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O
Futuro da Política Agrícola Americana
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José Eli da Veiga Dep. Economia/FEA-USP |
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Anais do XXI Encontro Nacional de Economia (ANPEC), Belo Horizonte, dezembro de 1993, vol. 2, pp. 137-53 |
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RESUMO - Este
trabalho lida com os temas que deverão concentrar, nos próximos anos, os
debates sobre a reforma da política agrícola dos Estados Unidos. Termos para indexação: política agrícola, reforma,
Estados Unidos |
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THE
FUTURE OF AMERICAN FARM POLICY ABSTRACT
- This paper deals with the main subjects that may centralize, over the
next years, the debates about the reform of the American farm policy. Index
terms: farm policy, reform, United States |
Introdução
Com a posse de Bill Clinton foi desencadeado o ciclo de discussões e
articulações lobísticas que levará à promulgação de uma nova lei agrícola
no final de 1995. Mais do que nunca é impossível prever qual será o curso
desse processo. Principalmente porque paira sobre ele uma enorme incógnita: o
desfecho da Rodada Uruguai. O resultado das negociações poderá tanto criar
condições propícias para uma profunda revisão do sexagenário padrão
protetor, quanto prolongá-lo até o ano 2000. O que é possível antecipar, no
entanto, são os três temas que tendem a dominar os debates sobre a política
agrícola nesses três anos, seja qual for a decisão no âmbito do GATT:
a) a substituição dos programas de sustentação de preços agrícolas
por políticas de rendas dirigidas aos vários segmentos da população rural;
b) a viabilização de um paradigma tecnológico que reduza a agressão
ao meio ambiente;
c) a reforma administrativa do USDA.
Isto significaria que a agricultura americana não depende do mercado
externo? Ao contrário. Essa dependência é cada vez maior. Considerando-se os
últimos vinte anos, a exportação só não foi o elemento mais dinâmico da
demanda durante os primeiros anos da década de 80. Com exceção desse curto
período, os EUA têm exportado o equivalente a mais de um terço da área
colhida. E isto é particularmente importante no caso dos grãos, sejam alimentícios
ou forrageiros. Para eles são destinados 70% dos program payments. Por isso mesmo, a exportação também é um dos
principais determinantes da renda agrícola e dos gastos governamentais com o
setor. Nos últimos vinte anos o custo da política agrícola tem sido
inversamente proporcional ao volume das exportações.
Então, como considerar a substituição dos programas de sustentação
de preços (commodity programs)
independentemente da liberalização dos mercados agrícolas, ponto essencial
das exigências americanas na Rodada Uruguai?
Isto se torna possível à medida em que cresce o sentimento de que
esses programas também reduzem o potencial exportador, pois visam elevar preços
via redução de oferta; diminuindo, portanto, a competitividade internacional
dos produtos afetados. Ao mesmo tempo, o controle da oferta exige a imposição
de quotas para as importações (casos dos laticínios, açúcar, fumo e
amendoim), o que se choca à atual posição pró-liberalização. A perda de
mercados para os grãos americanos deriva, portanto, em grande parte, da histórica
opção do Estados Unidos pela sustentação de preços via controle da oferta.
Concebida originalmente para um mercado doméstico relativamente fechado, ela
deixou de ter sentido com a crescente globalização. Mas diversas circunstâncias,
entre as quais se destaca a relativa rigidez institucional produzida por um
processo decisório dos mais democráticos, fizeram com que ela continuasse
ocupando o cerne da política agrícola até os dias de hoje. Em outras
palavras, uma liberalização global negociada no GATT não deixa de ser um
objetivo importante, mas ele não deve funcionar como condição sine qua non da
reforma da política agrícola doméstica.
Ao mesmo tempo, ficam cada vez mais escancarados dois outros
inconvenientes da manutenção do padrão protetor gerado pelo New Deal:
a) em vez de aumentar o poder de compra de uma grande massa de
agricultores, como acontecia no passado, os subsídios vêm sendo captados por
um restrito número de produtores de alta renda;
b) solapam a qualidade do ambiente natural e comprometem a saúde, pois
incentivam a especialização em produtos bem protegidos - como o milho, o trigo
e o algodão - que engendram muita
erosão e excessiva aplicação de agrotóxicos e fertilizantes, principal fonte
de poluição dos recursos hídricos e de contaminação da comida.
Vista sob este prisma, a política agrícola dos Estados Unidos parece
estar dando lucro a um grupelho de fazendeiros e tranferindo prejuízos ao
conjunto da sociedade, tanto pelos gastos públicos que exige, quanto pelos
estragos ambientais que provoca. Se isto for verdade, pode-se dizer que está
muito ameaçado o chamado "contrato social" arduamente tecido, no início
do século, entre agricultura e sociedade. Não porque a agricultura tenha
deixado de garantir abundância alimentar em troca da sustentação dos preços.
Mas sim porque a sociedade está mais exigente: além de abundância, quer um
trabalho limpo e eficácia na distribuição de sua contrapartida.
Lucros
para um grupelho
O grau de desconforto, e
mesmo de indignação, com as distorções da política agrícola já havia
atingido um nível sem precedentes em meados dos anos 80. Talvez não possa
haver melhor ilustração desse estado de espírito do que a posição assumida
por Willard W. Cochrane no número inaugural da revista Choices,
lançada pela American Agricultural
Economics Association (AAEA) no início de 1986. O título e o subtítulo de
seu artigo são significativos: A New
Sheet Of Music; How Kennedy's Farm Adviser Has Changed His Tune About Commodity
Policy And Why.
Depois de reafirmar que as condicionantes básicas da intervenção
estatal no setor agroalimentar - alta
inelasticidade da demanda e imprevisíveis deslocamentos da oferta - continuavam
a gerar tanta instabilidade nos anos 80, quanto haviam gerado entre 1900 e 1980,
Cochrane expõe os fundamentos de sua nova posição, favorável ao
desmantelamento dos programas de apoio e proteção dos agricultores. Afirma
basicamente que não faz mais sentido sustentar preços e desviar recursos dos
contribuintes para subsidiar apenas o punhado de grandes agricultores que agora
domina o setor. Mas alerta que os obstáculos a uma revisão da política agrícola
são enormes. Entre eles, a forte coalizão de forças que trabalha no Congresso
para proteger e fortalecer os commodity
programs. Por isso, termina o artigo pregando a necessidade organizar uma
ampla "revolta urbana contra a legislação agrícola" (Cochrane,1986:14).
Não há dúvida de que a maior fatia dos subsídios fica com um pequeno
número de grandes produtores. Nesse artigo Cochrane menciona que 45% dos
pagamentos diretos estavam indo para os 300 mil agricultores que tinham vendas
superiores a 100 mil dólares por ano. Em seu último livro, escrito em parceria
com C.Ford Runge (1992) há insistentes referências a dados do USDA que indicam
que os 39 mil maiores produtores (estabelecimentos com vendas superiores a 500
mil dólares em 1989) recebiam em média 32 mil dólares cada um, enquanto que
para o conjunto da agricultura comercial (mais de $40 mil de vendas anuais) essa
média era inferior a 15 mil dólares, e para a massa dos agricultores part
time (vendas inferiores a esses $40 mil), reles 1100 dólares. Baseados em
indicadores da mesma fonte para o ano seguinte, 1990, William P.Browne e
associados (1992:45) destacam que 73 por cento dos program
benefits destinam-se a apenas 15 por cento dos estabelecimentos.
Há, contudo, um sério problema em todas essas comparações. Elas
distribuem os valores dos pagamentos governamentais pelo conjunto dos
estabelecimentos de cada estrato, quando se sabe que apenas 32% do total dos
estabelecimentos participa desses programas. É preciso, portanto, isolar o
subconjunto formado pelos estabelecimentos que recebem pagamentos para se ter
uma idéia mais precisa da real distribuição desses subsídios (tabela 1). O
que só se tornou possível a partir do Censo de 1987. E foi somente em meados
de 1991 que uma primeira análise desses dados, referentes a 1987 e 1988, foi
publicada pelo USDA (Reinsel,1991a,1991b). Talvez isto explique a omissão ods
autores citados. É uma pena, pois ela apresenta um quadro bem diferente.
Confirma-se a concentração: 7,2% dos participantes ficam com 24% das
transferências. Mas isto não pode ser surpresa, uma vez que os pagamentos são
vinculados ao volume da produção. O que não é tão óbvio - e parece não
ter chamado a atenção dos analistas - é que 66% dos pagamentos foram
recebidos pelos estabelecimentos dos três estratos intermediários, isto é,
faturavam entre 25 e 250 mil dólares. Esse grupo era formado por 385 mil
estabelecimentos, representando 55% do conjunto dos participantes de programas
governamentais. O fato mostra-se ainda mais importante quando se compara o
pagamento médio de cada estrato, às respectivas receitas. Por exemplo, para um
produtor com vendas de 75 mil dólares, o pagamento médio de seu estrato
correspondia a 20%. Já para um estabelecimento com vendas de 750 mil dólares,
essa relação caía a apenas 7% das vendas. Em outras palavras, 80 mil dólares
não passavam de ninharia para quem vendia mais de 1 milhão de dólares. Mas 15
mil certamente faziam diferença para quem tinha receita inferior a 100 mil...
TABELA
1 - PAGAMENTOS GOVERNAMENTAIS AOS AGRICULTORES SEGUNDO O
ESTRATO DE VALOR DAS VENDAS, EUA, 1987
|
Estratos
de
Vendas
em Milhares
de
Dólares |
Estabelecimentos com pagamen-tos Milhares |
Pagamen-tos Milhões de Dólares |
Pagamen-tos por estabelecimento Dólares |
Parti-cipação dos estabe-lecimentos (%) |
Distribuição dos paga-mentos (%) |
|
Menos
de 10 |
139.4 |
376 |
2700 |
19.9 |
3.9 |
|
De
10 a 25 |
125.0 |
634 |
5073 |
17.9 |
6.6 |
|
de
25 a 50 |
118.1 |
1068 |
9041 |
16.9 |
11.1 |
|
de
50 a 100 |
134.4 |
2007 |
14939 |
19.2 |
20.8 |
|
de
100 a 250 |
132.0 |
3247 |
24611 |
18.9 |
33.7 |
|
de
250 a 500 |
36.3 |
1430 |
39376 |
5.2 |
14.8 |
|
de
500 a 1000 |
10.3 |
580 |
56258 |
1.5 |
6.0 |
|
Mais
de 1000 |
3.8 |
304 |
79660 |
0.5 |
3.2 |
|
Total |
699.3 |
9646 |
13794 |
100.0 |
100.0 |
Fonte:
1987 Census of Agriculture
Também é importante destacar que a participação em programas
governamentais é maior nos estratos intermediários, chegando a quase 70% entre
os estabelecimentos com vendas na faixa dos 100 a 500 mil dólares, sendo
exatamente este o grupo que mais produz. Realiza, sózinho, 40% do total das
vendas agropecuárias. É que para os menores, principalmente os que vendiam
menos de 50 mil dólares, a agricultura pouco contribui para a renda familiar. E
para os maiores, a ajuda do poder público chega a ser irrelevante.
Mesmo quando se considera o conjunto dos estabelecimentos de cada
estrato, e não somente os que participam dos programas de sustentação,
nota-se que os subsídios são mais importantes para as faixas intermediárias
do que para as categorias extremas. Era justamente para os do meio que os
pagamentos governamentais superavam as entradas não-agrícolas, representando
um quarto da renda. Já nos estratos superiores, tanto os subsídios quanto a
renda externa tornavam-se parcelas pouco significativas.
Grande parte dos agricultores desses estratos intermediários certamente
pertence ao cerne da classe média americana. Esta era identificada, no final
dos anos 80, à faixa dos contribuintes que declararam rendas de 20 a 50 mil dólares.
A renda monetária média de todos os domicílios passou de 37017 para
39500 dólares, de 1988 a 1989 (Hallberg,1992:78). E a renda familiar mediana de
1989 foi $34,213. Pode-se estimar em 35 mil dólares a renda familiar monetária
média dos agricultores que vendiam entre 40 e 100 mil dólares, em 1988.
Estas observações são importantes para afastar as interpretações
simplistas a respeito do papel do lobby agrícola na defesa dos subsídios. Não
está em jogo apenas o interesse dos 50 mil agricultores que receberam, em 1987,
em média, 46 mil dólares do governo. Também está em jogo o interesse de cada
um dos outros 650 mil para os quais só coube, em média, 11 mil . Mas,
sobretudo, está em jogo o interesse de uma camada intermediária formada por
260 mil agricultores para a qual o governo dirigiu mais da metade de seus
pagamentos, cabendo, em média, uns 32 mil dólares para cada um. É para estes,
justamente os lídimos representantes da classe média no setor agropecuário,
que os subsídios tem peso significativo. Portanto, é no mínimo exagerado
dizer que a política agrícola acabou por engrossar apenas as contas bancárias
de um punhado de ricos fazendeiros. Se assim fosse, ficaria mais fácil
organizar a tal "revolta urbana" proposta por Cochrane no artigo
citado.
Em outras palavras, qualquer proposta de extinção dos atuais esquemas
de sustentação de preços terá mais consequências sobre o pelotão formado
pelos estabelecimentos de média dimensão, do que sobre os gigantes ou os periféricos.
E são certamente os médios, para os quais os subsídios representam parte
substancial da renda, os que formam a base social das organizações que mais se
mobilizam pela defesa dos atuais programas por produto; mesmo que seus
dirigentes possam vir da casta formada pelos 50 mil gigantes que também recebem
pagamentos governamentais. Isto talvez explique a ilusão dos que propõem
simplesmente que o governo saia da agricultura.
Não é essa, entretanto, a proposta incluída no minucioso projeto de
reforma recentemente lançado por Cochrane & Runge (1992). A idéia dos
autores é substituir a sustentação de preços por um dispositivo de
estabilização da renda do agricultor. Pagamentos governamentais seriam feitos
em períodos de deterioração da relação de troca, mas desapareceriam quando
ela se recuperasse. O gatilho estaria vinculado ao comportamento regional dos
preços no triênio anterior, para evitar a generalização de distorções
específicas e interrupções abruptas motivadas por oscilações passageiras.
Os pagamentos, procurariam se aproximar da perda de renda motivada pela
deterioração dos termos de troca e variariam em função da área total
cultivada pelo agricultor, sem nenhuma relação com as culturas escolhidas. O
risco de súbitas mudanças nas decisões de plantio pelos agricultores que hoje
participam dos programas por produto seria reduzido por um período transitório
de cinco anos no qual as alterações de uso só poderiam atingir 20% da área a
cada ano. Não somente seria mantida a limitação de pagamento anual por indivíduo
(com pesadas penas criminais e financeiras para as fraudes), como criada uma
outra para o total dessas despesas. Os autores sugerem que esses tetos sejam,
repectivamente, $20 mil e $7 bilhões.
Não cabe, aqui, especular sobre viabilidade desse tipo de proposta, ou
a probabilidade dela vir a ter boa acolhida entre os que vão influir na elaboração
da lei de 1995. Os próprios autores destacam, logo no início do livro, o grau
de confusão e desinformação que predomina nos meios urbanos sobre a eficácia
da política agrícola. E procuram mostrar, no capítulo final, como seria possível
montar a frente política que transformaria a proposta em lei. O que se pretende
com essa rápida menção à proposta de Cochrane & Runge é apenas dar um
exemplo ilustrativo de um dos dois temas que deverão dominar os debates sobre a
política agrícola nos próximos três anos.
Trabalho
limpo
O outro grande tema desses debates será a proteção ambiental e, em
especial, sua forte conexão com a saúde pública, normalmente tratada, em
separado, como a questão da salubridade dos alimentos (food safety). Intensas manifestações sociais apontam claramente
nessa direção (Belasco,1989; Clark,1990; Manchester 1991; Rifkin,1992;
Robbins,1987). E elas certamente irão requerer novos métodos de produção
agropecuária que venham a reduzir os impactos ambientais adversos e assegurar
altos níveis de pureza e não-toxicidade dos alimentos (National Research
Council,1989,1991).
No entanto, não se tratará apenas de reforçar os programas ambientais
que entraram em vigor com as duas últimas leis agrícolas (1985 e 1990),
tornando-os mais abrangentes ou prevendo punições mais severas aos infratores.
Isto parece ponto pacífico. A grande dúvida diz respeito à compatibilização
desses dispositivos com o cerne da política agrícola, isto é, os programas
voltados à sustentação de preços, que talvez venham a ser finalmente
substituídos por esquemas de estabilização da renda. Se isto não acontecer,
a política agrícola continuará a incentivar a especialização e, ao mesmo
tempo, punir as consequências inevitáveis dessa especialização: erosão,
poluição dos recursos hídricos e contaminação dos alimentos.
O âmago da questão é, portanto, redirecionar todos os incentivos de
forma a que se torne viável uma diversificação, através de rotações,
principalmente na produção de grãos. Uma apropriada rotação de culturas
costuma ser a única solução viável - tanto no plano econômico, como no ecológico
- para os principais problemas patogênicos das culturas temporárias e, também,
para impedir a compactação de certos tipos de solos. Além disso, são as rotações
que incluem um ou mais anos de cultivo de forragens as que permitem o uso de
solos sujeitos à erosão; o uso mais eficiente da água disponível; o melhor
aproveitamento de nutrientes; a redução das pragas; e a minimização dos
riscos.
Os resultados da pesquisa desenvolvida em Pullman, Washington, pelo Dr.
James Cook, do Agricultural Research
Service do USDA, mostram que as vantagens para a sanidade dos solos aumentam
nas rotações mais longas, que deixam um intervalo de até três anos entre os
plantios de uma mesma cultura. Outras pesquisas, realizadas no Meio Oeste, com a
ajuda de modernas técnicas moleculares também evidenciaram os benefícios das
rotações que incluem, pelo menos, um ou dois anos de culturas forrageiras com
raízes profundas (deep-rooted forage crop)(Benbrook,1991a).
Todavia, a insignificância da demanda de forragens é um fortíssimo
fator limitante à adoção dessas rotações. Por isso, a transição para práticas
agrícolas sustentáveis na produção de grãos parece depender
fundamentalmente de uma reorganização do sistema de cria, recria e engorda.
Afinal, a pecuária dita o uso de 70% da superfície continental dos Estados
Unidos.
No momento, a grande questão é saber se existe possibilidade de uma
transformação do esquema de engorda que aumente a utilização de forragens.
Isto é, fazer com que a maioria dos novilhos só ingressasse na fase final
de engorda quando tivessem atingido quase 380 kilos. Hoje em dia, metade entra
nos feedlots com peso bem inferior. Se
a fase de recria pudesse ser alongada, para que cerce de 15 milhões de cabeças
ganhassem mais uns 60 a 70 kg antes de irem para o confinamento, o aumento da
demanda de forragem seria imenso, favorecendo a sua inclusão nas rotações
(Benbrook,1991a:18). E existem indicações de que um alongamento de toda a fase
pré-engorda já esteja ocorrendo. Como consequência, a ração de grãos por
kilo de carne bovina produzido tem diminuído, enquanto o peso médio de abate não
para de aumentar.
ESQUEMATIZAÇÃO
DAS FASES PRODUTIVAS DA PECUÁRIA
DE CORTE, EUA
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DAS TRÊS FASES
(COW-CALF, STOCKERS E FEEDLOTS)
|
Fases |
Duração média (dias) |
Idade atingida (meses) |
PESO FINAL (Kg) |
GANHO MÉDIO DE PESO (Kg) |
|
a)
"cria" |
205 |
7 (5 a 9) |
225 |
|
|
b)
"recria" |
120 |
11 (9 a 13) |
370 |
145 |
|
c)
"engorda" |
134 (100-250) |
15 (13 a 17) |
500 |
130 |
NB:
33.7 milhões de matrizes (60% em 11 estados) geram 41milhões de bezerros por
ano (32 M para corte). São abatidas 35 milhões de cabeças, a um peso médio
de 500 kilos. FONTE: BENBROOK (1991a)
DISTRIBUIÇÃO POR QUARTIL, CADA UM REPRESENTANDO UM QUARTO DOS 35 MILHÕES
DE CABEÇAS ABATIDAS POR ANO ( ~ 8.8 MILHÕES)
|
|
I |
II |
III |
IV |
|
Ganho
médio de peso na fase de "recria" (Kg) |
25 (0-50) |
100 (50-120) |
150 (120-160) |
215 (160-225) |
|
Peso
médio no final da fase de "recria", supondo um inicial de 225 |
250 |
325 |
375 |
440 |
|
Necessidade
de ganho de peso na terceira fase, para atingir 500 no abate |
250 |
175 |
125 |
60 |
NB: Se o peso médio de entrada nos feedlots
for 370 Kg, a fase intermediária, de base forrageira, seria alongada para cerca
de 15 milhões de cabeças.
Por outro lado, se os próprios feedlots
passassem a utilizar mais forragens, os consumidores teriam uma carne de melhor
qualidade (o novo "Select" grade).
Para tanto, a variável chave viria a ser o preço da forragem relativamente aos
cereais mais utilizados nas rações e, particularmente, relativamente ao preço
do milho. Benbrook considera que a tendência é no sentido de um encarecimento
dos grãos mais utilizados na alimentação animal e de uma estabilização, ou
barateamento, das forragens. As previsíveis mudanças da política agrícola,
bem como os incentivos à produção de etanol, aumentariam ainda mais esse
diferencial.
Além disso, vários fatores parecem estar conspirando contra a própria
viabilidade econômica dos maiores feedlots.
A manipulação do estrume tende a ficar cada vez mais difícil, à medida em
que os dispositivos legais de proteção dos lençóis freático e subterrâneo
vão sendo aplicados. Os custos adicionais decorrentes de um melhor manejo do
estrume tendem condenar os confinamentos de mais de 100 mil cabeças e a
favorecer operações bem menores, de 1 a 10 mil cabeças (idem:39).
É impossível avaliar o impacto que a visão de Benbrook terá no
interior do lobby verde durante os debates sobre a próxima lei agrícola. Sua
enorme influência nas articulações que começaram a "esverdear" a
política agrícola (leis de 1985 e 1990) não garante que o mesmo acontecerá
desta vez. Além disso, por mais auspiciosos que tenham sido os passos já dados
na direção do novo paradigma tecnológico, a agricultura sustentável, é
preciso reconhecer que a transição mal começou.
Na verdade, é a ambiguidade da expressão 'agricultura sustentável'
que vem contribuindo para a formação de sua atual base social de apoio. Ela
agrega, sob o mesmo lema, desde quem se contentaria com a mera redução do uso
de insumos químicos, até os que estão à procura de uma alternativa radical
ao que equivocadamente denominam "modelo industrial" da agricultura
moderna; passando por inúmeras vertentes intermediárias. Assim, o que a imensa
aceitação do slogan "agricultura sustentável" está indicando é
uma mudança de atitude da intelligentsia e da burocracia quanto ao futuro do
setor.
Esse processo de conversão da agrotecnocracia está, de fato, virando
do avesso o paradigma da Revolução Verde. Em vez da propagação das HYV (high-yelding
varieties), com suas enormes exigências de agrotóxicos e de água, a tendência,
hoje, já é pela difusão de práticas agrícolas de menor impacto ambiental e
produtos mais sadios. Certamente continuam a existir muitas restrições à
agricultura "não-convencional," que tem sido chamada de agroecológica,
alternativa, biodinâmica, biológica, low-input,
natural, orgânica, regenerativa, renovável, sunshine,
etc. Mas a velha hostilidade já foi substituída por uma forte curiosidade.
O problema é que os avanços institucionais nessa direção foram
limitados pelos parcos recursos financeiros alocados pelos governos Reagan e
Bush às novas agências. Faltou dinheiro até para a "menina dos
olhos" do último ministro da agricultura Edward Madigan, a AARC (Alternative Agriculture Research and Commercialization), cuja missão
básica é incentivar o uso de novos produtos industriais baseados em matérias
primas agrícolas. Em recente documento elaborado para a equipe de transição
nomeada por Clinton, a AARC mostra todo seu potencial na geração de novos
empregos e na proteção ambiental, queixando-se, ao mesmo tempo, de sua pequena
dotação orçamentária para 1993: 10 milhões de dólares, dos quais apenas 5%
poderão ser consagrados ao processo de comercialização dos nove primeiros
produtos viabilizados.
A SARE (Sustainable Agriculture
Research and Extension) só conseguiu, em 1992, 6,7 milhões de dólares,
isto é, menos de um quarto dos recursos autorizados pela lei de 1990. O que
representou menos de um por cento do orçamento global da pesquisa agropecuária.
E também foram totalmente inadequados os recursos alocados ao programa de ajuda
aos agricultores dispostos a combater a poluição dos recursos hídricos, o
WQIP (Water Quality Incentives Program.
Isto tudo leva a crer que a pressão ambientalista será mais no sentido
de consolidar as conquistas de 1990, do que de lançar novos programas.
Certamente os verdes lutarão para que os cortes que nos programas de sustentação
de preços proporcionem grandes investimentos na transição para o novo
paradigma tecnológico. E essa luta será muito confusa, pois deverá se inserir
num processo bem mais amplo: a provável reforma administrativa do USDA.
Incontrolável
burocracia
Tanto quanto a política agrícola, nos últimos sessenta anos o USDA
foi recebendo inúmeros apêndices, mas sua estrutura básica continua a ser a
que lhe foi dada pelo New Deal. Esta foi uma das conclusões de um estudo do GAO
(General Accounting Office), divulgado
em setembro de 1991, que acabou desencadeando uma grande ofensiva pró-reforma
(USGAO;1991). Hoje em dia parece haver um amplo apoio no congresso para quatro
propostas básicas: a) dissolver instituições ultrapassadas, como a Rural
Electrifcation Administration, o que, por si só, permitiria uma economia de
2,5 bilhões de dólares por ano; b) fechar muitos dos escritórios da rede de
extensão, o que poderia trazer uma economia de 90 milhões de dólares anuais;
c) eliminar duplicações, pois existem hoje oito agências cuidando da
biotecnologia e dez tentando melhorar a qualidade da água; d) reduzir a presença
do governo federal na pesquisa agrícola realizada pelas universidades.
Ninguém tem ilusões a respeito da oposição que terá que ser vencida
para que tais mudanças se tornem realidade. O relatório do GAO enfatiza as
estreitas ligações entre as agências ameaçadas, grupos de interesse privado
e seus representantes no Congresso. Mas se o bloco reformador conseguir reunir
forças para extinguir os programas de sustentação de preços, provavelmente
golpeará, também, o corporativismo. O que não deixará de ser muito simbólico.
Conclusão
A política agrícola americana mantém a estrutura básica que lhe foi
dada pelo New Deal: a proteção ao setor continua a passar essencialmente por
mecanismos de controle dos preços. Ao enorme mosaico de programas por produto (commodity
programs), foram se juntando apêndices usados para eliminar os embaraços
que iam surgindo. Ao completar seus sessenta anos, esse expediente parece estar
esgotado. Os programas por produto, além de não corresponderem mais a seus
propósitos iniciais, impedem uma efetiva resposta aos atuais desafios. A
insatisfação com essa obsolescência da política agrícola tem crescido
tanto, que parece estar próxima uma mudança dos métodos de proteção. Mas não
necessariamente com a própria proteção. Nos próximos três anos o debate
sobre a política agrícola deverá se dar principalmente em torno da política
de rendas que poderá substituir a sustentação de preços, do volume de
recursos a ser destinado à promoção da agricultura sustentável e do
enxugamento do USDA.
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REFERÊNCIAS |
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