e
serviços. O conflito fica evidente em qualquer diálogo sobre a política energética.
E até pode se transformar em anátema, se os ambientalistas frisarem a
necessidade de um estilo de vida simples, que leve à redução do consumo; ou
ainda, se desengavetarem a proposta de crescimento zero. Muitas coisas que os
verdes consideram supérfluas, ainda fazem parte da "cesta básica" do
mais modesto dos consumistas...
Mas também existem três forças que promovem a convergência desses
dois movimentos sociais. Em primeiro lugar, ambos se concentram em questões
relacionadas à qualidade da vida. Por isso, estão mais próximos entre si, do
que podem estar de outros movimentos mais voltados à luta pela justiça social.
Em segundo, suas "clientelas" são muito parecidas. Ambas se mobilizam
pela defesa do interesse público, e não por reivindicações corporativas,
setoriais, ou de categorias específicas. Finalmente, os dois movimentos tendem
a ver os negociantes inescrupulosos como seus principais inimigos.
Tanto o potencial de choque, quanto os três fatores de convergência
foram ponderados por Mitchell (1986), em trabalho que já pode ser considerado
profético. Sua comunicação a um simpósio sobre o futuro do movimento dos
consumidores (The Future of Consumerism)
previa que, nos anos 80, as relações com os ambientalistas seriam tão ou mais
profícuas do que haviam sido nos anos 70. E não poderia haver melhor confirmação
para esse prognóstico do que o documento Beyond
the year 2000; The transition to sustainable consumption, lançado, em abril
de 1993, pela IOCU (International Organization of Consumers Unions).
Essa plataforma, que indica o grau de amadurecimento da instância
internacional dos movimentos de consumidores, parece mostrar que os vetores
convergentes estão mesmo superando os divergentes. Afirma, por exemplo, que
qualquer cenário de consumo sustentável significa necessariamente "menos consumo no Norte" (item 64, p.16). Discute também os
limites do "consumo verde", reconhecendo que os consumidores pagarão
mais por algo de melhor qualidade e que respeite o meio ambiente "até
certo ponto" (up to some level,
ítem 73, p.19). Ou seja, ousa reconhecer a necessidade de um estilo de vida
mais simples, sem nutrir ilusões sobre o grau de generosidade ambiental de seus
filiados.
No entanto, o documento não revela um entendimento de certas razões que
levaram à aceleração da degradação ambiental nos últimos cinquenta anos.
É fundamental entender, por exemplo, que o gigantesco aumento de produtividade
do ramo alimentar foi exigido pela necessidade de obter comida barata. Se este
fato não estiver bem presente, qualquer enunciado sobre o assunto não passará
de vulgar romantismo. Também é
necessário perceber que o padrão de política agrícola adotado no primeiro
mundo acabou por exacerbar a agressão ambiental. Isto é, foram os esquemas de
subvenção da atividade agropecuária que acabaram por induzir os agricultores
à práticas prejudiciais. E a pressão do movimento ambientalista no sentido de
uma reforma desse padrão de política agrícola foi muito tardia. No caso
americano, a influência do lobby verde só começou a atingir a legislação do
setor em 1985. E foi ainda bem tímida no processo de elaboração da Lei Agrícola
de 1990, que estará em vigor até 1995 (Veiga,1993c).
É enorme a responsabilidade dos movimentos de consumidores nesse
prolongamento de um modelo agroalimentar predatório. Eles não demoraram para
influir. Foram cúmplices. Tiveram participação ativa nas diversas reedições
de padrão de política agrícola ultrapassado, pois sistematicamente
barganharam a manutenção dos subsídios por ampliações dos diversos esquemas
de subvenção do consumo, principalmente o food
stamp.
Não se trata de emitir qualquer tipo de juízo de valor sobre o
comportamento do lobby dos consumidores em relação à política agrícola.
Talvez eles tenham tido razão em trocar seu apoio aos benefícios dirigidos aos
agricultores, por um programa de combate a fome que hoje em dia garante a nutrição
de 25 milhões de americanos, cerca de 10% da população. O que é discutível
é que um documento tão importante como Beyond
the year 2000 seja omisso sobre esta questão. É fundamental que se entenda
que os movimentos dos consumidores foram coniventes porque estavam mais
preocupados em combater a carestia alimentar e em obter subsídios ao consumo.
Definições
e indicadores
A visão segundo a qual a conquista de abundância alimentar exige
necessariamente a degradação ambiental costuma ser contestada pelos
ambientalistas. E com razão. Seria puro determinismo histórico dizer que o
modelo americano, cujo ápice foi a "Revolução Verde", era mesmo a
única via de vencer a fome. Se metade do imenso volume de recursos aplicados na
pesquisa agropecuária neste século tivesse sido dirigido ao paradigma biológico,
a comparação entre os esquemas convencionais e alternativos seria hoje factível.
E só assim poderia haver consenso sobre a falsidade do dilema "veneno ou
fome".
Mas o fato é que as diversas abordagens alternativas - biodinâmica, orgânica,
biológica, natural, etc. - ficaram confinadas em pequenos guetos, enquanto a opção
mecânico-química permitia que grande parte da população do Norte alcançasse,
pela primeira vez na história da humanidade, uma real segurança alimentar.
Neste final de século, os estragos ambientais causados pelo modelo
vencedor provocam um forte impulso revisionista no interior da comunidade científica.
Um dos melhores resultados desse movimento é o livro Alternative Agriculture, publicado em 1989 pelo NRC, National
Research Council (EUA). Simultaneamente, intensificou-se a procura por uma
definição de consenso sobre o que seria uma agricultura sustentável. Mas,
como seria de se esperar, a dificuldade de conceituar faz com que pululem definições
que, na maior parte, diferem apenas pela ênfase dada a um ou outro critério.
Daí a importância do balizamento proposto pela principal instituição
internacional da área.
"Agricultura sustentável é o manejo e conservação dos recursos
naturais e a orientação de mudanças tecnológicas e institucionais de tal
maneira a assegurar a satisfação das necessidades humanas de forma continuada
para a presente e futuras gerações. Tal desenvolvimento sustentável conserva
o solo, a água e recursos genéticos animais e vegetais; não degrada o meio
ambiente; é tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável"
(FAO, "Declaração de Den Bosch",1992)
Mas há quem prefira ressaltar que a agricultura sustentável é
um fim e não um meio.
"Agricultura sustentável não constitui algum conjunto de práticas
especiais, mas sim um objetivo: alcançar um sistema produtivo de alimento e
fibras que: (a) aumente a produtividade dos recursos naturais e dos sistemas agrícolas,
permitindo que os produtores respondam aos níveis de demanda engendrados pelo
crescimento populacional e pelo desenvolvimento econômico; (b) produza
alimentos sadios, integrais e nutritivos que permitam o bem estar humano; (c)
garanta uma renda líquida suficiente para que os agricultores tenham um nível
de vida aceitável e possam investir no aumento da produtividade do solo, da água
e de outros recursos; e (d) corresponda às normas e expectativas da comunidade"
(NRC,1991a:3)
Nessa visão é a "agricultura alternativa" que constitui o
processo de inovação dos métodos produtivos da agropecuária orientado para o
objetivo da sustentabilidade. Engloba tanto os esforços dos produtores em
desenvolver sistemas de produção mais eficientes, quanto o empenho dos
pesquisadores em explorar os fundamentos biológicos e ecológicos da
produtividade agrícola, sendo neste processo que a agroecologia, enquanto ciência,
terá um papel essencial.
Por mais importantes que sejam as implicações dessa discrepância nas
definições, seria puro bizantinismo pretender dirimí-la sem aprofundar o
entendimento sobre o verdadeiro significado da noção de sustentabilidade. Daí
a decisiva importância dos estudos que estão procurando estabelecer
indicadores, critérios de avaliação e metodologias de monitoramento, como,
por exemplo, os projetos coordenados por Manuel Baldares e associados (1993),
por Sabine Muller (1994) e pelo CNPMA/EMBRAPA (1994). As principais bases teóricas
desses trabalhos foram estabelecidas por Conway & Barbier (1988), para a
sustentabilidade dos agroecossistemas, e por Nijkamp (1990) para a
sustentabilidade das sociedades.
Além, da produtividade, Conway & Barbier (1988) apontam três outras
propriedades de um agroecossistema sustentável:
a estabilidade (ou constância da produção), a resiliência (capacidade
de manter a produção em condições de choque ou stress) e a equidade
(partilha dos resultados entre os beneficiários). Sob o prisma mais amplo,
adotado por Nijkamp (1990), a sustentabilidade envolveria três aspectos. O
primeiro, ecológico, refere-se à manutenção das características do
ecossistema que forem essenciais para a sobrevivência de longo prazo. O
segundo, econômico, refere-se à obtenção de uma renda suficiente para que o
manejo continue atrativo. E o terceiro, social, refere-se tanto à justiça na
distribuição dos benefícios e dos custos, quanto no respeito aos valores
sociais e culturais da população envolvida.
Por enquanto é impossível avaliar até que ponto essas noções
permitirão a construção de verdadeiros indicadores de sustentabilidade, uma
vez que esse programa de pesquisas está em seu início. O que se pode afirmar,
com segurança, é que seus resultados serão certamente mais esclarecedores do
que a multiplicação de definições, sejam elas normativas ou operacionais.
Conclusões
Com certeza, no próximo século a sociedade será muito mais exigente
quanto ao desempenho do ramo alimentar. Ele terá que deixar de agredir o meio
ambiente, sem que possa perder, entretanto, a eficácia duramente conquistada.
Por isso, está coberto de razão quem afirma que o
"desenvolvimento agrícola mundial enfrenta o maior desafio da história
da humanidade" (Maalouf,1993).
O rápido crescimento da população até meados do próximo século
exigirá aumentos de produção que dificilmente poderão esperar pela superação
do padrão tecnológico atual. Ao mesmo tempo, a emergência de um padrão mais
sustentável de produção alimentar depende sobretudo do progresso da ciência.
Como foi indicado, o tratamento dos impactos sócio-ambientais das transformações
da agricultura nos impelem para as fronteiras do conhecimento em várias
disciplinas. A história econômica depende de progressos da arqueologia e da
antropologia para produzir uma boa teoria da dinâmica do uso da terra. A
agronomia e a nutrição dependem dos progressos da ecologia e da genética
aplicada. Uma contabilidade ambiental é um imenso desafio à ciência econômica.
E tudo isso parece apontar para a necessidade de uma completa redefinição do
paradigma cartesiano/newtoniano que alicerça a atual divisão disciplinar do
conhecimento científico.
Enquanto isso, a necessidade de obter segurança alimentar para a maioria
dos povos e nações continuará legitimando práticas produtivas, distributivas
e consumistas que degradam recursos naturais, poluem o meio ambiente e
contaminam alimentos. Em tais circunstâncias, não desaparecerão os malefícios
da devastação, da erosão, do mal uso de praguicidas, da perda da
biodivesidade, da poluição agroindustrial, etc. Permanecerão as estratégias
produtivas resultantes de estímulos econômicos de curto prazo que não levam
em conta a necessidade de proteger o patrimônio natural e assegurar o bem estar
das futuras gerações.
O maior desafio é,
portanto, combater a pobreza sem esquecer a responsabilidade ambiental. É
combater o atraso incentivando simultaneamente o manejo equilibrado dos recursos
naturais. E é óbvio que nada de parecido será factível se as políticas
macroeconômicas não incorporarem objetivos e critérios de sustentabilidade.
Enunciar essa última frase para o leitor deste texto é certamente
"chover no molhado". Todos estamos convencidos da necessidade de
embutir a variável sócio-ambiental nas políticas governamentais. Mas nem
sempre nos damos conta dos imensos desafios que a problemática ambiental coloca
à própria ciência. É forçoso reconhecer, entretanto, que ainda é muito
nebulosa a idéia que se faz das práticas que poderiam vir a garantir a obtenção
de segurança alimentar sem degradar os recursos naturais e contaminar os
alimentos. É fácil perceber que o padrão tecnológico da "Revolução
Verde" precisa ser superado, mais ainda são muito incipientes as certezas
sobre o novo padrão internacionalmente qualificado de "sustentável".
De qualquer forma, a imensa aceitação do slogan "agricultura
sustentável" indica uma decisiva mudança de atitude da intelligentsia e
da burocracia quanto ao futuro do sistema agroalimentar. E é essa mudança que
estimula o diálogo atual entre pesquisadores, ativistas, agricultores,
profissionais, etc. sobre os sistemas agrícolas rentáveis que, no futuro,
poderão preservar os recursos naturais e garantir alimentação saudável a uma
crescente população.
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