Revista de Economia Política,
vol.20, n.2 (78), Abril-Junho/2000, pp. 141-156.
José
Eli da Veiga
USP/FEA/
Dep.Economia
zeeli@usp.br
Abstract
The
purpose of this paper is to compare the foundations of two theoretical lines
that have frequently been used in political economy: the evolutionist and the
regulationist. The basic premise is that these two lines are still closely
linked to their respective parents: the works of Schumpeter and Marx.
That is, both their similarities and their differences are more in their
genetic codes than in their adaptations to the environment in which they
developed: neoclassical
microeconomics and Keynesian and Kaleckian macroeconomics.
O propósito
deste texto é caracterizar a convergência que está ocorrendo entre dois
referenciais teóricos que vem sendo muito utilizados em economia política[2]:
o evolucionista e o regulacionista. A escolha destes dois, em meio a tantos
outros arcabouços epistemológicos, não é casual. Justifica-se pela abrangência
de suas pretensões (mudanças estruturais e dinâmica de longo prazo das
economias capitalistas desenvolvidas), pelo tempo de decantação (ambos estão
na faixa dos vinte) e, evidentemente, por sua crescente influência entre
pesquisadores brasileiros.
A premissa básica
deste trabalho é que esses dois referenciais continuam umbilicalmente ligados
às suas respectivas genitoras: as obras de Schumpeter e de Marx. Isto é, de
que tanto as suas semelhanças quanto suas diferenças estão mais em seus
respectivos códigos genéticos, do que em suas eventuais adaptações ao
ambiente no qual se desenvolveram: a microeconomia neoclássica e as
macroeconomias keynesiana e kaleckiana. Até podem existir evolucionistas que não
sejam (neo)schumpeterianos e regulacionistas que não sejam (pós)marxistas. Mas
são casos isolados. A raiz da corrente evolucionista é essencialmente
schumpeteriana (Nelson & Winter,1982), assim como a raiz da regulacionista
é essencialmente marxista (Aglietta,1979)[3].
A primeira
parte deste texto é dedicada a uma rápida apresentação dos aspectos comuns
das metodologias de Marx e Schumpeter. A segunda não trata de todas as discrepâncias entre os dois pensamentos, mas procura
destacar aquela que parece estar no centro das atuais divergências entre
evolucionistas e regulacionistas. E nas partes 3 e 4 são descritos
desdobramentos recentes desse debate, com o objetivo de detectar possíveis vias
de convergência[4].
1. Semelhanças
O que mais
existe de comum em Marx e Schumpeter - e os separa radicalmente de outros
grandes pensadores - é importância que ambos atribuem à história em suas
respectivas metodologias. Não pode
pairar dúvida sobre este ponto, uma vez que o próprio Schumpeter sempre
enfatizou que sua insatisfação com a economia neoclássica levou-o a construir
uma visão sobre o desenvolvimento econômico que considerava “paralela” à
de Marx, o primeiro grande economista que não colocou a teoria e a história em
compartimentos separados.
Seus elogios
a Marx na ‘Teoria do Desenvolvimento Econômico’, poderiam ser considerados
exageros juvenis, pois foi publicada em 1911, quando tinha 28 anos. Mas também
são bem frequentes nas obras da maturidade. Por exemplo, em Capitalismo, Socialismo e
Democracia, publicado em 1942, ele diz:
“Economists always have either
themselves done work in economic history or else used the historical work of
others. But the facts of economic history were assigned to a separate
compartment. They entered theory, if at all, merely in the role of illustrations,
or possibly of verifications of results. They mixed with it only mechanically.
Now Marx’s mixture is a chemical one; that is to say, he introduced them into
the very argument that produces the results. He was the first economist of top
rank to see and to teach sistematically how economic theory may be turned into
historical analysis and how the historical narrative may be turned into histoire
raisonée.” (Schumpeter, 1950:44)
Na História
da Análise Econômica, obra póstuma escrita nos anos 40, há uma célebre
passagem na qual insiste que o grande problema é a falta de “experiência
histórica” dos economistas (Schumpeter,1954:12-13).[5]E
em artigos para o Journal of Economic History surgem frequentes apelos para um
maior entendimento entre economistas teóricos e historiadores econômicos.
Apelos para uma investigação conjunta na “neglicenciada área da mudança
econômica”.
“Schumpeter’s notion of
‘historical experience’ implies that the division of labor between the
economic historian and economic theorist must be eliminated. To study the
process of change, theory and history must be integrated in the mind of the
economist.”
(Lazonick,1994:253)
Infelizmente
esse desafio de integrar teoria e história continua a ser ignorado pela maioria
dos economistas. Inclusive por marxistas que consideram que todas as leis do
desenvolvimento capitalista já foram estabelecidas por seu mestre em meados do
século passado. Por isso, uma das principais interrogações sobre esse
“renascimento” de Marx (com o regulacionismo) e de Schumpeter (com o
evolucionismo) é justamente a de saber se o referido desafio está finalmente
sendo levado a sério.
Quanto ao
projeto regulacionista, a resposta é simples, uma vez que o propósito de
integrar teoria e história parece constituir sua espinha dorsal (Boyer 1986,
1988a, 1988b). No que se refere ao projeto evolucionista, a resposta é
complicada.
Nelson &
Winter (1982:405) lamentam o divórcio entre a ciência econômica e outras ciências
sociais, mas se referem especificamente à psicologia, à sociologia e à ciência
política, sem qualquer menção à história. Uma possível interpretação
reside talvez no interesse evolucionista na modelagem microeconômica. Logo na
primeira página de um recente tratado sobre o assunto pode-se ler o seguinte:
“We
now have the possibility of treating complex evolutionary processes with an
increasing degree of clarity and rigour. At the same time we have to recognise a
danger that Schumpeter’s insights are ignored just as are the works of other
pre-war contributors to the study of economic evolution. There is also a danger
that the evolutionary-oriented studies of some economic historians like Chandler
disappear from the analytic horizon of evolutionary-economic researchers.”
(Andersen,1994:ix)
Outra
confirmação pode ser encontrada em recente balanço feito por Nelson, no qual
demonstra pouco interesse por abordagens mais amplas do desenvolvimento econômico:
“While
many historical accounts of economic growth are concerned with whole economies,
I believe that, for the purpose at hand, the best way to make progress is by
trying to develop industry - or sectoral-level models. There is too much
diversity across economic sectors to hope that a model that aggregates them all
can achieve the contact with empirical developmental history I am seeking. There
is a better chance of fruitful sector-level modelling.” (Nelson,1994:22)
Todavia,
outros evolucionistas estão bem empenhados na integração entre teoria e história.
Bons exemplos podem ser encontrados nas contribuições apresentadas na conferência
‘Technology and Enterprise in a
Historical Perspective’ (Terni, Itália; Outubro 1987) na qual surgiu a
revista interdisciplinar Corporate an Industrial Change (Oxford University Press) (Dosi,
Giannetti & Toninelli,1992). Eles mostram que a natureza mais microeconômica
do evolucionismo não impede que o desafio seja levado a sério. Ou seja, seria
errado afirmar que o paralelismo metodológico existente entre Schumpeter e Marx
não ocorre entre os projetos evolucionista e regulacionista só porque o
primeiro esteve inicialmente mais voltado para a formalização microeconômica.
2. A Principal Discrepância
Por darem
muita importância à história, tanto Marx quanto Schumpeter elaboraram visões
dinâmicas do capitalismo, nas quais o caráter ondulatório (ou flutuante) nada
tem de secundário ou periférico. Para os dois, a flutuação está na essência
do funcionamento do sistema. Infelizmente, Marx não formulou uma teoria explícita
sobre o assunto, como fez Schumpeter, em Harvard, durante a Grande Depressão (Schumpeter,1939).
E estão justamente nesses dois volumes sobre os “ciclos de negócios” os
contrastes fundamentais com as idéias de Marx sobre o processo de acumulação.
Para Schumpeter a essência do processo está nas inovações. Para Marx ela está
nas lutas de classes. E são idéias
semelhantes que separam, hoje em dia, os projetos evolucionista e regulacionista.
É óbvio que
as diferenças entre Marx e Schumpeter não se resumem a suas respectivas idéias
sobre a natureza ondulatória da economia capitalista. Um confronto entre os
dois programas de pesquisa e os respectivos pressupostos heurísticos e
epistemológicos, como fez Helburn (1986a, 1986b), evidencia inúmeras outros
pontos nos quais Schumpeter rejeita - ou inverte - importantes idéias econômicas
e sociais de Marx. Mas todos eles estão vinculados ao princípio de que a
liderança empresarial é muito mais importante que as lutas sociais.
“Schumpeter adopts what he
takes to be Marx’s research program and, like him, attempts to uncover the
laws of motion of capitalist development. His purpose is clearly to defuse
Marx’s theory of revolution by converting it to a theory of evolution.”
(Helburn,1986b:154-155)
“(...) he substituted his own
theory of class and class relations based on his ideas about leadership and
followership in which entrepreneurs carry out the ‘new combinations’ that
promote capitalist development.” (Helburn,1986b:156)
Hoje, o que
mais distingue os projetos evolucionista e regulacionista são justamente suas
respectivas ênfases nas inovações e nas instituições. Para os primeiros, os
períodos de expansão estão ligados à introdução e difusão de importantes
invenções, enquanto as depressões são períodos de transição entre dois
regimes tecnológicos. Para os últimos, a taxa de acumulação não é
essencialmente determinada pela progresso tecnológico, mas depende crucialmente
das instituições que permitem o exercício do poder pelos capitalistas.
Essa contradição
está bem patente na introdução dos anais do workshop “Technological and Social Factors in Long Term Fluctuations”,
realizado em dezembro de 1986, em Siena (Itália). [6]
Mesmo assim as diferenças entre evolucionismo e regulacionismo não foram
vistas como excludentes. Ao contrário, os editores desses anais achavam que a
discussão mais sistemática dos dois modelos seria extremamente interessante e
últil para a construção de uma teoria geral do comportamento dinâmico da
economia capitalista. (Di Matteo, Goodwin & Vercelli,1989)
Será possível
reiterar o otimismo de Di Matteo, Goodwin & Vercelli, onze anos depois do
workshop de Siena? O debate científico mais recente confirma a idéia de que as
duas abordagens não são excludentes? São mais complementares que divergentes?
Tem havido convergência entre evolucionistas e regulacionistas?
Estas são as
questões em torno das quais pode ser organizada a discussão dos dois
referenciais teóricos. O que segue é uma
tentativa de responder a tais indagações.
3. Pisando em Falso
No prefácio
à segunda parte da coletânea editada por Dosi et
alii (1988), Freeman aponta importantes “pontos de correspondência”
entre o regulacionismo e o modelo Freeman-Perez sobre o papel das instituições.
Depois de sintetizar a contribuição de Boyer para a mesma coletânea, ele
sugere que: a) as idéias das duas correntes são complementares; b) poderia
haver uma síntese se os regulacionistas começassem a prestar mais atenção na
determinação tecnológica e os evolucionistas desenvolvessem melhor suas análises
das formas institucionais.
“To
the reader it may appear that the ideas of Perez and of the French Regulation
School are sufficiently complementary to offer scope for an original synthesis.
The French regulation school, although acknowledging the importance of technical
change, have paid relatively little attention to it, whilst Freeman-Perez have
not developed so far their analysis of institutional forms or of aggregated
formal models of the economy.” (Freeman,1988:11-12)
Há,
inclusive, muita semelhança entre a noção de “paradigma técnico-econômico”
do modelo Freeman-Perez (1988)[7]
e a idéia de “paradigma tecnológico/industrial” juntada por Lipietz (1989)
aos conceitos de “regime de acumulação” e “modo de regulação,” na
formação da trindade que define seu “modelo de desenvolvimento”. Mas essa
semelhança pode ser enganadora. Apesar de ter se transformado numa espécie de
palavra mágica entre os cientistas sociais, é muito vago o significado da
palavra ‘paradigma’.
No posfácio
da segunda edição de sua obra prima, Thomas Kuhn (1970:181) reconheceu ter
usado essa palavra em 22 sentidos diferentes... Mas acrescentou que, depois de
uma boa revisão editorial, eles poderiam ser reduzidos a apenas dois. Chama o
primeiro de “matriz disciplinar” (disciplinary
matrix) e o segundo de “exemplos compartilhados” (shared examples). A ambígua “matriz disciplinar” é composta de
“paradigmas, partes de paradigma ou ‘paradigmatics’
”, que formam um todo e funcionam juntos. Os “exemplos compartilhados”
(menos ambíguos) são os que permitem o desenvolvimento de uma linguagem científica
comum e uma abordagem comum para problemas similares. Mesmo assim, essas duas
definições deixam muito a desejar, como mostrou Homa Katouzian:
“Be
that as it may, neither usage of the concept of paradigm helps clear an
important, almost central, question. It is this: does the theory of scientific
revolutions only apply to wider systems of thought, conceptual frameworks or
whatever; or does it equally apply to all the models and theories based on such
a system or framework? From the historical illustrations in the main text the
reader gains the impression that they are all subject to the process described
by Kuhn; but this is nowhere clearly stated.” (Katouzian,1980:96)
Ou seja, no
caso de uma ciência imatura (como a economia, por exemplo), é impossível usar
o texto de Kuhn para decidir se Marx e Schumpeter pertencem ao mesmo paradigma
ou se criaram diferentes paradigmas. E se a confusão já é tão grande quando
se trata da história da ciência, o que dizer da transposição da palavra
‘paradigma’ para o campo da história econômica? O que seriam exatamente
paradigmas tecnológicos, ou técnico-econômicos ?
Depois de
comparar o seu ‘paradigma tecnológico’ ao ‘paradigma técnico-econômico’
de Freeman-Perez, Giovanni Dosi diz
o seguinte:
“Whatever
name is chosen, the concept of ‘paradigm’ points to interpretations broadly
consistent with Rosenberg’s ‘focusing devices’(...) or Sahal’s
‘technological guide-posts’(...). The crucial hypothesis is that innovative
activities are strongly selective, finalised in rather precise
directions, often cumulative activities. (Dosi,1988:225)
Freeman &
Perez discordam dessa observação de Dosi. Explicando a quarta categoria de sua
tipologia das inovações eles dizem:
“We
use the expression ‘techno-economic’ (Perez,...) rather than
‘technological paradigm’ (Dosi,...) because the changes involved go beyond
engineering trajectories for specific product or process technologies and affect
the input cost structure and conditions of production and distribution
throughout the system. This fourth category corresponds to Nelson and Winter’s
concept of ‘general natural trajectories’ and, once established as the
dominant influence on engineers, designers and managers, becomes a
‘technological regime’ for several decades. From this it is evident that we
view Schumpeter’s long cycles and ‘creative gales of destruction’ as a
succession of ‘techno-economic paradigms’ associated with a
characteristic institutional framework, which, however, only emerges after a
painful process of structural change.” (Freeman & Perez,1988:47)
(grifos meus, J.E.V.)
Fica claro,
então, que, no evolucionismo de Freeman-Perez, as grandes flutuações da dinâmica
capitalista são identificadas a uma sucessão de paradigmas técnico-econômicos,
sendo que o padrão institucional
associado a cada paradigma emerge somente após um doloroso processo de mudança estrutural.
Neste aspecto, a diferença em relação a Schumpeter parece ser irrisória
e apenas retórica. Freeman e Perez nada dizem sobre a natureza do processo
formador desses “paradigmas técnico-econômicos”; enquanto que Schumpeter
pelo menos associou vagamente à iniciativa da vanguarda empresarial o processo
formador das “creative gales of
destruction”.
Entretanto,
um ano antes da publicação desse trabalho de Freeman & Perez, havia
surgido uma circunstaciada avaliação das idéias básicas de Schumpeter (Kleinknecht,1987).
O eixo dessa avaliação foi dado pelas críticas de Kuznets (1940) à teoria
schumpeteriana dos ciclos (Schumpeter,1939). Entre elas, a falta de uma boa
explicação teórica para a idéia de que as inovações não surgem de forma
aleatória, mas concentram-se em certos períodos, como se fossem desovas. Para
Schumpeter, pacotes de inovações são gerados por periódicas revoadas de
empresários heróicos. Mas o fenômeno não é explicado por qualquer processo
sócio-econômico. Despenca na teoria como uma espécie de deus ex machina. A
pergunta foi então formulada por Kleiknecht nos seguintes termos:
“Is there any evidence of a
bunching of Schumpeter’s heroic innovations (and if yes: what is the
theoretical explanation)?” (Kleinknecht,1987:197)
Em conclusões
“tentativas,” que o autor resumiu nas páginas finais de seu livro, não há
nada que possa ser visto como uma boa resposta à segunda parte da pergunta.
Quando se trata de dar uma explicação teórica, Kleinknecht se mostra
extremamente eclético, apelando para diversas abordagens de tradição
marxista, como as de Mandel e de Gordon. Não fornece qualquer interpretação
razoável para a relação de causa e efeito estabelecida por Schumpeter,
segundo a qual as expansões e as depressões seriam determinadas, em última
instância, pelo potencial inovador da vanguarda empresarial.
Uma límpida
constatação desse mesmo vácuo teórico também havia sido apontada na
contribuição de Rosenberg & Frischtak para a coletânea editada por
Freeman em 1986:
“In Schumpeter’s view,
technological innovation is at the centre of both cyclical instability and
economic growth, with the direction of causality moving clearly from
fluctuations in innovation to fluctuations in investment and from that to cycles
in economic growth. Moreover, Schumpeter sees innovations as clustering around
certain points in time - periods that he referred to as ‘neighbourhoods of
equilibrium’, when entrepreneurial perception of risk and returns warranted
innovative commitments. These clusterings, in turn, lead to long cycles by
generating periods of acceleration (and eventual decelaration) in aggregate
growth rates. (...) “Such causal links are not demonstrated in the
neo-Schumpeterian literature. (...) ... we are left without a precise knowledge
of what are the necessary and sufficient changes in the environment which, even
conceptually, can bring out a bandwagon-like diffusion of some number of basic
innovations. In other words, there is no well-specified set of elements that
effectively link and elucidate the direction of causality between the basic
innovations, the ‘general level of profitability and business expectations’,
and their diffusion in the form of a swarm of new products and processes.
More generally, nowhere in the literature is there to be found an unambiguous
treatment of causality, within a neo-Schumpeterian framework, which
establishes the precedence of innovation clusters over investment outlays and
aggregate movements in the economy.” (Rosenberg
& Frischtak,1986:7-8) (grifos meus, J.E.V.)
O mínimo que
se pode dizer é que o uso da idéia de paradigma é muito nebuloso entre os
economistas neoschumpeterianos. E tudo indica que a origem desse espesso
nevoeiro esteja na própria interpretação de Thomas Kuhn. Afinal, a obra de
Kuhn ajuda muito o entendimento do processo lógico
do avanço da ciência, mas quase nada no entendimento desse avanço enquanto
processo social. Apesar de se referir
muito à ‘comunidade científica,’ não chega realmente a analisá-la, como
fizeram, por exemplo, Katouzian (1980) e Latour (1995). Enfim, não é em Kuhn
que se pode encontrar qualquer esclarecimento para a complexa relação entre as
mudanças tecnológicas e as mudanças institucionais.
4. A convergência
Mais
recentemente, coube a Kleinknecht a produção do texto introdutório ao livro
que reuniu as contribuições apresentadas na conferência de Bruxelas, de
janeiro de 1989 (Kleinknecht, Mandel & Wallerstein,1992). Nessa introdução
ele reitera as esperanças de convergência lançadas na sequência do workshop
de 1986, em Siena, por Di Matteo, Goodwin & Vercelli (1989), insistindo que
as abordagens neo-schumpeteriana e regulacionista tendem a ser cada vez mais
complementares.
“It seemed for some time that
these two approaches were competing, but is now becoming increasingly clear that
at least one common link makes them rather complementary: the emphasis on the
role of profit rates in the long-wave process.” (Kleinknecht,1992:6)
Na verdade,
apenas um dos textos reunidos nessa coletânea tenta, de fato, aproximar
neo-schumpeterianos e pós-marxistas, ou, mais precisamente, evolucionistas e
regulacionistas. Nele, os franceses Pierre Dockès e Bernard Rosier procuram
estabelecer as ligações teóricas entre inovações e conflitos. Eles sugerem
três hipóteses (de fato, duas hipóteses que geram uma pergunta):
> Inovação - sua complexidade, suas origens,
sua difusão - não pode ser completamente entendida a não ser como parte da
estrutura social.
> Em
qualquer sociedade ‘dividida’ a arena social é determinada por múltiplos
conflitos internos que refletem profundos interesses divergentes.
> Dado que
as sociedades que nos interessam são cheias de conflitos inerentes a seus modos
de interação social e recorrentes devido à inovação, pode-se estudar uma
(inovação) separadamente do outro (conflito) ?
Tendo como
base um conjunto de pesquisas em história econômica (Dockès,1979; Dockès
& Rosier,1988), eles respondem com um categórico não, pois enxergam uma
relação dialética entre conflitos e grandes inovações. Não somente os
conflitos estão na própria origem das inovações, como as inovações,
principalmente as maiores, engendram ou deslocam conflitos. Por isso, o que está
em questão não são apenas os ritmos
das inovações e a velocidade com que
elas penetram o tecido social, mas, sobretudo, o seu próprio conteúdo.
Grandes inovações
podem emergir tanto como objeto e locus
de muitos conflitos, quanto como resultantes (outcomes) dessas lutas. Elas serão, portanto, profundamente
afetadas por essas lutas. Por isso, Dockès & Rosier chamam esse processo de
“marca social” nas tecnologias (‘social
imprint’ on technologies).
Os conflitos
que engendram inovações não ocorrem necessariamente na área em que elas
emergem. Uma das principais características do desenvolvimento do
“Ocidente,” dizem os autores, tem sido sua capacidade de transformar
conflito social em inovações técnicas. Enfim, é toda a teia de relações
conflituosas que deve ser levada em conta. A criação de um novo paradigma
socio-econômico deve ser vista, portanto, como uma vasta inovação que surge
no interior de conjunturas conflitivas, pela emergência de diversas séries de
inovações (técnicas, sociais, políticas e culturais). (Dockès & Rosier,1992:305-306)
Trata-se,
portanto, de um processo social de produção de inovações sob vários pontos
de vista. Em primeiro lugar, é preciso distinguir a demanda (econômica) por
inovações, da necessidade social de inovações. Em segundo, é preciso
entender o papel de cada grupo no processo social que gera a inovação, isto é,
o processo que dá a ‘marca social’ da inovação. Finalmente, é preciso
perceber que as modalidades de regulação dos conflitos são cruciais, tanto
para a força das tendências inovadoras, quanto para os tipos de inovação. A
regulação social da inovação é uma parte essencial do processo de tolerância
dos conflitos. E é justamente a relação dialética entre inovação e
conflito que permite distinguir longos períodos históricos nos quais há uma
certa ordem (que os autores chamam de “ordem
produtiva”) e períodos de ‘desordem’, isto é, de profundas mudanças
nas formas de operação do sistema econômico (que os autores chamam de “crises
de transformação”). (Dockès & Rosier,1992:306-307)
Com esse
esquema os autores pretendem romper com a tendência muito comum de enfatizar as
mudanças tecnológicas e, em geral, os fatores econômicos, como se os fatores
sociais tivessem um papel apenas secundário.
“In
our schema, social phenomena (including cultural and political phenomena) are
seen as strategic. It is enough simply to argue the necessity of social change
in order that technical change occurs, as do Gerhard Mensch (1975) or
Christopher Freeman (1979). Rather, social changes are the very core of the
process of transformation; hence the dialetic of innovation and conflict plays a
key role.” (Dockès & Rosier,1992:308-309)
O esquema
proposto por Dockès & Rosier focaliza bem os impasses dos do evolucionismo
e do regulacionismo quando enfatiza a relação entre inovação e conflito. A
principal insuficiência do evolucionismo é a falta de um tratamento da relação
causal que existiria entre o surgimento de um punhado de “heróicas” inovações
tecnológicas e as fases de expansão do capitalismo. Por outro lado, a
principal insuficiência do regulacionismo é a falta de um tratamento da relação
causal que existiria entre essas fases de expansão do capitalismo e o
surgimento de um punhado de também “heróicas” inovações
institucionais... Aceitar a existência de uma relação “dialética” entre
inovação e conflito não basta para que tais insuficiências venham a ser
superadas, mas parece um bom começo. Por isso, seria de se supor que uma agenda
comum às duas correntes pudesse ser estabelecida a partir dessa idéia.
Todavia, os
sinais mais explícitos de complementariedades efetivas entre evolucionismo e
regulacionismo não mostram ligação com as idéias de Dockès & Rosier,
mesmo quando abordam a relação entre inovação e conflito. Sem fazer qualquer
referência a esses autores, e considerando o artigo de Freeman & Perez
(1988) como “outro ponto de partida deste diálogo”, uma terceira via de
convergência vem sendo explorada em trabalhos híbridos do regulacionista francês
Benjamin Coriat e do evolucionista italiano Giovanni Dosi (Coriat & Dosi,1955a,1995b,1995c).
A principal
ênfase de Coriat & Dosi está na possibilidade de uma mútua fertilização
entre o caráter macroeconômico da abordagem regulacionista e o caráter
microeconômico da abordagem evolucionista. Consideram que, além de contribuir
para a localização dos verdadeiros pontos de convergência, essa perspectiva
também ajuda a iluminar melhor as verdadeiras divergências interpretativas.
“(..)
we want to suggest that a theory-informed
dialogue between bottom-up (microfounded, etc.) evolutionary approaches
and more top-down (aggregate, albeit institutionally richer) regulation
ones is likely to be a formidable but analytically promising challenge. Not only
it would help to rigorously define the bridges between micro behaviours and
entities at different levels of aggregation, but it would also highlight
potential conflicts of interpretations which are currently often confused by
level-of-description issues.” (Coriat & Dosi,1995b:15)
Mesmo
constituindo a manifestação mais avançada da possível confluência entre
evolucionismo e regulacionismo, esses três trabalhos de Coriat & Dosi estão
longe de estabelecer com clareza qual será o resultado teórico do processo
convergente. Eles destacam as principais qualidades das duas agendas de pesquisa
e propõem uma espécie de taxonomia das potenciais compementariedades
descritivas e analíticas (metodológicas), sem deixar de reconhecer que falta
muito trabalho teórico para que se chegue a uma teoria que articule as
vantagens epistemológicas do evolucionismo e do regulacionismo.
“Yes,
all this is an enormous task. Very fascinating and extremely difficult. The way
we see it pursued, it involves tight and troublesome interchanges between
empirical investigations, ‘appreciative theorizing’ and formal modeling
efforts. It is likely to involve also major adjustments in the building blocks
of institutionalist/evolutionary theories themselves.” (Coriat & Dosi,1995b:24)
5. Conclusão
A versão
original deste trabalho, redigida em meados de 1996, tinha por título uma
pergunta: “Há convergência entre
evolucionistas e regulacionistas?” Nela haviam sido detectados sinais
dessa provável convergência desde meados dos anos 1980. Um bom exemplo é a
passagem dos anais do workshop de Siena realizado em 1986. Mas nada permitia
afirmar com segurança que esse processo de convergência estava realmente avançando.
Por isso, a conclusão daquela versão original não chegava a responder
diretamente à pergunta formulada no título. Apenas apoiava a hipótese de que
poderia estar havendo tal convergência em sete considerações sintéticas:
1.
Seria errado afirmar que o paralelismo metodológico existente entre Marx
e Schumpeter não ocorre entre os projetos evolucionista e regulacionista só
porque o primeiro esteve inicialmente mais voltado para a formalização
microeconômica. É verdade que o propósito de integrar teoria e história é
mais generalizado entre os regulacionistas. Mas diversas contribuições vêm
mostrando o mesmo empenho do lado dos evolucionistas.
2.
O que mais distingue os projetos evolucionista e regulacionista são suas
respectivas ênfases nas inovações e nas instituições. Para os primeiros, os
períodos de expansão estão ligados à introdução e difusão de importantes
invenções, enquanto as depressões são períodos de transição entre dois
regimes tecnológicos. Para os últimos, a taxa de acumulação não é
essencialmente determinada pela progresso tecnológico, mas depende crucialmente
das instituições que permitem o exercício do poder pelos capitalistas.
3.
Poderia parecer que a convergência entre as duas correntes passaria pelo
desenvolvimento da idéia de “paradigma técnico-econômico,” formulada
inicialmente por Carlota Perez. Todavia, além de muito ambígua, a palavra
paradigma não resolve os problemas básicos da abordagem schumpeteriana.
Basicamente dar explicações razoáveis para a concentração temporal das
grandes inovações e para a direção causal entre essas inovações básicas,
as expectativas de rentabilidade, e sua difusão na forma de um enxame de
produtos e processos.
4.
A principal insuficiência do evolucionismo está justamente nessa falta
de um tratamento da relação causal que existiria entre o surgimento de um
punhado de “heróicas” inovações tecnológicas e as fases de expansão do
capitalismo. Por outro lado, a principal insuficiência do regulacionismo está
na falta de um tratamento da relação causal que existiria entre essas fases de
expansão do capitalismo e o surgimento de um punhado de também “heróicas”
inovações institucionais.
5.
Não é possível separar as inovações dos conflitos. A pesquisa em
história econômica desenvolvida por Pierre Dockès e Bernard Rosier sugere a
existência de uma relação dialética entre conflitos e grandes inovações. Não
somente os conflitos estão na própria origem das inovações, como as inovações,
principalmente as maiores, engendram ou deslocam conflitos. Por isso, o que está
em questão não são apenas os ritmos
das inovações e a velocidade com que
elas penetram o tecido social, mas, sobretudo, o seu próprio conteúdo.
6.
Aceitar a existência dessa relação dialética entre inovação e
conflito não basta para que as insuficiências dos dois referenciais teóricos
comparados venham a ser superadas, mas parece um bom começo. Uma agenda comum
às duas correntes talvez possa ser estabelecida a partir desta sugestão.
7.
De resto, o esquema Dockès-Rosier pode ser útil nas discussões em
torno dos prognósticos sobre a próxima onda longa do capitalismo. A presença
das idéias de Schumpeter é tão forte nesse debate, que as análises só
diferem na forma como ilustram o papel da informática, enfatizando mais o papel
da microeletrônica nas telecomunicações ou na robótica. Em alguns casos
adiciona-se, é claro, o potencial das biotecnologias, ou da biogenética... Mas
não sai disso. Há unanimidade de que o “novo paradigma” é a information
technology (IT). E as diferenças ficam por conta dos setores em que esse
“novo paradigma” já é mais aparente. Enxergar uma relação dialética
entre inovação e conflito implica necessariamente em levantar dúvidas sobre
essa ‘unanimidade schumpeteriana’. Não em negar o papel da IT como o
instrumento crucial de uma possível (e provável) nova expansão capitalista.
Mas em trabalhar com a hipótese de que as grandes mudanças não ocorram
precisamente nos setores industriais mencionados, mas em áreas socialmente
muito mais conflituosas, como as esferas energética, agroalimentar, ambiental
e, sobretudo, do desemprego. Ou seja, não é proibido pensar que o verdadeiro
ponto de mutação somente será reconhecido quando os grandes problemas de
nossa época começarem a ser superados pela aplicação da informática.[8]
A hipótese
central formulada na primeira versão está sendo essencialmente confirmada nos
esforços conjuntos de Benjamin Coriat e Giovanni Dosi.[9]
Ao mesmo tempo, esses trabalhos também confirmam uma das hipóteses secundárias:
de que essa convergência não passaria pelo desenvolvimento da idéia de
“paradigma técnico-econômico,” formulada inicialmente por Carlota Perez.
Mas não confirmam uma outra hipótese secundária: de que ela passaria pelo
desenvolvimento das idéias de Pierre Dockès e Bernard Rosier sobre a relação
entre inovação e conflito.
Em que medida
a convergência entre os dois programas de pesquisa teria a contribuir para a
compreensão da dinâmica das economias capitalistas é uma dúvida que só pode
ser entendida como sugestão para outro trabalho. O que este esforço pretendeu
mostrar foi tão somente que essa convergência é mesmo possível e está avançando
com mais rapidez do que supunha sua versão original.
ANEXO 1 - ANAIS DO WORKSHOP DE SIENA, 1986 (Introdução)
“The neo-Schumpeterian
position views long cycles as the result of the introduction and diffusion of
major inovations. There is a wide range of positions under this label and the
assumed relationships between technical change and long term fluctuations differ
in many important details from Schumpeter’s original account. However this
approach still retains a decisive link between the evolution of the technology
and the evolution of the economic system.
“The thread of the argument in
the neo-Schumpeterian approach can be reduced to the following. The main source
of fluctuations is the pattern of investment that in turn depends on
oscillations of expected profitability. The latter is heavily affected by
technical innovation as well as population growth, consumer tastes, etc.
Therefore major periods of expansions are associated with the introduction and
diffusion of important inventions whereas periods of profound depression are
periods of adjustment from one technological regime to another.
“Another important feature is
the recognition given to the monetary and financial sector that has to be
permissive enough in the upswings to provide an adequate level of funds to
innnovative firms. Finally a connection between various kinds of inventions and
different cycles is often detected and this is in a strict Schumpeterian fashion.
“It is more difficult to
synthetize the second approach that stresses the so-called social structure of
accumulation. However a common feature is the belief that the rate of
accumulation is not essentially determined by the rate of technical progress but
depends crucially on the institutional set-up of the society.
“For example the rate of
profit which is the prime mover of the rate of accumulation is high whenever in
the society (either by legislative action or by mutual agreement) there are
institutions that guarantee the full exercise of the power by the capitalists.
The mix of individual institutions that can do that varies from country to
country and from one historical period to another.
“So, according to Bowles,
Gordon and others, in the USA (...). Boyer and others of the French
‘regulation school’ work on similar lines and have also tackled the question
of explanation for other countries and historical periods.
“It seems clear to us that the
two approaches are not mutually exclusive and that an open discussion of each of
the constituent elements of both models would be extremely interesting and
helpful for the construction of a more comprehensive theory of the dynamic
behaviour of a capitalist economy.” (Di Matteo,
Goodwin & Vercelli, 1989:v-vi)
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[1] A versão original deste trabalho, intitulada “Is there a convergence ocurring between the evolucionists and the regulationists?” foi apresentada no Workshop Teórico em Economia Política da Agricultura, realizado no IE/UNICAMP em dezembro de 1996, e também no último econtro da Union of Radical Political Economics no bojo da convenção anual da Allied Social Science Associations, realizado em Chicago entre 3-5 de Janeiro de 1998.
[3] Um dos pareceres à versão original deste trabalho considerou errado negligenciar ou omitir o parentesco, “talvez ainda mais direto”, do evolucionismo de Nelson & Winter “com o ultra liberal conservador Armen Alchian”. O reparo procede no que se refere aos primeiros trabalhos desses dois autores, publicados anos 1960 e 1970. Todavia, o encontro com as teses schumpeterianas, paralelamente estudadas por C.Freeman, fez com que a abordagem evolucionista passasse a se autoqualificar de “neoschumpeteriana” desde 1982 (cf. Coriat & Dosi, 1995a:500).
[4] Um dos pareceres à versão original deste trabalho tratou convergência como sinônimo de conciliação. Por isso, é o caso de enfatizar que os sentidos desses dois termos não coincidem. Convergir é concorrer, ou afluir, ao mesmo ponto. Conciliar é pôr-se de acordo, congraçar-se. Dois programas de pesquisa podem estar convergindo sem que isto signifique que estejam conciliando.
[5] Ver a propósito o artigo de Tamás SZMRECSÁNYI (1992) “História Econômica, teoria econômica e economia aplicada.” Revista e Economia Política, v.12, n.3 (47) Julho-Setembro.
[7] Segundo Freeman (1988:10), a noção de “paradigma técnico-econômico” lançada por Carlota Perez estaria bem mais próxima das idéias de “regime” ou “trajetória” tecnológica de Nelson & Winter, do que da noção de “paradigma tecnológico” de Dosi e outros. “Most importantly, her concept is one of a ‘meta-paradigm - a dominant technological style whose ‘common sense’ ans rules of thumb affect the entire economy.”
[8] São raríssimos os prognósticos que enfatizam essas quatro esferas (energia, alimento, meio ambiente e desemprego). Uma brilhante exceção é o artigo “Inovation and Long-Term Growth” de George F. Ray (1983).
[9]
A hipótese de que estaria havendo convergência entre evolucionismo
e regulacionismo foi considerada inconsistente em parecer sobre a versão
original deste trabalho. Ela foi criticada com as seguintes palavras: “ao
invés de mostrar que o evolucionismo e o regulacionismo podem convergir, o
artigo apenas mostrou, com sua inconclusão, que as diferenças entre os
dois programas de pesquisa talvez se situam (sic)
em um nível mais profundo de análise. Ao mesmo tempo, não se mostrou em
que medida a conciliação (ou redução) dos dois programas de pesquisa, se
possível (e parece que não), teria a contribuir para a compreensão da dinâmica
das economias capitalistas.”